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Mostrando postagens de agosto, 2014

Sobrevivente

Envelheço ou sobrevivo, ou sobrevivi antes para envelhecer?   Conceito baralhado este que o envelhecimento vive longe, sem se saber que o longe habita tão perto.   Falei com mulheres que depositavam flores no cabelo, com velhos anciãos habitado pelo mar, e ambos me souberam ensinar, que se sobrevive antes de envelhecer, para se envelhecer sobrevivente.   Bebi vinho e resisti em quartos vazios, escutei rugas na face do tempo marcadas, li poetas vencidos, em noites de quartos de lua, sobrevivente, venci.

Ai

“Se as ideias insubordinadas se transformassem em diabólicas palavras, já tinha rasurado o meu nome e transformado esta vida, num paraíso inexistente e sonhado”.   Leio nos olhos do psicólogo a incredulidade da minha verdade, é como se ele próprio tivesse regressado a um compêndio ausente, tal a bravura em si dos meus pensamentos.   Leio-lhe na postura hirta e forçada, a rigidez facial de um sorriso esforçado de entendimento, que lhe peço o meu honorário e saio.   Como paciente levo mais em conta, só que resulta, ele está muito mais solto e esperançado.     É o mundo a mudar mundo, que muda o mundo.  

Rio reflectido

O rio embala as árvores reflectidas sossegadamente sobre a noite, este silêncio é uma avalanche de sons que me acalma, aqui, na margem, e à margem, fico à espreita que mais estrelas cadentes dourem o firmamento, que mais lábios de silêncio, me entreguem o céu.   Já é madrugada, madrugada feita de delírio e loucura insaciada, tenho que partir, e, não penso em nascer outra vez.

Sem noção

Não tinha a noção do quanto cabe numa vida, Não tinha a noção do quanto cabe num coração, Não tinha a noção do quanto alberga um abraço, Não tinha a noção de que a vida toda cabe na palma da mão.   Soube isto numa madrugada revisitada de amigos, No tempo imóvel da cumplicidade, Da historia que urge no património, E de sentir o tempo desconstruído sem idade.

Pai

Existem homens faróis.   O meu pai é um deles. Homem sábio de vida, sábio de uma sabedoria não académica, uma sabedoria de noites acordadas, de compromisso com a igualdade, quase uma sindicância familiar. Homem cheio de homem. Homem erigido com lágrima, partilha, numa infância sem liberdade, de metalúrgicos, camponeses e vidreiros. Homem amansado por uma liberdade conquistada e a glória de poder dar ao filho, uma vida somente conhecida nos seus sonhos de menino.   Existem homens faróis. Homens cheios de homem!   O meu pai é um deles e tem luz, vaidade, lua, beleza, céu, amor e luar, no olhar!

Saudade da existência da ausência

Transfiguram-se as faces na ausência,   Por vezes quero recordar-me de expressões, Faço força, muita força e não consigo de um forma nítida recordar-me,   Recordo as sílabas, os cheiros, os lugares, os prantos e os rires, o toque, a sabedoria e as imagens enevoadas, mas não vislumbro a expressão, A ausência deixa-me vontade de estar, A ausência é um mar com vagas enormes de saudade, O reencontro das almas far-se-á nem que seja na saudade da existência da ausência,   “Olá tudo bem, estou aqui e pensei em ti, apesar de não nos vermos há muito tempo estamos juntos”, isto é grande!   Enorme, esta ausência de saudade saudada.  

Noite negra, noite seca

Noite negra de desejos aprazados, Onde a lua se baloiça fascinante, Desloca na luz o brilho e o percurso, Fecunda na vereda o mar impreciso, Dessalgado isento de olhar molhado, No frio férreo da estação.   A liberdade espreitou-me rasgada, Dilacerando-me a consciência, Num despedaçado bocado de alma, Não possuo mais tempo ou vontade, De existir até contra natura, Nesta abraço bocejado de enfado.   Quero por inteiro reunir as porções, Que de mim mesmo se afastaram, No definho da minha ilusão, O meu peito concebe o engano, Que me castra e imunda, No secura do meu coração.

Entre mim e eu

Entre o céu e o mar, a terra e o sol, entre o nevoeiro e o vulcão, tudo me descreve, tudo me abastece.    Entre os astros, e os cometas, e a estrela que cai, a que chamam cadente, fica o meu olhar a poente.  

O vento esta noite perder-se-á

Três prédios e metade de outro da cor da luz em final de tarde alaranjada, alumiam o início da noite do dia já morto; espero conseguir pronunciar as palavras depois de ouvir gemer o contrabaixo que se avizinhou de mim, e, depois, ausentar-me deste pátio a mim regressado. O vento esta noite perder-se-á nas flores amorosas que plantei.

Verbos in_conjugáveis

Troco o fogo em que ardo pela fogueira que se apagou, coloco o arco-íris pendurado na minha sala, e velejo no mar que me inunda, que quase me afoga.   Subtraio letras às palavras que penso e não solto, abstraio-me do mundo que lá fora tem cores que se movem, e eu, aqui, transbordo de mil ideias de que não me desfaço.   Olho uns retratos que me olham, conjugo verbos inconjugáveis, e a saudade, é a única palavra a que não subtraio letras ao sentir.

Poetas ou náufragos?

Poetas ou náufragos? (parte I)   Um poeta não escreve, um poeta sente necessidade de deixar sair as suas aflições pelas palavras, ser a força que arrebata ou inquieta. Um poeta é descomandado por um sonho não crente ou entendível, pela realidade, pela paixão, por nada e por tudo, pelo desamor mais do que o amor. Um poeta é uma mistura de pólenes raros e comuns. -----------------------------------------------X-------------------------------------------- Poetas ou náufragos? (parte II)   Um poeta não tem posição para dormir enquanto não naufragar no seu porto do mundo, os versos de um poeta são um momento, são o raio antes do trovão, são segundos, deslocação e remoção. O trovão é o efeito das eloquentes e imperceptíveis interpretações dele mesmo, no seu id, ego e alter-ego espelhado, abrangente, descoincidente às vorazes sanguessugas do entendimento linear como se quer, mas, disruptivo como é. Um poeta não é a poesia. A poesia são os poetas todos. ----------------------------------------...

Estatuto

Não é a idade que nos dá o estatuto de podermos dizer tudo, são os outros que nos dão o estatuto da idade.

Nascente

Trago uma fonte que seca e rebenta no meu olhar, Tenho uma ensolarada janela escancarada no meu peito, E uma estrela incandescente de fogo que me cega.   Trago searas loiras de verão no meu cabelo, E o cheiro das madrugadas da planície nos meus passos, Sou o galopar alado de um puro-sangue na minh´alma.   Sou um operário em construção, Uma igreja fechada por falta de fieis, E um mar de braços abertos a novos caminhos.

Sou feito de mar

Sou feito de mar, Quando me vem água aos olhos, É o meu mar entristecido que me possui.   Quando as lágrimas, Carregam sorriso, É o meu mar engrandecido mandato pela lua.   As lágrimas são o transbordar da alma, São água e sal vertendo pelo meu corpo, Equilíbrio e sentir.

A minha pressa de morrer foi adiada pela morte dos meus amigos

A minha pressa de morrer foi adiada pela morte dos meus amigos, Não a morte que um dia terá que vir, Mas a morte do destino, A alteração induzida ao destino, Quase uma morte adivinhada, Premeditada.   Foi essa morte que adiei, A morte ao meu sentir, A morte de me sentir vivo, A morte do meu destino.   A minha pressa de morrer foi adiada pela morte dos meus amigos.

Não quero mais dias

Enforca-me quase este cansaço, Este infindável dia que não finda, Quero que ontem regresse e se despeça de mim, Da ausência com que se foi, Da loucura com que me deixou.   Não quero mais os dias a seguir aos outros, Quero os dias antes dos próximos, Quero os dias anteriores, E não quero todos, Quero apenas os que brilham como as estrelas no céu.

Transportadas as palavras ...

Quando as palavras me transportam a: Imagens, sons, cheiros, ruas, cidades, céus, pessoas, músicas, vidas, lágrimas, mares, nevoeiros, sorrisos e entendimento                                                 ..….dá-me vida quem as escreveu !

Praias distantes de gente

Passeámos em praias distantes de gente, Despovoadas de pessoas, Enchidas de nós.   A areia remexida dos nossos corpos e dos passos até ao mar, Mantem salgada a minha alma, Percorremos a juventude que achávamos infindável, Mais as madrugadas que encontrávamos sem procurar, A saudade não existia e, hoje, apenas existe o murmúrio.   Do olhar restam os olhos, Das flores sobra o cheiro, Dos anos passados restam as mãos com que fiz demorada a vida, Fiz uma filha, Fizeste um filho, Não fizemos nunca um filho.   Fizemos mascarados o carnaval de natal e páscoa, Fizemos versos consagrados pelos acordes da viola.   Deixei as intermitentes luzes da cidade tomar conta da minha vida, Já não passo sequer próximo de mim.

Endereço desconhecido

Se o coração me disseram habitar no lado esquerdo do peito, Porque sinto eu o coração nas mãos, Nas pernas, Na boca, Nos olhos, Nos pés.   E sinto, O estômago no coração, E os pulmões, E os rins, E os olhos, E as vísceras são: todo o meu peito.   E sinto o mundo, E os raios, E o cheiro a pinhal, E o mar, E a lua, O albergue do meu coração.    

Sol ruinoso

A vida decompõem-se, Apodrecem os nossos dias de desencanto, As nossas preces de desengano, Os nosso amigos que se vão, Os desconhecidos que estranhamos, As raízes que se transformam, As sementes que se alteram, A lua que se encobre, A fome exposta e crescida, As crianças que se desalegram, As cores que se desvanecem.   Aos poucos, apodrecemos de vida.   Depois, Mais ou menos pela metade, Sabemos que a matéria se decompõe, E como se compõe o amor, E crescem laços coloridos com que enfeitamos os dias, E abraçamos as saudades, E prometemos mais dias aos dias, E mais momentos construídos de estrelas, E mais rostos de fogo queimando o nosso, E mais mãos, E como rochas construímos o porto, Soltamos ferro, maresia, olhamos outra vez o céu e atracamos.   Aí, já o sol ruinoso de claridade ………………………………………………trespassou a nossa existência.

Saudade de Agosto

Saudade moída de vida, Salpicada de olhos nos olhos e hálitos arejados.   Saudade morta a cada visita, Saudade ressuscitada a cada partida.   Saudade de saudade da voz e do encanto, E do pranto e das palavras juntadas, E dos mares visitados, E das montanhas percorridas, Mais as estrelas vistas em fogo juntamente.   Saudade: nuvem incapaz de ser sentida sem ser chorada.

Minuto

- No mesmo minuto posso narcisicamente passear o meu ego e submeter todas as minhas dúvidas existenciais em formato de isenção de auto estima.   - No mesmo minuto posso inadequadamente não conseguir olhar nos olhos de alguém, como posso fixamente admirar uma pessoa e, da minha boca muda, saírem palavras com cheiro a flor.   - No mesmo minuto posso não me reconhecer e descobrir que só eu existo no mundo.   - No mesmo minuto posso admiravelmente ser uma criatura altruísta como ser a mais vil de todas.   - No mesmo minuto posso ser e não ser.   - No mesmo minuto, dentro do mesmo minuto, o meu pensamento são fragmentos de ideias, direcções, factos, recordações e sonhos, são estes minutos que me desnarcisam, são estes minutos que me consciencializam, são estes minutos que me equilibram.     - No mesmo minuto sou dois e os demais juntos … aceitando e vivendo apenas, com aquele que eu sou.

Palestina

Homens que mandam noutros homens, Crianças mortas em nome da liberdade.   Eu quero ser dos que morrem, E dos que ardem de verdade.   Os meus dentes rangem raiva, Em cada corpo de menino a caminho de ser homem, Sepultado,   Seja em que faixa do mundo for, Mais do que raiva sinto dor.   Voltaria a suicidar-me todos os dias um bocadinho se o meu flagelo fosse escutado, Se a minha luta vingasse.   Se eu pudesse espalhar arte nas carabinas, E nas pontas dos misseis poetas transportar,   Cantaria, Arco-íris, Livros, Musica, E fraternidade.   Que porra esta de mundo que enterra meninos, a caminho de serem homens.

A direcção do destino

Levantei-me do chão que foi a minha cama, Ausentei-me daquele que fui eu, E parti da poça que foi o meu mar.   O amor começou ainda antes do dia raiar, Antes mesmo do dia em que parti, Precisamente no dia em que cheguei.   Para trás toda a validade faz o que sou, Sem passado não existe presença no presente, Sem todos os socalcos terem sido decalcados, não existiria.   A direcção ao destino ninguém o sabe, Nem eu, nem deus, O destino não é fatalidade.   Se sou agora o momento, curo as chagas, Prometo ser de mim proprietário, Na propriedade que me assiste.   De trás esqueci tudo para que me possa recordar a mim, Arrumei tudo o que era para arrumar, Que o destino não está programado.   Levantei-me do chão que foi a minha cama, E fui visitar o mar, Levantado do chão que foi a minha cama.

Folha caída

E agora fala-me de ti, De uma forma destemida e orgânica, Sem teres a certeza absoluta que eu te escuto ou ouço.   Fala-me sem pensares no vulcão que emerge em ti, Fala-me. Fala-me como se eu não ouvisse, Fala-me sentindo só.   E agora não me fales mais de ti, Com essas palavras sem improviso, Com esse calculo de matriz de caso notável, Como se as palavras fossem o terceiro grau de uma equação, Ou como se em mim existisse apenas o sabor doce das palavas que sinto amargas.   E agora falo-te eu de mim, Com pequenas considerações óbvias e sentir. É época de fruta madura caída da árvore, Mais saborosa do que a aquela que ainda há-de cair, Eu já caí da folha da árvore.

Produção ?

Tarde noite já desmaiada, Sol apressado em seguir, Raios de noite embaciados já espreitam.   Eu, Depois de nas horas de luz ter produzido não sei o quê, Para não sei quem, Não tenho mais que fazer, E tenho ainda o tempo que me resta, E o que me resta de tempo.   Em casa, Dois sofás confrontados de solidão querem-me no seu colo, Eu prefiro o frio, Eu prefiro a rua, Eu prefiro não sei o quê, Com não sei quem, Tal como o dia findo de trabalho.

Lastimadas agonias

O soma da loucura dos momentos na minha alma, é o património que me abastece,   Os campos onde pousam as nuvens acinzentadas florescem a cada despertar da minha dor,   As milagreiras ladainhas de outrora feneceram,   Tanto pranto encravado na minha voz,    Tanta fonte sufocada à nascença,   Tanta peste curada com abraços,   Nas esquinas que habitei vivem ainda apodrecidos pedaços de gente,   Os prédios envelheceram sem que os anos sepultassem os dias,   Os campos, as flores, as nascentes, os prédios e as lastimadas agonias, abastecem o meu património.  

Destino ou caminho ?

Quando as palavras que dizemos só a mim pertencem as do silêncio, Quando o vendaval das ideias não encontram as palavras que entendas, E eu, Quase moribundo, De olhos encharcados, Escuto o silêncio de que não fazes parte.   Entendo então que: fiz parte do teu caminho, mas não faço parte do teu destino.

Execução

Dei-te o meu amor conjugado no presente, O mar corajoso, pleno e domado, E a liberdade dependurada nos meus olhos.   Dei-te as formas definidas do que sou feito, Um homem desumanizado de emoção, Tu, terra levantada de pó, quase que me executaste.