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Mostrando postagens de julho, 2012

Arco

Paz podre, silêncio e mudez. Palavras por dizer, gritos por gritar. Repensar é benévolo. Pensar a memória, a morte, a vida, a fome, a guerra, o romantismo, o sonho e a ficção, os sentimentos de cristal despedaçáveis, frágeis e quebráveis, o futuro feito ontem, o depois do amanhã vindouro, a história feita de estórias, os filhos e o medo, isto é a memória do que sou, subsisti e habitei. O silêncio é, um aliado necessário, irmão da solidão, trilho para a decisão. Os sabores, as cores e os cheiros, alteraram-se. As montanhas, os mares e o sotaque, são esta coisa de que sou feito hoje, a que chamo memória, passado, património, o que quer que seja, é este arco entre o que foi e o que é, que faz de mim o que sou.   O que recordo?   Lembro o Pessoa, o O´Neil, o Torga, o Eça ou o Camões e outros viajantes primeiros e principais. As personagens que crio são a natureza que invento, a democracia prezada já exilada e ausente. Pensar faz falta mas está desusada, logo, não se pode repensar. Já não s...

Quase quase

Denomina-se por contradição o processo de maturidade de uma decisão. Começa-se nos “prós e contras” e termina-se nos prós / prós da vontade, subtraindo-se assim, a fase antecedida e denominada, contras / contras. Assim se vai abalançando e apreciando a vontade e o desejo, em prol da irracionalidade estoirada e exausta de tanta racionalidade, dando assim azo, à emocionalidade vigente da felicidade, mesmo que amiúde, ténue, disfarçada e/ou efémera.   Parece complicado e dissemelhante este exercício mental e incoerente do espaço que habita entre “os prós e os contras”, mas sem ele, jamais poderia alcançar a paz conquistada pela liberdade decisória e resolutiva, quando não tenho a certeza do que fazer, dizer, ou simplesmente ser.   Possuo compassos e pautas dentro de mim, rimas feitas de flores, olhares meigos, sorrisos esboçados, lírios desabrochados, faces rosadas como romãs, cabelos de fios de oiro, adornos construídos de cheiros, imagens transpiradas de carnalidade, luxúria, concupiscê...

Como uma árvore que cria raízes no solo que a sustenta

Uma árvore cria raízes no solo que a sustenta. Uma vida sustenta-se nos paradigmas existencialistas e no seu reconhecimento. Ambas são móveis e evolutivas. O antes não é igual ao agora e não será nunca semelhante ao depois. O fascínio da quimera seduz a própria evolução. Presenteio-me muitas vezes com paisagens e cheiros, isso basta-me. Outras, sonho antes de alcançar, sempre o sonho equacionou e decidiu por ele, o que a tomada de decisão adiou. O enclave geracional transportou-me. O certo e o errado, a guerra e a paz, o bonito e o feio, as boas maneiras e a má educação, a sexualidade e a perversão, o pecado e a santidade, deus e o diabo, o frio e o calor como analogia no sentido lato da preguiça e do trabalho, o fascismo e a democracia, o amor e o desamor, a rejeição e a concordância, a alienação e a sobriedade. Todos estes conceitos são castradores e por norma induzidos. Quando não aprofundados pela existência e experimentados pela vida, podem ser perigosamente autoflagelados em nós ...

Desmedido feitiço suave da alma

Desmedido feitiço suave da alma.   A casa de semblante frio de pedra milenar remete-me ao cheiro quente da lenha ardida em invernos ternos de luz ténue, e do tempo recorrido lentamente. No inicio da rua, logo no inicio, um tanque mantém embranquecidos os lençóis onde me deito. A cada noite me espero e invento um novo dia. Imóvel, o holocausto civilizacional, tornou este lugar de prados e vales de cor, no espaço mais perto do céu reconhecido por mim.   Renuncio à loucura sôfrega de estar sem me encontrar, de ser sem me apresentar, de continuar sem me verter, de sobreviver sem me reinventar. Desconexo caminho sem saber ou preocupar. Apenas respiro a cada passo as memórias que carrego. Hoje, o sol dá-me alimento. A terra seca de fendas abertas, demonstra-me as rugas da idade e do conhecimento que possui. O solo abre-se dos segredos que guarda, do gozo que tem no silêncio, da loucura que satisfaz a demência, no regozijo da incompreensão. Apenas alguns lêem as entrelinhas dos sinais express...

“Luarento”.

Abraço “luarento”, Abraço mesmo, Essa natureza de encantamento, Sustância, Matéria, Alimento, Necessidade, Carência, Abundância, Essa riqueza e ternura, Esse abraço, Abraço mesmo,  “Luarento”.   “Luarento”, Da luz da lua, Branco e esganiçado, De voz sedutora, Abraço perdão, Profusão, Platonismo, Abraço paz, Abraço, Abraço mesmo “luarento”.   Abraço de mar, Terra e fogo, Abraço de te abraçar, Braçadas de abraços dados, Falta somente um abraço, Requisitado, Adiado, Espero na penumbra solsticial, No redondo da pedra que esconde a praia Negra, Morena de mar, Abraço o abraço que a maré me trará, “Luarento” sentimento, Momento profano e herege, Abençoado e louvado, Aguerrido, Guerreiro e abraçado.     A fonte corre nos seixos, Descanso o meu dia de cansaço, A escuridão ilumina-me a alma, A lua altaneira, De dentro do vento, Balança os ramos, Espreitando-me nos intervalos de luz, Raios de sombras que se revezam, Inquietude de ti, Sombra, Abraço, Esperado momento, “luarento”

Os nossos dedos entrelaçados de mãos

Fundem-se as almas antes dos corpos desassossegados de vontade. Parar o tempo pela eternidade existe somente numa obra-prima, na magia e no querer. As palavras soltam-se aladas e ritmadas por entre os lábios mordiscados e beijados. Um rio, transforma-se da nascente até à foz. Os nossos corpos ajustam-se da foz à nascente, percorridos numa metamorfose e magnificência. A nascente geme água de vida. A foz, desagua e salga de beijos as nossas bocas incandescentes e descendentes. Os nossos dedos entrelaçados de mãos ascendem e percorrem-me arrepiado, cada milímetro de pele desejada. A tua tez morena encadeia-me. Ainda me cheiras nos poros. Os nossos corpos colados não se querem separar, querem-se siameses. Prazer este privilégio ocorrido a cada cem mil anos, idade que contam as estrelas. Respiramo-nos em partes iguais, nós mesmos, como um todo. O sorriso acariciado descansa-me e alberga-me e, assim oferecido, retempera-me. Desenho no teu corpo mil imagens que cristalizo na minha memória. A ...

Com amor

Ao segurança que não me deixou tirar fotos no concerto dos “The Cure”, embora mil pessoas o tivessem a fazer, por mera embirração. Aqui lhe dedico estas singelas palavras, porque sei que pela minha boa saúde nunca irá ler isto, por sorte a minha ou até talvez porque apenas não saiba ler, aqui vai, com amor. Com muito amor.   Conheço o género. O cabrão do meu primo Carlitos tem tipo de segurança e talvez por isso, me fosse fácil descrever o que o homem me fez sentir.   Os seguranças não têm infância. São cegos de olhar e isentos de sentimentos. Imperturbáveis. Pólvora por detonar. Parece que a qualquer momento o pescoço, vulgo cachaço, vai rebentar. Sem sorrisos expressos e cabelo a condizer, intimidam pela imobilidade geral. Seres precisados de luz e conversão. Rígidos, de braços cruzados ou atrás das costas, lembram-me um rottweiler esfomeado, só que em feio. Esperam o primeiro movimento brusco para ignição de tanto espartilho. Pode até ser um abraço terno e sentido, dado à sua frente...

Querença

Inquieto de tanto sossego, Lucido de tanta loucura, Transformado de tanta paz, Fica este quadro perfeito e desencantado. Pode um homem pedir, O que depois não sabe existir?   Tanta planície rogada a um deus que não se crê existente de resposta, Glorificada oração tamanha, Montanha que me faz pequeno.   Origem esquecida, Ensinamento conspurcado, Exemplo social desajustado.   Hoje, mil ideias abruptas me cegam os ideais, Maléfica mente oposta, resistência do coração, Deslumbre e sedução.   Uma madrugada me ocorre em correria, Redução sensorial, Exaustão e fuga.   Distribuo-a em partes desiguais pelo meu entendimento, Espirito e físico deambulam desapiedados numa manhã fresca, Faço sexo sem um nome, sem objecto carnal.   Não existe, Maria, Eugenia, Leonor ou Catarina, Igualmente não há desamor, Equitativamente apenas habito a querença, Parte da minha existência, Brilho, fulgor, E presença.

Aniquilado e suado

Hoje, Devagar, Imaginada vertente de mim.   Sepulcro anunciado de uma inumação alegórica, Volto aos lençóis humedecidos, Sacrilégio, pecado de normalidade.   Bendita desdita evocação, Do teu corpo ausência do meu, Irradiado de luz.   O meu, Presença no teu, Melancólica esta ansiedade procrastinada.   Que minutos estes consistentes! Que aurora esta interrompida! E de repente gritas, Cerras as mãos, Os teus pulsos ficam de uma cor amortalhada, Desfaleceste, questionei?   De língua enrolada gemeste, Um vim-me segredado, Quase agonizado, Construído e desfeito num orgasmo, Que duros segundos estes aniquilados, Dose imperfeita.   Tempo escasso, Desertor de mim, Aniquilado e suado.

Nos beijos, nos beijos e nos beijos

Nasceu uma fonte em mim. Uma nascente de fogo, incandescente e cristalina, uma noite de lua cheia, música intemporal, aciprestes e lua. Os amigos encontraram-me mais a sul, mais a norte de Africa. Debruçado no meu peito, sinto o discurso magnificente e preocupado de saudade, debruada. Uma colina estranha empolga-se e crava-se nas minhas mãos devagar, tal como quando a bolina se levanta, antes do vento. Sem decisão, a vontade transpira-se nos corpos despidos, aguardando calmos o momento extasiado que se sonha ser eterno. Os sonhos são sempre exequíveis desde que, antes sonhados. Ontem, o hoje era um sonho. Antes, os sonhos foram quimeras, devaneios, congeminações energéticas, delírios, estrelas e entressonhos. Uma não estória é um esboço romanceado, um soneto, uma travessia, um lugar no mundo, um assento da alma. A dor é: um estado de alma, um alarme do âmago, um pré-reencontro com a vontade, a impossibilidade de abraçar, a ausência e o desejo. Um acorde é: o sustento de uma clave de so...