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Mostrando postagens de maio, 2010

Sofazando IV

O tempo em forma de hospício e perjuro é pesado nos meus ombros gastos e doridos. As minhas mãos rudes mas fartas de carícias acumuladas gritam amor. O tempo faz com que o amor entendível e sarcástico se esconda enlaçado, como nós de gravata que me desconfortam e sacrificam.   Não existirá nenhum poema que me deprima ou alegre, tal como as palavras sublimadas e distantes que me ferem a alma, tanto como a boca de quem as vocifera. Redondo este vocábulo incandescente apaga-se ao nascer e falece ao ser sepultado na rocha cravada e sobranceira ao mar. As cinzas perpetuam a existência, o pensamento, as questões permanentes mais que as existenciais e as respostas adiadas e esperançosas de um tempo inexistente e crasso de vida.   A ambivalência é uma oportuna e avançada forma de ser, é uma dúbia forma de estar encarada pela solidão, presença e ilusão. A soma das partes nem sempre é o somatório de um todo ou um todo o divisível das partes.   Dentro do meu peito existe como na babilónia um jard...

A verdade e a beleza

Confunde-se beleza com verdade. Na sociedade contemporânea a beleza dá estatuto. A verdade retira-o, é incómoda e desinteressante. Confunde-se competência com beleza e beleza com empenho. Confunde-se verdade com decote e pernas com capacidade. Confunde-se salto alto com agilidade mental e compromisso com sedução. A verdade é um conceito desprovido frívolo e clássico. A beleza é uma mentira contemporânea. A beleza tem supremacia com a verdade. A verdade está em desuso. Na moda estão comissões de inquérito e ética. A verdade é um glaciar em degelo. A beleza é um processo de estupidificação em crescendo e vigente. Confunde-se beleza com verdade, retirando à verdade a beleza que ela tem. Como diz a canção “..a verdade apanha-se com enganos…”

Acordei com um beijo suave na testa

Estremunhado e espreguiçado espreitei os raios violeta da alvorada que me iluminavam. Cegou-me uma luz estranha que me acordou. É como se um arauto me tivesse beijado suavemente a alma e me quisesse dizer qualquer coisa que a manhã desconfortava.   Terá sido um sonho?   Senti a fronte beijada suavemente e a minha mão tocada por Deus. Estranhava a paz do dia nascente, a harmonia, e o cheiro da terra. O assobiar do canavial monocórdico.   Os pássaros multicolores e as desconcórdias suavam-me a consonância e melodia. Pressenti a morte como continuação da vida e não tive medo, não queria adiar a chegada nem apressar a partida. As dores tinham desaparecido e somente o astrolábio do meu peito indicava a fé ausente da minha existência. Era como se um anjo me habitasse.   Não sei o que significa anjo. Sei que deriva do latim angelus e que de uma forma muito terrena o concebo como uma pessoa bondosa ou uma criancinha. Depois existem as figuras metafísicas de anjo que me arrepiam e até chocam. F...

Fonte

Foi a fonte onde bebi, O vento onde me balancei, O gerúndio onde vivi, A mulher que mais amei.   Foi letargia, foi poeira, Foi Ramadão e jejum, Braços ledos de jasmim, Os lábios sedução.   Foi suave como as nuvens, Desenhadas no céu, O sangue escorrido pelos olhos, O teu cabelo, o teu véu.   Foste pranto e poesia, Planície verde e prado, Borboletas e papoilas, Amor forte, Amor bravo.   Foi presente, É lembrança, Bem-querer, Aventurança.    

Mar reflexivo

Reflecte no mar a lua, Tão bela e confundida, Será tua?   Não sei se a luz é lua e mar, Se é mar e lua, Cor de prata é amar.   Ondas matizadas, Luz e cor, Enlevam-se engalanadas.   Noite quente e luar, Lua em crescendo, Floresce no mar.   Mar que me aguarda, Alto do morro, Ardente e amado.   Reflexivo o mar descobre-me ancorado, Antes mesmo de eu me descobrir, Emerge em mim um arrepiado sentir abraçado.   Terra de terra, Mar de mar, Beijo de luar.  

“aluamentos”

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Os dias passam por mim mais cansados do que eu. Trabalhar dezasseis horas por dia para além de me alienar, abre e fecha simultaneamente um ciclo. Será o início de vários ciclos iguais. Dá-me que pensar. Revejo-me. Ando para trás e solto-me, creio mais do que acredito. Sinto a energia. Tudo numa solidão ausente de ausência. Jamais conseguiria dividir as minhas “taras”. O próximo evento (não social) porque eu sou daqueles que nasceram para trabalhar e as coisas não me vêem parar ao prato da sopa, terá epílogo em Outubro, e, começará hoje mesmo a fase final. Fase final já iniciada, feita de noites trabalhadas, fumadas à varanda, de “aluamentos” que vão e vêem, de loucuras pensadas e lucidez forçada. Enquanto isso a luz soçobra e a lua cresce. Daqui a pouco vou ao médico, espero regressar em breve aos relvados....                                                                                                                                                                                   ...

Se dói ...

Se dói de saudade, de falta, de vontade, é porque existiu presença, partilha e querer. O que arde cura. Se dói é porque foi bom e valeu a pena. O alívio é apenas o resultado de não ter valido a pena, de ter sido tempo perdido, momentos desperdiçados, ausência de alma. Se dói é porque valeu a pena. Se o tempo não apaga, se a recordação é viva, que se mantenha assim intensa a recordação. Se a musica acarreta recordação, se as noites e as viagens ouvidas de música conjunta, e os cheiros impregnados no ar, e o nada nos habita, é porque o abraço fez sentido, e se fez jamais deixará de fazer. Embebedo me de sorrisos e expressões cristalizadas. A pequenez do renegado é cobardia emocional. Sintetizo psicologicamente as minhas emoções e guardo-as. Guardo-as num segredo com cheiro a madeira e um poema escrito por entregar.

Lágrimas sorridas

Os homens de tez queimada pelo sol, de mãos sábias e rudes da vida abraçada de mar, das noites embriagadas das vagas e pescado, descansam com as vestes de flanela coloridas, no areal a perder de vista numa praia escarpada e branca. Serenamente olham o mar que não os farta, que amam e respeitam. Fumam e conversam sabedoria e vêem o voar das gaivotas anunciando o tempo que prevêem. Têm um ar distinto, severo e meigo, feito de distância e proximidade. Apenas o seu ar me faz sentir pequeno e ignorante. Conheci um pescador, o Ricardo, que me fez sentir pequeno perante tamanha sapiência e bom senso. Sinto-o como se fosse o prolongamento do mar. E como eu gosto do mar e lhe reconheço energia, paz e força, movimento e cor, alegria e tristeza. Sei, enterradas na areia da praia, lágrimas de sofrimento, de perca e de alegria. Sei existir vida nos cúmplices olhares dos amigos de toda a vida, comemorações conjuntas de despedidas e chegadas. Sei existirem regras e códigos jamais impensados de serem ...

Inginheiro

A música forte e densa mal se ouve de tantos decibéis derivar. Verão, calor a sudoeste do Alentejo. Terra quente empoeirada e escura. Uma brisa corre desventrada dos teus olhos. Tens um vestido de ganga com uns botões que te descerro com o olhar. Os teus cabelos são a continuação do teu ser, desgrenhados ao vento, soltam-se em caracóis vermelhos. Centenas de pessoas arrastam um corpo alienado pelo álcool e umas porcarias que fumam de cheiro adocicado. Sempre achei que aquele fumo tem ritmo e um cheiro quente a Africa.   Não tarda é Julho. Os Julhos tornaram-se meses anormalmente saudosos e felizes. Sou abençoado. Escrevo com alma o que sinto, penso, observo, invento, experimento e sonho. Leio mais que um livro a cada quinze dias. Toco mais do que vinte horas por mês. Jogo futebol com amigos. Tenho dois trabalhos e um deles adoro-o. Tenho um trabalho só meu como objectivo e meta. Ando de mota por sítios incalculáveis e verdes com riachos pelo meio. Conheço-me bem e não menosprezo o conh...

Nao ha !

No fundo do mar enterrei os meus segredos, E não há marés que os consigam desvendar.   No arco-íris fiz o meu leito, E não há quem o possa desfazer.   No cima da montanha depositei o meu grito, E não há quem o possa ouvir.   Na madrugada coloquei a emoção, E não há que a possa usar.   No teu coração armazenei o meu, E não há quem o possa roubar.   Na gruta do silêncio gritei o passado, E não há quem o possa devolver.

Cerebral

Vivos! Os teus olhos parcos de palavras, Reconhecem-me.   Fatigado! Descanso cerebral, Exausto.   Ruptura! Alma presente, Enfraquecida.   Pueril e seco! Dispenso, Declarado faleço.

Umas castas, outras bastas...

Guardo a cor secreta dos teus gestos. As palavras rebentadas dos teus filhos que partiram para uma guerra que fica noutra cidade. Os nossos filhos voam. Saiem por aí de metrópole em metrópole, como se antes fossem guerra e depois paz. Guerra numa cidade de concórdia aparente. Ausentes de presença fincada frequentam-nos. O barco escondido numa praia com chorões que tocam o rio e a areia, não tem leme, tem um timoneiro de ideias e ideais. Ancorados, os barcos brancos ondulam consoante os pensamentos que me ensombram. A lua já vai para cheia. O rio já vai para o mar. Os filhos já vão para a vida. A vida já vai para a morte. A morte já vai para a vida. A meninice já vai matura. O ódio vai a caminho da paz. O jardim descuidado cresce e cheira a Maio e Maria. É silvestre este jardim onde a aventura começa e prediz. A solidão concebe palavras em mim. Algumas castas outras bastas. A noite produz endorfinas que me alienam de um querer cego e manso, decotado e sedutor. Cheiras-me. Cheiras-me a r...

Siamesas vontades

Sei lá eu, Sei cá, Depois das vagas, Siamesas vontades, Prantos lilases.   Destemperada, Sociedade que faz, Inventa, Cria, Mágoa.   Urge. E foge. Estreita alma. Espírito fulgente, Adeus.   A Deus o que é de Deus, À terra o que é da terra, O mar apraz, O nevoeiro é névoa.   Noites de insónia, Tristes dias aclamados, Vorazes e famintas, Presenças ordenadas.   Prenhas de solidão, Sei lá eu, Se por cá me entendo, Se me entendo por lá, Sei lá eu.  

E se nós!...

Escuto uma luz ténue e límpida ao fim da tarde. O pressuposto donde parto é enfadonhamente extravagante. Rasgo as tuas fotos e salpico o caminho como se de folhas outonais se tratassem. Perco-me na desfolhada. Espalho-me de cores. Queria ser outra lua, outro encanto, outra rua. Perco-me nos teus olhos abertos e beijados. Anteontem já está longe e parece-me maior o espaço de tempo para depois de amanhã. Escavo e revolvo em mim. Tenho uma porção de viagens e uma ou duas decisões tomadas. Achava bem que o mundo tivesse uns braços onde se pudesse adormecer. Que cheirasse a azinho, eucalipto e pinhal na cidade. Que as roupas fossem coloridas e largas. Que nos sentássemos em esplanadas frescas e conversássemos descomplexados e sorridentes. Que chorássemos sempre que necessário. Que escrevêssemos, lêssemos e tocássemos em conjunto. Nos despedíssemos em melodia e nos inspirássemos em conjunto de sons vadios multiplicados.   E se nós !...

Renascido

Incandescente farol, Alvorada, Madrugada.   Uma vida, Um poente, Uma nascente.   Um ombro, Alucinado, Excitado.   Paixão, Uma lança, Feita de trança.

Luarzando

Admito que não sei o que vai acontecer amanhã, mas uma coisa eu sei. Só uma. Sei que as pessoas optimistas terão um bom futuro e as pessimistas terão um futuro difícil. O interessante nisto é que as mesmas coisas acontecerão a ambas.   Toda a gente quer amor como alivio para a dor. A ditadura é dura. É uma armadura, e a pide é permanente.   A vida é uma aventura, como a sorte ou morte?   Há seres humanos com vários e outros com ovários. Existe o vento quente, o demente, o dormente e o doente. Há ventos de norte e tempestades de sul. Vamo-nos salvar antes que o sol apodreça e a vida nos cubra de terra e cinza e de rasto de pó deixado.   A vida? Qual é ela? Cinderela?   Já fui deserdado e herdado de novo. Faminto, roto e nu, desportista, músico, professor e doutor. Sou aquilo que fui e serei o que quiser ser.   Luz? Sempre mais. Fel e mel, luarzando por aí montado nuns acordes de jazz.   Inventemos a musica impopular portuguesa, vá lá, inventemos. Uma qualquer rede social adicionará a mu...

Seda

São de seda as tuas palavras soltas em pedaços de trilho e esperança. Púrpura, a tua tez hilariantemente sublinhada pelo desejo, carrega em mim a luz. Acrescentada à noite faz-me conceber o momento, como arte sublimada de estar sem sentir que estou. De ser sem saber que sou. De me desimportar como nasce o dia, para além do mar noutro continente. Um ponto de luz que vagueia dentro das vagas desaparece a cada onda de ternura que recebo do mar, pelo acto reflexivo do teu olhar. O sal solto e frio, esbatido na minha face, carrega de encanto a minha solidão quebrada. Aquele pedaço de mar é só meu e é exequível. Soçobra de mim como um pedaço de mau caminho transformado e adornado, convertido em paz e alegria. Os meus poros transpiram de pele, e enfrento a minha vida como se o momento fosse um dia apenas. Imagino o prazer em gemidos. O abraço como se fosse uma furna que habito, amena, saborosa e inabitável. A montanha é mais alguém, que não “o meu eu secreto e selvagem”. As velas incandescent...

Entrançada

Pode um brado de voz ser vociferada e doce? Uma madrugada existir, Roufenha e madrugadora, Um País plantado, De um mar salgado, Pode uma luz cegar de noite o dia, O dia ser alvorada ao entardecer, As flores brotarem montanha abaixo, Agrestes, silvestres, campestres, Pintadas de cores extorquidas ao arco-íris, Pode a alma ser demência, E o abraço contíguo ser distante, E distante ser a tua vida em mim, E o caminho descoberto, Ser calor, Desejo, Presença por inventar, Saúde a presença, Pode em mim habitar, Uma alma gémea ou não, Que me tolda o coração e a emoção, Que me agonia o tempo, Inconstante da não presença, De uma marginal de nevoeiro, Construída, Aluída, Da tua alma que me visita, Suave, doce, húmida, entrançada e desejada.

Sofazando III

Baralho, parto e dou, Dou de mim, Baralho, Fico lúcido, e parto, Parto agora, dentro de momentos, Vou-me agora embora e parto sem dor, Parto sem dor como uma mãe que deseja um filho e da sua dor faz oferta, Cedência em nome do afecto, O amor não tem espaço para a dor, não se ajusta a tal adjectivo, O amor é mais que dádiva, é partilha, É receber e dar sem reparação ou exigência, Flúi como um voo picado de um pássaro rumo a sul, É noite e madrugada, sotavento, maresia e pronuncio, Vi enrugada na tua pele o desejo de me deixares o ensinamento sereno da vida, Da justiça e da igualdade, Já encontrei mulheres que me acharam tão bordeleiros como os seus pais, Já encontrei quem me queria tão protector como o progenitor, Já vi pessoas amedrontadas por terem homens como os seus pais, Amores diferentes de tão iguais se parecerem, A intra pessoalidade, A inter pessoalidade, A intra personalidade, Fui marujo desse mar, naveguei e naufraguei, Naufraguei, Não deixei de marejar, Entendo a boa esperan...

Branco branco

Os meus olhos guardam a brisa que corre naquele pedaço de mar. Guardo a melancolia da música que se solta roufenha. Sonho com o abraço dado e outro por dar. Com os dedos entrelaçados num nó cego. Na respiração ofegante e feita minha. A luz ténue da madrugada é um clarão na minha existência, ilumino-me de alma. Partilho o sonho de ser faroleiro, ao invés da “pobretana” e desprovida vida sedentária, ritmada, fardada, rotinada e igual. Não fosse o meu espírito criativo e desadaptado seria sempre análoga, nos diferentes dias e nas horas descoincidentes e vazias. Descontinuo-me para continuar. Desconstruo-me para construir. Desconserto-me para me consertar. Numa ergonomia cognitiva, organizo as minhas emoções latentes e transformo-as em confortabilidade. Vejo um ponto de luz ao largo no mar. Um ponto branco branco. Voo para lá, um bote balança, peço refúgio, mansamente entro. É meu, o porto seguro onde estaciona o tempo. O teu afago de encontro ao peito embala-me. Brilho como um farol dos o...

Perpetuado

Cintada e justas, As tuas passadas, Embelezam as ruas com o teu passar.   Crava-se o teu olhar no meu sepulto, Que levarei concretizado, Perpetuado e amado.   Magnificente esse teu habito, Em final de tarde, De te pores com o sol que arde.   O teu sorriso de papoila, É um céu de estrelas brilhante, Notável e cintilante.   Pela arrojo que tenho, No ermo sou um bravo pastor, Anuncio e escrevo na terra, amor.   Revejo Camões e Pessoa, Suas palavras não têm fim, A poesia que me falta, É escrita para mim.   E a que tento escrever, Não consigo, Mente inapta, Faz me sentir um poeta, Que vê a figura de estilo. Alterada e castrada.

Estado laico de alma

Guardo no meu peito   Parafraseando Pessoa:   …“Trago dentro do meu coração, Como num cofre que se não pode fechar de cheio, Todos os lugares onde estive, Todos os portos a que cheguei, Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias, Ou de tombadilhos, sonhando, E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero”...   Eu: Não guardo maledicência, Sugadores de energia, Actos cobrados ou cobráveis, Miserabilidade de espírito, Fascismo baseado no desconhecimento do que é lutar, Desconhecimento do que é conquistar, Desconhecimento do que é a transformação efectiva mais do que palavras, actos e factos, Incapacidade de dançar ao luar, De ler nas entrelinhas, De ouvir o silencio do mar e o burburinho das marés, De dormir ao relento e fazer das estrelas tecto, De cheirar o pinhal, E as flores, De ter o céu como limite O fervor de sentir, A calmaria de sentimento, Capacidade de trabalho, Incapacidade de coexistir com a fé de cada um, Perspicácia de um olhar, Humor …   E como somos um...

Fragância

O fragor de mar que sai da tua boca é feito de silêncio. O brilho dos teus olhos emana luz, paz e feixes de caminho. A porção de bem-estar sinaliza-me a vontade de continuar. Desordenadamente o mar visita-me pintado pelas estrelas. O aroma forte da mistura da sudação, do fascínio, do medo, do respeito, do desconhecimento, da evolução espiritual, aproximam-me terrivelmente do abraço terreno, físico e carnal, bem como assim da vontade de parar a noite e sair pela arriba … e estar. O mar encarnado com as estrelas afigurasse-me separado pelo farol forte, e pelas flores iluminadas e floridas. Cheira a flor o teu olhar. As tuas mãos esguias indicam a tua presença. Estar só por estar, consumindo o momento único e especial trazido pelo teu astral. Preparo-me. Ajusto-me. Concedo-me o momento e viajo. Viajo em ti na descoberta de me encontrar ficando. Não existe partida, despedida, ou regresso. Não se regressa quando se fica, não nos despedimos quando existimos, não partimos quando estamos. 

Descompreedido e complexo

Compreendo a razão porque o sol brilha e não tem horas, Descompreendo a anti-razão expressa de vontade, O conhecimento declarado e usado no querer, Dobrada a inércia surge a acção, Pinto quadros conforme a vejo, Escrevo-a como um pintor na eloquência dos pormenores diferenciais, Escrevo-a na hora enquanto acontecimento , E se a pena não tiver ou silencio não existir, Cristalizo e debito depois, No silêncio procurado E de pena na mão, Escrevo com a espuma das vagas do mar, Na areia pisada e lisa, O sol das gaivotas à beira mar salgadas, Reflectindo azul o céu, Escrevo à compreensão, A razão de existir, Complexa da simplicidade, Do que compreendo, Razão expressa, Conhecimento, E acção.

1º Maio no rio

Quando o tempo esvoaçado não tem medição ou partitura. Quando anoitece e amanhece e não me importa se o rio mesmo ali debruçado corre de sul para norte, ou de norte para sul. O rio a mim sempre me pareceu correr ao contrário. Quando ali em frente os gaiatos andam nos baloiços que tem uma idade recomendada e me interdita a ser criança novamente. Quando aniquila a criança que há em mim. Quando o arrulho dos patos me chama da ponte e me apetece dar a mão e vaguear no jardim sem direcção. Quando a musica com duas décadas me sabe a hoje, fico como se não soubesse de mim.   Perco-me na loucura da insensatez e apetece-me ser cada vez mais sensato, porque a minha insensatez é a parte sensata que o meu corpo carrega a que chamo alma. Gosto de cadeiras de ferro com assentos de madeira e braços antigos e desenhados. O dia clareia antes de nascer como um bebé se excita antes de dar os primeiros passos, para os braços agachados que o esperam.   O morango joga bem com o chocolate. Acho-os a ambos se...