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Mostrando postagens de outubro, 2012

É como baralhar os elementos

Fazer da ausência presença é como baralhar os elementos. A terra, o ar, o fogo e a água, são analogamente consubstanciados pela admiração, confiança, desejo, paz e esperança. Ter-me é ter-te. Da enfadonha madrugada soltei-me. Cheguei à partida e fiquei. No fosso que existe do verão para o outono existe um limbo que me exalta de vida. A passarada ruma ao sul por esta altura, em esvoaçadas maratonas que representam o meu caminho feito de cicatrizes saradas, e outras por sarar. Depositar-me na compreensão e adormecer no afago, era, o que não alcançava enquanto existência. Assumir dentro de mim “o nós” da caminhada, era o segredo que teimava em manter. Nada por mal. Nada por acaso. Nada, por nada ser. Sentires irracionais não delineados na vontade. A minha casa sempre foi o abismo onde prendi as minhas amarras, onde as minhas âncoras sem lastro me prendiam, numa desconfiança colorida de não entrega, apenas pela entrega. Sempre confiei que podia não ser mais, mas se algum dia o fosse, seria...

Purpura

É urgente, muito urgente saber de ti, Não te saber iminente, É como afrontar os lírios que secam sem a água das minhas lágrimas.   Comprovado. Existes como Fellini, feiticeira dos meus feitiços, Sacrossanto este sentir estanque. Não te saber iminente é a urgência da minha demência.   Estás, estou, somos, sou Sentir esta anunciada e oculta presença carnal acontecida, Decifrada foi  na manhã de luz cometida.   É tanto, mais do que eu próprio, Ter o teu corpo em tremura, Os meus beijos são a saudade, a cor?   …É purpura.

Da baía até ti

Do cimo do meu olhar recôndito, adivinhei sentida a existência de mais do que vida na floresta densa e inacessível. Decidido em ser água gemida da rocha inclinada em que me sentei, reconstruí um caminho que a atravessasse e nela me pudesse balançar e encantar. Numa gestação de vida anunciada, nove meses separaram o desejo da travessia, ao abraço, segredo e existência. Do sonho das marés das quase madrugadas e da areia branca decalcada pelos andados passos, se construiu o caminho, sem afinal se saber que se estava a traçar o trilho da descoberta do coração, acompanhado de oração e silencio, como que por coincidência anónima se conjecturou no firmamento, o que haveria de ser presente, o futuro.   Faltava aniquilar algumas parcelas de tempo. Confirmar breves reencontros. Devolver a candura do astro e deixar a quimera incendiar-se. Faltava soltar palavras simples e verificar o olhar dentro do olhar. O que era agua gemida da pedra já se fecundara em vida, já desmoronava clareira adentro, e ...

“Tens-me”

Estou exausto. Exausto de me carregar por estas escadas, depois da longa viagem. Exausto desta semana adiada e suportada. Deste ano idealizado, tornado longínquo e improfícuo. A vida é, como as tempestades. Do nada, ergue-se um tens-me, que me dilacera e me torna incapacitado de reacção, ou execução. Um tens-me, que me deixa atónito, inerte, surpreso, assustado, reactivo, agradecido, aborrecido, torturado, libertado, invadido, desconcertado, sufocado, arrepiado, descondizente, obcecado, incendiado, gelado, agoniado, dormente, demente, fascinado, feliz e aliviado.   Meter isto tudo num tens-me, assim, de uma vez só, retira-me as forças até de caminhar.   Preciso de voltar a mim. Agora de uma forma diferente. Não regresso da mesma forma que parti. Regresso um outro homem. Um homem acompanhado de mim, todo, por inteiro, com a minha essência dividida com quem ouve a mesma poesia. Um homem dividido no sonho, no olhar, no beijo da manhã, e nas mãos dadas da noite.   Regresso a mim enquanto a...

Escolhe-se o que se aceita ....

Não se entende este sentido que a vida nos dá. Entende-se, o que achamos que devia ser a nossa vontade, geralmente antagónica, ao acontecimento que nos está reservado. A vida divide-se em partes incontroláveis de escolhas “não nossas”. Não se escolhem os pais ou os filhos, os amigos ou as mulheres, os países ou as estações. Tudo é escolhido para nós. Tudo nos é brindado. A nós, apenas nos cabe aceitar as escolhas que nos são majestosamente dedicadas.   Mas quem nos escolhe, ou escolhe para nós?   Muitas vezes não aceito, porque estou ocupado a escolher. Se pensar que posso aceitar numa base cega de fé num desacreditado e crescente sentir, baixo esta resistência espiritual e, talvez me ajuste melhor às minhas inquietações, às minhas incompreensíveis questões e, dê de mim, aquando de uma oferta não entendível e/ou questionada oportunidade de, saber que o que sinto pode ser para mim, subtraindo as escolhas que na verdade não o são.   Ser, não é somente existir. Alienar, não unicamente ven...

E até o Jazz foi presente e dedicado

Tenho o teu cheiro nas minhas veias, o teu abraço sufocado no meu pescoço. Tenho a tua boca na minha, mel, beijos e segredos confiados. Erguem-se os corpos ao espelho do sol. Recolho o que sobra da face e dos braços de cada jornada de ausência. O rio visto da encosta é sofrido e desenfreado, inquieto e endiabrado de tranquilidade.   Pérolas são os teus olhos, Cicatriz que fica do teu abraço, Palavras soltas que me soprastes, E até o Jazz foi presente e dedicado, Numa noite tardia inacabada.   Descida a rua, juntos bebericamos, Palavras gastas de uma companhia não convidada, Que nos incendiou de fogo o peito, De tamanha ousadia, Em nós descrente.   Mesmo sem te ter aqui, aqui te sei, Melodia e vontade, De mais te ter e saber, Desse nome de guerra que não o é, E que nunca achei que o fosse.   Por não te saber conhecida, este sentir não está errado. Retenho o teu cheiro nas minhas veias.

Crise

Um povo imbecilizado é um povo subjugado. Estamos para os políticos como futebol está para os “treinadores de bancada”. A crise como se apraz dimensionar não é nada de novo. A crise sempre existiu, em todas as vertentes sociais deste país. A crise na agricultura, na educação, na saúde, na justiça, nos valores, na identidade, na sexualidade, nos relacionamentos, nas gerações. A crise por si só cresceu connosco. Não me espanta em nada, esta “crise dos escondidos”. É uma crise falaciosa e sem sentido.   A crise é alguma coisa que pressupõe uma profiláctica mudança. Se nada se muda aquando a identificação da crise, tenta-se mudar depois dela instalada?   A crise foi, quando se achou normal existir um país de analfabetos. Quando se achou inevitável haver terras por cultivar, e se achou coerente distribuir a riqueza de forma desigual entre o patronato e os assalariados.   O que há de novo nesta crise? Nada!   E o que há de velho nesta crise? Tudo!   Os intervenientes são os mesmos, os de sem...

Ventre de mel

Sabe a mel o cheiro fresco destas manhãs. Estes últimos amanhecimentos são-me recordados pela ausência. Sabe-me a fel cada noite apartada. Na junção das estações, enquanto uma não acaba definitivamente e a outra decisivamente não recomeça, junto-me às folhas que amaciam o caminho, e, respiro fresco o ar que me embriaga. Desnudado, de cada vez que em desabafo suspiro, oiço roufenho o meu peito despertencente do meu corpo. Cego, trago no ventre o vento que me sustem. Não tive mãe pertencente ou sinto pertença de uma mãe. Construí a mãe no pai da minha filha. Elevo o sangue juntando corações que se quedam no horizonte inquieto. Turbulenta, a vida passa-me numa rajada de ventania, dilacerando-me o corpo presença de traição e amor injustificado. Juro vingança aos céus inexistentes de deus, pela ensanguentada juventude na mórbida vontade de estar vivo. Anos depois de “amorfinado” me encantar, canto em acordes inventados, uma canção que dedico às flores. Sorrio em tons suaves de violeta o reg...