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Mostrando postagens de janeiro, 2012

A antecipação dos vazios

A antecipação dos vazios é-me oferecida pela experiência. Se, se, então não. Se não, então se, talvez. Se talvez, então o se não, pode ser um se, se. O que observo não me faz crer nos “ses”, então, a antecipação dos vazios, é-me dada pelo ensaio transformacional do amor em desamor, ou mesmo pela ilusão do amor, dádiva da carência, ou na mera necessidade fisiológica denominada tesão. Antecipo-o como se o céu se abrisse e fechasse, mediante a chuva ou o calor dele desprendido. Antecipo-o como as criaturas que dizem: “vem lá chuva, dói-me um joelho”. Antecipo-o, especialmente porque muitos dos anos antes e usados, não antecipei. Antecipo porque paro, porque me movo, porque gosto essencialmente de atingir a minha essência. O vento não me derruba, mesmo que caia. Aprendi o destino, aceitei-o com lisura e sempre me levantei. A maré até pode passar por aqui feita de dilúvio ou tempestade, eu tenho raízes que me suportam, conceitos que me solidificam. Já reflorestei o meu deserto e plantei lír...

Penso demasiado em tudo e quando supérfluo em nada

O cepticismo castra a emocionalidade, a razão promove o devaneio defensivo da emoção. Penso demasiado. Se pensasse menos não seria eu. Gosto de pensar e saber pensar. Gosto de germinar autocrítica e do poder de decisão crescente e adquirido das minhas escolhas. Se pensasse menos seria mais rude e casto. Penso demasiado em tudo e quando supérfluo em nada. Faço do tempo esfarrapado, bocados de mim. Transformo as minhas decisões em irrecuperáveis estados de ânimo, como se esperasse numa longínqua fila a perder de vista a permuta da minha alma em troca de nada, da miséria e do tempo perdido, no pensar em tudo o que é nada. Sei imediatamente o que é nada mesmo acreditando que é tudo. Sei o que é tudo mesmo que o medo agravativo do nada, me aliene o estado infectado da paixão. Tudo não é nada e nada não é tudo. Nada e tudo são como números. Tudo é tudo, nada é nada. Não adianta transformar somas exactas em formas aleatórias de variantes discretas. Um quadrado é sempre uma raiz elevada e as r...

A saudade é como um lago celestial

Quando de ti floresce esse olhar admirado fico cego de ver. As montanhas debruadas no teu peito das minhas mãos não se cansam. Em ti, está aberta a mudança. A minha criatividade rebenta em palavras que imagino e torno-me adjacente de mim mesmo. Aproximo-me de mim de cada vez que te avizinhas de mim também. Ontem, de noite e já tarde, verifiquei que discursava sobre a emocionalidade da inteligência, e dentro de mim outro discurso paralelo se debatia. Dois discursos constantes e desiguais, rodopiavam tão cá dentro em igual e vertiginosa sintonia. Um, era escutado em silêncio por quinze pessoas. O outro foi vociferado e gritado num silêncio intangível que rebentou em mim, e de mim não se excluiu. Duas verdades distintas de um mesmo momento, de uma mesma essência, de momentos distantes feitos da mesma presença. Não se ouvem gritos mudos, mas sente-se a trovoada no olhar, nas marés, e na cacimba que a saudade traz, bradada e desaustinada. A saudade é miserável. A saudade é como lagos paradi...

Reescrita, a história não se transforma. Inalterável se descoaduna e compõe, e na memoria se guarda infeliz.

Se a maior parte das pessoas vive mal e são explorados, porque continuam a votar e a eleger maiorias de exploradores? Deve ser resquícios mentais, induzidos e facistas, de recomendação católica vigente do cardeal cerejeira, ou efeito da maçonaria tão em voga nos dias de hoje, outro exercício para nos afastar da essência e confundir-nos com essencial.   Os trabalhadores trazem nos olhos estaleiros e nas mãos, mãos. Mãos de outras mãos, solícitas e solidárias em vias de extinção, raras pérolas de fermento jogado em terra feudal de sol a sol. Os agricultores carregam cheiro a solo edificado no caminhar. As crianças chorosas não choram burguesia. Choram ausência e desigualdade. As crianças jamais deviam chorar fome ou medo.   Se o sol nos aquece a todos, porquê esta surdez autista que matou Catarina reclamando pão e maternidade se mantêm?   Os anos dantes são como os de agora, esbanjados por iguais, pago pelos diferentes de tão iguais. Há que os abater. Fechar escolas e hospitais. Castrar ...

Sabe-me a sangue esquartejado esta boca

A noite desventrada. Embargo massivo numa aldeia distante pronuncia a minha presença. A noite é sempre mais dispendiosa, carece de mais presença e companhia, luz e sotaque, sonho e desalinho, acerto, terra e lua, sol e nevoeiro. Para lá de mim próprio a calçada esbate-se no prolongamento dilatado das palavras. Noites nascem em que o afago me quebraria o pensamento e um olhar aliviar-me-ia desta travessia só e pungente. Sei o que é estar de boca cosida e as palavras abalarem no sentir, e num desabafo encontrare-me só. Magnifico exercício à ironia sublimada. Não pertenço a nenhum lugar fora de mim. Pertenço aqui a este, isento de mãe configurado de pai, com tantos anos, que pai poderia ser duas vezes.   Sabe-me a sangue esquartejado esta boca, Penso na reacção sólida de transformar líquido os alimentos, Penso em me cuidar cuidando, Nas horas e nos remédios, Nas contas adornadas da soma de minutos, Que quero ver desgastado e gasto este tempo, Penso que poderia aqui não estar, Sem saber se...

"Deus queira que não seja um caso desesperado de pobreza extrema"

Gente tão pobre com tanto dinheiro, é parte do sítio onde vivo. Onde sou forçado a viver. Onde me adequo viver. Onde sobrevivo vivendo. Milhões em carros e casas. Telefones de um ordenado só e carros do preço de casas. Mesas fartas de comida que nunca saciam a fome. Gente com tanto dinheiro e tão pobre. A gente rica não tem dinheiro tem casa com cheiro e abraços pregados nas paredes, onde os outros sustentam obras de arte, sem perceber que a arte existe no afecto e no colo de outro ser. Gente com tanto dinheiro e tão pobre, que se distrai de cima de um pedestal extravagante, de um narcísico sentir, um destoado prazer miserável de ruínas pessoais. Gente tão rica que se aquece no próximo, que nada tem para dar, mas, que no patamar da igualdade se sossega. Ok, sou da esquerda chique como tu dizes, sou inadequado, anti-social, Édipo-maníaco reversivo e amante por transferência. Sou o que tu quiseres. Mas não durmo quando ponho a hipótese, de que aqui mesmo ao meu lado, talvez, porque não t...

Vivo de mim, resisti!...

Tu que rasgas de pranto a minha face, Que me ocultas de saudade a existência, Devolve-me os meus ofendidos sentidos.   Tu que pares desencantos, Que adias promessas sonhadas, Devolve-me suave, a saudade.   Tu que me esquizofrenizas a existência, Esfaqueia-me de ti, O pecado em que te transformaste. Dilacera-me as lágrimas que gemo, Dos lábios que temo, E do sangue do teu gérmen.   Semente loira, Trigo ausente, Morena tez danificada, Morto de ti, Morri, Mas vivo de mim, resisti!...

A ultima

Rei posto, rei deposto. Assim se afigura cada mês antecessor sucumbido pelo seguinte. Não sou de euforias só porque de um minuto para outro, tudo muda. Na verdade, nada muda. O melhor que tem a ultima semana do ano dividida pela fé e pelo pecado, é que passam como as outras, e demora o mesmo tempo a passar. A primeira festa da última semana é de fé e suposto recatamento, para ganhar forças para pecar, na pro-sequente de forma consolidada e memorável. Numa alienação colectiva revejo os olhos, ora baços, ora vazios, ora esgazeados de trevas e purgas adiadas. Enfeita-se o país mais que as almas. Os dias não se sentem e as noites são bocados miseráveis de palavras que se soltam, banalizadas. Os abraços não se dão, emprestam-se por breves segundos, desculpados de um ano novo, usado e igual. Os sorrisos são alterados e induzidos, e a névoa atraca no porto de mar embaciando e adiando a realidade por umas impensadas horas. De manhã não está tudo igual, está tudo pior, mais roxo lírio agreste. ...