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Mostrando postagens de junho, 2020

Ha mais mundo

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Há mais mundo do que este onde me desfaleço em abastadas tardes, mas este é a suficiência de mim mesmo.  

Era uma vez uma praia

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Era uma vez uma praia que me faz companhia e não tem fim ...  

Melancolia

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A melancolia tem sempre tempo, quando o sol escurece do dia e a noite, se instala na sala do velho sofá roto, com a noite nova, e a luz da lua incandescente. A melancolia tem sempre paz, como se os lírios e o êxtase, tivessem tomado morfina. Amanhã, depois, é possível que haja silêncio (s) e estrelas.  

Canção

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Dou-te esta canção como um beijo, construído de distância, onde sobra mar, falta noite, e o sabor dos teus lábios imaginados são a sal.  

depois do amor os homens

Alguns homens depois do amor ficam desconfiados de deus, dos rios, dos bandos de pássaros migrantes, das músicas, das auroras suaves, de outrora quimeras, da desdita do destino, das folhas outonais adormecidas nos passeios, da gente que se passeia aos domingos, da vizinha que deixa perfumada as escadas, das bocas que dizem bom-dia, dos olhos que sorriem boa-noite, das flores que secam com o sol, do mar que cai no horizonte, do sal que salga as mãos, dos pés que se ensanguentam de caminho, da culpa remorsa do pecado instituído.   Alguns homens depois do amor ficam desconfiados, Outros ficam antes, Que o amor não é um desígnio secreto, Nem é invenção dos trovadores, Sem exclusão, Que não me aparto, Dos homens como eu.

Estória da cidade tentada

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Não era uma cidade fácil para quem vinha de uma cidade de província onde as caras eram todas conhecidas e as vidas infinitamente sabidas. Ali ninguém sabia mais do que nada. As pessoas não tinham um nome por que se lhes chamasse, saíam cedo chegavam tarde com um ar abatido de quem não tinham sido visitados pela felicidade. Não foi uma cidade clara para mim nos meus primeiros meses. Foram dias a regar com vinho a minha saudade e lágrimas, a esquecer-me da minha própria existência. As pessoas falavam pouco e quando falavam não as entendia, diziam nada que entendesse, pelo olhar lá íamos dizendo quase nada e, dizíamos isso mesmo, um quase nada de nada. Todos os dias me torturaram até ao último. Voltei. Soube-me novamente a terra o cheiro desta cidade pequena de onde eu partira com nada, e voltava com a saudade acumulada, com o valor clandestino de ser apátrida em terra minha, de ter regressado com o mar solto de uma noite e uma escolha:  - Antes a morte que uma vida morta – e assim chegue...

As escolhas simples são as inalcançáveis para a inteligência

  Não faz sentido que à perfeição da criação de um ser humano lhe seja retirado o domínio da sua própria vida. Não faz sentido que à humanidade, a organização dela própria erga muros e entregue a liberdade às próprias leis que a defendem. Não faz sentido falar tantas horas em tantas conferencias, simpósios, conselhos de estado, retóricos e sofistas a debaterem o que há nascença são direitos: - raça, credo, orientações, cultura e escolhas pessoais que não interferem nas escolhas de outros. Não me faz sentido.  As escolhas simples são as inalcançáveis para a inteligência, apenas porque um ser, quer dominar outro ser. É pouco mais do que isto!... Não me faz sentido!...

Do que é feito o coração?

Do que é feito o coração? É feito de tudo: de matéria onde o sangue se ordena com a vida, se coordena com a vontade, se imiscui com o trabalho conjunto e diário de todas as outras forças que nos mantêm  apresentáveis, com os outros órgãos que nos constituem. Não é isso. Isso eu sei. Do que é feito o coração das histórias que me contas, quando dizes que o coração: - geme, chora, alegra, aperta, gela, pára, acelera, angústia, sufoca, teme, arrisca, festeja, grita e ri - Do que é feito esse coração? Ah esse! Esse é feito de: vísceras, sonho, desígnio, passado, saudade, recordação, amor, desamor, paixão, ideais, esperança, querer, caminho, convicção, coerência, presente, mãos, mar, vento, e especialmente de emoção que é o sangue do amor e a destreza do coração. Quem não se emociona não sonha, não nada.

Gosto do saber das palavras

Gosto do saber das palavras

Tudo mais é resto

Consigo encontrar semelhanças entre mim próprio e um outro eu de mim que tenha existido, que exista ou venha a existir. Consigo tudo, assim me isole da putrefacta informação e me recolha em tudo o que tenho, e, tudo o que tenho é tudo o que sou. Tudo mais é resto.

à espera

As mazelas mais do que o corpo, as dores mais do que alma, a espera, a ardente música as estrelas, o céu, a poetisa, a voz embargada, o mar, a sala que tem voz, o eco, a avenida que treme de luz, o tampa do caixote do lixo que se fecha em si bemol, a vizinha que se passeia com o cão. (sei que é vizinha porque conheço o cão), o bairro, eu, os livros, a minha musica estranha, a surdez, a cegueira, a dor esperada nas costas espetada, a espera do tempo que leve o que traz.

continuaremos em parte incerta esta promessa sem tempo

O meu dia existiu na devolução à terra da pertença que me exclui, alegra-me o que levas de mim, alenta-me o que fica de ti, Já é noite, beberico no recato do meu pensamento um velho poema que diz: - continuaremos em parte incerta esta promessa sem tempo, que por lá não existem corpos que nos distraiam da alma"

canção de navegar

As canções dos marinheiros choram amor pelas palavras, lágrimas de mar e céu, filhos e noites ausentes, mulheres mães de saudade. As lágrimas das canções dos marinheiros soltam o vento que acalma o mar, e a poesia que suporta outro dia. As mulheres das noites dos marinheiros, seguram na garganta a viuvez da incerteza com amor. São canções de navegar.

Orgânica vida

Há dias em que o tempo pode morrer, assim seja certo que a saudade não cause dor, e que em todas as manhãs este mar me acorde com este cheiro a alecrim e sal plantado na encosta. Há dias em que o tempo me pode matar até mais logo, que eu depois acordo e parto. Há dias em que as horas se deviam chamar outra coisa qualquer que não fosse tempo, nem passado, nem futuro, nem presente, deviam ser somente: - uma forma orgânica de ser, uma soma orgânica de sentir -

500 anos que já la vão de Camões

É sem nenhum tipo de evidência justificativa que eu espero que um dia as aparências mesmo que a possibilidade seja praticamente nula ou ínfima, as regras sejam quebradas pela excepção, e daí o senso comum se envergonhe do julgamento com que é utilizado o contraditório direito, ao qual o mesmo não tem valor. O senso comum é o que cada um quer que seja, não é a comprovada universalidade científica, não entra na regra, não entra na excepção, não há equações ou teorias de sistemas que o resolvam, nem formula resolvente, nem derivadas, nem primitivas, não há emoção ou pragmatismo que saiba o que isso é. Assim sendo não me tentem impingir senso comum, mais depressa creio que: “o amor é fogo que arde sem se ver, é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer” e já la vão quinhentos anos de Camões. Os poetas são isentos de senso comum, têm outros filtros, mas respiram.

saborosa dor aflita

saudade, é uma sufocada vontade que: - nem mata, - nem salva, - nem parte, - nem fica, ... é uma saborosa dor aflita.

Já me fica tarde para ficar

Já me fica tarde para ficar, outra manhã qualquer acordarei aqui a ouvir a rega do jardim, outra madrugada, outra despedaçada hora ficarei com o meu corpo, esta não posso, sem alma não posso estar, quando for que seja inteiro, que seja completo de ser.

São sempre os meus olhos,

São sempre os meus olhos, o que querem ver, o que querem dizer, o que pensam ser, o que atestam fazer, a imobilidade, a acção, o desejo, a isenção à forma, os olhos, o sal e a água. São sempre os meus olhos a desordenarem-se de mim.

tarde tardia

Inventei uma tarde tardia de alegria, convidei músicos e dançarinos, construí um palco em forma de coração, mãos de gentis dedos entrelaçados, poetas declamando verbos ao vento, soletrando palavras obscenas suaves de amuletos guardados, vieram mulheres completas de mulher com decotes de arrepiar a pele inteira, homens altos de olhar vazio por reparar, ar quente, jardim sombrio, árvores à espreita, mulheres, homens, músicos, estrelas e céu, corpos debruçados em outros corpos, tarde tardia, suada inventada alegria.

Prometo-me mais Grândolas

Prometo-me mais Grândolas, mais incorporea atitude, mais presença, mais de mim, mais de tudo e caminhos de planícies em direcção ao mar. Prometo-me desabitar de toda esta forma intranquila e desusada. Prometo-me entardecer antes que no vale se ponha o sol arredondado do mundo, e as janelas se encham de luz da noite. Arrebata-me saudade, a quem não sei pertencer.

o mar por aqui plantado

Se o mar tivesse sido plantado nesta avenida florida de violeta e silêncio, nalguns sábados invernosos seria verão de gente, as esquinas não seriam esquinas e as ondas mansamente com as estrelas, contariam estórias de lua cheia à pequenada solta por ali. Se o mar tivesse sido por aqui plantado...  

Contra-mão do acerto

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Não há maior amarra que a ignorância, não há maior amarra que fazer alguém acreditar que a história não é história e que o passado é muito distante. Não há maior amarra que fazer crer que o pecado tem punição, a noite não tem caminho, e que os lábios cerrados são mais livres do que o coração. Não há maior amarra que desentender o amor, desentender que a amizade é o alicerce da alma e que qualquer desconvite é soltar ferro de um porto e partir, é navegar em jardins de rosas e sol largados à noite. Não há amarras em quem não tem medo de arriscar e, entende os tempos de prisioneiro na contra-mão do acerto.  

Jorge Palma (s)

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leves são todas as sublimes manhãs, poços frescos verdejantes e luz. em teoria, a felicidade é todo este imenso querer, toda esta terra esperada, estes bandos soltos de passarada em chilreio, e a recordada criançada do bairro velho, leves e suaves são todas estas cores de pele, todas estes tons de olhar, sem esperança que a diferença seja aceite, que ela por si só já o é, é somente preciso gostar, e pode ser homens com homens, mulheres com homens, homens com mulheres ou mulheres com mulheres que isso não faz a diferença, que sejam leves todas as madrugadas, suaves todos os olhares, que o bairro do amor, é pintado a lápis de cor e liberdade.  

Jorge Palma

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  Setenta reais anos. Obrigado Jorge Palma por todos os bocados que juntos com as tuas palavras e acordes fizeste em mim prazer, ajustamento e vida. Obrigado por me mostrares que a dependência é uma besta que dá cabo do desejo, e a liberdade é uma maluca que sabe quanto vale um beijo. Obrigado por me fazeres crer em mãos de bailarina, lábios de silêncio e trinta mil cavalos a galopar num peito. Saúde Jorge.

Se a lua para sempre adormecesse no meu leito, eu seria mais luar no meu sorriso do que pranto no meu peito!

 Se a lua para sempre adormecesse no meu leito, eu seria mais luar no meu sorriso do que pranto no meu peito!

Escritores antifacistas

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Que todas as ideias abarquem humanidade à nascença, que enquanto amadurecem sejam leais à diferença e fieis à liberdade.  

As palavras e o desígnio delas em si mesmo, são a última liberdade que possuo.

A limitação do entendimento das palavras, das ideias enriquecidas da criação, transforma o mundo de cada um de nós. A força que destrói é igual à que constrói. Posso escrever dizendo que: - O vento trouxe em porções bocados de ti - Em mim, isso significa o meu passado. Em ti significa uma partida. Noutro alguém significará a reconstrução de um mundo novo. Ainda noutro alguém será uma parte do tormento que se foi.  Noutro alguém qualquer, será meramente a possibilidade de a liberdade poder ser. Foi sempre o fascínio das palavras simples em argumentativas histórias e sonhos, a aventura de poder transformar o que leio no meu porto seguro, na fantasia de poder chamar amor à amizade, abraçar quem escolho abraçar, sem rebuscadas manifestações de interesse ou equívoco, porque tudo nas palavras são: - acertada independência - e em tudo o que nelas construo é apropriada emancipação. As palavras e o desígnio delas em si mesmo, são a última liberdade que possuo.