Postagens

Mostrando postagens de janeiro, 2013

"A"

Não sei. Só sei que se escreve sempre com um A. A de Ar, A de amar e eme de mar. A de Ana e eme de Mãe.   Só sei que se escreve sempre com um A. Como:   Arrepio, Ausência, Afectivo, Amor, Andante, Anónimo, Antigo e afectuoso.   Quase tudo se escreve com um A grande, como Amigo.   Menos: Marinheiro e Morte, Mulata e sorte.  

Não existem olhos levantados do chão

A este ano chama-se Dezembro. Vai ser Dezembro o ano todo, sem sopa e pão de uma forma igual e justa. O Dezembro, em Janeiro já foi esquecido. Pensar o outro, é uma forma de exercício em desuso. Não há alegria na avenida da Liberdade, nem liberdade na praça da Alegria. Na estrada da Luz só existem trevas, e, ao Calvário, estende-se a cidade inteira na íntegra e num sacrifício imposto. Em Belém não já não existem estrelas e os astros já não sobrevoam o rio. A cidade está fria e deserta de sorrisos, não existem olhos levantados do chão. Vai ser acinzentado, cor de solidão, por inteiro, este ano. Os vestidos esguios das mulheres não são reparados como outrora. A cidade está desertamente edificada e nos jardins soa inerte o perfume das acácias. Esta estranha forma de existência transpõe-se nas redes sociais, onde a solidão não parece ser solidão, e onde a amizade se confunde com presença, onde o amor se desassocia do tal exercício de pensar o outro, deixado cair em desuso em todos os dias,...

Tudo visto do lado de dentro de mim

Se a dor se espreguiça antes da dor e a moinha se apresenta antes de doer, Representa-se assim o bulício deste corpo, Como o observatório da tabacaria de Pessoa ou de Álvaro de Campos? Moída e dilacerada a vida dos outros vista da vida de um quarto de ninguém, Vida excluída de alguém e terrena, incluída no vislumbre da própria vida, Inexistente existo.   “ … Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo …”   Desconstrói-se em goles bebidos de uma alma inacessível e rogada, Presente da solidão este mundo de debutantes representativos, De mulheres com saias apertadas fingindo-se cegas dos olhares que não lhe interessam, Mulheres altas de sapatos desformados que lhes formam as formas das pernas. As mulheres não sendo as nossas mães ou as nossas filhas, São apenas mulheres.   Se eu casasse com a minha loucura? E me vestisse de amianto e explodisse? Se eu rogasse a minha vida e recuperasse o meu demónio? Se eu largasse brados ...

Escrever ensina-me a ler pensando

Escrever ensina-me a pensar, ler ensina-me a ensinar. Surpreendente, de cada vez que me debruço sobre as pontes que me ligam às margens de mim mesmo, descubro que escrevendo me ensino a raciocinar, meditando em fragmentos parte das vezes, fazendo por inteiro da desconstrução racional, construção positiva do sentir do meu ser. Por vezes apetece-me demitir, sair, correr por-aí-fora sem destino, e sem a noite nos meus dias. Outras, apetece-me ficar dilacerado neste fogo feito de inferno e madrugada em que me reconheço. Outras ainda, quero falecer de mim próprio e ressuscitar do um eu meu que tenho sepultado em mim, e que renasce de cada vez que uno as margens com as pontes que construo. Quando me curvo sobre mim mesmo e me refugio da temperatura que o sentir me altera, renasço das frases que construo, e da obrigatoriedade que me devolvo ao pensar. As pontes são os derrubes dos meus muros. Os meus raciocínios são ofertas das minhas rupturas. Escrever é, o lapidar da minha alma. Ler é, o al...