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Mostrando postagens de março, 2014

metamorfose constante

Sempre vivi num sentido que não o meu, De cada vez que o encontrei, Deixou de o ser, Passei a habita-lo com a vã necessidade, De continuar esta procura sem fim. Entendo hoje que não pertenço ao mundo, Existem vários mundos, Vários sentidos, Vários eus,   E uma metamorfose constante e interminável.  

Esfrangalhada papoila

Esfrangalhada papoila já sem cor, Vista dos meus olhos, Sem odor, Despedaçado céu, Pedaços de querença, Mãos, Hipérbole, Fantasma, Clamor.   Esfrangalhado peito que te ausentaste em fantasia e desamor.

Rio ...

Corre um rio dentro de mim, Ora calmo e sereno, Ora sobressaltado e incoerente.   Na nascente rompe de raiva, As rochas que o sufocam, Na limpidez das águas jorra vida.   Na foz já corre turvo pelo caminho esforçado que fez, Mas sente-se ledo e alegre, Sabedor que vai abraçar o mar.   Dentro de mim corre um rio cristalino e turvo, Conhecedor do abraço que o espera …

Sem prescrever

Tens uma guilhotina no olhar que me trespassa o entendimento, Da tua boca rebentam claves de sol, Que me embalam. O sol que jorras ao caminhar, É semi-difuso, Tanto o sinto como um aconchego, Como um vale escuro e frio, Que me perfura como uma guilhotina, Com punição e hora anunciada.   A tua blusa desajeitada persegue-me, Persegue-me nos sonhos que não abandono, Persegue-me como um desfiladeiro. E eu, Ali, Suado, Amedrontado, Sem desabar, Sem prescrever.   Por ser menor a dor maior, Arremesso-me a este lugar, Meu de existência, Meu de persistência, Sufoco-me nesta imagem de céu, De um caminho, Iluminado de árvores, Vida, E paraíso.

doei

Doei-te palavras de poemas, Gargalhada e choro, Paisagens de montanhas e mar, Foz de rios e nevoeiro, Prados e lagos inacessíveis; Ofereci-te a nascente de mim.   As minhas mãos escravas nas tuas, Carpiram rugas não mais desfeitas, Dentro do mesmo tempo, Vi escuridão e luz; A tua boca na minha, Já é só recordação.   Sorvo no peito uma rocha, Que sei ser dono de alma, Que o meu peito já não sente, O que sinto eu de falta, Palavras feitas de poemas, Adormecer na lua alta.

Mulher

Nascido de um sonho de amor, De uma mulher sem senhor, Que livre soube doar, O homem que lhe calhou no amor, A uma outra mulher, Fiz análoga outra mulher, Que de nome baptizei por filha, A quem dei vida, E me devolveu a vida a mim.   Mais do que as datas, faço diário este agradecimento à mulher que dei nome de filha … porque a vida me deu esse encanto, num ser humano chamado mulher.

21março2014

A poesia nas gavetas, Não faz efeito, A poesia tem que se cravar na pele, Na carne, No sangue, E na alma.   A poesia não é singular, A poesia é plural, É vida declamada, Numa boca urgente Que sente.   A poesia é claridade em noite escura, Abraço na solidão, Água no deserto, Mãos que se dão,   A Poesia detém as respostas, Que a vida sugere, Que a alma exige.

Morremos juntos

Quando estilhaça na minha alma o património que construí, O teu corpo ausenta-se dos lençóis que habitámos. Nas noites ternas de frio, Residente na parte de fora de nós, Os prados verdejantes que foram as nossas manhãs, Sucumbiram à tempestade das nossas bocas, Dos nossos corpos, Como a mortalidade que um dia dissemos não existir. Ruímos como o palácio, Que foi o nosso julgado e legado de eterno amor, Os dias somados de pele e arrepio, Transformaram-se na agonia que agora pernoitamos, Ausentes neste descaminhar, Cor violeta, Amortalhado.   Saudades esfaqueiam-me na canção que ouvíamos juntos, E nos embalava no orgasmo conjunto.   Cantávamos: um dia seremos céu e nuvens e não teremos medo do que está para além do nevoeiro”.   A nossa casa ruiu quando deixámos morrer as flores do nosso jardim, Morreu o nosso querer com o não querer do nosso querer, Morreu o nosso querer com o não querer da nossa promessa, Morremos juntos com eles.

As bocas, as mãos, a vontade e as palavras … entendem-se.

As bocas que não dizem as mesmas palavras, Não são dos mesmos beijos, E a pele não se confirma na outra.   As mãos que não estremecem, São as que ficam quietas, Na tremura de um abraço.   O beijo que enche a alma, Brota dos lábios que sabe a lua, E da boca que declara o mesmo desejo.   As bocas, as mãos, a vontade e as palavras … entendem-se.

Nem sempre o mar destemido e determinado é tempestade!

Aventuro-me mais agora do que outrora, Arrisco mais a lua, O luar, O mar, E a solidão.   Ouso mais agora do que outrora, Tento mais eu próprio, Escolho de dentro de mim, E a junção de estar só comigo, Não me causa temor da dor.   Escolho mais agora do que dantes, Escolho a enseada, O oceano, Os poemas e os carinhos, E não me basta receber.   Se receber for cobrar, Torturo-me mais do que sempre, Porque elejo, Porque penso o que sinto, E não sinto apenas o pensamento ordenar.   Nem sempre o mar destemido e determinado … é tempestade!

As arvores nao morrem

As árvores não morrem de pé, Simplesmente as árvores não morrem.   Guardam segredos dos amantes na sua sombra, Gemem ao vento que grita, Reflorescem a seiva a cada estação, E em todas é sublime.   As árvores e as pessoas complementam-se.   Na sementeira de uma árvore, Na lavra de um livro, E no acto de amor da geração de um filho.   É-se então um homem terminado. As árvores e as pessoas partilham esta inacabada obra que é viver.

Ouso

Ouso esta aventura de viver, Carne desentendida é menos que amor.   Mistura de mãos entrelaçadas, Rosa-dos-ventos inanimada.   Sem direcção ou vento que sopre, No desencontro das palavras,   Não sei se arrisco viver, Se me entreter nesta metamorfose dilacerada.   De não encontrar ensinamento, Na descrição do que ouso.

Sal e agua

Sabe-me fresco o teu hálito! Sabe-me a ribeira revoltada de enxurrada invernosa, Desassossega-me pensar-te.   Sabe-me bem a saudade de ti! Cresce com o tempo, Mato-a com o advento,   Não me saberias tão bem, Se a saudade, Não existisse por falecer.   As lagrimas que verto são as mesmas com que sorrio, À tua chegada e à tua partida, São o riso e são o pranto.

Quase que me albergo

Imprudente fantasia de flores com borboletas morrendo nelas por paixão, O sal despedaça-se nas ondas que morrem na areia da praia, Pernoita uma névoa fresca que me sabe a saudade de um olhar, Nas longas dunas espreitam lírios revolvidos por cactos que se amontoam em canteiros bravios e assimétricos, Na madrugada o sol rompe a manhã que se ergue translucida, Este despertar de dia deixa a nu o que eu queria prolongar, este sentir, Caminho lentamente enterrando o meu peso nos pés que me sustentam, Quase que me suporto, Quase que me albergo, No meu peito quase estomago, Visceral baloiça pranto, choro e riso,   Madrugando-me rompo o silêncio das nuvens que me tocam quase como o meu nome, carregado de deserto.

Nesse escondido sorriso deslumbrante és, o que adivinho que sejas?

Nesse escondido sorriso deslumbrante és, o que adivinho que sejas?   Vem de longe o teu aroma feliz e amargo, Numa desconsonância condizente com o teu ser. Nas tuas pálpebras fechadas brotam sonhos que adivinho, Soltas luz em fragmentos de vida. Nesta adivinhação disruptiva, Sonho o teu sonho, Sinto o que tu sentes, Leio o que não escreves, Oiço o que não dizes, Não vivo o que vives, Vivo o que sinto que viverás, E esse feitiço, Espero-o ofertado, Na quebra da ilusão de não saber se: Nesse escondido sorriso deslumbrante és, o que adivinho que sejas?

Do céu aos tombos

do céu aos tombos, querubins alvorecem, iluminando a noite, dilacerada razão, morte aguda, inesperada, proeminente.   A dor constrói-se inventada pela estranheza

soltas o sol pelos poros

soltas o sol pelos poros, e cheiras a húmida terra que tanto gosto. as tuas mãos, nos fevereiros que antecederam a tua partida, cerraram o fogo e o gelo, matéria feita do mesmo sentir.   chegou-me a saudade estafada e suada. de tanto caminhar até ti.   a lua bocejou e acariciou-me o sono denso.