Postagens

Mostrando postagens de fevereiro, 2010

Noite em Constância

    Ingressado sem prévio aviso, Entre rios a enxurrada, Onde antes era a terra, Existe somente água, Lavo assim as minhas mãos, Onde antes me passeava.   Serpenteado entre serras, Um fio de água brilhava, O sol no desfiladeiro, Era da cor da prata, O rio azul esperançado, Desaguado estado de graça.   Não podia fazer a foz, Senão em terra de poesia, Vila flor, calma, Tejo, Onde o amor desnascente, Cantou Camões mais que ausente, Fogo ardido e amor presente.   E onde o Zêzere descamba, Antes de se irmanar no mar, Deus faz da margem amante, Do rio faz a tangente, Da noite faz o luar, Constância é... para se amar.

Sim...lêncio

  Vou escrever uma página em branco. O branco é como o silêncio. Juntar-me-ei com quem comigo partilhe o silêncio não fazendo dele um imenso ruído insuportável. Abraçarei quem o não tornar pesado. Amarei quem comigo faça de uma página em branco um silêncio amável e partilhado. Admirarei quem comigo seja cúmplice desse precioso e necessário bem da existência humana. A terra cada vez tem mais ruído. Ruídos são páginas escritas mais do que lidas. Inflamadas do um se querer dizer não dito. Do um se querer mostrar nao mostrado. De um se querer ser não sendo. Escrevo em branco assim, o meu nome cristalizado em silêncio, névoa e fogo. Escrevo pintalgado de frio, quente, e temperado. Escrevo sinónimos rebuscados de adjectivos que não se expressam isoladamente num sentido pensado e conferido, mas falhado. Escrevo o meu nome e o nome de todos os que em branco se passeiam pelo silêncio das madrugadas, feitas de um mais que pousado nevoeiro numa planície semeado. As palavras por vezes só atrapalha...

Transformado

  Nunca encontrei o caminho para o coração de uma mulher. É a rocha mais dura que Deus fez. É impossível enganar uma montanha. Sendo ela rochosa não é tão dura quanto o peito de uma mulher. Quando de bem, é um ser amoroso e maternal. Transforma-se com a estação e o tempo. No seu auge de vingança é uma cordilheira intransponível. Um dia conheci uma, era dócil, pequena e franzina. Enorme de coração e disponibilidade. Carinhosa e meiga, atenta, disponível, admirável. Ouvíamos a mesma canção. Viajávamos e vivíamos cada dia que se nos apresentasse como se fosse o ultimo. Vivíamo-lo de uma forma exclusiva. O mundo parecia não ter mais vida para além da vida que lhe dávamos. A temperatura era amena mesmo que na serra nevasse. A chuva era uma dádiva e o sol um aconchego. Aos poucos as palavras ficaram escassas de sensibilidade. O caminho ia para o mesmo sítio mas sinuosamente os olhares plantavam-se em desacordo. Começou por ser um monte de areia. Cresceu e floresceu uma pequena montanha. A pe...

Sonhado e só...

  Tomei banho e fiz-me à estrada. Atravessei os campos baptizados de lezíria. Estão revoltados do amanho e da apanha. São neste momento terra e água deitada. Há uns meses eram verde milho. Foram descamisados. Depois de passar o tempo a meio caminho além Tejo depois de descender o Riba Tejo, cheguei à lezíria habitada. Que bem me sabem estas milhas chuvosas e escuras, de uma noite trespassada por um cd velho e riscado, de musicas que cantarolo de cor. Esperavas-me. Subi além Tejo e fui contemplar o mar. Sentia na boca o sabor de umas amêijoas ácidas a limão. Senti uma acidulada vontade estomacal de ter os teus lábios por perto. Na colina feita de uma ravina escarpada, estende-se a minha praia velha e cheia como um vale furado. As músicas que ouvi até ao meu pedaço de mar abençoaram os elementos. A espuma salpicava a areia. O breu da noite era confortavelmente matizado de cactos esponjosos que tornavam o caminho macio. Abracei-te. Beijei a tua boca feita de lábios grossos e senti as pern...

Entusiasmo

  Abençoada cadeira neste mês sentado. Neste mês de convalescença, de pensados planos e projectos. Uma nova vida esta aí. Após tanto tempo a fazer o mesmo, do nada vem um novo desafio. Uma nova filosofia, uma oportunidade de fazer diferente aquilo em que acredito e teimo ser capaz de melhorar. Muitos quilómetros me esperam, novas gentes, novos costumes, novas estratégicas e acompanhamento. Darei o melhor que sei e posso, como sempre. Aos que durante tantos anos me aturaram um muito obrigado. Estarei por cá meia dúzia de dias por mês. Estarei no meu sítio a fazer o trabalho de casa. Sonhei com isto. Fiz por isto e ainda não acabei a obra. Não deixarei falecer este entusiasmo e o medo será a minha fé e vontade.

Figurante

  Reparei naquela noite, Num olhar suspenso no ar, Não tinha direcção, Tinha intenção, Beijos de olhos, Balançado e luar.   Presumi que da alma, Se tratasse aquele olhar, Preso nos olhos sôfregos, A Paixão, Como missão tinha, Me encantar.   Não adormeci, Na noite fria, Nem bonança, Ou coisa que o valha, Dependurei os sonhos vãos, Na fresta pendente da noite calma.   Sonhei com o mar, A enxurrada, O despropósito, E o desconsolo, O olhar suspenso no ar, E uma figura grávida, de dolo.

“Vai mas é trabalhar para as obras”.

  É bom trabalhar nas obras. Nas obras literárias. Nas obras cientificas. Na tremenda obra que é a vida, e vive-la como uma única e exclusiva obra que é. É bom construir. Desconstrução é o início de uma construção qualquer. Construção criativa, empírica, investigação etc. O homem sonha e a obra nasce. Portanto, trabalhar nas obras, não é na verdade aquela interpretação tacanha, frívola, pequenina e ofensiva que chega a ser racista.   Hoje, ouve um condutor qualquer numa rotunda onde eu não sei andar, nem a forma como se anda, que me mandou num vociferado calão, depois de varias palavras ofensivas e de eu lhe ter feito uma coisa com os dedos que me gritou espumando: - “Vai mas é trabalhar para as obras”.   Aqui fica a minha resposta. É bom trabalhar nas obras, tal como eu concebo o conceito obras, ó papalvo. Para além do mais, eu trabalho nas obras e gosto. Fiquei a pensar no Mercedes não sei das quantas que ele ostentava. Era preto. Sim preto, porque parece que a moda agora ...

Conta!...Diz!...

  O inquisitório interrogatório não parava já ia para mais que três horas. Já tinha desabotoado a chuva dentro de mim. Mordia a raiva nos meus lábios até ensanguentar a saliva. Sabia bem o sabor a sangue em frente aquele que me batia, sem que dor eu sentisse. Perguntas e respostas, e eu sem palavras desfolhadas. Nem uma palavra mais que um não, e, uma esperança semeada ali mesmo dentro de mim, em como tudo haveria de terminar. Admirava os olhares sangrentos da ignorância policial e cúmplice trocadas por aquela laia. Os risos, as ameaças, as seduções. Não tinha o que lhes pertencia. Estavam enganados. A única certeza era o meu corpo fraco e marcado. O meu olhar cinzento, desprendido e desimportado. Conhecia o meu desconhecimento e nada seria ali mais, que um não. Talvez saísse um não sei. Estava com dúvidas. Como poderia eu ser procurado se nem encontrado me sentia. Não era ladrão, nem roubava auto-rádios ou automóveis. Tudo bem, consumia umas substâncias ilícitas ou menos lícitas. Mas ...

Intomada

  O problema no processo de tomada de decisão, não é a tomada de decisão em si, mas sim a não tomada de decisão que vou chamar “intomada” de decisão. É aí que reside o problema da tomada de decisão, na não tomada de decisão. Quando se toma a decisão, metade do problema está resolvido. Isto deita por terra, todos os estudos académicos e fórmulas acerca da temática.   Uma questão filosófica afinal!...que, como todas, tem a sua complexidade na sua própria simplicidade.

Ventania do xaile pelas costas

  Por cada passo que dou, O vento forte recua-me, Repito, Passos, Melhoro.   Firme, Forte, Seguro, Sou, Inocência.   Peco, Sabedor do erro, Do sabor do pecado, Que na mente existe, E na alma não.   Crescimento, Erro, Presença, Intrínseca, Oportunidade.   Minha, Tua, Nossa, Dos outros, De todos.   Volúvel vontade, Macia, Dominada, Química, Anunciada.

Sair por aí

  Incendiado um burburinho delinquente e malfeitor exaspero. Espero pela véspera de um fim-de-semana e da manhã que o antecede. Está quente o chão. Tão quente como as mãos que caiem nos meus braços. Nenhuns dos dedos são iguais. Tontaria minha, tudo depende do ângulo em que me olhar. Preciso muito mais de me olhar do que me olhem. Morreu o canteiro semeado de erva que não era de ninguém. Erva crescida por vontade própria, que sem ser obra de ninguém, enfeitava aquele triangulo de quintal. Morreu de madrugada pela geada. Morreu queimado de frio e orvalho.   Preciso de viajar. Estar fora. Desenjoar-me. Ouvir uma língua que não entenda. Pedir. Sentar e deixar-me estar no degrau escolhido, e observar. Pintar por dentro de invenções as minhas telas de palavras e emoções. Preciso de não me reconhecer, preciso de não me conhecer. Quero entender e desentendimento, fugir do reconhecimento.   Preciso que os azuis sejam céu e mar outra vez. Preciso que o pó se levante cedo com o sol. Sonho que as...

Obrigado mesmo

  Gosto de ser inspiração. Gosto de ver palavras e ideias aproveitadas, não me importo é um elogio. E digo isto porquê? Porque vi um texto meu ( não registado na spa ((que quer dizer sociedade portuguesa de autores)) o que significa que não tem dono quando não registado ) escrito não por mim, publicado num sitio que não o meu. Vi mais além, ideias e palavras que essas podem mesmo não ser minhas. Aliás as palavras não são minhas e as ideias podem ser de todos e não serem de ninguém. Agora a construção de ideias, com adjectivos iguais diferidas aqui e ali, provavelmente com ajuda de um dicionário, parece-me coincidência a mais. Entendo-as como um elogio e fico grato por me saber fonte de inspiração. Um obrigado honesto, do fundo do meu mais puro eu, do fundo da minha essência. Obrigado mesmo.

Enseada

  O fundo dos meus olhos cala um choro inadequado, Uma enseada da passagem do Bojador à Esperança, Que cala mil ninfas enfeitiçadas, Venenosas, arrebatadas, Pecados meus má fortuna. O fundo dos meu olhos calam lágrimas e sal, E um mar revoltoso. No fundo dos meus olhos existe uma revolução, Ainda crente na igualdade, E exonerada de facilitismo, Existe um bailado balançado de músicas lindas, Música conteúdo e forma, Ou não seria balanço. No fundo dos meus olhos existe um trilho para o coração, Vermelho vivo de motim, Lilás brando de sentido. Existe um fado de lágrimas, E um amor de sorrisos. No fundo dos meus olhos existe solidão, Decididamente solidão, Paixão, Paredes brancas, Sexo, Momentos. E novamente eu. Com tudo o que existe no fundo dos meus olhos escondido, Existo.

04:21H

  Atravessei o campo sem vivalma. Cheguei à cidade e tudo me parecia existir aqui. Passei sem direcção e rumei a casa. Sem vivalma em casa senti-me bem-vindo e cheio. Estava quentinha e cheirava. Lá fora ouço os automóveis. Ainda vim trabalhar um pouco. Estou a embalar. O tempo foge-me. Tenho muito que fazer até Outubro. Depois existe esta nova fase, que está já já aí, no meu regresso pós-operatório ao trabalho. Não passa de uma nova fase.   Hiberno-me e embrenho-me nos livros para ler e nos mails para responder. Sinto a cabeça a mil ordenando-me o trabalho, a pesquisa, os dados para tratar e as conclusões a tirar para apresentação. Gosto deste sentir alienado que me ganho, deste sentir desligado do mundo, e ligado à terra. A terra é de todos, o mundo é de quem eu quiser ou escolher que seja. Terra e mundo são coisas diferentes sendo tão iguais de parecidos. Irei subir a rua do alecrim agradecendo a ajuda disponibilizada. Irei desce-la para trabalhar, para construir o que nem sempre me...

Simplesmente

  Acabado o mar visual junta-se a serra. Mais à frente um farol divide o mar de agitado, para menos agitado, réplica da emoção equacional que grita no meu peito. Aquela serra circulada por caminhos não principais, faz-me sentir que existe vida por ali não visível. É demasiado perfeita e com clima próprio. Há qualquer coisa física / espacial, destinada à iluminação dos amantes. A vegetação, as pedras, as construções, o mar do outro lado... e nós. Nós ali emudecidos, vidrados de uma natureza forte, de um cheiro denso e cruel, de um frio que desce pelas geadas, de uma embrutecida e animalesca natureza desejada. As barreiras fogem íngremes, de uma cidade plantada no fundo. No sopé vivem casas pequeninas e coloridas que vistas do paraíso são translúcidas.   Translúcidas, como a água que geme rebentada das encostas cultivadas de árvores prendidas com raízes:   - Sou eu prendido, gemendo água em gotas transpiradas de um corpo em descoberta,   descoberto, e sem presságio final. - Sou eu, trans...

A Fábrica

  Outrora era uma fábrica de armamento. Um espaço sem a elaboração convidativa ás modas das multidões. Vai quem gosta. Vai quem se sente por ali em casa. Quem tem a ver com o sítio. Quem se pode não sentar, ou sentar no chão. Espaço com alma, junto ao braço de prata, cheira a cigarros, café e sangria. Espaço de conversa e admiração. No mesmo espaço tocam e declamam Gonçalo Marques trio, Terylene, Mick Trovoada e os seus convidados, António Pinho Vargas e Hélder Moutinho. Salas a condizer, baptizadas eruditamente e ecleticamente por: sala Prado Coelho, Nietzsche, Wittzenstein, e Visconti.   Circula-se pela casa como se fosse nossa. Sem porteiros grandes e inchados e destituídos de cérebro. Local de paz decorado com um piano de cauda, um piano órgão no bar, contrabaixo a um canto, bateria de jazz e luz a condizer. Livros. Livros nos escaparates que se lêem e se devolvem. Local livre desprovido de vaidades elaboradas. Soberbo, sublime.   Uma boca linda em rosto cândido, de olhar negro e c...

Dia dos Namorados

  Amanha é dia dos namorados. Não sendo ligado a convenções e datas, não deixo de me sentir triste por não ter uma namorada. Uma mulher louca por mim, capaz de me entender e admirar. Ultimamente tanto sou admirado como desadmirado horas depois. Sou uma besta intragável. Filho de um deus secreto e selvagem. Socialmente difícil.   Não me rio muito e penso demais. Não ligo a roupa e sou desprovido emocionalmente de bens materiais. Gosto de falar do que a ninguém interessa. Gosto do silencio do arco-íris e do Jorge Palma, mais que de euforia. Adoro música mas não vou a discotecas. Adoro letras e números mas não resolvo equações em conjunto. Não gosto de dormir acompanhado. Adoro sexo e faço-o bem, com vontade, dádiva e entrega. Não gosto de lavar mais que o meu prato. Muito menos estender mais que a minha roupa. Com o decorrer dos anos não melhoro. Pioro. Acho eu.   Amanha vou escrever um postal com tudo o que penso de mim, que é muito pior e mordaz, do que aquilo que os outros pensam de m...

Universal

  Luzes candentes, Em forma de estrelas riscam o céu, Deixam rasto.   Figuras adivinhadas, Nacos de pó, Escrevinhado.   Passos calcorreados, O céu escurece, Emudece.   A terra curva-se, A beleza floresce, As árvores dançam à passagem.   Cadentes de brilho celeste, Leio a mensagem, Poder da imagem.   De infinito, De meninice, A face encarniça.   Prazer, Sublime, Doado.   Interligado, Indeterminado, Vontade minha.   Insatisfeita, Glorificada, Pequenez do meu ser.   Face a tamanha grandeza, Imparável, Incontrolável.  

Dúvida equinocial

  Entreabrem-se as janelas e jaz o sol decrépito lá fora. Os momentos são sentidos como um sentimento de viuvez. Sei, não ser de fácil entendimento, ver uma tempestade vindoura e de presença não anunciada chegar, assim feita de palavras abruptas que se tornam num sem sentido e sensatez. A sensibilidade das noites fartas de ilusão retira o discernimento aos motivos eloquentes e óbvios. A honestidade pode ser uma bruta faca aguçada de mau entendimento. O que existe por detrás das palavras não escolhidas, é desentendimento. O que existe no frontispício das mesmas podem ser boas intenções, e, não a besta da boca que as prolifera por aí. As intenções nem sempre são conseguidas. O que se consegue muitas vezes é o contrário do que se quer conseguir. É possível ouvir o contrário do que efectivamente é dito. Já me aconteceu. Já consegui que acontecesse. Como dizia a minha velha senhora e sábia mãe do meu pai, de boas intenções está o inferno cheio. E é isso mesmo. Intenções são coisas do diabo?...

Martin Heidegger

  O conhecimento dado de verdade é de uma possibilidade formal de sincera actualização do mesmo. Afirmamos a palavra verdade, quando indiscutivelmente pretendemos formar uma concepção em si ou nos outros de algo que por demasiado não pode ser contestado, algo que compreende e adquire determinada importância dentro do meio em que se vive, é simplesmente verdade por verdade. A dessacralização desde termo de uma forma ou de outra percuta a realidade de finita de uma inanição de um talvez mesmo outro, talvez a realidade positiva, isto é, a verdade, como não a conhecemos, apenas se torna verdade, como conhecemos, quando esta é comprovada verdadeiramente, essencialmente sua realidade, quero dizer que a “verdade” é diferente de “verdadeiramente” e “verdadeiro”. Uma verdade verdadeiramente verdade é mais possível que simples e unicamente verdade, pois a verdade verdadeiramente tem realidade positiva, enquanto que a verdade unicamente como verdade opõe-se a es...

Viver tanto como amar

  Viver é ir de encontro a uma decisão. Tocar, escrever, admirar, ver. Ouvir uma música que existe no reflexo de um espelho de água ou as palavras que sobrevivem num quadro, num movimento. O silencio introspectivo e a noite concedem-me isso. Já escrevi numa sala de espera de um hospital. Já acordei para escrever. Já escrevi depois de chorar. Depois de uma traição, de um nascimento e de uma morte. Já escrevi sem esperar e já sequei das ideias. Já escrevi para oferecer e para me dar. Não tenho caminho definido, apenas directrizes e improvisos que ganham conteúdo após terem forma. Gosto de entender fundamentos e saber de sinais. Gosto de inventar os meus acordes e colocar-lhes as minhas palavras. Já achei um desperdício não me dividir e dar. Já achei tal facto um mal necessário, devido à minha aceite e por vezes dolorosa necessidade egoísta de mim mesmo, da minha loucura e teatro montado. Um País faz-se com homens e livros. Sou um homem. Amo os livros, e, amo muito mais do que o que parec...

Nunca só. Mesmo só.

  Rasgo o meu corpo em pedaços que solto pela rua fora. A eternidade perpetua-se no lugar em que o momento existe. O infinito é indefinido, ilimitado e imortalizado. As tempestades que me habitam na forma de medo, insegurança, ansiedade, raiva, inadequação, serão bonança frequentada de paz, amor, entendimento, crescimento e adequação. O tempo furta-se ao mau sentir e funde-se em sentires genuínos e apaziguados. Dentro de mim, rios labirínticos afogam-se em praticas emocionais de acomodamento social. O meu fogo é feito do olhar que pende, do arder dos olhos que me lembram. O meu sorriso é prateado do reflexo do medo de te amar, mesmo antes de te conhecer. Já não amo. Amei em meses atrasados, demitidos pelo tempo que se esfumou como a maré vaza na foz, misturada de sal, vertido líquido lacrimal, despejado numa fronha branca e perfumada, numa noite que teimava em não acordar a manhã. A chuva bate cinzenta no pó levantado e seco do calor da estação que se esgotou, após as flores fazerem a ...

Gaivota

  O espírito abriu-se de par em par. No terreiro saíam sons azuis dos blues tocados na esquina. Sons meigos e suaves. Convidativos. A rapariga do bar do lado vestia uma saia curta. Curtíssima. As pernas ganhavam formas musculadas pelos sapatos altos que lhe assentavam na medida exacta. Passava olhando para todos, sabendo eu de antemão que não via ninguém. Continuava a tocar. Embrenhado com os meus amigos nos acordes seguintes e na vez próxima em que cada um de nós se olhava, e num tom afirmativo fazia a volta que a musica levava. Volta após volta. Em cada quatro acordes voltava-se. O mar ouvia-se no intervalo do silêncio. Cheirava a cigarros e alguns hálitos a vodka. A praia de madrugada é para quem a ama. As sombras desenhavam vultos com a luz da lua trespassada. Reflectiam-se no areal que se perdia de vista e se voltava a adivinhar no farol. O pinhal chegava até nós, pelo vento adocicado de verde pinho perfumado.   Aos poucos e após as desistências ficaríamos sós. Falámos de passado....

PQP

  Este País deixou de ser um País a sério. Já há muito mas......... Os exemplos vêm de cima. Está tudo dito. Nem sei se me apetece gastar palavras. A censura está aí, cada vez menos disfarçada. Agora calhou ao Mário Crespo a mando dos do costume o zé primeiro-ministro & ca. O zé é inimputável. Não têm personalidade e responsabilidade jurídica? Está acima da lei? Há coisas superiores a mim. Na volta depõem tal qual como o fez no bacharelato, por fax a um domingo, neste caso para o juiz. Vou engolir meia dúzia de adjectivos que não me apetece aqui ser escriba. São de teor vernáculo. E venha lá então a alta autoridade para a liberdade de expressão, a alta autoridade para a comunicação social, a alta autoridade, a alta autoridade a alta autoridade e blá, blá, blá, blá blá. PQP (puta que pariu)

Não sei

  No fundo dos teus olhos, Existe.   Existem duas crianças a saltarem à corda, O cheiro da tua pele a terra.   As tuas mãos não sabem furtar, O teu peito é aberto e solicito.   Os teus cabelos, Brilham.   Brilho natural e simples, Brilho prateado de lua.   As tuas palavras são suaves e condizentes, O teu olhar negro puro.   Não sabes, Dizes que não sabes.   Perguntas, Perguntas como se faz.   Não tens sempre sabedoria, Mas tens a sabedoria de dizer: não sei

Eu estou bem não te preocupes

  Sinto-me lindamente não te preocupes. Faço tudo o que fazia. A anestesia varreu-me algum do lixo emocional e estou bem. Tenho trabalhado qualquer coisa já. Ontem ate ás quatro da manha e a coisa está a ganhar forma, mais que forma, esta a encher-se de conteúdo. Já vou estando sentado algum tempo, e, isso dá-me o tempo necessário para andar. Já lá vão seis anos que trabalho e estudo sem parar e o tempo corre por mim. Seis anos sem ferias, com uns dias de festival “das” musicas do mundo (risos). Seis longos e curtos anos. Alguns anos e tão pouco tempo. Obrigado pela tua preocupação, mas a “coisa” vai. Cada vez que abro um mail teu abro-o com o sorriso. Saber de ti é saber de mim igualmente. Os teus mails trazem o teu cheiro, o teu cabelo, e vejo-te a olhar-me de cada vez que te leio. Os teus mails trazem o teu amor a verdadeira preocupação e interesse. Os teus mails não são pagos no destinatário, não são cobrados, são genuínos. Os teus mails não são porcarias de ...

Abraço em melodia

  E se te abraço assim vida minha, Abraço caminhos e erros meus, Abraço no horizonte, O teu abraço, Cálido, longo e frequente.   Abraço a tua boca, Mais pelas palavras, Que pelos lábios.   Mais pela presença, Que pelo prazer, Que o prazer, É a soma das palavras, Que ficam por dizer.   Ditas com o teu olhar, Pedidas de presença, Abraço o mar.   A terra, A musica que me adormece, O sol que me acorda, Doce na janela, Entreaberta de bem-vinda vida.   Abraço a lua em forma crescente, A nova e cheia, E a fantasia decrescente.   Abraço a realidade, Os livros e as cores, A poesia e os escritores, O nevoeiro, E os sorrisos de verdade.

Abraço

  Madrugada afora fui descobrindo sinais. Menos do que estar atento e juntar episódios consecutivos e palavras cheias de ego, deram-me os sinais de verdade. Palavras como “eu faço”, “eu quero”, “eu gosto”, “eu posso”, desentediaram-me de uma fantasia existente apenas e só e aos meus olhos. Todo o discurso que se centra no eu, eu e eu, me afasta. Aos poucos as rotineiras afirmações afastam a minha vontade de querer saber o que nunca saberei. As díspares acções feitas de palavras, cada vez mais me fazem querer ficar em mim e comigo e no meu mundo, que afinal é tão grande por ser tão pequeno. Um mundo onde em doses pequenas existo eu e mais seis ou sete pessoas. O mundo que de pequeno, coerente e real me faz sentido. Ao meu deus fico agradecido pela presença. Ando invadido de paz e de uma vontade férrea de fazer o que tenho que fazer até Outubro. Fervilha-me na cabeça uma dissertação de ideias construídas, apenas falhadas de pôr em papel, rub...

Fogo e prata

  Escrever é fazer-me companhia a um “eu” não vivente. É depositar num fundo branco palavras que se juntam e ajustam, num significado crescente de ideias e pensamentos novos. É dar vida a outros já moribundos, que por defeito ou excesso se escondem amedrontados de um sem sentido de vida. Sonha-se na vida. Tudo se deseja. Sonho pela vida fora com um beijo que ainda não dei. Escrever é um exercício pacífico de guerra encomendada. A guerra das palavras pelas palavras existe. Palavra é um descritivo domínio de poder chamar pelo nome a natureza pelas entrelinhas. É poder dizer que se ama, sem dizer que o amor é maior ou menor. É dizer com várias letras, que o sol se incendeia quando nasce, ou falece quando se põe. É verificar que o mundo é feito de partos nascidos, crescentes e fugazes como tudo o que é dado à existência. Pessoas, flores, arvores, nuvens, pássaros, rios, peixes, luas, ventos e madrugadas. Tudo se faz e desfaz. A alegria, a tristeza, o prazer. Os dias guardados sã...

L3 / L4

  Segunda-feira escorregadia pela pranto que caía do céu. Enublado conduzia pela embaciada marca da estrada, que fazia de margem e limite. Tinha sido dia 24 no domingo. Queria rapidamente a terça dia 26 que se avinhava lenta como se o dia tivesse horas a mais e a noite não chegasse. O medo invadia-me pé ante pé, numa dor que eu adivinhava ser de alívio, e que desejava sem sono, que chegasse. Li quase um livro no dia 25, dia que eu queria saltar. Queria que saltasse a minha hora. Era a primeira vez na vida que seria anestesiado, não a primeira vez que eu estivesse em estado dormente. Era a primeira vez que seria anestesiado e ficaria vulnerável ao corte profundo, incisivo e longo, que viria sem que eu desse por isso, mas autorizado por mim próprio com assinatura a condizer, da tal dor que previa aliviante. A hora chegou. Equipado e desabotoado sem pertences alguns. Ali exposto a todas as drogas que me quisessem catetear, cortaram-me certinho, removeram e fecharam. Acordei a mexer, a rac...

Incondicional

  Saudade é esperança também. Esperança é entender que a saudade será um recompensado momento. A saudade é a impulsão de sentir um querer, mais do que um aqui e agora, é sentir que lá à frente existe um momento aguardado. Saudade é sentir o momento. A seca tem esperança que rebente a chuva. O sol tem esperança que a lua não falte. O mar expecta pela agitada esperança das vagas. Eu esperanço a felicidade. A terra tem como esperança florescer. A doença tem esperança na saúde. A partida têm esperança na chegada. A esperança tem esperança que o E seja emoção, o S solidariedade, o P presença de poesia, que o E repetido de emoção se transforme em Época, o R em realidade, o A em amor lavado de amizade, o N em número de amigos, o Ç em canÇão, e o A novamente em ambição de amizade, amor, amparo misturado de esperança e presença. Irei soluçar nos negros lábios a esperança solta de um beijo.

Bailarina

  Se a minha boca são lágrimas, E os meus lábios carne viva, No meu peito jazem cravos, Que liberdade é mais que vida.   As minhas mãos desconhecem, Um peito aberto em mim, Pupilas negras são olhos, São principio, não o fim.   Primeiramente madrugada, Depois delírio, alucinação, Guardado em sonhos o mar, Feito de ondas a paixão.   Revoltado, desentendido, A bruma veio matinal, Farta, intensa, mensurável, Forte e feita animal.   Animalesco, carinhoso, Este sal e sentir perigo, Azul céu debruado, Nuvens, sóis e um abrigo.

RLF

  O peito farto e os dedos esguios faziam-me lembrar uma estátua com quem me cruzava em pequeno no átrio da biblioteca. A pose. A pose era um misto na minha imaginação de algo angelical, com uma perversidade assustadoramente sexual. O ar angélico excitava-me, despertava em mim uma vontade de fazer mal por bem. Sentia-me perseguido pela imobilidade do seu olhar. Sentia que se olhasse para trás à minha passagem, apanharia em flagrante o seu olhar desprendido da sua face branca. Não tinha braços esculpidos. Terminavam onde se iniciavam. Nuns ombros elegantes. Sempre que pensava nela a via com braços no seu pedestal. Sabia daqueles caracóis de cabelos bem desenhados, esculpidos e brancos que brilhavam com o seu olhar. Sabia ser poeta. Intimidava-me o olhar dirigido a mim. Só a mim. Conhecia o seu conhecimento. Sabia de todas as vezes que saia à noite e me cruzava com ela. Vi-a dançar, com a sensualidade que só ela detinha. De manhã, lá estava no átrio com um sorriso melancólico e lânguido,...

JLP

  Ignorância de quem anda distraído com o ADN do nosso País. O sr. josé sócrates, ontem em cumprimento oficial, perguntou ao nosso quiça melhor, ou entre os melhores escritores portugueses da actualidade de sua graça José Luís Peixoto o seu nome. Ou sr josé não conhecia o enormíssimo José Luís Peixoto. Gargalhada em uníssono e cúmplice dada no sofá cá de casa. Gafe a condizer com os cem dias de desgovernação. Relevante tamanha ignorância, para quem afinal o País está a passar ao lado.