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Mostrando postagens de dezembro, 2015

Depois

Quando as palavras se obstruem de sentimento maior só atrapalham o entendimento, Esgotam-se nos minutos de tempo que o tempo tem, As almas unem-se em silêncio quase digladiando-se na espera do primeiro momento. Há já mais de mil madrugadas que o nevoeiro raiava dos olhos de cada um deles, Dos quatro-olhos de dois pares por vezes baços, Outras mesmo, molhados da maresia que os inundava.   Num frente a frente que não queriam que nunca o deixasse de ser o mundo sucedia-se, Sem qualquer importância para o silêncio das almas em união e metamorfose, O abraço quase dado tantas vezes foi adiado, como quase apertado.   Na ânsia da glorificação do momento cristalizaram aquele instante, Num absurdo medo que a traição à imobilidade se desvanecesse daquele amor, Em debandada, assistiram à migração das cegonhas brancas nas escarpas que adoptaram.   A espuma das rochas e o mar confundia-os e já não enxergavam, Se era o mar que batia nas rochas, se eram as rochas que inundavam o mar, Assim se sentiam ...

o medo do medo

Pouso um copo vazio de vinho bebido sobre o medo, O medo sufoca-me as palavras como uma guilhotina dilacera o sol em angústia, Mistura-se um género de névoa com esta condição transcendente, Tortura-me um medo real e um outro inventado, Desconstruo o medo em medos, Confiro-lhes maior número e menor dimensão, O medo maior e singular transforma-se em pequenos medos plurais, O medo não é a minha verdade, os medos também são as minhas mentiras, Os medos dos medos expressar-se-ão em todos os vocábulos e anoiteceres, E em cada jorrar de sol guilhotinado.   Em cada tristeza colocarei flores como num túmulo e rezarei uma última vez, A cada saudade recordarei cada lembrança, A cada partida celebrarei cada regresso, A cada lágrima lembrarei cada sorriso desmemoriado, Em cada fragmento de solidão brindarei ao velho amigo que já não tenho, O medo é o amor e a miséria exposta em mim, O medo começa e acaba por amor, O medo subtrai o amor, O amor subtrai-se ao medo, Defumo incenso na sala, pouso um co...

comercio

Abunda-me uma enxurrada de palavras a mim dirigidas que detenho e purgo, palavras vãs, ocas, insensoriais, descontextualizadas, sem nexo, improprias e desajustadas.   Existe em mim uma palavra harmonizada de descendência glorificada. Nessas poucas letras cabe o muito que detenho, meia dúzia de amigos de a maiúsculo e plural, e um amor não quantificado.   A eles celebro a vida com um querer bem mais do que bem querer.   Tudo o resto é comercializável.  

Quero mais amor do que isso

Não sou de consoadas nem de desacorçoadas datas revertidas à pobreza de ter um dia assinalado, apelando há minha sensibilidade e/ou humanidade. Salva-me o rock and roll, a poesia e a linguagem comum de quem me vê/sente, de quem eu vejo/sinto, todos os dias da minha vida.   Quero amar mais do que um dia ou, desculpar-me com lembranças e frases batidas.   Quero mais amor do que isso.

perdidamente morrer

Eu quero perdidamente morrer, Morrer deste sítio onde me escravizo em horário laboral. Eu quero perdidamente morrer deste embuste social e ser um pássaro libertino e mal comportado, Eu quero perdidamente morrer desta farsa bonitinha de bem parecer. Quero ser mais mar e pôr-me com o sol todas as tardes, quero ser mais amigo, mais vento, chuva e tempo, Quero amar mais. Chorar mais. Rir mais. Eu quero perdidamente morrer desta miséria construída e danificada de vida, Quero muito pouco ou quase nada, que quase nada ou muito pouco, basta-me.

o diário vinculo do amor a quem se quer bem.

O que me rodeia já não é o mundo vigente. Rodeia-me um mundo construído de reconstrução, onde habitam todos os meus sentidos e os sentidos de todos os meus sentires. Habitam-me diários "natais" sem data fixada ou por afixar. Habita-me quem me pode habitar que por descoincidência é quem eu quero ocupar. Os abraços testemunham a vigência do meu mundo sem determinação de festejos. Os meus amigos e os meus amores unem os meus diários "natais", libertando datas por vincular. É o diário vinculo do amor a quem se quer bem.    

O carrossel da infância

O carrossel da infância volta a mim em cada dia vivido, como as voltas dadas na pequenez engrandecida, como as primeiras palavras sentidas ao frio, e as primeiras sombras refrescadas de sol, o carrossel da infância não se esgota na recordação, roda no início e no final, e o amor é sempre o amor, e a musica sempre uma flor.        

excerto de palavras por ver o sol um dia VIII

“ … Acordei. Adormeci mais um pouco acordado. Este estado alienado de mim próprio ao acordar prolonga-me o sonho. Provavelmente entendo agora a expressão “sonhar acordado” ou “morrer de saudade”, talvez não seja essa a verdadeira essência da expressão, talvez seja só mais uma variante do sonho, da realidade aproximada do desejo, a realidade a aproxima r-se dela própria, o sonho a transformar-se em vida, ou apenas a aceitação do merecimento da felicidade. Tenho dificuldade em perceber de que é feito o sonho dos sonhos, de entender a vida e a felicidade, o acordado e o adormecido. Este estado de paixão enlouquece-me. Este estado de saudade adequa-me ao amor que sinto. Não os quero mais e, não quero mais que acabem. Recebo-os de braços abertos entendendo o privilégio de sentir a minha pele na minha outra pele, emprestada por outro ser que não eu. Recebo-os sentindo o meu cheiro revolto no teu cheiro adocicado. Recebo-os, sabendo que esta vida pode não ser suficiente para amar assim novame...

a tarde esperada nos teus olhos.

Gosto do teu olhar espelhado no final de tarde e da clorofílica paz harmoniosa de tudo fecundar: água, terra, boca, abraço, mãos, palavras, lágrimas, sorriso e olhar. Gosto de não sentir mundo nas tardes do meu mundo, Gosto do anoitecer brando de tudo abraçar, isento de nada precisar. Gosto de me sentir somente apêndice da força com que beijo a tarde esperada nos teus olhos.

Devolves-me o tempo fora de tempo

Devolves-me o tempo fora de tempo, O meu amor, A minha vida, O tempo recuperado, As minha mãos, O meu peito, O meu cheiro no teu, E a ultima morada dentro do tempo que elegerás para mim.

Pedaços soltos da tua boca

Pedaços de Abril soltos da tua boca liberdade, Plantados em barcos siameses de nós, Não são partida, Não são começo. À deriva, só as nossas almas gerúndio da nossa estória, estoiradas se embargam, Em todos os movimentos sou eu, e em todas as tuas madrugadas, Vou nesta desenfreada vontade de ti, viver antes que o tempo se levante a poente. Há já tanto tempo seduzido que me encontro atracado neste porto de que não parto, Já mil sois me queimaram e mil luas me iluminaram, Já toda a chuva da terra me purificou. Encontro-me assim aqui enquanto tu me acordares com a saudade da tua presença, Tal Ofélia de Pessoa fantasia purgante do meu peito no teu, Fico comigo em ti no plural do meu singular. As marés e o tempo não esperam por nenhum homem, Chegou o final do caminho, Vou levantar ferro e velejar mar adentro mundo afora, Não existe final atempado, Esperado momento. Tudo recomeça com os finais, O dia arejado cegou-me e, sem saber por onde, fui!

querubins e trompetistas

" ...Podia oferecer-te uma celebração com querubins e trompetistas, rapazes do trapézio voador, artistas do poço da morte, lançadores de fogo, o que fosse, mas nada seria tão meu, tão sentido, tão teu, como este sentir volátil que se gera em mim com vida própria..."

Nos teus olhos

Os teus olhos têm sabor a maresia, Iluminam-se, … Enchem como o mar, Os teu olhos abraçam e sossegam, Toda tu és, … Os teus olhos.  

mar que nos acolheu

De todas as verdades escolho a minha. De todas as metamorfoses que a verdade encontra no seu caminho, apenas e somente me basta, a verdade da verdade. A minha verdade envelhece comigo nos subúrbios de mim próprio e vai-se enquadrando.Ganha um lugar definitivo na floresta que me habita. A melhor companhia para a minha verdade, sou eu e tu. A melhor poesia para a minha verdade, são as palavras que m e explodem do rastilho que incendeias. O pedaço moreno de mar que nos acolheu, que nos habitou, que nos escolheu, foi a noite mais inteira de verdade. O homem transformado é um homem habitado. Um homem só; é um homem habitado. Um homem para ser habitado tem que ser um homem só. Depois habitável. Depois habitado. Depois transformado.

Construímos e matamos a saudade

"... Construímos e matamos a saudade..."

escrevinhando

Escrevo para separar o sentir, e escrevo para aproximar o sentir. Escrevo para não sentir o comum dos sentires, e escrevo para sentir uma incomum sensibilidade onde não existem luzes coloridas, ou barrocos bonecos carregados de uma fardo sinalizado de religião e profanado sentido. Escrevo desnudado de coração e adornado de tripas. Escrevo a escravidão da direcção induzida e a liberdade solta do p ensamento. Escrevo porque não creio, e creio no que escrevo por ser o resultado do sinto. Não escrevo natais, nem carnavais, nem festas pascais. Escrevo miséria e liberdade, tolerância e presídio, devoção e afecto e, escrevo das entranhas fiéis da futilidade vigente.   Escrevo passado na primeira pessoa do presente, e escrevo sonho na forma condicional da fantasia. Escrevo porque me alivia a mágoa e me seduz o alegramento. Escrevo incólume e inteiro das partes de que sou construído. Escrevo porque me alimento de entendimento e me chicoteio da obtusidade.   Escrevo somente porque as letras me b...

O evolutivo estado de ser

O evolutivo estado de ser. É-se e está-se, da mesma forma em que não se está, e não se é. No intervalo existe o evolutivo processo em que se está, e a evolução de se querer ficar. Na resistência da comunicação pode-se estar e ser, sem se ser e estar. Na generosidade das palavras permanece o ser e o estar. Ambos habitam a qualidade e a ausência da existência. É uma escolha do sentir - ser e estar -

É mais fácil partir do que ficar

É mais fácil partir do que ficar, É mais fácil morrer sem uma escolha, Do que viver com as escolhas inerentes à vida. É muito mais fácil chorar do desespero de que faço parte, Do que rir da alegria de me transformar, As escolhas, As transformações, O acreditar que sinto de dentro para fora, E não de fora para dentro, …. É o esquecimento dos ensinamentos que em criança deixei, no bolso do bibe aos quadrados do arco-íris da minha infância.

prefixo

Penso que te amo, Julgo que te amo, Acho que te amo, Sinto que te amo, Acredito que te amo, Parece-me que te amo, Sonho amar-te. Por ser aprendiz do amor, Por ter amarras presas à felicidade do medo de estar nu, Não te digo um amo banal e vulgar, Digo-te um amo com prefixo, Do valor que o amor tem, Digo-te um amo de talvez, Com a certeza que não existe talvez no amor. Estou a amar-te, Com certeza, Com o prefixo … - Nós -

Palavras por ver o sol um dia XII_XV

Estou encantado. Este estágio para lá do encantamento está para o meu sonho, como a vida está para mim. Encanta-me o cheiro bravio que possuis em ti toda, inteira, e por inteiro. Encanta-me o doce das tuas mãos na minha pele. Os teus lábios desnudados nos meus no prolongamento de mim mesmo. Não existe maior prazer do que sentir alguém que me faz sentir ser, o prolongamento de mim próprio. Encanta-me a difusa luz que me cega. Encanta-me querer a universalidade do momento na soma dos momentos. Encanta-me a melodia das tuas palavras, o sossego do teu peito, o fogo do teu corpo, o sorriso da tua boca. Encanta-me tudo isto em mim, e, em mim tudo isto é: o sonho tornado vida. Encanta-me os meus órgãos descompassados em desobediência de mim apropriado, como se tivessem vida própria e independência. O fígado parece-me existir no local onde antes estavam os rins, o coração parece-me ser a traqueia, os joelhos parecem-me capazes de pensar o trilho. Sinto tudo isto em cada poro, em cada pedaço de...

A poesia será sempre uma jovem senhora,menina sem idade.

A poesia é uma jovem senhora de vinte anos sem idade, Elevada de igualdade, Repleta sem nunca dar à luz, A poesia é como um Abril fraterno, Livre, Eterno. A poesia são penas, Mágoas, Alegrias, Desencanto transformado em caminho, Mar de sal, Sem tamanho. A poesia não se esgota, Na resposta, A poesia é urgente, No que sente, A poesia é alma, É a voz da gente. A poesia será sempre uma jovem senhora,menina sem idade.

medo

Pouso um copo vazio de vinho bebido sobre o medo. O medo sufoca-me as palavras como uma guilhotina dilacera o sol em pedaços de angústia. Mistura-se um género de névoa com esta condição transcendente, construída por uma tortura que se apresenta como a criação de um medo real e um outro inventado e, é nessa fronteira que me situo e elejo a zona limítrofe de mim mesmo. Desconstruo o medo em medos. Isso torna-o maior em número e menor em dimensão. É como se os conseguisse numerar e ordenar alfabeticamente e, inevitavelmente começariam e acabariam por amor. O medo maior e singular transformado em medos menores e plurais. Assim, seriam mais abrangentes e poderia navegar em cada um deles mediante a minha preferência e necessidade. O medo nem sempre é a minha verdade, os medos também são as minhas mentiras. O medo, os medos, as verdades e as mentiras, expressar-se-ão em todos os vocábulos e anoiteceres e em cada jorrar de sol guilhotinado. Em cada tristeza colocarei flores como se de um túmu...

Reconheço sempre o cheiro de um lugar meu

Quando chego a um lugar meu, mesmo que o desconheça e nunca antes o tivesse sentido, abraço-o em nome próprio e inclusivo. Reconheço-o. Reconheço-o: pela falência do corpo e energia da alma. Reconheço-o: pela inesgotável vontade de tornar os minutos no resto da minha vida. Reconheço-o: pela paz de tornar a mesma língua na universalidade do sentir. Reconheço sempre o cheiro de um lugar meu.  

noite adentro

E nas noites em que a paixão me embarga a voz e me sinto ao alcance do um olhar? E nas noites em que me sinto de alma nua à distância de um gesto? E nas noites em que me sinto desconcertado? E nas noites em que acho ridículo o meu sorriso e o meu estar? Preciso somente que o meu olhar, gestos, e sorriso voltem à normalidade das madrugadas. Apenas preciso sair dali e, por ali ficar. Uma parte de mim vai. Eu, como um todo, arrisco ficar, noite adentro.

deus

Às vezes apetece-me morrer, outras vezes não. Ninguém está preparado para morrer antes de perder a memoria e, esta, segunda consta, perde-se de trás para a frente, enquanto a vida se perde, de frente para trás. Não se parte enquanto se tem amigos. Parte-se, quando se muda de consciência. Partir este figurado, transfigurado, cadáver de dor solta, desprezado e silencioso. Quando a energia nos dá a lento e os livros conhecimento, parte-se de quem fica desconhecido. Não é uma partida de partida, é uma âncora desamarrada, um ir leviano aos olhos de quem fica, aventureiro e sedento de quem parte. A partilha diminui o infortúnio. O infortúnio deixa de o ser quando aos amigos já não interessa ser afecto, mas apenas existir aos vocábulos. Acredito na verdade relacional mais do que na fantasia relacional da verdade. O sentir é fugidio, mas quando adiado, esfuma-se como um uivo de um lobo, em prol de gargalhadas desculpadas de um “agora não me apetece falar/sentir disso” e desfazem-se assim as pa...

Fui visitar o amor

Fui visitar o amor Num degrau fresco e sombrio. Num abraço, No fogo, Numa vontade avassaladora, Nuns lábios suaves e quentes. Fui visitar o amor Não o sabia a prazo, Nem à ordem. Lancei fogo, Num corpo cortado, dilacerado, Corpo amado. Bocas sôfregas Paixão. Prendi-me, Senti-me tocado de um castigo desejado, Prendi-te, A minha boca reconheceu. Visitei assim o amor Numa gargalhada. Pisei o perfume que a tua pele tem, Numa historia, Numa madrugada, Num poema. Uma noite Um punhado de palavras. Uma despedida, Um beijo, Numa noite inteira, Visitei assim o amor.

já fui e já voltei

De mãos dadas avançavam cúmplices na direcção da escola. Separava-os um ano de idade e outro de nascimento. Ela de cabelo entrançado, ele desabotoado, ou de botões trocados nas casas onde deviam abotoar. Iam pelo passeio como lhes recomendava a mãe todas as noites antes de os beijar adormecidos. Partia todas as manhas para mais um dia feito de fadiga e amor. Petizes de ar sério e compenetrado como gente grande. Os seus olhares cúmplices protegiam um ao outro. O pai emigrara e não voltara. Conheci-os no caminho para a escola. No recreio era o meu amigo, bem como nas contas aprendidas, e nas palavras inventadas. A passarada acompanhava e misturava-se no chilrear do intervalo das dez e quarenta e cinco. Eu era índio enquanto a maioria era cowboy. As cabanas eram a mais confortável casa que eu algum dia tinha experimentado. Guardava segredos e protecção. Ficava numa fazenda de grãos grossos de terra, debaixo de uma figueira velha e redonda. Era forte como nós, os índios. Crescemos. A vida...

Afago-me. Felizmente há luar!

Dei por mim a fumar ao espelho, irreconhecível. Carrego no olhar esperanças. Esperanças são mais que uma, são desesperançadas despedidas, vicissitudes de palavras que perdem o sentido de tão gastas e repetidas que estão. As palavras esgotam-se e escasseiam. Felizmente são regeneradas num termo comum hoje em dia. São recicladas e soam difusas. Reciclam-se as palavras, fecundam-se e inventam-se outr as novas por finar. Olho-me a um espelho novo que não está gasto pelo uso do meu olhar. Contemplo o desconhecimento e admiração do espelho de mim próprio. Apresento-me. Sou o J, o eu feito de mim próprio! Reflectido, vergo-me numa vénia muda de palavras, elegante de modos. Sou uma visão errante, de um eu meu, ignorado. Afago-me num abraçado soluçado, desentendido e desconhecido afago. Sozinho num normal acto irreflectido, volto o espelho para a parede, não quero mais cumprimenta-lo à minha passagem. Olhos nos olhos de mim mesmo, revejo cada solidão, cada palavra desenhada sem sentido, cada re...

milagre

Ainda não desisti de descobrir a existência de deus seja de que forma ela se me apresentar. Ainda não desisti da desistência que me apela. Ainda não desisti de descobrir a existência de deus seja de que forma ela se escolher demonstrar: - cientifica, natural, espiritual, sensorial, a que for - Espero o milagre em mim. Enquanto isso, leio, escrevo, toco, observo, experimento, ficciono e, … creio … atentamente.

A minha inteligência é adversa ao meu sonho

A minha inteligência é adversa ao meu sonho. O meu sonho semelhante ao meu querer, Que fadiga me dá este governo. Que ilusão me dá este viver, Que paranóia me induz esta infinita vontade, De não querer o que quero. Que prisão me dá este sonho, De não ser o devaneio, Do que penso, sonho e quero.

De que me vale ter tanto e tê-lo só comigo?

Hoje, irei abraçar e dividir o que sinto. De que me vale ter tanto e tê-lo só comigo? Irei dividir esta celebração simbólica mas tão cheia de vida. A naturalização de deus na terra é o amor entre as pessoas, de tão natural e fácil que se torna esta expressão, expresso todo o meu querer neste dia renascido de um homem novo, feito de um novo homem. A alegoria é uma imagem do passado falecido. Hoje, e só por hoje, nesta antítese me descrevo num: “Ganho num momento o que perdi em anos” …

Alvoraço-me

Em cada alvorada, Alvoraço-me na manhã, Desconhecedor da hora seguinte, De toda a dor ou satisfação, Que o dia me entregará. Cada alvorada rompe-me, Como a água que rasga à sua passagem, As noites cambaleiam desnorteadas, Como a passarada que se solta, Em liberdade da minh´alma.

Abraçado

excerto de palavras por ver o sol um dia a 6 de Dez" Semeado de vento o teatro da minha vida mudou de acto. A cena anterior terminara. A viagem foi rude e crassa, inimaginável, sozinha e dolorosa, como se na existência terrena os deuses tivessem mandado santanás descer à terra, e a ele tivessem designado por delegação, as suas ordens e desígnios. Uma viagem ensanguentada produziu-se-me na alma, corpo, mente e espírito. Nauseabundo e em águas revoltas afogava-me devagar. Tão depressa as ondas me cobriam de escuridão, como depois na translucidez da cobertura das vagas, via o sol em raios inundar-me água adentro. Os meus braços feridos, exaustos e desistentes, de quando em vez renasciam de mim em braçadas decididas, fortes e vigorosas, para logo de seguida se apinharem de um veneno enchido de vida momentânea. Nesta labuta de suor e resistência, a meu lado cadáveres semi-vivos, outros semi-mortos, mas nenhum suficiente vivo ou suficiente morto, acumulavam-se numa encosta onde o verde ...

Desfaço-me lentamente nos sorrisos sisudos retribuídos

Desfaço-me lentamente na hipocrisia épica da época. Nas luzes que me escurecem por dentro e da música que me ensurdece a alma. Desfaço-me lentamente nos sorrisos sisudos retribuídos. Esta épica época tem a miséria de todas as outras, ou mais.

Filho de um deus secreto e selvagem II

Pertenço a um tempo que já passou, Ou a um tempo que ainda não chegou? Pertenço a um astro, Um planeta, Ou uma estrela, Que ainda não passou, Que se apagou, Ou não me albergou? Pertenço a um tempo que não tem lua que me ilumine, A um sol que me acorda em cada manhã a que despertenço, Filho de um deus secreto e selvagem, Sem aragem que boline a vela da barcaça, Que não deitei ao mar para ficar pelo caminho.

paisagens

Todas as paisagens que com sonhei acabaram por se tornar reais. Assim foi com o meu passado, hoje presente. Assim foi com o inverno, depois verão. Assim foi com a morte, depois vida. Assim foi com a saudade, depois presença. Assim foi com a solidão, depois comparência. Assim foi com a mentira, depois verdade. Assim foi como foi, assim é como é. Todas as paisagens com que sonhei acabaram por se tornar reais, depois do nevoeiro se destruir com o sol, e da névoa se abraçar à madrugada.

A imensidão de vazios

A expressão: “imensidão de vazios” confunde-me. Confunde-me a dimensão de imensidão. No meu imaginário, imensidão nunca será de vazios, e a soma dos vazios jamais será imensidão. Na ausência e na saudade os vazios são na verdade a imensidão que me coabita e habita. São a tempestade e o inferno no mesmo coração. São o desfalecimento e a ressurreição na mesma alma. A imensidão de vazios enquanto expressão baralha-me, enquanto imaginário desentendo-a, enquanto ocupação é em mim, resiliente.

Não sei se existe apenas o que sinto existir

nterrogo-me sempre para lá do que sei existir, Sei tão pouco do que existe, Não sei se existem as pessoas que eu conheço, Se existem as pessoas que eu julgo conhecer, Não sei se existe apenas o que sinto existir. Creio até que existe mais de mim e mais dos outros, Que existe mais do mar, Mais do céu, Mais do vento, Mais de mais, também.

Eu não sonho possuir, ter, esbanjar, adornar, ou eternizar-me

Eu não sonho possuir, ter, esbanjar, adornar, ou eternizar-me, Eu não ouso sequer sonhar, Pelo menos sonhar nesse descanso repousado em que nem sequer descanso, Ou nesse sono convencional que apelidam de justo, Eu sonho nas horas em que acordado me ausento, Eu sonho no desconhecido prometimento de mim mesmo. Eu não sonho possuir, ter, esbanjar, adornar, ou eternizar-me, Eu não sonho, Não tenho, Não esbanjo, Não adorno, Não me eternizo.

o tempo não existir e a saudade nunca acabar

… Foi assim que falei ao Francisco e recomendei. Filho, quando o tempo não se importar com a presença de uma pessoa e não se consumir como o olhar no horizonte e, ali mesmo, se vislumbrar o céu vermelho desejando que o momento não acabe, é porque é essa a pessoa. Quando perceberes que os ombros acenam com a música que ouves e o silêncio te sabe a ouro, tem-la. Mesmo que o decote da mulher que passa, ou as pernas cruzadas que se abanam altas e esguias te atordoarem, nada nunca terá ou será, como o bem-estar que faz o tempo não existir e a saudade nunca acabar…

A cidade

A cidade? A cidade nomadizada e vazia, As colinas descidas e as avenidas subidas, Os rostos, Os rostos que admiro, Os rostos que fantasio, A vida que invento à vida dos outros, A ironia dos pensamentos que não param de me abalroar, O rio, As luzes, O outro lado, A margem, O mar, O teatro, As casas da música, Os poetas embriagados, A madrugada, O jardim onde marco encontro comigo, O cansaço, A cumplicidade, O abraço, A cidade!

Há três noites atrás fez lua

Quando eu não existir mais, a saudade será como um barco a navegar num mar de momentos. A recordação será uma maré viva de emoções. Recordarás os momentos feitos de nada cheios de tudo. Recordarás as mãos dadas de nós. Os momentos vazios dos olhares. Quando eu não existir mais, recordarás a penumbra e a luz. O luar e a madrugada. As estradas e o pó da terra batida desenhadas e acidentadas nas fl orestas que traçámos juntos. Recordarás as vezes que nadámos juntos na albufeira e fizemos amor nas margens da noite. Recordarás as vezes que acordámos cegos pelo sol. Recordarás a casa do sol nascente. Recordarás o chão que adormecia connosco. Há três noites atrás fez lua. Redonda, com cara de boa pessoa. Apetecida noite de cheiro rubro de vontade. Passarada chilreante e firmamento. Vozes do outro lado da barragem em eco como se estivessem ao nosso lado. A noite faz da distância presença. A noite junta. A noite afasta. A noite ama. A noite alcança.

Não me abandono ao rasgar do dia

Não me abandono ao rasgar do dia na oportunidade que a vida me oferta. É assim dia após dia. Lágrima após lágrima. Sorriso após sorriso. Rasgo o dia. Mudo a vida.  

Devolve-me as noites bravias

Devolve-me as noites bravias em que possuíste a minha alma, Em que seduziste o tempo à sua redução miserável, E ostentaste como um troféu todos os enganos. Pelo menos devolve-me a esperança, E podes permanecer com o que possuíste, Mais a lágrimas que voltarão disfarçadas de saudade. Volto assim regressado à vida, Envolto em flores que o meu jardim não secou, Abraçando os pedaços de poesia que sobram de mim.