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Mostrando postagens de outubro, 2014

brado d´alma

Vai-se o corpo, desterrado cinza, pó, grito, alma.      E os dias permanecem no mesmo tom de outrora, amanhã a saudade lembrar-me-á, nada, tudo, alma. brado

Ivo

  Não parte de nós quem em nós vive, Não parte de nós quem em nós tem o seu cheiro, O sorriso, O frio, E o calor. ... Não parte de nós quem é parte de nós, Parte nossa, mesmo nossa, não o sendo, Jamais partirás de mim, Jamais partirá a criança que existe cúmplice, Não partirás nunca, Quem amamos não de descola da nossa pele, Do que não somos, Do que queremos ser no outro. Até já Ivo, Que esta lágrima que hoje brotou de mim, Incendeie o teu sorriso em mim para sempre, Acredito que preparaste o momento, Deixas-me a tua evolução. Abraço-te, no recato do que contigo vivi.  

Mil homens

Em cada homem mais de mil estão emudecidos, amordaçados por sonhos desfeitos e quimeras destruídas.   Em cada homem mais de mil mandam, mais de mil obedecem, mais de mil estão mortos, mais de mil estão vivos.   Sobram os que não se vendem,                                                        aos vendidos.   Mais de mil homens escreveram                                                        estas palavras …

Não são as palavras que enchem a alma

Guardo num escaparate um frasco de cheiros. Um frasco fosco de momentos quentes pintados de imagens claras. A música dança ao vento como uma maluca. Pela manhã a saudade saiu de casa. Ainda não voltou. Fica pela madrugada fora a falar com estranhos, daqueles que metem coca e bebem até à madrugada seguinte. Fica presa ao pesar do tempo. Saudades que eu tenho de ficar preso às madrugadas pesadas de tempo.   Não se pode encher a alma com palavras as palavras esvaziam-na. A alma enche-se de momentos. A poesia já não é uma prenda. Já não escreve nem descreve o percurso. A poesia pintou Abril. O Abril converteu-se em oposição como existência.   Grandes vagas embatem de encontro à vida. Não sei se me vou pôr a caminho. Se me perco. Se me encontro. Se me deixo ir pelo beijo, pelo abraço e pela contradição. Sábado esta aí …. Bem-vindo. Fica o sonho de me revisitar ainda um dia.

Antítese

Antítese é uma forma de vida. Nascemos em sentido inverso. As estrofes não são simétricas. Carregamos decisões irreversíveis. Somos um projecto iniciado e inacabado. Exportamos beijos por exportar. O caminho inverso é a antítese. Não nasci para fazer o que faço. Não nasci para morrer. A morte não existe. A morte é a recordação da vida, nada mais. Abri um túnel na montanha para não a escalar. Acampei no fundo do mar e abri janelas nas árvores. Dos quadros fiz a minha casa. Comprei nuvens que estavam para alugar.

Os mesmos bairros

  Não sabia se lhe tocasse, se sairiam palavras pelos poros. Se a alma o pecado ou se, simplesmente aquele sorriso fora o que eu esperara toda a vida em que já morto vivi. Os três bairros serão sempre os mesmos três bairros sem a minha frequência. Os prédios deterão sempre as mesmas entradas cortadas de gente, e o medo da chegada vigorará sempre, com o medo da partida. Não me reconheço nalgumas horas em que me desnudo. Não me conforto nalgumas em que me reconheço. A estrada de regresso sempre foi menos dolorosa do que o caminho da partida. Os mesmos bairros, as mesmas estradas, os mesmos prédios, habitar-me-ão apenas quando o mar não me suster.

Sussurro

O sussurro do vento emerge do segredo que guardo na garganta e me faz ver na incerteza do sono, a água que as palavras jorram no meu corpo incendiado, nascente da vontade de te ter. Fez-se noite. Voei para as estrelas!...

Mansamente tombo de saudade

Sou chuva descontinuada, Trigo amarelecido, Girassol atordoado sem raiz, Casa despida e abandonada, Onde só as árvores pernoitam em guarda. E eu, ...................mansamente tombo de saudade.

Mal-entendido,a compreensão e o tempo

É mais fácil um mal-entendido do que a compreensão. A distância mental que geralmente se instala retira a um mal-entendido o entendimento. Quando retorno a um mal-entendido não o compreendo. Quando o compreendo já não há mal-entendido … existe a percepção latente da ruptura.

Forma improvável de vida

Corredores iluminados, intermináveis, labirínticos, sem horizonte nem esperança, escurecem a forma mais improvável de vida.   Seres autómatos de pacotes pardos com exames na mão exaltando na face, a forma mais improvável de vida.   Rostos de olhares trocados, esperando ambos pela resposta, da forma mais improvável de vida.   Aparente sossego revelado por uma pele escurecida de uma paz que se deseja na forma mais provável de tranquilidade, sob a forma mais improvável de vida.   Quando o corpo decide a forma mais improvável de vida, transforma o medo em pressa, o desejo em lentidão, a vida em dever cumprido, a escuridão em luz.   A forma mais improvável de vida é, a probabilidade da possibilidade de paz e luz.

Semente

  Existem momentos fundadores da nossa vida e as fundações no nosso ser. Existem os campos da mente onde lançámos sementes, lavrámos, cuidámos e colhemos.   São geralmente nos momentos em que não exibimos, que detectamos e verificamos a sua importância na nossa alma.   Ao invés, enchemo-nos de intelectualidade na procura de paz de espirito, deitada fora anteriormente na complicação da simplicidade do sentir.   Existem os momentos fundadores da nossa existencialidade, património nosso, que necessita de reflexão e entendimento, e não de procura exterior ao nosso eu.   As respostas permanecem sempre nas sementes que deitámos à terra.

O nosso mar não quer um país assim

O nosso mar não quer um país assim, Sem o sal da consciência e ondas da revolução.   O nosso mar não quer um país assim, Sem marés de igualdade, E rios vazios de vida, A desaguar, Sem foz, Nem voz.   O nosso mar não quer um país assim, O nosso mar quer o país de volta, Às noites de maré alta, E às marés cheias de alegria, Com poesia e amanheceres felizes, De mar abraçado com o país.   O nosso mar não escolheu este país assim.

Despertencer

Escrever bem é ter boas associações de ideias expostas por palavras e viver com a despertença provocada pela diferença! Despertencer é uma actividade diária; Despertencemos aos minutos que se afogam consequentemente na maré que o próximo traz; Despertencemo-nos quando desnavegamos; Despertencemos a pessoas; Sítios; Ideais; E amores.   Despertencemos até á vida … Despertencer é uma actividade diária descrita por boas associações de ideias em palavras…

Crença esvoaçada

Entre os meus dedos vive a saudade das tuas mãos, A crença esvoaçada, Destemida e ausente, Vive no tempo. Sobrevivo aos pedaços de alegria de outrora, ... Dilacera-me este fogo vivo de me querer amotinado. Sempre foi o vento que me refrescou o peito, Sempre foi o mar que me embalou o sono, Sinais perdurados, Fascínio perpetuado, Da saudade que existe nos meus dedos … das tuas mãos.  

De Abril para Maio

Sobraram duas cores da velha casa abandonada. A cor da ruína que os anos emprestaram e o azul Alentejo das portas, das janelas, e da faixa pela cintura da casa, que teimam sobreviver esperançosas à ruína.   Ainda os tempos se encharcavam da ceifa, e as mulheres murmuravam canções que tornavam os seus dias menos ausentes dos filhos, e sufocava a dor da desigualdade retida nas suas gargantas, já as ruínas edificavam as suas emoções.   Ao longe, o sol escaldava o trigo e dava-lhe parecenças com o oiro.   As ruínas do tempo envelhecido e o azul Alentejo resistente decidiram misturar-se com a esperança e a liberdade, enternecidamente cantada pelos poetas, e por Baleizão.   No largo, a água cantarolava na fonte e, fresca, escorria em pranto na solidão das palavras amarrotadas pela imposição do silêncio.   Depois, houve Abril. Depois, Abril partiu. Depois ainda, Abril já não tem Abril dentro, e Maio está amordaçado.

80

Mais de oitenta anos passaram-se num instante: disse-me. Os dias continuam a ser uma aventura. Os inteligentes raciocínios aliados a uma vida de experiência, de dor suportada, de dor ultrapassada, mantêm-se nos olhos azuis de céu e esperança. Hoje, pela tarde já posta, abracei o meu pai. Faz anos. Fez anos. Fará sempre anos sem idade acumulada. Celebrarei sempre a sua existência como continuação de mim próprio. Festejarei sempre o seu pedaço em mim. Saudarei sempre a sua essência. Hoje, de lágrimas já enxutas, a vida recompensou-o da liberdade do sossego e da paz em que sempre acreditou. Hoje, já a noite se elevava, abracei o meu pai. Homem repleto de homem, homem encharcado de vida.

Confissão

Nas margens da minha infância fui feliz. Na isenção do certo ou errado, da verdade ou da mentira, do pecado ou da salvação, apenas me preocupava sarar as feridas dos joelhos e que o peixe do rio me continuasse a reconhecer. Con ... fesso que também falei com os peixes como o confessor franciscano. Uns de um rio, outros de um mar. Nas encostas da felicidade esculpi para sempre o meu desígnio. E nada havia a confessar, tudo era límpido e inocente. Foi o conceito de culpa, de remorso e os seus afluentes, que me castraram a inocência da liberdade, mais os anos a eles somados. A culpabilização dos outros na minha vida, as angustias e as ansiedades, deram-me o entendimento sofrido e já não virgem, do quanto eu era libertino e não livre. Dói, esta perca analfabeta de consciência. Então reconheci o meu pecado e o teu perdão. E fi-lo com palavras pronunciadas e suaves. E fi-lo com rancor. E fi-lo com desilusão. E fi-lo com culpa e solidão. E a cada maré o mar ensinou-me que cresce na foz e ...

Forma orgânica de existência

Escrever é a minha forma orgânica de existir, De sentir rude na pele, O que antecipo, Revejo, Na hora do que sinto.   Escrever é soltar o meu bando de pássaros, E esperar pela estação de regresso, É pernoitar nos meus braços, E ser as noites, Eu que me confesso,   Escrever é adequar-me, Banhar-me na tempestade, Que o mar revolto não deixa, Mas que as palavras, Me devolvem numa baía calma.  

Sinais do tempo

Deixo sinais, sombra e chuva misturada de vento na tua face, levo o cheiro da tua pele, as tuas mãos enquanto carícia,   deixo rasto e ausência, sinais de sítios que não são sítios,   e fica comigo o sorriso da tua boca enquanto palavra, e o sabor dos teus lábios nos lábios meus,   a noite já se juntou ao matagal, o céu aparenta ficar por baixo,   na distância existem,                                       árvores, sons, pele, lábios, mãos, vento, chuva e ausência.

Noite negra

Noite negra de desejos aprazados, Onde a lua se baloiça fascinante, Desloca na luz o brilho e o percurso, Fecunda na vereda o mar impreciso, Dessalgado, isento, de olhar molhado, No frio férreo da estação.   A liberdade espreitou-me rasgada, Dilacerando-me a consciência, Num despedaçado bocado de alma, Não possuo mais tempo ou vontade, Existir é até contra natura, Nesta abraço bocejado de enfado.   Quero por inteiro reunir as porções, Que de mim mesmo se afastaram, No definho da minha ilusão, O meu peito concebe o engano, Que me castra e imunda, No secura do meu coração,

Sempre foi tudo sempre

Sempre foi tudo sempre, Sempre foram todos os momentos, Sempre os momentos foram tudo.   Sempre a eternidade foi actual, E actual foi sempre a dor, E a dor foi sempre o trilho, Mais a alegria misturada, E o querer de me querer mais adiante.   Foi sempre tudo sempre.