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Mostrando postagens de janeiro, 2011

Evitamento

Espero o vento entre dois caminhos. Encruzilhado solto uma baforada de frio. Em de mim descansa uma cascata colorida. As folhas soltam-se embriagadas das árvores e o mar rebenta num voo picado e tangente. É madrugada dentro de mim. As horas que me restam de sono vão ser acordadas. O meu olhar solta-se perdido na espuma que se vê nas ondas. Assimilo. A noite estrelada e única é como a insofismável vontade invernosa, chuvosa e rude que me invade. Passeio-me dentro de mim. Procuro que a tua boca me amorne. Um canavial semeado na enseada dança ao assobiar do vento, e, eu ali tão presente, estático e ausente, vivo e vibrante, sôfrego e demente. A madrugada foge pela manhã afora da noite. As tuas mãos percorrem em desvario o momento nas minhas. Ao longe embarcam viajantes numa faina de luz. O tempo esgota-se a cada segundo. O esgotamento é vivo do uso que ao se tempo dá. Não é gasto, é esgotado. Lembro-me de respirar por ti. Respiro a cada suspiro teu. Agora a morte sucumbe, só há vida. Um s...

Maria do Cabreiro

A janela embaciada faz-me adivinhar o tempo. Está frio e na minha face sucumbem dois olhos fundos, esperando uns raios de sol extravagantes e inesperados. Sinto-me fraco. Fisicamente sinto-me em fase de ajustamento. Espero que o meu metabolismo faça as pazes comigo. As mãos não obedecem ao comando e no meu peito fere a incerteza. A Maria do Cabreiro curandeira ancestral recomendou-me chá de erva do ribeiro, uma mistela que diz ela que ressuscita até o inverno em pleno verão. Oiço na estrada grande afastada daqui, o respirar dos motores que se debatem recta acima. Os miúdos dançam e debatem-se debaixo da arcada do prédio em frente. Felizes. Cheira a rosas o ar, pronuncio de névoa que caíra na certa pela noite dentro. As luzes trémulas começam a acender-se quando o dia cai. Entre o tórax e o fígado, os rins e os pulmões existe uma revolução em mim. Já tomei o chá da Maria do Cabreiro e descanso agora um pouco. Amanhã outro dia romperá augurado de uma nova e incandescente aurora, repetiti...

Vou anunciar-me numa banca de um mercado

Faltam-me alegorias, Pleonasmos, Figuras de estilo diversas, E adjectivos. Simples palavras, Qualificação, Exemplos, Hipérboles e inspiração. Desconstruir massivamente, Fazer de novo, Empreender, Falta-me casar e deixar-me estar. Conversar e abraçar, Levar-me ao mercado e doar-me, Lavar-me de mim como o Messias, Ser crente, confesso e assumido. Ser parte de mim, Ser eu todo, Arrolar-me de emoção, Deixar-me sensível ser. Viver mais que viver, Ser da minha côr e das outras, Ser apenas humana raça, Já que mais não existe. Não quero mais medo de sorrir, Ou esconder-me para chorar, Dias irrepetíveis, estes os meus, Feitos de um homem novo. Crasso e viajante, Vou anunciar-me numa banca de um mercado, Apregoar-me, Homem novo. Humano, Alegre, Poeta, Palavra e pobre.

Dita dôr

Sacana pá, és um sacana respondi. Ele olhava-me com um ar esfumaçido. Sei que nunca me tinha visto de cima deste olhar raiado a vermelho sangue, a enfrentá-lo sério e assertivo sem estar próximo mais que este mundo, de qualquer retirada de tom sério à nossa conversa. Continuei perguntando-lhe: sabes o que é um sacana? Ele quedava-se com o olhar de encontro ao céu, mas ao contrário, porque aquela laia de gente nem sabe o que o céu é. O céu para ele não é celestial ou tem estrelas, nuvens, lua e sol embelezando-o, para já não falar do que é o céu, conforme cada um o concebe ou não. És um sacana continuei, não te anuncias, instalas-te, deixas o dinheiro fazer as minorias e as elites formarem grupos fazedores de dor em uníssona voz feita, de milhares de espoliados e oprimidos, castrados de acessos apenas. És um sacana, nunca escutaste uma madrugada ou um rouxinol. Para ti um pôr-do-sol é apenas o término de mais um dia de trabalho, sinal de que a fundição se irá apagar e as peças não se re...

Mali

Já escrevi de muitas formas. Sempre na procura de encontrar um conteúdo que me estivesse a queimar a alma. Já escrevi porque sim. Já escrevi porque não. Já escrevi porque criei ou empreendi. Já me vesti com outra roupa ou despi a minha para escrever. Já me imaginei louco e sane, pássaro ou sol, lua e trovoada. Já fui maré e mareante. Já fiz de tudo por uma boa desculpa para escrever. Mas nunca me lembro de me ter sentado para escrever como hoje. Sem qualquer motivo para o fazer. Fui de férias para onde escolhi e ainda nem sequer a casa fui. Do aeroporto vim para um hospital. Como uma febre daqueles que tal como o país que visitei, o Mali, acontecem. Quatro dias de exames, tira sangue dali para acolá e de acolá para ali, e já com o cognome do senhor do Mali. Uns aproximam-se e são carinhosos, outros acham que posso ter um mal muito maior do que o declarado na fronteira, e não vá o diabo tecê-las, são mais frios e julgam-se mais profissionais e subtis. A diarreia acalmou. Agora sabemos q...

Vou até ao Mali. Já venho.

As palavras aveludam o delírio de eu querer voar. Ter asas e não voar, é como ter sonhos e não os praticar. Quem sonha alcança, quem persiste encontra. Um dia virá, em que o espaço e o tempo serão uma oferta de mim, a mim próprio. Estou na praia onde o teu cão correu desalvoradamente e onde eu, no meio de mais de um milhão de finos grãos de areia, encontrei o teu brinco perdido e, achado no meio daquele abraço contínuo. As ondas estão calmas neste mar turquês. Perco-me num cigarro prazeiroso. Roufenho o rádio toca uma musica que me parece longe e distante, nostálgica e profunda. As notícias dizem o mesmo desde as sete da manhã. O mundo está parado. Não existem novas novas, nem boas ou más novas. Chove uma ventania de sul que me beija a face. Retrospectivo o tempo que me tem aqui, o que me deu, o que fiz para me dar. Nunca trabalhei nem sozinho, nem tantas horas. O mar sobrepõe-se agora à roufenha voz em frequência modelada de encontro às rochas onde as gaivotas se juntam em convívio, o...