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Mostrando postagens de novembro, 2020

Os meus amigos são tão loucos como a minha loucura

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Os meus amigos entristecem-se comigo em todas os festejos que não fazemos. Eu e os meus amigos trocamos poucas e breves palavras e não estamos no tempo que não gostamos de estar. Eu e os meus amigos estamos raramente quando os olhos brilham ou escurecem na amargura melancólica da alegria que nos satisfaz. Os meus amigos são tão tristes quanto eu e tão alegres quando eu. Eu sou pior amigo do que eles são de mim. Tenho sempre ajustes para fazer e: - o que me dói dizer o que me dói - É quase injusta esta incapacidade de me declarar e de abrir o precedente: - preciso - Há dores que não me passaram. Há dores que foram viuvezes antecipadas de distância ancorada num porto bravo de tempestade, e de imperceptível motivo de afastamento mortal. Os meus amigos são tão loucos como a minha loucura. Tão, Mais, Ou menos tristes.  

Faz falta o demónio para existir contraponto existencial

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É preciso o demónio e as demoníacas vontades. É preciso o demónio para se crer em deus, e deus para se crer no demónio, ou nenhum dos dois para se crer na força do trabalho, nas decisões sem atropelos, nas crianças sem medicamentos, em quem não tenha com que mate o frio ou a fome, em quem não tenha justiça e liberdade, em quem ache que a cor é importante, o estatuto, ou a mísera submissão do género. Faz falta o demónio para existir contraponto existencial.  

Sem título

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Todas as manhãs sem coragem, as tardes sem alento, as noites sempre frias,  e as madrugadas sempre sós.   A teia sem escapatória Sem ópio que aquecesse a alma, Sem título que dar a este poema, Que não dezembro.          

sem excepção

No céu, as mais escuras nuvens lastimam água cristalina, e em todas as montanhas, cada gota de orvalho enfeita todas a flores, sem excepção.

saudades de menor idade

Sabes, tenho saudades de beber até ficar dormente e com ideias boas e progressistas. Já não bebo desde mil novecentos e noventa e três, já lá vão uma data de dias que não entra em mim uma gota de álcool. Foi em março desse ano. Tenho saudades de acordar seco de tanto líquido, saudades de poder partir os cornos a mim ou a outro gajo qualquer e ter que ser um juiz a recordar-me da minha vergonha.  Saudades dessa solidão. A solidão alcoólica ainda é menos acompanhada do que esta solidão sóbria. Saudades das madrugadas esquecidas de acontecimentos. Saudades das mulheres que não me lembro. Dos poemas que queimei. Das músicas que destruí. Das companhias sem presença. Das dores ausentadas. Das misericordiosas palavras a mim próprio de promessas que acabei por cumprir. Saudades de um tipo que não me lembro e/ou reconheço. Saudades dessa vida que me emprestaram e partiu. Saudades da diferença militante que me acompanhou até aqui. Sabes, tenho saudades de menor idade.

As estrelas pertencem-te

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As estrelas pertencem-te,   como sinais na tua pele, e o teu corpo ao firmamento.   As estrelas pertencem-te, como chão desavindo, com a semente que não cresce.   As estrelas pertencem-te, como o rio à nascente, como o mar à sua foz.        

Terra que não voltarei a pisar

O corpo frio jaz em fim de tarde fria e chuvosa. Por cima da música sobrepõe-se dois abafados gemidos, e um homem reentra no salão de baile com as orbitas descoladas do olhar. Inacreditavelmente mataram-lhe a mulher que ia de braço dado com ele e falharam a sua morte. Foi o destino. Só pode ter sido o destino porque deus não existe, se existisse não tomava partido por um dos dois, não deixava morrer um, em prol do outro.  Em mim o corpo continua encharcado em chuva, sangue e lama. Começam as primeiras projecçoes, os profetas da desgraça tomam conta da ocorrência. Dormi mal nessa noite. Ainda não piso aquele pedaço de terra ensanguentado, cada vez que por ali passo vejo aquela mulher a despedir-se da vida, talvez já fria de domingo à tarde, princípio de noite, fim de vida. O homem que a trazia pelo braço vejo-o por aí, amiúde, de balcão em balcão, e nenhuma vez a há, que não a veja a ela, serenamente adormecida, na terra que foi seu destino. Terra que não voltarei a pisar.  

clara mente

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que fazer com as vírgulas.  afortunada alma que confirma a poesia, e as míseras palavras de vísceras.   ajusta, clara, a mente.      

Cardiacas sílabas

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Esta escrita cardíaca desenfreadamente solta e nua, fala da despertença e da não frequência de lugares que tenham pouca solidão ou recolhimento, que não tenham musica do silêncio e que não alberguem marginais construídas por enclaves onde o sol desvinginde de luz as nuvens, o cheiro rasgue o nevoeiro de densidade e perturbada poesia. Sítios onde a serra e o mar se desordenem do ensaio escrito a quatro mãos. Quem não escolhe a sala circunscrita não me fala de solidão, fala-me tão somente de estar sozinho que é o acto egoísta da transferência do inconseguimento relacional. Esta escrita cardíaca sobra-me do coração.  

Sabedoria

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Não há outra forma de saber, se não saber fazer. Ter feito. Experimentado. Ouvir dizer, saber de quem sabe como se faz, falar como notícia apreendida, é apenas ridículo.    

fascista reprimida

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... fascista reprimida, foi o que me ocorreu quando me falaste da tua facilidade com o difícil, do sonho como ambição, dos direitos como se fossem quadros pendurados na tua sala passíveis de terem um valor criativo remunerado, logo eu, que só acredita no sangue que corre nas veias e nos dias desapegados de projectos e calendarização, tudo o resto quase que é escravatura obrigacionista em mim, fascista reprimida ...  

Fui pai, faz hoje uma data de anos

Faz hoje uma data de anos que fui pai. Era domingo. Fui pai, faz hoje uma data de tempo.

Rio de despedida

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foi esta a tarde, em que observei o jardim, onde o rio se despede ao passar.  

uma mulher crescida de menina

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os ventos, as crianças, as mulheres, o vento é: - uma mulher crescida de menina -  

vento mãe

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os ventos, são somente o vento de mão dada com outro vento, como uma criança que distingue a mãe de todas as outras mulheres mãe.  

Romances que me enchem as mãos

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As mãos que se opõem aos romances, As pálpebras que se quebram com a noite, Os rios cheios de chuva, As casas com as portas desabotoadas até ao decote, Os cheiros misturados com o oriente, O café com fumo a prender-me de preguiça, O ópio torturado na recordação.   Os romances que me enchem as mãos de um amor esperado.  

Artur do Cruzeiro Seixas

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As mulheres abrem-se em clareiras de fogo dentro da minha solidão (cardílium) após leitura de Cruzeiro Seixas. Morreu ontem. 99 anos. Um dos livros da minha secretaria com café, que eu vou lendo, que me alimenta a despertença. Acabou.            

Clandestinos

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Nunca entendi muito bem essa coisa do: " - está cá, é clandestino - " está cá onde? é clandestino porquê? por estar cá na terra/planeta? na terra/cidade?  Clandestinos somos todos, disfarçados de vida disfarçadas, dando sinais que não são assinalados, dizendo que sim ao não, não ao sim, amando sem a quem amar, desamando a que amar, morrendo vivos por aí, outros mortos que vivem no património que deixaram, e clandestinamente vamos matando clandestinos porque não têm um passaporte que lhes dê ordem para viver. Aqui aplica-se bem um: - foda-se - não há outra palavra que me alivie tanto. Dos "clandestinos" que conheci, tudo gente boa. Vivam os clandestinos e viva. Já fui clandestino militante, continuo a ser clandestino de fraternidade, gostei de ser dos excluídos, dá-me gozo enquanto "incluído" e até alguma sabedoria.   

Trump Biden

Sendo os dois maus, saiu o pior, está assim por todo o lado, políticos fracos, sem ideias com a servilidade que se quer à força do capital, à renúncia da humanidade global. Fico com medo. A histeria abateu-se por estes dias na ignorância dos ideais e, defendeu-se um, só porque não se quer o outro. Como diz o povo: - do mal o menos -

Vislumbre

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… enquanto a madrugada se detinha entristecida, o mundo impacientava-se com a vida adiada sem vislumbre…           

Não creio na vida eterna nem na eterna vida

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Não creio na vida eterna nem na eterna vida, parecem-me coisas tão dispares com tantas parecenças existenciais.  

Mais de um milhão de demónios são precisos para me retirarem as verdades

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São precisos demónios, mais de um milhão, para que eu entenda que toda a ilusão do mundo seja a real dimensão da exclusão de quem acerta com as leis, numa organização que castra e pune quem dela se regula, e glorifica quem dela se acrescenta, aproveita e vive.   Não creio nos doutores com caras de anjos e cérebro infantil e mimado, creio nos poetas que saram as chagas com o sal ensanguentado de solidão, creio na esperança que brota da inanimada verdade que jaz moribunda em seres raros e ásperos.     Não existem culpados pandémicos, existe uma incontrolável pandemia há muito, e não é de virose conjunta, é da excepção ao amor.     Mais de um milhão de demónios são precisos para me retirarem - as verdades -