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Mostrando postagens de março, 2017

enfeitei-me de ti

Enfeitei-me com a tua boca, os teus olhos, o teu cabelo, o teu peito, as tuas coxas, entre as tuas coxas, os teus lábios, os teus dedos, o teu cheiro, o teu balanço, as tuas mãos, os teus ombros, a tua cara, o teu sorriso e o teu querer.   Ausentei-me de mim na tua cama e tu, enquanto mar, percorreste-me as minhas veias, o meu sangue foram lágrimas secas que só choraram por tanto te querer.   Encontrei-me no velório que celebrei, quando mais vontade não tinha, que voar para além do ultimo fio de mar que vislumbro.

dia a dia

que o dia me escolha para si … haverá outra forma que não essa?

dias lentos

dias lentos com tanta gente e ninguém,   de tantas vozes sábias de um ruído que é silêncio, que tudo o que eu oiço é apenas, tumulto das chamas que fujo, de chagas abertas na terra.  

excerto de um excerto

“… e, já nada se escapa ou invade das minhas mãos, lavo-as, sacudo-as, cerro-as, mas é unicamente quando as abro, que tudo o que lhe é necessário, não se lhe escapa ou invade, mesmo carpindo eu pelo contrário…”

Senhoras

Duas mulheres de modos diferentes trocam palavras junto à mesa onde eu estou sentado. Impossível não as ouvir.  Uma: -  ele é assim já nem o ouço. Desenvolvi uma espécie de calo na alma, um gênero de atenção desatenta, uma desconstrução às palavras que precisa de expurgar, sou tipo um lago parado onde nada já se excita, ele moi-me como o trigo numa mó de um moinho, eu, silenciosa.  A outra: - uma mó? Um lago? Calo na alma? A senhora já pensou num negócio para si? É que eu blá blá blá blá blá e arranjei outro. Um que não me conhece, e, damo-nos bem na cama. O resto é romance. Atire-se a ele. Esfaquei-o. Ele que vá mas é trabalhar. Mande-o prender. Ouça rock and roll muito alto e pinte o cabelo com madeixas caju. A senhora é tão bonita. 

Folhas perenes

"... já não tenho ombros fortes e ingênuos como os que conheceste. Perdi toda a virgindade que existe. Perdi a inocência de crer, que todas as árvores sombreiam da mesma forma. Agora sou como as folhas perenes que voltam como os pássaros que partem ..."

Escrevo

não sou assim como escrevo; nem escrevo para parecer, escrevo tão só e somente, o que não sou e ouso ser.    não escrevo para dizer, o que a coragem detém, posso dizer olhos nos olhos, não escrevo para ninguém.   então porque escrevo eu, fantasia e liberdade, se o mundo que eu habito, é mentira de verdade.   escrevo para me acompanhar, à falta de companhia, escolho muito mais ser só, que vendido á hipocrisia.  

como nevoeiro

Sinto, rebuscado, as forças das tuas mãos e o mar, a distância deste hemisfério de mim, à tarde, sei, que quando me sentar na areia a ver cair o sol, continuarás do outro lado de mim, e os meus dedos engrossarão agoniados comigo, escreverei o teu nome na areia para a maré apagar, recomeçarei a noite como nevoeiro.

uma noite, uma janela, as estrelas e o vento

“… uma volta depois de outra. Estou farto de não dormir. Sinto a noite agitada para além de mim. Sinto-a no céu que espreito por uma nesga de janela que deixei para ver o festim. As nuvens escorregam rapidamente, entre as estrelas e os laivos de luar e céu. Imaculada esta noite. Não fosse o meu cansaço de espertina e dançaria. Do mal o menos, penso eu. Podia não dormir nem estar acordado, assim do pior escolhi o melhor, estou acordado por uma nesga de janela que deixei para seguir a noite. Bebo água. Como uma maçã. Hesito em cuidar do coração e penso, não vou acender um cigarro. Depois penso, não vou adormecer, vou escrever um conto. E comecei.   Era uma vez uma noite, uma janela, as estrelas e o vento. O vento e as estrelas vieram de noite espreitar à janela e viram-me sossegadamente a dormir. Decidiram entrar e por ali ficaram sentados no chão do meu quarto à espera que a manhã se juntasse a eles e trouxesse o despertar, com que me acordariam em celebração, o tempo, o vento, as estre...

baralhas-me

Sim, baralhas, dás e partes, dás, e depois não vais a jogo, bluff só bluff, essa tua identidade.

Gorduroso

“… Bom dia, disse eu por mera educação.   Não me importa lá grande coisa acerca do dia daquele homem vermelho e brilho na cabeça. Gorduroso. Aquele ar empanturrado e uma misteriosa expressão de sapiência intocável para não ter que falar de "assuntos". Aquele gajo dissimulado, de voz baixa soprada, simpático e espiritual escondido num nickname, intragável pelo odor baço e pérfido que exala, quando se cruza nas salas desta vida. Um aristocrata do fascínio analógico à podridão latente da alma. Conheço-o há muito tempo. Vendia droga aos miúdos, e apalpava as miúdas escondido no poder dos tacos que passava. Sonhava ter um Porsche sem trabalhar. Conseguiu não trabalhar toda a vida. O Porsche que me conste não o teve.   Quero eu lá saber se ele tem ou não tem um bom dia, para a próxima digo-lhe …”

Palavras secas

Não me enxarques mais com palavras secas, eu gosto de palavras húmidas que me agasalhem e as possa confortar. Não me ofendas mais com palavras que não entendes, com mudanças inexistentes de significado inconsistente. Ninguém é o que não é e não poderá ser.  É uma questão de essência.  Não me enxarques mais com palavras sem ritmo que não possam ser escritas numa pauta que eu possa interpretar.

consolidada convicção

“… A poesia é um subdepartamento da magia dimensionada pela experiência ficcionada do coração, experimentada pela solidão da alma, e quem sabe que a solidão não é fome, entende a necessidade de alimentar o espírito, a poesia é uma forma de não aborrecer os outros, e de aos olhos de muitos, ser estranha as necessidades dela inerente.   Compreensível esta incompreensão. Os ventos mudam quem não tem consolidada convicção …”

Campos exaustos de água

Chovem dias como bagos de chuva no campo já exausto de água. Tal qual o cansaço invade os corpos a cada final de semana de dias longos de vida. No café do adro, as noticias são sempre as mesmas e os protagonistas iguais. Quem as traz e as deposita é assalariado pelas novidades e quando as não há, rejuvenescem-se as usadas. É uma espécie de reciclagem do esquecimento, ou da lembrança. É o manter viva a vida como bagos de chuva no campo já exausto de água.   

Tortura

Pode a poesia adiar a saudade cada vez que é solicitada?   em cada verso declamado, em cada noite torturada.      

Meninez

Restam imagens perfumadas e sorrisos, Noites e o teu corpo de cristal, Os teus olhos cravados de alegria e meninez, A tua boca e as minhas lágrimas de sal, Algum sonho e mar, Muito fogo para lembrar, E toda a ausência para chorar.   

Nascer desamado

Percebe. Entende este meu medo de amar. Esta raiva do amor que tem a idade da minha idade. Sobre ela já muito pensei, já muito senti. Aceito hoje que nasci no desamor de ser cuidado e não amado e é esse o meu mundo, cuidar da raiva, do entendimento e do medo do amor. 

Urgência

Esta calma aparente esconde este sentimento de urgência que me fere.   

o suplício da minha sombra

Detesto a sombra que me segue quando o luar se dispõe num ângulo imprevisível de não ser seguido por mim próprio. Adorava passear pela noite adentro e afora e, não ter a minha companhia, nem que por milésimos de segundo, isso o fosse.   Adoro o luar e a luz cálida e breve da noite. Adoro todas as ruas em forma de braçado de luz. As árvores florescentes. A serra ao longe em movimento.   Detesto a minha sombra que adoraria liquidar, e, andar por aí ao luar de barriga cheia de felicidade se me conseguisse deixar em casa, ou escapar-me de mim um pedacinho que fosse. Assim não sendo ou assim sendo, levo-me sempre em passeio ao luar por estradas, sítios ou locais, onde não existe mais ninguém que nós os dois, a minha sombra e eu, e o suplício da minha sombra.

toda a angústia do mundo

Já não posso escutar mais nenhuma angústia do mundo, parece que todas me absorvem e dilaceram, parece que a todas eu pertenço, quando afinal, eu padeço de toda a angústia do mundo, não de todas as angústias do mundo.

mil juras

O teu corpo, as palavras adocicadas, a turbulência do teu abraço, os espasmos, a rouca loucura que me sussurras de lábios semicerrados em murmúrio, o peito entreaberto, as minhas mãos suadas no teu peito, a tua boca molhada em mim, o humor com que te acalmo, o sarcasmo com que te enlouqueço, tudo me endoidece (s), a partida, sempre a partida e recomeça tudo de novo, com mil juras de diferença, e sempre o mesmo engano.

Ácido

Tomo ácido que me abre um túnel onde as cores são espirais rodopiando como o pião que joguei na minha infância, onde os sons se multiplicam e desdobram e as caras das pessoas são a paz personificada. É neste infame delírio que projecto o que seria a tua vinda aqui a este lugar, onde a poesia transforma a dor em alegria, o corpo em alma, o cansaço da espera em alento, o tempo em horizonte e o mar em baloiços de flores adormecidas.  Tomo ácido para a loucura se ajustar à lucidez.   

Máscara

Lágrimas secas disfarçadas de sorriso, embebedam os meus dias distantes da sombra da árvore onde o meu corpo, saciado do teu pernoitava, fosse tarde, noite ou manhã.  O tênue sorriso com que escolho o dia, mascaram a fonte de lágrimas com que escondo a noite.   

desfazer

desfaço-me de mim, refugio-me, escrevo, oiço música, toco, crio, apago tudo de novo e faço outra vez, olho, observo, contemplo, desvio, desfaço-me de mim novamente e, .... não encontro tudo o que fiz, tudo o que faço, mesmo disruptivo.

96

Mais do que exausto depois de dias, semanas, talvez já meses, não sei. Não sei porque relativizo ao seu denominador comum que é o proprio tempo. Tempo a dividir por tempo dá tempo, a multiplicar também, a somar ou a subtrair igualmente, embora a prova real me dê sempre subtração do tempo, ao tempo que o tempo aniquilou. Esgoto-o de uma forma tão pouco sábia na maior parte das vezes. Deito-o fora. Deixo-o apodrecer. Irrecuperável este gasto. É como se o tempo fosse estéril, não se reproduzisse ou se desejasse ter outra vez.      

Noite de culpa e sexo

Por vezes as noites carregam tanta culpa, que o sono é invadido por uma espécie de perdão que não tem forma, conteúdo ou percepção. Vem numa forma disforme, sem rosto ou razão, sem que se consiga perceber a espécie de incesto obcecado que é ter sexo proibitivo, neste caso comigo mesmo. Ou seja, não se tem sexo com pais, irmãos, avós e connosco mesmo, a não ser no acto de elevação e masturbativo do mesmo. Nao é o caso.  É mais ou menos uma sensação de me foder a mim próprio, declinando convite terceiro para me agonizar nesta evasão de sono, numa noite em que tinha tudo para dar certo.  Estas noites adoecem-me. Contrário que sou ao uso e abuso de uma pílula qualquer que me adormeceria em segundos, invade-me uma espécie de perdão que não tem forma, a que eu chamo culpa.  

centro comercial da minha cidade

esta gente toda feita de pessoas que batem umas nas outras, na ânsia de esgotar as tardes e as noites, no centro comercial da minha cidade, quando o sol jorra nos campos a alegria da terra fresca de semeada, bem cheirosa e perfumada, e por lá, rostos acinzentam-se no dia que já é noite, na noite que não se percebe existir às três da tarde, no centro comercial da minha cidade.

palavras de beijos despertencentes

" ... tudo é simples, o que aos meus olhos é complicado. Para quê sentar-me todas estas horas descoloridas na procura de uma explicação que não tem teoria ou alicerce que me faça crer, que os teus lábios não são feitos dos teus beijos, e perceber que são muito mais feitos das palavras escondidas no que me mostras, porque as palavras que me mostras, são adornadas dos beijos que não lhe pertecem, que não são meus e, apenas passaram em mim. tudo é simples, o que aos meus olhos é complicado ..."  

céu sem cor

" ... não preciso de mais ódio ou amor, de mais raiva ou tolerâcia, de mais guerra ou paz, de mais ou menos, de tudo ou nada, preciso apenas que as manhãs continuem a despertar-me com o dia de janelas abertas, e de céu sem cor de preferência, porque o céu é o céu e não me pertence, somente faz de tecto e me faz apreender que para lá dele, existirá o que à terra se exclui  ..." 

liberdade VIII

náo é impossivel a liberdade, nem a voz com que declamo o poema que me jorra no sangue em cada dia ser calada,   o que nao é possivel são amarras que me dão para eu me amarrar, porque correntes são as marés alvoraçadas,   é o mar desalinhado como a minha pele que se arrepia,   quando me tentam calar a liberdade. 

Advento

A escolha é em mim sempre, uma tomada de decisao pelo melhor, pelo menos na altura, mais tarde revela-se, e se o foi na altura, será sempre, porque não há dois luares iguais, os beijos nao se repetem e as pessoas não ressuscitam. Só existe páscoa nas escrituras.   

1999.

Entre o fumo denso e adocicado da juventude, deixei bocados de corpo e a alma praticamente toda. A operação de resgate leva anos até que, o corpo e alma se apaixonem outra vez.  O pranto, constrói devagar e todos os dias, o regresso reconstruído de pedaços que deixei numa pessoa desconhecida de mim agora, por tão bem a conhecer. 

Como era antes

Quando foste embora deixaste por todo o lado o teu encanto, em todas os recantos contínuas a habitar,  preciso de coragem para te esfaquear, para te entregar à inquisição, ou apenas, morreres em mim, como era antes de: - em mim teres nascido -  

Felicidade

A felicidade são pétalas de flores que murchão e rebentam, e é sempre assim, de pétala em pétala, de felicidade em felicidade. 

Voz

Sem voz, rosto, recordação, mãos, vontade, querer, ruas, praças, mar ou luar.  Nem a música que te recomendei vigorou.  Como poderia eu ficar? Nada que se guarde. Nada que me afague.  Sem sonho, lembrança, cheiro, montanha, viagem ou paisagem. Sem herança de patrimônio que possa chorar. 

Luas

Se cura é seguro. Nem preciso que me envies nenhum luar partido em raios para usar cada raio de luar em cada pedaço de mim quando fragmentado   

Sei que não

Sei que não. Mesmo que me digas que sim eu sei que não. Sei que não te feri ou desiludi. Sei que não se faz isso a quem o faz a si mesmo com competência. Sei isso pelo meu próprio corpo. Pelo meu próprio choro e sorriso. Sei isso por ser tão ferido e desiludido. Sempre o fiz tão bem, sem precisar de ajuda ou outro alguém que não eu, para o fazer.  O meu amigo, sem palavras, expressão ou indignação, fazia desenhos na terra com um caule de uma flor apanhada ali mesmo junto a mim. Desenhou uma lágrima seca. Estava bonita.   

Beijos não dados

Noite, A agonia da felicidade, A dúvida, O cansaço, A transformação, A idade, A certeza de sentir,   Beijos, Beijos de saudade, Beijos que não foram beijos,  Beijos não dados, Outra vez a agonia, A saudade  E as incertezas com certeza.     

2000

2000 textos publicados no que começou por ser meras palavras aglomeradas de pensamentos organizadamente desorganizados. Passaram mais de 10 anos de milhares de palavras vivas, com algumas ideias, tentativa de poesia e afins....

As flores de mar perfumadas

No acordo entre o mar e todas as flores do mundo, o mar pediu o perfume e as flores as marés. Assim, as ondas passaram a ser perfumadas e as flores a ter ondulação.  De entendimentos se acrescenta a evolução.  Pensei: quero o perfume das ondas e as flores perfumadas no arco íris desavindo com o sol e a chuva à minha janela, pela concordância da evolução. 

Esperance-se

Esperance-se, esperança- te, enquanto se esperançar; enquanto te esperançares, não precisa, não precisas, da vida que vês ao largo, se és no barco o timoneiro,  e tens a carta no peito.   Comentei...      

Atordoado

FIco atordoado com tanta gente numa sala de espera de um consultório médico. Fico com saúde rapidamente que eu não quero estar a adoecer assim atordoado, que o sol lá fora espera-me, temos combinado ir dançar e ouvir um riacho que desce entre seixos no vale das acácias perfumadas, tanta gente em espera em concorrência enferma, e eu que só quero sair dali para fora, .... porque não sei falar do coração.   

Sobre tudo sobretudo

Escreveria melhor para os amantes do que para os casais dos centros comerciais, escreveria melhor sobre a paixão do que sobre o amor, escreveria melhor para as nuvens que não lhes chego, do que para a terra que piso, Escreveria melhor sobre a morte que não morri, do que sobre a vida que não traz compêndio actualizado, embora tenha charlatões que vendem fórmulas  nos centros comerciais, nas livrarias, nas reuniões, nos remédios das farmácias dos bairros dos pobres e dos ricos e - valha-nos isso - Escreveria melhor sobre tudo, sobretudo se escrevesse.     

Inteira não fraccionavel

Na verdade não há plural, não existem verdades de verdade. Existe somente a verdade que multiplicada continua a ser a verdade. A soma, igualmente não a transforma em verdades. A verdade não têm ângulo, tangência ou múltiplo denominador comum. É rasa. Uniforme. Difícil. Rara.  A verdade é inteira não fraccionavel.  

Predestinação

  Já não posso acordar deste sono do destino, mesmo não crendo na predestinação da vida,  esperançosa sina e descrença. Esta impossibilitada energia que não explode ou mata a inércia embuscada na carne que suporto e, somente vale a alma a espaços lúcida, deste acordar adiado.

Mãos

Sem o condicional do verbo conjugado no gerúndio, iria sempre ser o tempo que deixaria de existir fugindo e a noite imediatamente presença, assim as mãos sejam mãos, assim o presente seja presente.  

Cor da saudade

Manhã amaciada pelo aroma a flores esquecidas na tua partida, rego-as com ausência, diz que nao murcham ou morrem, e eu gosto da cor da saudade.    

Chagas

Fico pálido desfalecido a cada arrebate de palavras impensadas, musculadas, produzidas no cálculo da alma de alguém, pela isenção de alma de outrem.  Fico agoniado com olhares transtornados de contrariedade modificados em nome do amor que nunca o foi.  Fico cego como a terra que com sede de água abre chagas O meu corpo adoece solidário com a incompreensão da angústia.      

Hemisférica

Ja não existe o que em ti admirei, Já não admiro em mim coisa alguma, Já só quero de volta a fantasia da noite em que te visitei, A manhã em que me acordaste, O mar a sul que beijámos, O vento mostrou-me o teu primeiro autor enquanto comprava cigarros, Não era sangue do meu, Nem palavras ordenadas pela desordem, Tremi, Soube ali mesmo que era apenas uma questão hemisférica a nossa separação.  

Intempérie

intempérie de saudade, cega, sem decisão percebida, confusa, anárquica, que estoura nos meus miolos, antes cérebro... "

desgrenha-te

“… despenteia-te. desgrenha-te. não gosto nada desse ar de quem saiu da parva da cabeleireira a quem pagas para te por toda arrumadinha. Não gosto dela, nem do gosto que ela tem para ti. Tu gostas? Como podes gostar? gosto dos teus cabelos como gosto do teu génio sufocado pelo coração que te tapa a garganta,  gosto desse emaranhado forte e brilhante, tens o cabelo como a alma, como o mar que te percorre, como o mundo que percorres em mim. Vá, despenteia-te, regressa à noite junto da lagoa em que os teus olhos brilhavam como os cachos de cabelo macio e ventoso. Desgrenha esse sorriso de quem não quer querendo o mundo todo, desgadelha o abraço todo com que cabes em mim … “

Enfeita-te.

Enfeita-te. Abrilhanta-te de esperança e sorrisos, e à delgada cintura pede às minhas mãos que te segurem, de seguida, faz com que eu seja enxurrada e tu a ponte por onde fugiremos todas as noites que hão-de vir. Enche-te de olhar e flores.

8 de março

8 de março. Outro dia com data aprazada sem comemoração com sentido. Não comemoro um dia quando é adquirido celebrar por direito a vida todos os outros igualmente. Tento uma filha mulher. Uma mãe mulher. Amigas mulheres. Não comemoro gênero. Comemoro humanidade, todos os dias exceptuando o dia de hoje, por ser direito diário adquirido à nascença. Para ti, filha mulher. 

Anti-facista

Enquanto jovem fui anti-facista, filho de cristãos e aluno de professores que me ensinaram, que ser anti-facista aos seus olhos  e de deus, era transgressão divina. Em casa era confirmado o meu pecado. Os meus colegas não poderiam ser meus amigos tal a decalage de pensamento existente. Hoje , sou anti-facista na mesma. Ateu crente, filho de cristãos, ex aluno de professores enterrados com o estado novo, sem os amigos que não o poderiam ser à época, e com a mesma decalage crítica, existencial e de pensamento, estruturada e consistente. A liberdade estava certa em mim. A poesia, os livros, os cantores, foram os meus irmãos de solidão. Não poderei ser amigo de extrema alguma, nem pela diferença. Gosto das pombas brancas mensageiras e não creio no pecado. 

Excerto de palavras por ver o sol um dia (XXVIII)

Conheço essa forma quase máscula de tua feminilidade, essa força de quem amou mais do que se conhecia ser possível amar e enlouquecer em nome do amor, essa loucura de homem como todas as outras mulheres apregoam em sussurro, já que tu, com essa força de quem amou desconhecidamente essa forma de amor, quase máscula, segura, foste o que só o amor por inteiro conhece, e só esse levas para a tua cama.   Incompreensível para o fígado do moralismo do amor. O amor é imoral e mais alguns adjectivos iniciados por i… elas que se danem…pensaste !

Disformidade

'... Não vejo a raça humana em conformidade e é na sua disformidade, que me complemento, confirmo e conformo ..."

Eu existo

Mentes com essa sedução e mania das grandezas de:    - Seres mais.  Saberes mais coisas.  Conheceres mais países e ouvires até música clássica.  Tudo em ti é maior, e nos outros, menor.    O que eu ouço quando te oiço ou observo é:    - O susto de viver.  Défice relacional.  Necessidade de um abraço e aceitação,  Igualdade mais do que diferença.    Não acredito na agorrância com que dilaceras as palavras,  vejo nelas um gemer de vida gritando um:    "eu existo"

Como tu. Como eu

Tens uma translucidez desapavorada de riso fácil e uma luz que encandeia as trevas que transformas em festim, e deus, deu-te esse cabelo revoltado que não podia escolher outros olhos para morar, ou outro corpo para incorporar.   Agora, já só me lembro de ti num Alentejo distante na estação antes desta, onde a poesia não abala a velha ilha que sobrevive massacrada de mar. Como tu. Como eu. 

joanhinha

todas as mulheres do mundo, não são no mundo mulheres, tu? és sempre a mais bonita, a minha vida, a ressurreição, o sentido, a que sei ser amor, sem medo, e voas, e eu quero que voes, como as joaninhas.

distração

“…sim, a culpa é minha, fui eu que na verdade reagi ao cheiro que deixavas quando passavas por mim mais do que as vezes necessárias, e, disfarçavas não me ver. Esse fingimento para mim significou sempre, querer ver-te passar todas as vezes e, fingirmos então os dois que não nos víamos. Gostei de me fazer desentendido de cada vez que mudavas de penteado ou perfume, ou até os sapatos que te engrandeciam de altura, ou o simples e maravilhado toque em jeito de tique, das tuas mãos a passar pelo cabelo. Tudo isso nunca fingimos não reparar, ambos nos víamos distraídos um no outro, e, todos os dias foram assim, até que nos deixamos de ver.   Agora sim, estamos alheios à atenção que a ausência nos deixou, sobra a saudade de sermos abstractos, mas presentes…”

Transfiguração

não há poetas que morram,  miséria que se lhe pegue,  sons, predestinação,  morte adivinhada, transfiguração.   não há céu que tenha outra cor que não azul, ou ruas sem verbos por fecundar.

Etc

Há mulheres lindas e estúpidas.  Feias e estúpidas.  Feias e lindas.  Lindas e feias.    Há o entendimento do que é: - mulheres -     O desentendimento do que é: - lindo, estúpido ou feio -   Há homens e as mesmas permutações linguísticas e/ou de correlação.   Não é uma questão de gênero.    Há pessoas estúpidas.  Feios bonitos e bonitos feios.    Homens e mulheres.  Mulheres e homens.   Etc....

Pleno de saudade

Não mais depositarei em ti todas as vozes que me invadem, incerto de que todas as vozes não são mais, do que a saudade retirada à certeza que escolhi.    Agora , todos os momentos serão apenas silêncio, mudo e imortalizado, sem referência ou culpado.   Não mais depositarei em ti nada, que não seja plena saudade.