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Mostrando postagens de junho, 2011

O rio faz parte...

O vento acordado e repentino de final de tarde solidificou o beijo na margem da albufeira. Afinal éramos dois conhecidos naquele primeiro abraço, como nos confirmou o rapaz da esplanada à beira rio, onde nos serenámos e sentimos.   O rio faz parte da nossa história, O rio da tua rua, O rio do nosso abraço, O rio do nosso beijo, O rio da musica que ouvimos passeada pela madrugada, O rio que plantaste dentro de mim e que corre para a foz, representada nesta metáfora construída de saudade, O rio do teu sorriso e o mar do teu olhar fascina-me, Olho-te, Suspirado, Suspenso, Preso como o fogo, Revejo imagens esculpidas na minha memória, Imagens de lua, Do silencio da agua a escorrer, Dos lábios colados, Das mãos entrelaçados, Do cheiro longo do teu cabelo, Descubro uma luz que me cega, Um penumbra que me ilumina, O tempo desfeito de tempo, Os minutos descontados a prazo, A ordem refeita dentro de mim, O momento de guerra feita de paz, O teu nome sibilante, Como as estrelas é soletrado, Firma...

Antes da palavra o silêncio

Antes da palavra o silêncio, Palavra borboleta, Que desabrocha enraizada de mim, Sufoco de metáfora, Que me entope os sentidos, Vanglorio, seduzo, sou seduzido, Antes da palavra, o silêncio, Palavras são como móveis que se mudam e arrumam, Em divisões internas e especiais, São paredes pintadas de cor vivas, E espaços amorfos, As palavras apenas servem para ser ditas ou declamadas, Palavras ditas são arremessos informativos de ocasião, São como uma sucata apodrecida de carros mortos, Palavras declamadas são esculturas perpétuas e intemporais, Quadros pintados e eternos, Por cada quadro que existe, há palavras escondidas e representadas, Antes da palavra... o silêncio.  

Inversão de marcha

- Suicida-me, disseste-me.   Como te posso suicidar, se te suicidasse seria um homicida e estava a praticar um assassinato.   - Mas é o que fazes de cada vez que metes por essas veias dentro essa mistura de pó com água e ácido. Isso é assassinares-te um bocadinho de cada vez, qual é a diferença entre, eu te pedir para me suicidares, ou assassinares-te a ti próprio?   - Não é a mesma coisa e não consigo explicar isso. É muito mais complexo do que possas imaginar. Eu já estou podre. Inverti o sentido da vida. Inverti o sentido de mim próprio. Não estou na posse total da minha liberdade de escolha, o meu espírito não deixa decidir o físico. O meu físico de tão apodrecido que está corroeu a minha alma, as minhas emoções.   - Então porque não tratas o teu espírito e das tuas emoções, para salvares o teu físico?   - Preciso de tempo, um dia irei salvar, amanha talvez quem sabe, o mais tardar depois de amanhã.   Dia após dia, de adiamento em adiamento, aos poucos, arrastou-se e levou com ele ...

É quase nova esta noite outra vez

Tive um pai que me amou e uma mãe que me cuidou. Um pai que me soltou para crescer e uma mãe que me prendeu para abater. Sem julgamentos, ambos o fizeram pelo melhor, mas até dentro do melhor existe o bom. Esta madrugada sem sono, revi-me em fotos a preto e branco, enquanto soprava o vento e uns pássaros voam cegos em direcção da luz, desafiando-se no ultimo momento antes de se estatelarem. Na calma da noite uma movimentada dança de sons exibia-se para mim. Enquanto isso liguei a dois amigos. Não atenderam, era tarde. O sono teimava em me partir aos bocadinhos de uma fadiga que não me faz dormir. Penso em trabalho, na minha filha e nos meus amigos. Penso na Ofélia, personagem pessoana que tanto me seduz. Vivo um dia dentro da noite e dentro da noite adormeço o dia.   Os bares cheios de fumo de outrora, onde tocava, the cure e talking heads, já não existem. Vivem agora em ruínas dentro de mim, espaços de olhares fixos e fugidios, onde as palavras presas se soltavam, e os corpos esguios,...

Não te apaixones por mim, que eu já estou apaixonado

Não te apaixones por mim Que eu já estou apaixonado, Pela morte, pela vida As duas lado a lado, Não te apaixones por mim Que eu já estou apaixonado.   Foi há muito, tanto tempo E o tempo não tem medida, Decisões fortes e dolorosas Trouxeram-me para este lado, Não te apaixones por mim Que eu já estou apaixonado.   Por este caminho traçado Sem desvio prévio possível, Feito de noite, feito de dia, Mar, marés e madrugada, Não te apaixones por mim Que eu já estou apaixonado.

A distinção do meu eu

Resta o restolho à seara. Basta o sorriso à companhia. Ao vento chega soprar o trigal. O ribeiro salteia de pedra em pedra límpido a verdade das palavras. A madrugada espera a manhã. A noite a madrugada. Na natureza e na sua forma de expressão, escondem-se as respostas. Respostas redondas, claras e lúcidas. Respostas simples de grandiosidade. As objecções a seu tempo terão o seu prazo. Tempo de lírios e açucenas, período sem negociação. No silêncio descubro o encanto da surpresa no inesperado e no que não decido. A vida decide por mim.   Será isto a fé? A soma das minhas não decisões? O acreditar na pequenez da decisão e a grandeza da aceitação? Será coragem a transformação do que eu posso modificar, e a serenidade a aceitação do que não posso? E a sabedoria? A distinção do meu eu pequeno e indefeso numa tempestade no mar?   A fé que eu posso comprar ou negociar não é fé. São conceitos infligidos que se desactualizam com o morrer dos dias que gasto, em resistir a me entregar como o “cr...

Primeiro acreditar

O empedrado escorregadio tomado pela cacimba que salpica os desenhos pintados pela paciência de um calceteiro, torna os meus passos mais felizes. Agradeço à minha sensibilidade o divertimento neste passeio onde me passeio. Continuo na espera de que este País volte a ser cultivado de cultura e culturas. Os políticos parecem-me todos iguais. Ora maduros e marcados pela luta, ora de risco ao lado e encantados de sorrisos cínicos marcados pela facilidade, do fácil acesso ao compadrio. Gosto mais dos carrancudos. Dos marcados pela opressão fascista e pela prisão feita na ânsia de liberdade. Continuo à espera, e apenas vislumbro uns sorrisos e abraços combinados das próximas estratégias politicas e económicas mal dividas, ou dividas sempre com o esforço dos mesmos. Sempre os mesmos. Os mesmos a encolher e os mesmos a esticar. Num carrossel de pensamentos neste passeio desenhado pela força do criador, agora sentado em três ripas de madeira de assento e recosto, penso e desisto de conversar so...

Um dia, este dia

Anda, preciso que me acompanhes. Não me sai do peito este aperto várias vezes ao dia. A impotência que sinto prega-me ao chão. Alturas há na minha vida em que sinto de uma forma muito terrena, o real valor do que sou, do que tenho, do que preciso, do que aspiro, do que recebo, mais do que dou. A vida perde-se ou ganha-se numa resposta, numa decisão, numa vontade, numa provação, na fé e na aceitação. Há eventos que me fazem agarrar o dia como se fosse o último. Valho pelo que sou. O que tenho não vale nada. Um dia deixarei cá, as contas bancárias, as jóias, os carros, os iates, os amigos e os inimigos também. Levarei os sítios que visitei, as pessoas que amei e as que me amaram, os livros e as canções que li, ouvi e escrevi. As vezes que nadei no mar, olhei o céu de estrelas e a luz da lua. Levarei como meu património, os abraços que dei e os beijos que beijei. São minhas as bocas que me disseram que era importante e me beijaram. São meus os cheiros, as cores, a mão que dei, e os sorris...

A saudade, o cheiro e o desejo. O medo, o frio e o amor.

  Trauteio um assobio melodioso dentro de mim desde o acordar. Não me sai. Gosto da música, mas já estou farto. Porque raio não me é ela imune a esta “comichão cognitiva”. Como faço deste miserável acontecimento uma preocupação. Como faço de uma preocupação banal, um importante acontecimento.   E porque não faço eu de banalidades, coisas banais?   E de acontecimentos vulgares, conteúdos emotivos que valham a pena?    Entre as horas em que acordo e aquelas em que adormeço, sinto antes de cada pensamento milhares de estímulos comportamentais que me cansam, que me extenuam, e uma desadequação contínua ao tempo em que existo. O meu tempo é este, é aqui e agora. O meu tampo não foi antes, nem será depois. O meu tempo é este. É este bom momento. É este mau momento. O meu tempo é este assobio que não me sai da cabeça. O meu corpo verga-se e atraiçoa-me nesta estrada, onde uma sombra me convida para explodir frases desconexas e inconsistentes. Amar é uma dádiva. Uma dádiva aprimorada e consist...

Almodôvariano

Ao longe uma silhueta foi-se transformando visível, de contornos perceptíveis, sentada numa pedra à beira da estrada. Era uma mulher. Carregava os seus restos de dignidade e oferecia o seu trabalho com força que ainda lhe restava. Tinha um ar pesado de quem vive ao tempo, abraçando a chuva, o sol, a geada, o vento e o nevoeiro, tal como eles se lhe oferecem. Numa entrada para o mato assinalado com um saco azul os carros passeiam-se devagar. Alguns parados esperavam o sinal. Homens de ar bonitinho e antiquado, outros engomadinhos de cabelo aparado e brilhantina, sapatos envernizados e pontiagudos em carros com referência de “bebé a bordo”, fizeram-me fazer o resto do filme daqueles personagens dignas de Pedro Almodôvar. De todas, a única de quem eu gosto e nutro respeito, é a silhueta que se me avistou e foi clareando com a aproximação. A mulher moldada na pedra. A mulher mãe a quem a vida destinou um assento de pedra na beira da estrada. A mulher mundo. A mulher feiticeira. A mulher no...