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Mostrando postagens de março, 2011

Maria Nobre

“Terão sexo o frio e o vento?”   Não sei, respondi. O frio e o vento não me parece, mas o frio e a ventania têm-no certamente. São plural e géneros que se complementam.   “Não percebeste. Perguntei se tinham sexo no sentido de terem sexo em si, e não de serem ou não sexuados”.   Ah ok. Já entendi. Então têm sexo e são sexuados.   “Questiono-me se serão homossexuais tal é a sua cumplicidade” insististe tu.   Não sei se são ou não são, não me interessa, sinto que são felizes, isso basta-me e abona-me. Já assisti a um concerto dado pelos dois e sei que são felizes, asseguro-te. Senão vejamos: - o vento sopra ligeiro em mi bemol numa tarde de Outono, e o frio logo pressentindo a festa galga desenfreado sobre ele. Juntos criam uma fusão tresloucada e arrepiada. Dançam muito, dançam tanto, e tão bem.   E o mar?   E o mar espião delicia-se em movimentos fortes e lânguidos, arrebatados e suaves, como dois amantes num mundo desocupado. Finalmente e como agradecimento a lua aplaude, lançando on...

Carta descritiva a J. Fogo Homem

Pára. Pára de te chicotear com esse teu espírito aventureiro. Pára de sentires que o amor morreu em ti. Que tentas e não consegues. Que apenas e egoisticamente sentes saudades tuas e do teu “sítio”, esse “sítio” que te guarda e embala. A circuncisão com o mundo é real. Esforças-te durante as horas que tens que te esforçar. Rapidamente a saudade do teu mundo te invade, sufoca e massacra. Só jazes por lá, “no teu sítio”. Amaste o que tinhas que amar e foste amado o que tinhas que ser. Agora soçobra a multidão que te habita e faz de ti obra sua, assinada de essência tua. Não crês, não crias. Apenas deixas sair de ti essa criação que escondes e te envergonha. Não te tens. Não és. Sentes desajustado. Entre-os-rios a noite e a lua continuam sábios. Precisas dos teus silêncios e dos teus rumores. Aceitas e acedes. Já não lutas. O teu desentendimento é apenas os olhos de quem não te avista. O teu acertamento, é a aceitação que em ti existe mil anos por descobrir. Jamais poderão decidir por ti,...

Gémeo desigual

Não é possível, Alegria, Demência bravia, Alternância, Pó suado estrada batida.   Ao longe, Balada de igreja, Enviesado gémeo este aluir, Gémeo de desigual, Igual somente? Este sentir.

Desvio tortuoso

Nem adianta nem atrasa, Mesmo que o tempo em horas se mude, Não muda o passado, Menos o presente, Juntos somam o futuro, Mar revoltado de maremoto, Terra que treme de emoção, Olhos que me vêem desviados, Do desvio dos meus olhos dos teus, Não atrasa nem adianta a vida nas horas, O meridiano traça eloquente, Grau expressivo que a oeste me presenteia, Decibel que estoira em ti delineado, Tortuosamente minha alma dentro.

Bye

Não gosto do Eng. demitido é público, os meus amigos mais próximos sabem-no. Mas detesto o próximo. Faz-me urticária. Não vislumbro saída. Não existe qualidade intelectual ou política. Quem provavelmente nos poderia ajudar não entra em politiquices e não quer nada disso para a sua vida. Fico apreensivo com o que aí vem. Se mal geridos estávamos, mal geridos vamos ficar. Enfim logo se vê o que isto vai dar.

Rio Pranto

O rio pranto espraia-se entre verdes subidos e profundos feitos de erva, e rebenta em cascata no teu peito, foz do meu. Os teus cabelos ao vento reflectem a sombra do teu movimento. O prazer de te possuir relativiza o ferimento de não te ter. Aguardo mansamente os dias feitos de tertúlia das semanas, embriaguez e demência da viagem consumada, da planície que me leva de ti e até ti, que me eleva e tortura, que me fere e agoniza. O meu cheiro é o teu corpo enrolado no meu. Bandos de ventos agrestes sopram-me o teu nome. Pranto. Rio pranto, quero uma noite sem mágoa e madrugada, um nascer do sol sem se pôr, uma vida sem a morte e um caminho sem viagem.   Falei com uma mulher sábia, sabedora de tempo, que lê as estrelas e a chuva como se uma cartomante fosse, a Dona Nazaré.   Respondeu-me assim: - ”Pranta-lhe um xaile pelas costas e quebra de ti ao mar, agasalha-te da nortada, que a maré vai passar por aqui, a tua alma está nua, o céu calvo e adormecido, faz mezinha homem do senhor”   Os ...

Vai, voa

Sento-me e espero debruçado sobre mim próprio carregando-me. O vento passou apressado por aqui, agora mesmo. O céu está translúcido. Vê-se para além dele próprio. Nunca o tinha visto assim, transparente. Também nunca sentira sob os meus joelhos o peso da minha alma. Estremeço quando olho para o azul paraíso e vejo do outro lado a continuação do mundo. Vejo as pessoas de cabeça para baixo como se caminhassem ao contrário. Sinto-me louco, como se uma droga fortíssima me dominasse.   Será que a loucura se instalou em mim, ou o que vislumbro existe?   Esta transparência de mim mesmo e do céu, precisa ser arrancada antes que o inverno se apodere frio e cruel, do meu coração. Em campos floridos dançam as árvores de que fujo. Abraço-me e enrolo-me na terra. Não quero ver, nem ouvir. Preciso de acordar e purgar-me. Uns olhos azuis fitam-me serenos. Estendo a minha mão. Acalmo-me. Sinto presença ali. O medo alvorou e sinto um mar calmo invadir-me. Uma luz forte de um sorriso embala-me. Um afect...

O rio como testemunha

É bom estar ali de madrugada com o rio a passar-nos por trás, a ver as luzes do bar e os roufenhos gritos existentes. Dádiva esta noite de amigos. Como de costume madrugada fora e por desistência sobramos eu e tu. Começamos lá atrás e devagar atracamos no hoje. E tanto que já vivemos. E tanto que já passámos, e tanto que nos zangamos e abraçamos. Rimos cúmplices de conhecimento. Falamos dos nossos pais e filhos, das nossas mulheres amantes. Da nossas viagens recentes como esta que aqui sentados fazemos. Falamos nas nossas músicas e poesias, dos nossos tratados como património emocional, da debandada que foi o passado e do prazer do momento. Mais à frente ouvem-se as roulottes abafadas de gente esfomeada, e nós ali serenos, agasalhados do frio das quatro da manhã. Sítio mágico este, o rio, o açude, os bares lá em cima, as pessoas movimentando-se e nós ali no muro pertença das nossas conversas. Preciso de um noite destas de seis em meses pelo menos, não é que não a tenhamos, mas assim, s...

“Tanto que passamos juntos mais o mar”

Tanto que passamos juntos mais o mar. Prolongamento de mim. Elevas-me. Ar do ar que me aquece, brisa do vento que me tempera. As noites são os metros quentes que percorremos. Os dias são o sangue da vida que nos une. Baralho-me e confundo-me com os raios que me cegam ao entardecer. Já gosto mais dos amanheceres, do que dos entristeceres. Há semanas deitei-me num pedaço fresco de relva, onde me guiaste. Entre as rochas, a água corria em melodia. Senti o meu corpo ausentar-se da minha massa corporal. Como se a minha alma adormentasse, mantendo-me eu acordado. Paz feita daquele momento. Entre arribas e vales os dois fecundamos. Não sendo, tu um ser vivo, concebes vida em mim. Não sou de concentrações e essas coisas, com “gajas” de mamas ao leu, iron maiden, e “mines” a correr em bica, escorridas peito abaixo. Acho que tens orgulho no dono que tens. Eu e tu, mais ninguém. Os dois decidimos e escolhemos os carreiros. Somos anti-social, um apêndice das nossas vontades, adoptamos estados, sít...

Cura

Arde e dura, A vida cura. Cura até, O ardor da dor.   Como um templo, Mascarado. A Vida é tempo. Desvendado.   Mafarrico eu não fico, Com esta mascara, porém. Represento o social, Mas não me assenta bem .

Elias

Uma gritaria suada trespassa as paredes. A janela embaciada deixa escapar uma luz trémula e sombria. Projectada na parede, a sombra anuncia vida. Nasceu a filha da Maria Rita. No lugar, de casa em casa, de boca em boca, a notícia espalha-se feita semente. Chove que Deus a dá e a terra já não é terra. É uma matéria amolecida. O céu está negro e nem uma estrela se destapa. O vento em sentido avesso faz a lareira encher a sala de fumo. Roufenhas as noticias vibram de um telefonia de madeira. O José Elias bebe uns atrás dos outros, copos de abafados segredos, os que sempre engoliu e nunca por nunca ser, vomitou. Pode lá alguém saber que a Júlia, a irmã do padre, um dia se ajoelhou por detrás do santo altar e lho meteu na boca, mesmo por debaixo da imagem da virgem santa. O Elias não fala. Rosna uns sons imperceptíveis e faz de cego a vida inteira. Não conhece ninguém mas toda a gente sabe dele. Tão enfartado está de segredos, que apenas os abafados o fazem soletrar num terrível esforço qua...

Sou o Faroleiro

Se porventura de dentro das minhas mãos soprasse uma brisa que me encandeasse o contemplar, jamais o meu olhar enlouqueceria com as tuas mãos. Ao ver-te inundada de distância, pressinto um agoiro, uma premonição, uma sensação tórrida que me gela o coração. Na planície em que me sento, revejo a perder de vista o teu tamanho, muito maior que a tua altura. O Tejo endiabrado circunda-me tempestuoso e irriga esta ilha que inventei. As cores desvanecem e coloram cada pensamento parido de mim. Redescobri-me incontactável, deixei endereço incerto e contacto errado. Sou o erro acertado e legitimo da decisão que tomo. Já não sei se tomo, já não sei se decido. Não me sinto acordar nem adormecer. Do nada surge um vulto. Veio semeado de chuva. O vento colorido encantou-me de presença. Abruptamente oiço:   - Quem és?   - Cego de ver respondo: - Sou o Faroleiro   - O anjo?   - Não, sou o exausto vivente, faroleiro de marés, velha criança e mareante, sacrossanto e pecador, perdido tanto mais que encon...