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Mostrando postagens de fevereiro, 2016

dor antiga

Já vi a solidão matar, Já vi a solidão libertar, Não é a solidão que dá ou retira, É a casa da solidão, Que faz da alma …  dor antiga.  

Mãos, pés e olhos

As minhas mãos escrevem as palavras que o meu coração não diz. Os meus pés percorrem os caminhos que o meu peito prende. Os meus olhos cegam e veem os que as minhas mãos e pés não deixam morrer em mim.

idealismo

Ter coisas para dizer não é sinónimo de saber fazê-lo bem. Ter coisas para dizer de uma forma estruturada, consistente e crítica é um caminho, e um caminho, tem tudo o que um caminho contém, esforço, tempo, lucidez, rota e alma de viajante. Sou a história de que faço parte, mas nem sempre sou a história a que pertenço.   Houve alturas em que fiz parte. Outras em que permaneci. Outras em que me idealizei num eu que evolui, em cada acordar. Um eu renascido. Um eu falecido. Um eu evolutivo e desconhecido de mim mesmo.   Há sentimentos que me abandonam com a idade. Melhor, que menos vezes me transpõem, ou ainda, cada vez menos me fazem mossa. O abalo da infância desvaneceu-se na adolescência, aí tudo era vulcanizado e fervente. Depois, a verdade construi-a de idealismo. Depois, o idealismo construiu a minha verdade. A seguir, o ajustamento colocou a verdade num sítio a que não pertencia. Mais tarde, o entendimento percebeu o desentendimento.   Agora e em cada dia que passa, percebo que o m...

outra vez infância

O tempo avança rude e impiedoso, destrói barreiras, preconceitos, e não se esquece que os novos serão velhos, e os velhos serão infância novamente.   Neste percurso só se esquece disto os jovens, mas o tempo implacável recordar-nos-á.

fora de horas

os dias superam, juntam e somam as árvores, na beira da estrada a sombra abate-se, crescem os dias, a noite acontece, já fora de horas a maré esvai-se, como uma mãe que abraça e reprende o céu salpicado de nuvens e pássaros.   as vinhas nos socalcos rasgados pela pedras e pelo rio, o frio de janeiro aguarda resistente um maio resiliente, esperançado de um abril, quase desistente.

O repouso da saudade

Repouso a saudade, Descanso e cuido-a como se da velhice se tratasse, Acarinhando uma sangrenta vontade.   Cuido repousando-a na margem dilacerada, De não poder abraçar o peito que me faz brando, E não gritar ao céu que me acalma.   Cuido-a cuidando do refúgio do reencontro, Onde me escondo e encontro. Eu, um livro, a viola e o cheiro a sossego das águas do lago do silêncio

Conservo o amor que amizade não exclui

  Quando já não me reconheço pergunto-te se me viste, E se tu também não souberes de mim, Sei que ajudarás a encontrar-me.   Passam-me os amores, Conservo o amor no amor que amizade não exclui.   Conservo e aporto todos os momentos Em que não soube de mim … mas tu sabias. Amigo.

Um homem só é um homem acompanhado dele próprio

"... Estes frios raios de sol trespassam-me mais do que o corpo, mais do que a alma. São como as palavras ensanguentadas que te deixei, são como as lágrimas dolosas que me devolveste e a raiva do entendimento da madrugada passada. Acabou. Agora sabes que a voz que te sai sem dares conta, e o olhar que presenteias sem abraço por entregar, não são vida que se viva.   Agora tudo está mais calmo. O mundo afigura-se sossegado e esquecido de mim. Há quanto tempo não respirava? Há quanto tempo não era só mais um homem no mundo? Há quanto tempo não era só mais um homem do mundo? Um homem filho de uma mãe. Um homem filho de um homem. Um homem pai de uma filha. Um homem só.   Um homem só é um homem acompanhado dele próprio.   Finalmente acompanhado de mim próprio. Sem mundo que se me recomende. Sem recomendação para o mundo. Um homem só é um homem se: isento. Um homem dilacerado pela voz do fado. Um homem rasgado pelo rugido interior da voz de um poeta na boca de uma mulher, um homem disfar...

Geralmente

Geralmente no convencimento da inteligência escasseia a humildade. Geralmente no reconhecimento da aprendizagem abunda a inteligência.

Intuição

Um ponto de partida é o esboço de uma ideia, alterada pelo pensamento em cada decisão finalizada pelo coração.   Um ideal é uma obra concluída depois de todos os pontos de vista alterados pelo pensamento, terem sido adoptados pelo coração.   A intuição gere todas as dúvidas quando as respostas não são suficientes, a intuição é toda a aprendizagem que o coração já fez, é a anti negação da adaptação do pensamento líquido.

Entendimento II

Não entendo o sentido da vida, não entendo o sentido que dou à vida.   Sei que terminando os sonhos termina a vida. Eu ainda sonho. Eu ainda leio. Eu ainda tenho música nas minhas mãos.   A minha felicidade são pequenas partículas de coisas simples, imoveis e que aniquilam o tempo. A minha felicidade existe nos livros que voltam sempre após cada derrocada. Entendo a vida na pacatez do recato. Não entendo o sentido da vida no bulício do desabamento   Sinto saudade, a minha boca sente saudade, as minhas mãos sentem saudade, o meu olfato sente saudade, o meu peito sente saudade, o meu sono sente saudade, os meus olhos sentem saudade ... a minha alma sente muita saudade.   Não entendo o sentido da vida, não entendo o sentido que dou à vida.

Entendimento

Não entendo o sentido da vida, não entendo o sentido que se dá à vida, não entendo o sentido que dou à vida.     As palavras são contrárias aos meus pensamentos, diferem do que sinto, é como se me tivesse filiado numa forma de viver que me castra a vontade e me faz duvidar do certo e do errado, da verdade e da mentira, aniquilando a minha forma de execução primária de vida. Tudo nunca se decide no primeiro ímpeto, pensamento ou vontade, tudo me merece acentuada reflexão e me castra a espontaneidade da felicidade, e, se alguém não for como eu, o tempo esgota-se no entendimento que não é necessário para o entendimento da vida.     Não entendo o sentido da vida, não entendo o sentido que se dá à vida, não entendo o sentido que dou à vida.

Dentro destas torres fortifica o meu peito

Dentro destas torres fortifica o meu peito, O que sinto, O que sou, O alvará que me habilita, O testamento que me atesta.   A noite cai, O dia não a espera, Em cada mão o destino não entardece, Em cada passo meu outro retomará o anterior, A cada dia outro lhe tomará o lugar.   Desigual, habito um lugar meu, sem possibilidade de retoma.

Sou desajeitado para viver

Sou desajeitado para viver, mas a simplicidade é mais do que sobra para estar vivo. Com meia dúzia de paisagens, acordes, cheiros, comida do antigamente, uns abraços e uns amigos e, sinto-me bem, por vezes até feliz.   Sou desajeitado para viver, é-me difícil olhar nos olhos de quem não empatizo. É-me difícil dizer sim, ou não, mediante a escuta da minha intuição. É-me difícil estar sem ser. É-me difícil ser e não estar. É-me difícil viver desajeitado no meio de gente com tanto jeito.   É-me fácil estar, ser e ter jeito, com quem é desajeitado como eu para viver.

dissemelhante

Olhámos-nos e trocamos sorrisos sobre música, Sentados sob o pó do chão.   Embriagámo-nos pelo cheiro em nosso redor, Arriscámos ser amigos,   Depois, agora, já não nos vemos mais, E quando nos cruzamos, somos apenas o tempo em que fomos amigos.   Construímos o tempo de ser, E a vida fez-nos ser nós.   E sendo nós, dissemelhantes, Já não somos mais, os dois rapazes sentados sob o chão de pó.   Um de nós deixou de o ser, sendo, Afinal, não habitávamos as mesmas estrelas do imaginário.

Extracto da gaivota metalúrgica I

  “ … E continuou dizendo-me: Escritos mil ensaios sobre a verdade, a presunção da inocência e da mentira, a fronteira entre o bem e o mal, a riqueza e a pobreza, o amor e o desamor. Tudo é sempre composto do lado onde se encontra a análise do interesse, logo, inquinada a sua resolução. Pensar num quarto escuro sem publicação da solução, promove o pessoal entendimento da vulcanidade temática. Promover o distanciamento da aprovação resolutiva, d ifunde a conclusão. Pensar com claridade requer o sossego da penumbra, na antecipação da verdade. A infelicidade é um estado egomaníaco e não egocêntrico, muito menos o é a felicidade. Quaisquer destes patamares são a chamada da companhia de alguém.   Compreendo o que me dizes Violeta mas eu vim para te ouvir, para entender o teu silêncio de penumbra, o teu recato, ou até o desentendimento, mas é-me difícil entender o teu melindre.   Bem sei que o é, se não repara. As gaivotas e os metalúrgicos são a mesma construção da natureza. As gaivotas são...

nenhum

Ninguém é tao bom como se apregoa, nem tão mau como o apregoam. Nem “o meu eu” é feito apenas de mim, nem o outro é apenas feito dele próprio. Nem as árvores estão sempre por vestir, nem os ramos estão sempre desnudados. Como a alma. Nem sempre nua, nem sempre vestida. Nem desnudada para sempre, nem para sempre coberta.   A alma vive de aconchego. De lar. De cheiro. De saudade. De verdade. De cegueira. De desvario. De presença. De mudança. De visão. De olfacto. De sabor. De e scuta. De mãos. De sono. De decisão. De salas comuns. De palavras compreendidas. De mãos. De obra. De pés. De caminho. De história. De estórias. De bocas. De sorrisos. De gargalhadas. De paz. De tempo. De noites. De maré cheia. De vento. De madrugada. De cuidado. De destemperança. De loucura. De natureza. De estações. De água. De céu. De sol. De estrelas. De enchente. De enxurradas. De música. De sexo. De abraços. De entendimento. De querer. De segurança. De paixão. De gritos. De poesia. De poetas. De sonetos. De ...

Viver não é uma fatalidade

Somos apenas uma pequena parte do que poderíamos ser, uma parte mínima do tanto que poderíamos alcançar, um minúscula partícula do horizonte que o nosso olhar alcança. Não são os factos ou as circunstâncias que nos determinam. O que nos determina é a intuição que nos prende ou liberta, é esse o diagnóstico da vida, que só o saberemos correcto, após a profilaxia do mesmo.   A vida não tem acerto ou erro, mas possui apropriadas ou desadequadas posições, é esse o risco de viver, é esse igualmente o desafio de estar vivo. A possibilidade e a circunstância são conceitos filosóficos da nossa existência, é nelas que assentam a precaução da decisão. Não somos escolha ou método das circunstâncias, somos desafio não predestinado, somos o poder de alterar posições.   O risco, o prazer e a alegria de viver são meros degraus a subir nos dias de decisão, a tristeza é o dia de decidir não decidir.   Viver não é uma fatalidade, é a soberba obra prima de construir uma vida. Viver é aprender a voar.

Terão sexo o frio e o vento?

“Terão sexo o frio e o vento?”   Não sei, respondi. O frio e o vento não me parece, mas o frio e a ventania têm-no certamente. São plural e géneros que se complementam.   “Não percebeste. Perguntei se tinham sexo no sentido de terem sexo em si, e não de serem ou não sexuados”.   Entendi. Então têm sexo e são sexuados.   “Questiono-me se serão homossexuais tal é a sua cumplicidade” insististe tu.   Não sei se são ou não são, não me interessa, sinto que são felizes, isso basta-me e abona-me. Já assisti a um concerto dado pelos dois e sei que são felizes, asseguro-te. Senão vejamos: o vento sopra ligeiro em mi bemol numa tarde de Outono, e o frio logo pressentindo a festa galga desenfreado sobre ele. Juntos criam uma fusão tresloucada e arrepiada. Dançam muito, dançam tanto, e tão bem.   E o mar?   O mar espião delicia-se em movimentos fortes e lânguidos, arrebatados e suaves, como dois amantes num mundo desocupado. Finalmente e como agradecimento a lua aplaude, lançando ondas brancas des...

erro nasce após a tentativa

Fomos distantes, Depois próximos, Depois de próximos a distância apunhalou-nos, Depois desconhecidos a madrugada apresentou-nos, E a claridade da manhã expôs-nos.   A substancia do tempo retirou-nos a distância, A proximidade, O conhecimento, A madrugada, E o amanhecer.   Finalmente percebemos que o erro nasce após a tentativa, E que a tentativa não mata o erro, Percebemos que o que nos separa é frágil, E o que nos apaixona não é suficiente, Acrescentámos à fragilidade, a ténue e complexa inexistência de nós.

analfabetismo emocional

Há pouco tempo atrás éramos analfabetos sem escolha. Éramos um País subjugado por um ditador, com excelentes ajudantes, espalhados pela maçonaria, igreja, militares e senhores feudais. Não havia escolha ou massa crítica colectiva, para que o povo simplesmente soubesse pedir que a guerra das colónias parasse, que o pão chegasse às suas mesas, ou que os filhos tivessem acesso à educação.   Passaram quarenta anos, a guerra acabou, há acesso a educação, o pão chegou às mesas, mas pouco mudou. Mudaram de mãos as coisas, mudaram de coisas a razão. O analfabetismo literário ou educacional deu lugar ao analfabetismo emocional e, isto não é inocente. É uma “arte” de repressão de um povo que luta mais por ter, do que por ser. O analfabetismo emocional é uma arma de subjugação e, não é inocente.

Apátrida

Apátrida emocional, Sem bandeira, nação, ou gentes do coração.   Apátrida intrínseco, Gentio sem religião.   Apátrida sem juramento, Sem desígnio ou tradição.   Apátrida sem possuir, Bens ou matéria - apátrida por afeição -

Palavras por ver a foz desaguada um dia

“ … Palavras por ver a foz desaguada um dia A foz são duas nascentes abraçadas. Uma que corre para sul e outra que aflui do norte, sem norte ou direcção. Encontram-se e ali mesmo se despojam e amam. Depois, desabraçadas fundem-se e seguem juntas de mão dada. Juntam o sal lacrimal e as ondas de emoção. Tornam-se mar.   A montante foram água doce, a jusante sal e alto mar. Foram corrente antes de se tornarem maré. Enseada antes de serem baía. Calma antes de correria. Ancoradouro antes de porto e enlaço antes de abrigo. Segurança antes de fuga. Juntas fazem do mundo nascente e foz, foz e nascente, e não se sabe onde começa uma e acaba outra, ou onde ambas se inebriam num ser.   Calcorreiam estradas de fogo em noites de lua cheia de amantes. Ouvem os uivos de amor que brotam das encostas nas noites loucas de paixão. Entre as serras que fazem das margens um percurso impensado mas escolhido. Das escolhas feitas, caminham de mãos dadas e abraçam-se. São espelhos de Narciso, inspiração de poet...

O mar vem, toca-me e parte.

Aguardei o mar e esperei que a maré me visitasse, O mar veio, tocou-me e partiu.     O mar não fica sentado a meu lado, Vem, toca-me e parte.   O mar não se deita a meu lado, Vem, toca-me e parte.   Partem as tardes cansadas em final de tarde, Cai a noite, amanhecem os dias.   Como o amor, O mar vem, toca-me e parte.

A loucura retira-me o calor do teu nome

A loucura retira-me o calor do teu nome. O lar. A ternura do silêncio. O cheiro. O orvalho da manhã. O sorriso das horas descendentes. O regresso a uma casa que nunca o foi. A música escutada com o vento que sopra no sopé da serra.   A loucura retira-me o abraço quente da vinda, sem ser de boas-vindas, pois o regresso é a normalidade da partida em cada amanhecer. A loucura insatisfeita e voraz que me devora antes de se devorar a ela mesma.   A loucura retira-me o destino em ant ecipação da morte de pedaços de mim. Primeiro, os braços. Depois, o peito. Depois, a cor do olhar. Depois, o sorriso. Depois, a esperança. Depois, os nomes. Depois, o património. Depois, o andar…e sobra sempre o mesmo sentir da loucura, quiçá transformada em liberdade, metamorfose da vida em felicidade, na ausência de crítica possível ou justificada.   A loucura voraz que me devora antes mesmo de se devorar a ela própria.

Quando um nome já não se escreve

Quando um nome já não se escreve, soletra ou tatua e a serra se desvanece com o tempo, aguardo que a chuva caia em diluvio e lave esta estrada onde aguardo o caminho.   Penso num céu carregado de céu, e de estrelas inundadas de estrelas entre as serras, junto à lagoa que guarda os segredos aguardados pelas margens.   Quando um nome já não se escreve, o tempo é o amparo da recordação tatuada no peito, o tempo e o vento são o âmago do sentir.   As bebedeiras com que brindo são feitas de palavras e acordes, possuem quente a escaldar no olhar e ternura adocicada a chorar pelos lábios.   A estrada que me leva não tem caminho, o caminho que me traz não tem direcção. Nenhuma e ambas, são a composição do tempo esvaziado em mim.

Sou um indivíduo vivo representando as diversas estações do ano

"...Sou um indivíduo vivo representando as diversas estações do ano.   Sou constantemente outro que não eu. Sou sistematicamente outra face, outro sorriso, outra voz, outro andar, e é no outro que sou, que deposito pedaços de mim feliz, e é no outro que sou que alimento pensamentos da felicidade que não sou. Em ambos sou louco e lúcido e em nenhum sou o que sou. Viajo entre mim próprio e ausento-me dos vários e reconhecidos mundos. Não me reconheço no que me conheço. No firmam ento alicerço o que sinto. Todas as caras com que me cruzei hoje me pareceram estranhas, mesmo as que já vi outrora nos meus dias ruinosos. Mesmo as que reconheço nos meus dias solarengos. Entre as estações e o que sou, demito-me e aceito-me. Entre mim vivo dentro de mim.   Sou um indivíduo vivo representando as diversas estações do ano. As de luz e as de penumbra..."

com mãos sobre os ombros

De olhos, lábios, mãos, peito embriagado e um olhar alucinado, um sofá empoeirado e roto em prol das estrelas de néon iluminando o alto de um hotel, palavras desgastadas e actuais, dos meus amores desavindos em mim, abraço-me na solidão que prefiro, na companhia que me faço e necessito.   Inspiro o odor que me é familiar neste recanto de mundo, onde uma velha viola é testemunha da minha história, os livros em desarrumo afagam-me nas minhas horas das velhas canções revisitadas, é assim há muitos anos, foi assim em toda a vida escolhida,   sem uma mão no ombro, com as mãos sobre os ombros.

A liberdade só se entende só

A liberdade só se entende só, E apenas só eu, sou: - Solidão, silêncio, reencontro, entendimento -   No cheiro que saboreio, No sal que me soluça no olhar, Na compreensão que necessito e albergo.   Impaciento-me com vocábulos impensados, De insuficiente sabedoria barroca, Nasce assim em mim a saudade de mim próprio.   Já fomos juntos o destino, Em cada nascente e geração, Somos lua e amanhecer... Separados, mas somos quatro.

Já não pertencemos a nós mesmos?

“…Sofrido por mundanas palavras que não passam de construções de vontades, que não passam de vontade de intenções e que de verdade são tão escassas, como a possibilidade de a verdade ser deus e o diabo sentados na mesma cadeira.   Sofrido por ver palavras escritas sem boca assumida de estados alegres, tristes, eufóricos, sei lá mais o quê de realidade irreal avaliada por um qualquer numero de “likes”, que adequem uma ideia roubada num sitio qualquer, impensada e incapaz de ser a simples verdade de três minutos de reflexão intrapessoal.   Sofrido por ver que as pessoas são apenas as pessoas que gostariam de ser e não as que são.   Sofrido por as palavras já não pertencerem a ninguém, nem as ideias, nem os ideais. Ou se, se pertence a algum lugar ou não se pertence a sítio nenhum.   Já não pertencemos a nós mesmos? As palavras que se gostam são as palavras da boca de alguém, os gostos, as roupas, e toda a alienação colectiva de não sentir, para não pensar? Ou não pensar para não sentir?...

Dar: - palavra escassa, invulgar, quase extinta

É de porcelana o meu eu. Loiça de especial ocasião. Na vulgaridade destemida de me perder encontrado, encanto-me. Encanto-me num sentido desilusório da soma das gentes que vou afectando, distanciando-me. No meu caminho serei outra coisa qualquer para alem do que sou.   Já não questiono se creio. Não creio sequer se questiono. Gosto da serra que desci desembalado e isento de opinião, desprovido, e esvaziado das raivas que me assolam, de incompreendidas compreensões. Desci sozin ho, desci em paz. As estrelas magas juntas e bailarinas em bicos dos pés, saudaram a minha passagem. Nas moitas a bicharada escondr-se dos humanóides. Sábias. Sinto uma voluntária força dentro de mim, que se perde nesta terra que frequento. Indeciso, pressuponho-me num chão onde pudesse dar e fazer. Sem matéria atrás de mim, apenas afectos e letras juntadas para ensinar. Somente números primos e compostos da teoria dos números, compondo o fundamental teorema da álgebra, a quem não tem sequer iogurtes dentro ou fo...

Mudaria muitas coisas

“…Mudaria muitas coisas, muitos momentos, mãe. Gostaria que continuasses a ser chata, gostaria que continuasses simplesmente a ser. Gostaria do que não gostava, quereria o que não quis, e sim mãe, mudaria muitas coisas, tantas vezes, porque a vida me retira certezas todos os dias, porque os dias me retiram o absoluto da vida, porque as horas é somente o que posso ir tendo, sem teres recordação sequer de um nome. A casa está esvaziada, sem sentido. As flores notam, as noites reparam, as manhãs solicitam. O pai? A neta? Eu? A gente vai-se cuidando, somos poucos, neste tempo relativizado que por vezes achamos ser vida…e choramos ... e continuamos”

Palavras por ver o sol um dia XXVIII

"...Um frio de rachar fragmenta-me a face. Sinto os olhos encovados, como se se escondessem do frio abrupto e inclinado, que me faz caminhar rápido em direcção a casa, sabedor que me acolhe um terno sentir, uma doce segurança e um confortável aconchego. Cada passo a mais dado, é um passo a menos por dar. O rio, transeunte confirmado e normal da cidade, adormece invernoso e enfumarado no seu leito. Apetece-me confrontar a minha resistência e balançar-me na noite cândida e inacabada. Sôfrego, disperso-me de mim próprio e elevo-me nas minhas recordações.   Outrora, verti aqui no extenso deste jardim, papoilas coloridas que me enfeitaram de luz a alma. A alameda construída, depois de desmanchada a fábrica velha, modificou a minha infância e adequou-me a uma existência induzida, elegível do agrado que julguei ser importante existir fora de mim. Uma agradabilidade distante e distorcida, construída por uma disparidade eloquente, de aceitação e presença. O menino que se passeou do lado ma...

festa do silêncio

É na festa do silêncio que por entre as persianas escuto a lua e revisito no meu peito amigos idos, amigos faustos.   É na festa do silêncio que ouço ecos e brados gloriosos, de tempos idos, de tempos afortunados.   É na festa do silêncio e no sossego do chão, que me prendem as raízes de vida ida, da vida bem-aventurada.   É no silêncio, sempre no silêncio, que escuto os mais estrondosos quadros da minha vida, desenhados com amigos no tempo presente, que o amarelecido papel falecido na velha gaveta não tem termo na validade, não tem prazo na recordação.

palavras por ver o sol um dia ... XXVII

Acordei a madrugada e levantei-me com ela. Tínhamos combinado escrever uma carta juntos, com as palavras que não me explodiram quando estiveste junto a mim. Com os socalcos de vontade que se desmoronaram na minha cabeça. Guardo as palavras para o próximo Fevereiro na Torre do Tombo. Estúpido. Estúpido é, como me sinto bastantes dias da minha vida. Bebemos café e foi-se embora.   Assim que saiu entrou a manhã. Vinha fresca. Tinha a frescura de quem tinha bem descansado. Enrolava nos lábios um sorriso mesclado de arte moderna que me faz lembrar, Amadeo Sousa Cardoso, esse pintor que necessito revisitar de tempos a tempos, esse homem que me dá cor às palavras, que entendo no seu traço. O teu olhar, carregava no entanto a crueldade descrita da pintura da Paula Rego. As tuas mãos. Não, os teus dedos. Esguios e habilidosos, são como os de uma estrela-do-mar, esse poema fingido do Jorge Palma. Gosto de ti, manhã. Tens sardas. Adoro mulheres com sardas. A minha mãe tem sardas. Mas isso não faz...

palavras por ver o sol um dia ... XXVI

Com medo ninguém escreve. Se não se arrisca no silêncio branco de uma folha de papel, onde se pode fazer das palavras gritos e gemidos à dor, qual será outro, o momento, de coragem?   - Poderia aqui confirmar o meu pai ou desconfirmar a minha mãe. Poderia ressuscitar alguém ou matar um outro alguém, mas tudo se manteria inalterado, igual, decomposto, se a coragem inalterada se mantivesse. Quem não tem coragem não escreve. Não escreve a des coberta improfícua, escanzelada, insana, magra, arrogante, e vendida, que se agoniza no descrever da essência humana, auto incluída.   - Quem não se debate, não se descobre. Quem não foge, não escreve, e a poesia não é amor. São farpas ensanguentadas de quem vislumbra luz no pesar e claridade na penumbra. Quem não caminha, retrocede. Os versos que te dedico não são poesia, são a alegria vingada de quietude. Não os lerás, e, assim, jamais saberás o timbre dos meus silêncios ou anseios, das minhas enxugadas lágrimas, da angústia da minha metade passada...

A noite nasce e morre com o dia

A noite nasce e morre com o dia, A vida também, Nasce e morre com ela mesma, E a morte não é diferente, Rebenta e expira com ela própria.   No intervalo da noite existe o dia, No intervalo da morte existe a vida, Em todos os luares a lua ilumina a noite, E em todas as madrugadas a luz é a vida, E a vida é, o intervalo concedido.   As flores são os olhos de todas as mães, Tal como as flores e as papoilas, Os olhos fechar-se-ão, Restará a saudade, Do intervalo concedido.

Creio nos olhos vivos das crianças

Vivo numa pátria justa de um povo felicíssimo onde metade algumas vezes e todas as demais não se expressa, não tem opinião, ou vive socialmente descansado com o presente e o futuro dos seus filhos, onde as eleições tamanha vitória adquirida após cinquenta anos de inacesso proletário, se esfumou na mesma manhã, em que o povo saiu à rua de cravo na mão, sem ter dado conta de que saiu à rua de cravo na mão.   Vivo num país sossegado por dentro, na desertificação do mesmo país que são dois, que são mais do que dois porventura, que são mais do que muitos países com certeza. A inocência da divisão não tem inocência. Quanto mais dividido mais subjugado, a unidade não seduz, não dá jeito para reinar.   Vivo num país distraído dele mesmo, onde a existência de caridade alimenta a barriga de quem alimenta. Não se estimula o pensar. Pensar com fome é não existir pensando. Os mesmos, sempre os mesmos, neste Abril quarentão, dividem para reinar.   Creio nos olhos vivos das crianças, um dia.

A minha mão sentiu a tua, surpreendida

Seja valsa, tango ou aquelas danças modernas, quero sentir-te o tacto, Quero tactear o teu ser fascinante como o faço com o olhar, Quero ser luar de lua, calor de sol, acorde de música e intenção. Palpito o teu ser todo por completo, a cada madrugada rebentada de dia, Quero tocar-te a alma com o coração, Sofrer a dor do medo de querer, Ocupar a tua mente inteiriça por te apetecer.   Quero abundantemente, Querer tanto, Querer assazmente, Loucamente querer.   Numa manhã de luz incandescente soube a tua designação, O cheiro, e o sorriso. Quando senti a tua mão acenar-me em boas-vindas, Saboreei até uma lágrima.   Depois, Estremeci, O caminho, o sonho e a poesia derramada de realidade aconteceram, Numa vida inteira de mãos entrelaçadas.   A minha mão sentiu a tua, surpreendida.

Despeço-me de mim que já ausente me sou

Despeço-me de mim que já ausente me sou, Amortalhado ao que me sobra do olhar, Espero fumo branco como escolha papal, E três amigos revisitados, Na sombra que reflecte no peito mais do que o sol, Deixo os pinhais de cheiro adocicado da minha lembrança, E na alvorada, parto, Parto sem dor como a dádiva de vida no corpo de uma mulher mãe.   No céu, um arco íris rasga em celebração a vida, a chegada, o encontro e a partida.

Sou vida na minha vida

Afastado, Verto lágrimas de Julho, Invernosas de saudade. A tua figura transfigurada, Sinto-a no meu rosto, Arredada de mim, em mim. O sol, Em sorrisos, Tenta animar este pedaço esfarrapado, Que sobra de mim, De tudo o que resta em mim.   Esta madrugada, Soube-me a vento rasgado, E a solidão de esperança habitou-me, Sei que o tempo e as estações, Levarão o meu dilúvio.   Voltarei a sorrir, Assim estes passos, Sejam aguentados e andados, Em tudo isto sou, Em tudo isto estou.   Sou vida na minha vida.

A loucura perdoando-se a ela própria. (Excerto de um capitulo Cardílium_II

“…A loucura perdoando-se a ela própria. (Excerto de um capitulo Cardílium_II)   “… Ténue, esta fronteira entre a loucura e a vida dos outros disse eu.   Como assim disse ele sem me olhar, aquele homem com ar de mártir, de aspecto moderno por fora, cheio de amarras por decifrar.   Voltei ao meu raciocínio. Normalmente a verdade da loucura está na normalidade do "não excêntrico" dentro de nós. É uma questão politica/social, uma questão de liberdade/liberdades, e não se vive na/com a vida dos outros, é endógeno e introspectivo, e não pode/deve ser o promontório da liberdade alheia.   A verdade da loucura não pode ser a mentira dos gostos, sonhos, ideais, ideias, paz, mar, cores, cheiros, tempo, e/ou mulheres, e nunca por nunca ser, se pode “vender” a alguém. No entanto pode ser uma noite inteira, um dia, uma madrugada, um olhar, um caminho, um luar, um bando de pássaros no céu...   É sempre um livro por abrir.   Aquele homem de ar moderno e envelhecido, de sorriso escancarado e ...

Desinquietada esta quietude

Desinquietada esta quietude que se debate como a maré de encontro à rocha que a vai abraçando em convite, mas que nunca fica abraçada ... - porque as ondas não têm fim -   Assim abasteço a minha alma, tentando entender a quietude desinquietada ... - no entendimento do mar -   Aqui neste prado da memória cheiro o mar, no orvalho adormecido que me mantém ... - que me sustem -

Castrei-me na abundância de me saber no mundo

Quero ver onde começa o mundo, Despi-me. Tal qual como a ele acedi. Vesti-me. Tal qual como dele me despedi. Na viagem mergulhei no que aprendi ser a vida. A descoberta. Uma descoberta cruel de despedidas, De desamores, De palavras desditas, De metamorfoses, de emoções doridas e socorridas.   Quero saber onde começa o mundo, Caminhei. Nos passos que dei, pertenceram-me noites e madrugadas de acesas fogueiras e poemas à desgarrada, Pertenceram-me homens e mulheres soprados pela chuva e molhados pelo vento, Despertenceu-me o entendimento e a ganância, Os rostos lilases de um continente de olhos grandes, negros e vivos, mais a fome.   Na promessa de entendimento de gentes e lugares, de paz e sabedoria, Na ânsia de saber onde pertence o céu carregado de nuvens e movimento, castrei-me.   Castrei-me na abundância de me saber no mundo, E na esperança de o mundo me saber aqui.

Dissemelhança

Dissemelhança   Nem núpcias, Nem funerais, Nem festins adornados de nada, Nem palavras pinceladas pelo rigor do pintor, Nem hipócritas boas festas, Nem gente apenas e carne,   Antevejo mais do que presumo, Só de cálculos dou errado e de acertos qb, Miséria que me abarrota, Em fatos caros de marca, De nus enviados por convite, Faz-me da vontade casta.   Sou de pranto, De alma franca, De pouca gente em mim, De sossego, Solidão, De ruínas e jasmim.

De que me vale uma ponte sem um rio por juntar?

De que me vale um séquito de seguidores se na minha mesa há cadeiras por ocupar. De que me vale a palavra sem uma boca que a pronuncie. De que me vale um sorriso de boca ausente, beijos gráficos ou em diminutivo sem lábios para beijar. De que me vale o que não me vale? De que me vale uma ponte sem um rio por juntar?

Não entrego o meu coração só porque um peito está devoluto

Não entrego o meu coração só porque um peito está devoluto, Não entrego o coração ou empresto, Divido-o com ... - devolução partilhada -   Não entrego o coração à ordem ou a prazo, Invisto na decisão, Sem certeza ... - no acaso -   Não entrego o coração porque quero entregar o coração, Já o quis entregar e ele não me obedeceu, Já o amarrei e … - desprendido do meu peito cedeu -   Não entrego o coração que me faz falta para moer, O que tenho em sorte viver, Divido a alma guardiã das ruínas … - de um coração atestado - ... devolução partilhada no acaso, desprendido do meu peito cedeu, o coração atestado ...

Devagar, mas enlouqueça-se

“…A loucura perdoando-se a ela própria. (Excerto de um capitulo Cardílium)   A loucura é tao normal como a sanidade. Enlouquece-se no percurso entre duas verdades. A verdade da loucura da verdade, e a verdade da loucura da loucura. Entre elas existe a compreensão cultural da indução do próprio termo que define loucura.   A loucura são os dias acontecidos, as horas por acontecer, a tomada de resolução, o resultado, o medo, a verdade ajustada ao fim, os meios que justificam a deci são. Existe sempre a loucura do meio-termo, justificada pelo equilíbrio. A loucura aguda justificada pela consequência. A loucura disfarçada, proporcional à decisão.   A loucura não é um termo ébrio. A loucura é um termo consciente pela diferença. O louco não parece louco, e não há loucos falsos. “Loucuro-me” no pensamento divergente de mim próprio. A loucura não é social. A loucura é intrapessoal. Não é louco quem quer. Quem desfaz ou constrói. Não existem loucos. Existe a loucura de quem lê, vê, e sente para ...

As madrugadas são as noites despertadas do sonho inacabado

As madrugadas são as noites despertadas do sonho inacabado de vida injustificada, do pão endurecido e salazarento dado aos filhos anúncios do amor.   Restava o salto ao assalto do sonho sonhado, de dar colo aos filhos de amor gerados.   Restava a liberdade trocada pelos sonhos da madrugada, sonhos de pão e igualdade.

oposto e dissidente

Estonteadas palavras por ver um sol um dia, por verem o sol um dia (excerto) “… Como se a terra fosse brava de chão, o chão labareda de vulcão, o mar gelo de outra galáxia, a lezíria montanha de outra planície e o deserto habitado de gente. Assim são os meus dias urgentes de calmaria, o mar sedento de promontório, o equador tranquilo e quente invertendo o céu, confirmando a terra a um deus descrente dele mesmo, como se a terra fosse brava do chão que eu piso, no peito onde ad ormeço. As nuvens descem em fim de tarde de encontro ao chão, esse chão de terra em grão, que me espera no fogo que arde no velho fogão cansado, na esquina entre as janelas de vidros empalidecidos pela idade. Adivinho mais do que creio na música que o vento toca nas árvores. Creio mais do que adivinho no cheiro que arde do fogo que se plantou em mim. O rio do chão da minha terra converteu-se, nasce na foz e desagua na nascente, como eu gostaria de ter nascido assim, oposto e dissidente …”

Estonteadas palavras por ver um sol um dia, por verem o sol um dia (excerto) II

Estonteadas palavras por ver um sol um dia, por verem o sol um dia (excerto) II   “ … E assim nascido oposto e dissidente, rebenta em mim como a nascente de um rio um querer desconhecido, apetecido, outrora negado, ignorado, encantado. Encanto-me das pontes que me ligam, das margens que me abraçam. Pouco sei sobre a direção da água ou do vento, pouco sei sobre as marés, pouco sei sobre as folhas caídas deste chão de terra brava por onde me quedo e alento.   As estações revigoram -me a cada mudança. A chuva sabe-me tao bem quanto as noites amenas e enfeitiçadas. Solto todos os meus sentidos à debandada dos pássaros que rumam a sul. A oeste, o mar guarda as noites que me velam.   Gosto do chão de madeira comprida da tua casa. O chão da tua casa está afinado em ré menor, oiço-o nas passadas que dou, como a canção do Zeca: “os índios da meia praia”. O tecto da tua casa tem desenhado uma toalha de linho sem igual, tal como o céu tem as estrelas. As velhas e rangentes escadas têm escondido j...

fogo

O fogo arde distante e queima perto o silêncio das palavras desnecessárias do sentir. Inexplicável este sentir, oriundo de vagabundo que atracou na minha alma como se fosse um abrigo de mar. Adormeço e acordo no perfume rasgado do céu, guardado nos meus olhos pelos teus.

madre pérola

Álgebra das palavras Madre pérola, casta, namoro, jardim, divido, peito, mato, horas, desfeitas, construídas, basta, muita, paz, deleite, guerra, adentro, mãos, beijos, bocas, namoro, jardim, madre pérola.

Quando o corpo cede segura-me a alma

Quando o corpo cede segura-me a alma, Quando cede a alma segura-me o que vivi, Quando cedo como um todo seguram-me os amigos, E assim retorno ao amor excluindo eu próprio incapaz de me querer bem quando mais preciso de mim, E assim retorno ao meu corpo, À minha alma, Ao meu amor, Entre um bule de chá, um abraço, a amizade do amor e o amor da amizade, Entre uns dedos entrelaçados de umas mãos escaldadas de coração.

Os teus olhos abriram-me as janelas da minha cegueira

Os teus olhos abriram-me as janelas da minha cegueira; O trovador da miséria do encantamento voltou a crer na humanidade aproximada, Em todos os prados verdejantes te vejo solta correndo descalça, Sem medo da desgraça, Gritando o meu nome num abraço. O sol rasga a cegueira tal qual canta o poeta num ensaio à lucidez