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Mostrando postagens de dezembro, 2020

Esquina da saudade

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A noção de tempo é-me breve, esquinas inversas, saudade.      

Os meus olhos ancorados

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As colinas dançam de um azul misturado de céu. A floresta tem a cor de cabelos. O sol põe-se ardente. O olhar ancora num porto adormecido. Os meus olhos.  

Casario

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Num casario velho e estafado, quase ruinoso e decadente, é o sítio onde me habito.  

há jazz ao Chiado

há jazz ao Chiado de Pessoa, uma mulher empalidecida pede adormecida, diz-me ter fome de pão, e sono de dormida, desperto-me neste mundo existente.

Baldios

Baldia, terra ocupada, de miséria, de mãos rudes, e palavras alheias,   torturante desvio de deus, secreto, selvagem, inventado, que não pisa baldios terrenos, onde o pecado é inexistente, sacro santo, perdoado, tisana bebida, espírito adulterado, confundido.   Sapiência desmedida, experiência, vivência, contos com verdade, partidas, antes das chegadas.   Baldia terra em bairros de bem.

Duro

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São duras estas horas em que o tempo não tem tempo, onde a companhia se farta dela mesma, onde a sombra inventa outras sombras.  São duras estas regras das 23h às 05h, esta ausência de gente que faz os dias teram gente dentro. São duras estas horas cansadas de dias, estas noites exaustas de noite, estas férias com horários, este trabalho sem relógio. É duro cuidar desta esperança enlouquecida das 05h às 23h, onde as árvores se ajoelham comigo.  

Amante poesia

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A poesia não precisa de seguidores ou adeptos, precisa de amantes.  

Natalinho, naltalzinho.

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Dias cinzentos que não nascem, que não habitam, que nao acabam. Dias de  árvores retorcidas de cansaço e espera. Dias desacreditados de natal, dias frios de frio conseguidos.  

Preconceito

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A cor da pele das pessoas não se repete naquela cidade interior, onde o sol e a chuva salpicaram de igualdade as diferenças que os homens das leis repartiam como propriedade. Foram livres do preconceito da raça, pelo arco íris. Foram aperfilhados pela paz da montanha e os ventos.    

Homem

O homem entra na noite esperançado de encontrar flores que o reconheçam. Em alguma loja antiga as ruínas cuidam das flores. Flores órfãs. Flores de existência soberba e sem canteiros onde pertencer. O homem pára. Esconde-se da viuvez de saudade. Limpa a lágrima que lhe cai segurando-a. A guitarra roufenha estala acordes que gemem o caminho que lhe falta fazer. As flores, as ruínas, a orfandade da viuvez da saudade.

repartida

contos de verdade, inventados,   partidas, antes das chegadas.   eu

A felicidade, essa bênção rasa de esperança que sobra ao entendimento.

A felicidade, essa bênção rasa de esperança que sobra ao entendimento. 

Futuro

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Das ruas da minha infância, trouxe os sonhos que cresceram comigo. Ouvi falar do futuro que em cada dia em mim nunca existiu. Futuro é como o resultado de uma equação que se resolve sempre no presente. Assim é o futuro em mim, o presente a dividir pelos dias. São sempre os dias divididos pela emoções. São sempre as ruas da minha infância a felicidade.  

os bairros dos poetas, são

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Os bairros dos poetas são feitos de: - pobres e sábios, - anónimos desconhecidos, - o mundo inteiro ausente de multidão,   pecado livre e pagão, mulheres aos versos, música nas mãos,   ruas engradecidas, escrita do coração, os bairros dos poetas, são.      

Lirios

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Os lírios são lágrimas de mar perfumadas, tempestade desfalecida de luz e poesia embelezada, são essência e convicção.    

Deserto, silêncio de oásis

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O silêncio é como o deserto, árido, algumas vezes tempestuoso, agreste, cruel até, outras, um oásis em pleno deserto.   

olhos de quem entorna maresia

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Estas palavras moram nuns degraus ondulados e gastos pelas passadas, são sombrias, o amor por aqui sabe aos olhos de quem entorna maresia, os beijos soam a palavras dilaceradas na pacatez do silêncio, o toque é fresco e suave a luz da cor da madrugada, dispo-me de mim e roubo-me um sítio a que não pertenço, as colinas dançam de um azul fresco à janela, a floresta tem a cor doce de cabelo prateado, o por-do-sol esbate-se rubro, ardente, despenteado, ancoro e, adormeço-me no meu olhar.  

Gostava de me dar com outro tipo que não fosse eu, mas fosse

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Gostava de me dar com outro tipo que: - não fosse eu. De ter um amigo perto que: - não fosse eu. De poder confiar num gajo que: - não fosse eu.   Na impossibilidade de não ter ninguém por perto que não seja eu, sou eu mesmo a quem me dou. Sou eu mesmo que estou por perto. Sou em mesmo em quem confio quando me passa a desconfiança acerca de mim semelhante.   Não sou o meu pior inimigo, longe disso, mas sei o que isso é. Sou apenas a decisão entre o que preciso, o que tenho, o que quero, o que sonho, o que gosto, o que canto, o que vejo e o que sou. Sou eu. Assim. Duro e meigo. Sensível e consistente. Feito de história. De incríveis histórias que nem a mim me parecem reais. Depois olho e, quando me vejo, acredito.   Fui o que hoje sou. Fui a minha essência, humanidade e vida. Fui a morte na primeira pessoa. A solidão. A tempestade e o mar.   Posso falar do sonho mais lindo que tive. Do alcance dos meus braços. Do desígnio da vida. Do destino não ser destinado.   Gostava de me dar com out...

Louco amanhã

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Amanhã serei o louco que dá nome às pedras, o ajuizado que escreve saudade nos lençóis perfumados de alfazema, o curandeiro dos males sossegados no tempo, a ausência de madrugada, o orvalho esperado nos braços apertados de abraco.  

(desnatural – não natural)

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tanto vazio que se depara com o obsoleto desocupado de flores, sobram vasos em ruínas que ninguém regou, deixar morrer flores não tem indulto possível, deixar-se nascer flores à mão de quem as vai deixar morrer não tem clemência, os vasos partem-se aos pedaços, primeiros as mãos dos vasos, depois o coração das flores, depois o chão deixa de ser raso, depois o perfume desvive, depois, morrem as flores de morte artificial, (desnatural – não natural).  

Morte preenchida

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Em cada dia existe a morte declarada e uma forma de a declarar, que se preenche em papel timbrado no dia em que declarada a vida expirar, e é só nos funerais que perdidos de remorsos achamos, não valer a pena a vida enquanto esforço, e é só nos tórridos torrões lançados ao corpo, que a vida afinal se glorifica, e toda a gente valeu a pena afinal, o burlão, o mendigo, o doutor, o drogado, ninguém morre de pecado, essa mentira anunciada num jesus crucificado, inventado pelos homens que te querem ver castrado.   Em cada dia existe a morte declarada e uma forma de a declarar, que se preenche em papel timbrado no dia em que declarada a vida expirar.  

não sou de partidas despedidas

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não sou de partidas despedidas, sou de partidas de silêncio, de protegida saudade, de antecipada à recordação, de tristeza defunta ainda viva, despeço-me recolhido no silêncio acompanhando-me de despedida.   

Eduardo Lourenço, obrigado

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Fico aqui em silêncio. Basta-me. É-me suficiente. Não tenho nada para dizer. Tenho apenas este silêncio: - das pontes e dos rios, - dos campos a medrarem de sementes, - das coisas por inventar não inventadas, - das mulheres a não quererem ser outra coisa que não mulheres, - das crianças a serem crianças, - dos homens a serem homens. É-me suficiente a humanidade, a liberdade, e todos a sermos o bem de todos. Hoje, celebro Eduardo Lourenço, parte eloquente da estrutura do pensamento descoberto numa fase de regresso à humanidade depois das trevas, ali à Gardunha.