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Mostrando postagens de agosto, 2020

A dimensão dos corpos que se vão

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Na alegria desta pele enrugada não quero saber mais de tempo, se o tempo quiser que saiba de mim. Não me importa se a oeste chove ou se o vento massacra a areia e a maré cheia revoltosa. O tempo não me importa, se falta muito ou pouco, de onde vem, se tem planos.  À ordem de cada dia, que se salvem a dimensão dos corpos que se vão.    

Tania Laranjo

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Há varias formas de descrever o sucedido, mas o nome é só um: filhadeputice. O que eu vejo? Falta de espirito de equipe, falta de espirito e grupo, de entreajuda, de preservação da intimidade do outro. O que eu vejo? Uma pessoa doente que devia ter a sua intimidade preservada. Há formas de o fazer, são feitas em várias vertentes, o empregador, os colegas, família, ela propria, etc. O que fizeram? Uma sacanice que desumaniza a humanidade. Ironia do destino CMTV. Há possibilidade de recuperar, aqui: www.aaportugal.org      

Lidia Jorge

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Mulher feita de mulher, escritora, artesã de palavars adocicadas pela bela língua mãe que tão bem cuida. Ganhou mais um prémio. Pouco ouvi falar. Aqui, deixo a minha vénia a esta mulher de fina sensibilidade. Aqui, deixo um obrigado em nome da liberdade com que escreve, e da relativização da morte que traz no olhar.    

Não aprecio flores colhidas

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Não aprecio flores colhidas como sinal de afecto, aprecio flores nos seus canteiros sossegadas sem a crueldade da transcrição projectiva da semelhança de quem arranca flores de um jardim, e lhes dá como destino uma morte num mono desgracioso com água apodrecida.  

É isto que vale para me entender a mim e ao mundo

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À roda das fogueiras aprendi sobre a vida, ensinamentos que só se aprendem à roda das fogueiras. Não é possível aprender em Paris o que se aprende à roda de uma fogueira na serra de aire ou na pedreira dos húngaros, quem diz Paris diz outra cidade qualquer. À roda das fogueiras aprendi a ler o fogo, a noite, o beijo, o nome das estrelas desenhadas no céu, aprendi a rota dos aviões, o nome de ervas, o valor do desejo e do amor também. Aprendi que a noite não existe sem que haja noite e o lume não se repete em nenhuma labareda, aprendi sobre o valor da saudade, da presença, sobre as marés, a afinação dos pássaros no seu cantar, o caminho do vento entre as serras, aprendi acordes e canções, poesia e alucinação, fado e lágrimas choradas em tom menor. À roda das fogueiras aprendi sem certificado que possa atestar conhecimento, aprendi com sangue e vida, metáforas e pensamento divergente. Tudo à roda das fogueiras. É isto que vale para me entender a mim e ao mundo.  

quase rara a casualidade dos amigos

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Amigos casuais são isso mesmo, são a casualidade de poder chamar amigo sem que tenha melhor definição do que essa mesma de: - casualidade - Os meus amigos constroem-se quase sempre com as casualidades do caminho, a troca de opiniões sobre a causa das coisas e uns abraços. São escassas, estas casualidades. Quase raras.    

A todos os adjectivos que conheço falta sentido

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A todos os adjectivos que conheço falta sentido para que consiga descrever o quão é só e vazio o teu nome, quando não me respondes e/ou vês.  

À frente a alma

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À frente a alma mesmo que não aliviada, o tempo do entendimento será alcançado e com ele a catarse simplista do alívio da compreensão, é neste momento que a alma se apazigua, e a verdade é a verdade, e a mentira é a mentira, as duas terão a mesma importância pela função, e nenhuma pelo conteúdo.  

Ventre e luz como a virgem maria

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O espelho, a miragem, o teu angulo ao desapareceres na porta, o terraço, tu adormecida, eu inquieto. Eu sossegado, tu a acordar no quarto onde o eco grita o teu nome, a caneta pousada em cima do livro que sublinhaste, o relógio de ponteiros luminosos como a virgem maria, a caneca tombada e esvaziada. Tu, inquieta, eu a contar histórias sobre astros às estrelas, a garrafa entornada no chão quente do terraço, agosto ali, o desejo dentro do quarto e os planetas alinhados em saturno no céu. Tu sossegada, descansando o teu peito nos meus joelhos, a tua cara no meu ventre, sim, porque os homens também têm ventre, desventrado, mas é um ventre, infértil.    

Há neste poema uma tentativa de poesia

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Não há neste poema pensamento ou razão, momentos fortes, armaduras, defesa ou ataque ao que sinto, há aquilo que em mim se desnuda, que guardo e não sei explicar, há as flores onde vejo o teu sorriso, os sóis todos que já observei, as luas que esperei todos os meses, os lençóis por lavar semanas a fio com o cheiro da tua pele.   Há neste poema uma tentativa de poesia, e isso, já é amor.  

Bruma

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A bruma não é igual à da praia do lado esquerdo, penso que seja pela amparo que as rochas fazem ao mar, afinal o mar precisa de aconchego também.    

A liberdade, essa maluca!

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Sou alguns personagens que desconheço. Em mim incorporam homens livres, experiência que nunca tive nem creio. Não afianço a liberdade do homem. Acredito em algumas liberdades que não a minha. Acho livres: - o vento, o mar e as nuvens – Fui aprisionado com todos os dogmas que se me apresentaram, com o conceito de pecado, de verdade, de liberdade mais encarcerada até que alguma prisão. Luto para que a liberdade seja em mim - “uma não própria vontade” -  que nela eu tenha pouca importância ou intervenção, que não seja mais do que sono exaltado que tome conta de mim, com o sentido do sonho que gozo através dos personagens que desconheço de mim e em mim.    

O mar morto como estado novo

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O mar morto como o estado novo, Voltou a ser quem era em noite de abril, Em que todos sonhámos mais o mar.   Hoje, dorme e acorda, acorda e dorme e - vai sonhando salgado, aos poucos -  

Não sei do que se alimentam a angústia, a saudade e a tristeza

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Não sei do que se alimentam a angústia, a saudade, a invasão sem aparente razão da tristeza. Não sei do que se alimentam, mas alimento-as não sabendo eu do que se alimentam.  

André Ventura / Mário Machado

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Assusta-me a instrumentalização do André Ventura. A minha opinião foi mudando. Acho que não é um democrata, acho que é um “portuguesíssimo chico esperto” mas também acho que está a ser engolido por uma extrema direita assassina que já matou e foi condenada, e aproveita o ingénuo (sim, porque comparativamente a eles é um ingénuo) André Ventura para fazer sangue e desenterrar a sua violência, racista, pseudonacionalista, homofóbica, xenófoba para fazer ressurgir o sonho de Mário Machado. Perigosa esta “aliança”.    

Procuro-me

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Procuro-me ainda. Revisito-me diariamente. É impossível não o fazer se a minha essência é cristalizada em mim. Mudei algumas coisas porque fiquei mais velho. Tomei melhores decisões com o tempo mantendo velhas decisões tomadas sem muita consciência ou certeza, mas que eram inevitáveis. Mudou muita coisa desde há mais de vinte para cá, mas não mudou coisa nenhuma no fundo. Procuro-me ainda. Revisito-me diariamente, e as certezas são as mesmas incertezas.  

O cheiro a pessoas na praia? Já não o sinto

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Há cheiro a pessoas na praia, sinto-o. Ainda não desci a arriba que me dá o mar de prazer, escolho o canto onde não se ouvem vozes, onde não se tiram fotos por troca em tirar a roupa. O sol faz a função vitamínica na minha pele. O sono a função retemperadora do meu corpo. O livro abraça-me com a areia. Acordo depois de adormecer para voltar a adormecer depois de acordar. O mar oiço-o de dentro da terra, com o céu, as nuvens, e o perfume dos cactos de flor amarela a dizerem-me que que o mar não é um vulcão, mas que são amigos e se dão bem. Já não oiço pessoas. Agora que tiraram todas as fotos ao por-do-sol das ondas do mar, já não as oiço, foram breves instantes de mar somente. O mar, oiço-o agora de dentro da terra muito mais mar, muito mais terra, abraçados esperam que a noite sucumbe cada vez mais cedo. O cheiro a pessoas na praia? Já não o sinto.  

De tudo e de nada

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E, sabe-se tão pouco de tudo e de nada.   Sabe-se nada, contudo pensa-se que se sabe tudo, e nada se afigura mais alto que o valor dos olhos que se despem de alma, e, nus, deambulam pelas ruas e florestas, e afagam os cães mansos que se acariciam nas pernas de quem confiam.   As partituras das músicas que mais gosto são a meus olhos quadros coloridos, móveis desenhados, e a sala que habito onde não me importo de não saber nada de alma, sem outra roupa que me cubra que não a nudez.  

semiabertos / semicerrados

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Resmungas antes de o dia resmungar como no primeiro dia, acordas embelezada pela noite e, esperas o momento para te deixares acordar, é um sonho ver-te assim de olhos semiabertos / semicerrados.  

Estas arcadas de nós

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Estas montanhas que devorámos sem saber que do outro lado existiam silvestres as cores, os campos amorangados cor do sol que penetram o horizonte, e ainda mais longe, a noite já deve existir pelo tom do dia. Estas madrugadas que nos abraçaram sem sabermos que para lá da cidade também existe amor numa forma mais própria até, sem o medo da informação, da experimentação, da imagem, um amor mais amigo que a trovoada largada nas fendas de terra seca de sede. Estas noites voluptuosamente satisfeitas de seios e corpo, de lábios e boca, de sexo como navios desancorados em mar sem lua que indique a maré, sem astrolábio que traga a direção do vento. Estas arcadas de nós onde pernoitamos sem que alguém chegue, sorria e parta.  

O homem criou deus (extracto de palavras por ver o sol um dia)

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"... todas as evidências me dizem que foram os homens que criaram deus (es) e não o contrário. A terra sustenta-nos. O espírito recorre ao que o homem criou em justificativa forma endeusada, sem comprovação possível que não a incomprovada ..."  

terra

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São terras que conhecem o suor de quem as ama, São terras que conhecem o sangue do torturado, São terras que conhecem  lágrimas de mãe, São terras que gemem dor da dor de quem as trabalha, São terras de igualdade escrituradas em feudos desiguais, São terras que abraçam o cansaço de quem nasce do descuido.   Vergo-me aos operários e poetas que fizeram da terra liberdade em alguns dias.    

Extracto de palavras por ver o sol um dia (AGO20)

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“… o velório estava transformado em tudo o que o defunto não desejava. Nem da recordação de ladroagem o elevaram. As mulheres idosas pungem a má sorte que deus lhe escolheu. Os homens de meia idade elevam o seu exemplar comportamento em contraponto com o mau comportamento do defunto. A malta nova (eles e elas) recordam as noites quentes de verão, onde o defunto tocava blues com a sua harmónica presença orgânica dele mesmo. Uns e outros fizeram-lhe companhia. Ele, só queria é que aquilo acabasse, como os noivos no casamento. O velório transformado num profundo acto desnecessário. O padre (um dos convidados) perdoou-lhe em voz alta os pecados. Todos acederam com ar grave e sério à penitencia. Estava encerrado o inglório acto de despedida. Depois foi o funeral e não se falou mais disso. Nada foi como o defunto tinha planeado. Açambarcaram-se do velório para passarem um bocado de vida …”  

Esgota-me e desgosta-me.

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Quando a cabeça não se explana como uma planície a ver de fim e se transforma num túnel, as palavras deixam de alimentar o sonho. As conversas por aí ilustram-me a evidência. Esgota-me e desgosta-me.  

a praia a ser-me devolvida ás 20.17h

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as falésias de deserto junto á praia, as conversas das gaivotas, o sossego das ondas despovoadas pelo fim de tarde e a ausência dos usurpadores de mar, a competência para que o mar foi inventado, sem ruído que não o canto de cisne e dor. o fresco que chega embrulhado de lua, a praia a ser-me devolvida pela solidão, o mar a autenticar-me pela companhia.  

outros mares

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… as praias com rochas onde escondíamos os nossos corpos até do mar, já não existem …  

Todo o teu silêncio já me basta

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Por favor a nós, não soletres aquele ui com que encantas a madrugada, despe devagar de teu corpo a roupa que te alberga, sabes que me faço distraído dos teus gestos, que me comovo com a tua boca, que me ausento quando fazes de ti toda a rua que me acolhe, que me enterneço quando te olho antes da porta se abrir, e me dizeres tudo com o olhar.   Vê se não me dizes nenhuma palavra, todo o teu silêncio já me basta.    

Vicious

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Os vícios a serem maus não seriam vícios. Não teriam sido vícios nos casos que o deixaram de ser. Teriam sido labirintos de desprazer e tristeza sem saída, e não o foram, foram aconchegantes intrusos autorizados. O vício é um autorizado e acolhedor guardião da ânsia e do prazer, não sei por, que lhe chamam, vício. Devia de ser rebatizado por reflexo, e assim seria o meu traço e eco.  

a sudoeste na ilha

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Há locais que se deviam poder transportar, que se deviam poder trazer, que não se deviam poder deixar. Deixaria de bom grado a mala de roupa colorida que me enche a bagageira do automóvel por troca com a felicidade dos meus olhos, por troca com o vento, com as flores feitas mulher nas dunas, por a solidão da noite que nada tem de solidão em mim. Trocaria as orações todas que aprendi a um deus que desconheço, por toda a lua que me guarda na planície desaguada no mar. Largaria todos os meus amores menos o meu, e a cada vinte e quatro horas daria mais tempo ao tempo. Pudesse eu o tempo acrescentar. Há sítios que não são locais, são como mulheres a aproximarem-se de doar a vida a seus filhos. Há locais de sítios que são em mim: - eu próprio -