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Mostrando postagens de outubro, 2015

Na floresta, o vento geme e o sol doura.

Em todas as manhãs sou refém do dia, Em todos os dias me liberto das manhãs.   No céu, As mais escuras nuvens lastimam água cristalina, E em todas as montanhas, Cada gota de orvalho enfeita todas a flores sem excepção.   Na floresta, o vento geme e o sol doura.

Liberdade IV

Quando um homem se despede depois de regressado,                                                   desperta noutros homens o valor da liberdade.

cinza outono

Este céu cinza outono, entre os montes e o rio, castanho, esverdeado e mais logo breu, depois, a torre badala a noite, e o fumo acendesse nas chaminés do outono, já não existe fim de tarde, existe somente a noite, a desmoronar-se no dia.

Luaty II

Acredito que não morrerás. Acredito que os homens não morrem.   Afianço que há homens mortos a governar. Há homens mortos a mandar na liberdade de outros homens. Há homens que nos governam numa cegueira e surdez afecta ao capital. Há homens mortos pela dependência do dinheiro. Há homens moribundos mortos de princípios, escravos da majoração do pseudo estatuto. Há homens e seres, que somente passam por aqui.   Depois, Existem os homens que não morrem, Os homens que não partem, Os homens que ficam por cá por todo o sempre.   Acredito que não morrerás. Acredito que os homens não morrem.

as cores deste céu

Estas cores, Este céu, Desassossegam-me de felicidade a alma.   Sinto saudades dos velhos amigos, Com quem partilhar o céu, Com quem dividir estas cores.

Confissão

Desconfesso admitido mil horas de abundante solidão,   Onde permaneci vago em todas as artérias do meu corpo, Numa redundante vontade de: Amar, Matar, Vociferar, Desdizer, Suicidar, Amar-me, amar-te e amar-vos.   Intrínseca nesta solidão achavam-se os espinhos cravados no corpo, Das verdades por desistência, Das mentiras não confessadas, Dos pecados, Da amedrontada penitência, Cobarde, ri-me enquanto os meus olhos choraram.   Confesso que me confessei e, só depois vivi.

abundância

Provavelmente não bastará a abundância do meu sentir, nem a metamorfose da minha face.   Provavelmente não bastará saber que em todas as horas em que verto saudade no olhar, existe no meu peito uma orquestra em contrapasso, como as folhas que soltas dos teus braços de Outono nas árvores que te cuidam.   A semântica das palavras abrangem o seu significado na abundância do meu sentir.

Partiste

Partiste com o amor que te dei, Partiste como o amor que me deixaste, Não te tenho mais, Alegra-me o que levaste, Vive em mim fortificado, Todo o amor que me deixaste.

Anormalidade é sentir-me um rio sem água

Tenho observado muitas vezes a seguinte expressão: “não sou normal”, “eu não me sinto normal” vendo eu a expressiva e incessante busca de um anormal conceito de procura de normalidade, vendo eu a busca incessante de aceitação da pseudo normalidade em nome da anormalidade.   Anormalidade é sentir-me um rio sem água, uma nascente sem ideias, um rumo sem rota, um mar sem marés, uma luz de luar sem lua, amar sem amor.   Tudo o resto me parece anormalmente normal, pseudo normal ou num querer de entendimento por esforço, paranormal ou que lhe quiserem chamar. Tudo o resto é normal se saído da raiz humana.

Albergo dentro do meu passado toda a miséria e gloria

Albergo dentro do meu passado toda a miséria e gloria.     Respiro tudo o que em mim existe e tudo aquilo em que eu existo. Os meus poros segregam a vontade de em cada final de dia renovar-me, em toda a glória, em toda a miséria.     Ambas são vida. Ambas são oportunas ofertas a mim mesmo de mim próprio.

O velho abraço da antiga árvore

Sonho em oferecer-te no meu imaginário campos de tulipas, de cada vez que te vejo passar nos meus olhos, alheada da existência de outro qualquer ser.   Rosas brancas como os teus olhos alegram-me todas as tardes em que te passeias e, eu fico imóvel na espera da tua partida, que torna moribundo o entardecer do dia em mim.   - Todas as manhãs espero pelas tardes entardecidas pela tua entristecida partida. - Todas as noites sonho com as tulipas e rosas que, sonho em sonhar ao acordar.   Conforta-me o velho abraço da antiga árvore.

coração

O coração não esquece o que esquece a memória, O coração não esquece o que despreza a lembrança, O coração não esquece o respeito do pranto, O coração não esquece a morte da recordação, O coração não esquece, sente.

manhã feita de maré

Coincidência é este rio calmo e translúcido, Arrebatado e sonhado, Crente e amado, Que se eleva da foz para a nascente, E da nascente para a foz, Sem nunca desaguar de forma que se possa dar como terminado.   Coincidência é esta corrente que me invade, Floresta azul, Sol nascente, Clareira de sorriso aberto, Denso abraço, único e verdejante, A florir como chuva no olhar.   Coincidência é a celebração aguardada em forma de aliança que nos oferecemos, numa manhã feita de maré e quase madrugada …

Não existe passado na amizade II

Não existe passado na amizade, ela é viva e dinâmica, mesmo que no presente os traçados de vida se tornem divergentes.   Isso não a torna efémera, nem por nunca ser, definitiva.

Carta

Olhos cruzados de olhos, Desprendida de mim a vontade de te sentir, Hoje, Amanhã, Um dia, Nunca.   No intervalo de não te saber sobro eu, Que sou de quem posso cuidar, Nesta espera, desconfio até de mim, De vãos conceitos, Como partir ou ficar.     Sonho com as madrugadas fartas, E os amanheceres parcos, Sonho com os dias em que te queria sem saberes, Da ingénua vontade de te desconhecer, Quando te percebi decidi:   Nunca, um dia, amanhã, hoje, - É esta carta que te escrevo, é esta carta que te envio -

O que arde tem mil anos para arder de lágrimas por incendiar

O tempo despedido da tua ausência, A névoa que te lembra, O sol que comigo se deita.   O que arde tem mil anos para arder de lágrimas por incendiar.   A noite não é mais noite, E no delírio de um contrabaixo, Peço à névoa que te lembre, E a um piano que me abrace.

Tempo e estado (tempestade)

O tempo não me pertence, Sou eu que pertenço ao tempo, Sou simplesmente tempo dentro do tempo.   É o tempo que decide o que faço com ele, É o tempo que escolhe o que faz de mim, É o tempo que ajusta a minha dimensão.   É o tempo que que me eleva, É o tempo que me devolve, É o tempo que me escolhe.

Volto sempre ao sítio de onde sou

Volto sempre ao sítio onde pertenço tal como a árvore enraizada na terra, Regresso sempre ao sítio de onde eu sou, Onde o cheiro conhece o meu cheiro, As mãos conhecem as minhas mãos, o meu andar, O meu cabelo desgrenhado, E o vento que afaga a minha cara.   O sitio de onde eu sou cuida de mim, É experiente, Conhece muita gente, Muitas pessoas, O sitio de onde eu sou não é só meu, Mas eu sou só do sítio - de onde eu sou-.

Sou entregue à reserva que os dias possuem para mim

O cheiro invade-me nas manhãs de montanha, O silêncio aconselha-me, Caminho só por caminhar, Sem tempo, Sem sítio para onde ir, Sem sítio onde ficar, Como todos os dias da minha vida, Sou entregue à reserva que os dias possuem para mim.

palavras que reparto

Gosto quando ausente me sinto parte, E quando parto não me sinto ausente, E quando estou me sinto gente, E enquanto gente existo presente, E me encanto só por estar, E me alegro na saudade de voltar.   E quando as palavras são as que reparto, No abraço da noite aguardado, E quando a neblina se desfaz porque eu vou, E o mar ecoa na minha alma porque estou, Toda a noite se alinha no que crê o meu peito, E vivo posso estar morto, …………………………….E morto posso estar enquanto vivo.

Cresce o musgo na rocha como geme água no meu olhar

Ardo de fogo verde cinza, E de flores enfeitadas no peito. Se se ganha perdendo, Perco-me no pensamento. O silencio dorido, Faz fria a madrugada amena.   Despe-se celeste o negro do céu, De palavras enclausuradas. O frio trespassa-me, E aquece-me a essência. Leva-me o que me deste demência, Lucidez enfurecida.   A mesa segura-me os cotovelos, Os ombros sustentam-me a cabeça. A cadeira aconchega-me, Cúmplice no meu gritar. Desfaço promessas num soluçar, Cresce o musgo na rocha como geme água no meu olhar.

Luaty Beirão

Entre a liberdade e a opressão existe apenas a divergência de opinião, A liberdade é a liberdade e tudo o que distintamente respeita, A opressão é a opressão e nela apenas existe opressão, A poesia pode dizer não, Os versos podem dizer sim, As palavras entender-se-ão com a liberdade, E o povo reclamará a quem teme, E quem reprime hoje, Temerá quando seus próprios filhos lutarem pela liberdade.

Variações de mim em mi maior

Variações de mim em mi maior   Percorro a escala infinita de todas as notas previsíveis e não possíveis, Começo em mim num mi menor acorde simples de beleza complexa, O mi não tem sustenido mas eu ajusto-me ao bemol da nota seguinte, Em mim toda a escala falta e sobra, Em mim todos os acordes me habitam e destituem, O que sinto é agudo, Toco a sétima do acorde mi em mim, E todas as notas e acordes se enquadram com o meu sentir, E vou dedilhando a madrugada, O que eu sinto, O que eu sou, Num braço de uma antiga viola irmã.

a promessa da não desistência do amor

E oiço acerca do amor a promessa de falhar, E oiço acerca do amor a promessa de acertar, Mas nem uma outra assegura, Que se falha e acerta, Com a normalidade que tem o acerto e o erro, Por quem é constituído de massa humana, E das imperfeições inerentes à raça. Não tem mal falhar, Não tem mal acertar. Para ambas basta ficar, Para ambas basta a promessa da não desistência do amor.

já não posso, mas posso

Já não posso com o cair da noite nem a enxurrada nascente dos teus olhos. Já não posso com os verbos no tempo perfeito, pretérito e condicional. Não posso com o dia de hoje que não se imobiliza, nem com o de ontem que não ficou por cá, nem com o que tarda em vir e que morrerá como todos os anteriores.   Posso com o livro que tenho entre olhos, entre mãos. Posso com todo o amor escondido em mim por um muro construído de ar distraído. Posso com tantas coisas que não sei poder. Posso com o refúgio do meu pedaço moreno de mar a sul. Posso com a saudade. Posso com os dias acabados prontos a serem recomeçados e o desconhecimento de cada um deles em mim.

No dia a mim regressado

Nao sou delírio somente, Nem a certeza da corrente, Nem o rio desaguado, Nem o tempo que me mente, E tem o sol em janeiro, E o mar o ano todo, E água que rompe a saudade, No vale onde te abraco , E o sossego que pára o mundo, No dia a mim regressado.

Não sei o que julgo saber

Não sei o que julgo saber. A vida são palavras esvoaçadas de boca em boca. Os meus sonhos são como voos de pássaros que me trazem a claridade das manhãs.   As palavras sepultar-me-ão numa oração encomendada pelo meu corpo. As palavras pesam como o mar e sabem-me como o orvalho cristalizado nas flores amanhecidas.   As palavras são densas como as montanhas. Nas palavras existo. Nas palavras subsisto e entendo o que julgo saber e não sei.

Amorando

Faz falta o desvario ao amor, A insensatez.   A não pertença de gente no mundo, Que não as duas almas arrebatadas.   Faz falta a penúria do juízo ao amor, Não se quer o amor ajuizado, De hora marcada, E sítio esperado.   O amor não é normativo, é desregrado, descomedido e exagerado, Como todas as respostas que a natureza esconde no maremoto.

Pai

O meu pai faz hoje mais de oitenta anos, lúcido e sábio. O meu pai não é como todos os pais do mundo, nem o melhor, nem o mais qualquer coisa. O meu pai é o meu pai.   O meu pai é aquele homem de quem vou atrás, mas que jamais alcançarei. É de uma massa inexistente, única e resistente. Tem o saber do recolhimento pensado das palavras. Tem o afecto do saber o peso de não ter tido pai.   O meu pai não é como os outros pais, nem o melhor, mas é o único pai no mundo para mim. Fui abençoado de pai. Parabéns Pai. Amo-te.

refém

Sou refém do meu passado por muito que ele me perdoe, porque o meu passado tem muita mais que me perdoar a mim, do que eu a ele.   Estou refém do meu futuro porque o meu futuro vai ter que me perdoar muito mais a mim, do que eu a ele, porque sou imperfeito.   Enquanto o meu passado é carregado de futuro, o meu futuro irá ser carregado de passado e de todos os dias em que um dia de cada vez, neles, habitarei.

Cada minuto em ti

Cada minuto em ti sou eu, Cada momento é a soma de nós, É a vida e alma em mim, É o uivar do vento na noite quente, É como o mar que de desfaz na areia da praia, E a foz do rio desfeito no mar.   Cada minuto em ti ... - somos -

Já fomos um País de poetas que sonhou com a liberdade

Já fomos um País de poetas que sonhou com a liberdade.   Já estivemos voltados de costas com costas, de peito com peito. Já tivemos traidores nas nossas esquinas que escutavam a liberdade e bufavam. Já tivemos presos torturados por proclamarem pão para os filhos. Já tivemos analfabetos por falta de possibilidade de aprenderem a ler e escrever. Agora temos doutores analfabetos que não lêem emocionalmente o povo que castram.   Amanhã há eleições. Mais de metade de nós não vai votar, não diz o que sente, não canta o sonho dos poetas. Eles vão. Vão todos para se auto elegerem, não falta nenhum.   Temos um Abril quarentão de pseudo liberdade. Temos um abril de 48 anos de ditadura. E entre eles existem diferenças? Claro que existem. Mas ainda existem muitas semelhanças, demasiadas semelhanças, mais do que deveria existir.   Já fomos um País de poetas que sonhou com a liberdade. Eu vou morrer com o sonho dentro de mim. Irei votar no meu sonho de liberdade e igualdade.

preenchimento nulo de ser

As vontades são acrescentos ao ego, não que as vontades não sejam genuínos direitos, se precedidos de genuínos deveres.   A vontade de ser, precedida de existência, é amorável.   A vontade de ter, antecedida de ética, é o acrescento à isenção do princípio.   É o preenchimento nulo de ser, ao invés da ingénua beleza da criatividade

refugiados

Os países habitam o mundo, Os povos habitam a paz, As mãos dão-se aos homens. As cores misturaram-se no mar.   Nas dunas jaz o poder, Do direito ao capital, Que faz o mar doar à praia, Pedaços de morte brutal.   E fazem-se teorias dementes, Nas mentes dos homens doentes, Que se acha até normal, Rejeitar pessoas que são gente.   E apelidam atordoados, Mais morte para os refugiados, Que têm filhos iguais, Aos deles, mentes castrados.

A deus nenhum terei rezado

Poucas vezes fui mais do que eu, E em nenhuma fui menos do que eu próprio, A deus nenhum terei rezado, Ou acreditado na fé meramente, Que eu vivo sem crer que existe, O que os homens vendem à dor, Em pedaços de respostas angariadas, De um rigor que não se sustenta, A um homem que subsiste, A uma paz que se ausenta, Nos olhos triste de uma criança.   A humanidade não tem deus maior, Do que os homens poderiam executar, A terra sepultar-nos-á - mesmo desiguais -.

Palavras por ver o sol um dia antes da revolução

“O meu olhar vagabundeia no vazio da imensidão que me sacia, no escuro entristecido dos meus olhos. Os meus passos escrevem palavras sem nexo, aos olhos da humanidade construída por eruditos. O meu passado, outrora descrito por um louco escritor que apodreceu entre as palavras, as garrafas, o fumo, e as mulheres que amou e não bem-quereu, encaminha-me. Li-o muito. Reli-o tantas vezes que me vi nele.   O meu sentir único e exclusivo é-me querido. Cada voo de gaivota não me é indiferente. Pinto cada rocha como se fosse ímpar. O nevoeiro é em mim o arco-íris no delírio sábio da minha fantasia. Salto de sonho em sonho. Arranjo o tempo como se o concertasse e, escrevo. Exorcizo-me.   Gosto das pessoas que me gostam mesmo quando não me gosto. Não sou fácil. Assusta-me a minha sedução pelo vazio, o inexplicável, o suicídio, a solidão, o medo, o desafio, a morte mais do que a vida. As partidas mais do que os regressos. As minorias, os bêbedos, os drogados e as prostitutas são-me queridos. É co...