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Mostrando postagens de março, 2021

Cabo delgado

Não me sobra entendimento que aceite o cheiro a sangue na terra quente de cabo delgado.  

Do céu para a terra

Tenho com nitidez de alma ouvido o meu coração no silêncio da altitude, no cansaço do caminho. Tenho avistado o céu e a terra de onde normalmente avistava o céu da terra, e sinto saudades.  Amanhã voltarei a subir para sentir, gosto da minha companhia, amiudadamente.

Estado novo de velho

As mulheres encantavam-se com encanto dos seus filhos que lhes ofereciam a dádiva da liberdade nas tardes de jardim. Era o seu momento. Valia pelo dia. Valia pela vida. Ainda há quem exclame que no tempo do estado novo é que as coisas iam direito. Ainda há quem aceite que os filhos que eram a vida, navegassem numa guerra que era a sorte de alguns e a morte de tantos.  Ainda há quem ... ainda há. Mais vivos do que era suposto existir.

A destruição do tempo

A destruição do tempo na decomposição das almas, os amigos que se perdem, a miséria que alastra, a parca esperança emagrecida, o mundo atómico sobreaquecido, os lares sem lar que se amontoam silenciosos, a pressa com que as horas fogem à vida. A destruição do tempo incapaz de se construir em alicerces de surdez. O tempo que não se escuta não se conhece, destrói-se.

Sofrimento pandémico

Sou como uma flor triste aprisionada num vaso à janela a olhar as outras flores felizes de um canteiro do jardim.  Sofrimento pandémico.  

Da minha real altura, do meu engano tamanho.

Os solavancos da estrada que me levou até à hipérbole com que descrevo o bater deste peito ressuscitado, é a semelhança entre o caminho e a ansiedade, a diferença entre ficar sem sentir, ou arriscar partir e chegar. Descanso-me agora em frondosa e fresca paz, murmurada pelo ribeiro que me vem buscar pela mão, e me convida a subir à calma companhia de mim mesmo, na paisagem que agora me é pertença. Cheira a mato rubro e a estação viva. Ando devagar reconhecendo-me a este sonho que se vai realizando. A serra quase ali, a terra deixada para trás. Com outros olhos agora me vejo. Com outros olhos agora admiro a pequenez da grandiosidade com que me vi enganadoramente. Agora sou da minha real altura, do meu engano tamanho.

fotos enfeitadas de ser

Não há bons fotógrafos. Há quem domine a tecnologia de tirar fotos. Depois há os bons fotógrafos, os que captam sensibilidades momentâneas de alma a condizer. São as fotos enfeitadas de ser.   

Meloso ar que me afaga

Já que é primavera as papoilas que dancem, há tempo, os dias são maiores e o perfume é música no ar. Que se dance à sombra e ao sol, à alegria, às livres e soltas bênçãos com que as cores embrulham os campos, que se abrace o meloso e moreno ar de fim de tarde.

desnudada praia de pinhal

vê como o mar se debruça na praia para cheirar o pinhal, vê, vê como se entristeceu, vê como o fogo devorou, desnudou, e angustiou o mar.  

Primaveril e gentil

chegou sem um ai, despretensiosa, discreta e ternurenta, sem alarido como  a gente devia de ser,   primaveril e gentil, a primavera.

Primavera feliz

Talvez não saiba ser feliz e seja essa a constante primavera de mim. 

Mãe, sol, domingo e quintal

Quando a desistência é ter mais de oitenta anos, uma cadeira no quintal, o sol de março e o cheiro adivinhado a primavera que invade domingo. Quando as conversas são desinteressadamente conversas, e apenas se espera o que se espera numa cadeira ao sol de domingo, numa tarde de sol com mais de oitenta anos cansados de vida. Quando a luz que irradia a terra me escurece o coração quando te vejo ausente sem saberes que és mãe e eu sem querer ser filho. Quando a desistência é a resistência aborrecida e extenuada.

Significado subjacente

O significado subjacente esconde em si, o que teimo em dizer com palavras escolhidas entre sílabas discordantes, desqualificadas e ténues de sentido.  Qualquer vernáculo seria mais aliviante e assertivo.  Por vezes sou de uma educação ultrajante à inteligência, com a mania de manter a tensão arterial no intervalo aconselhável de valores. Uma parvoíce. 

A morte inteira  não sei o que é e o que se sente

A morte inteira não sei o que é e o que sente. Pedaços de morte morta sei. Existe na língua de que,m a usa, em locais sem esperança, em peito apátrida de refugiado. Existiu da década de oitenta a céu aberto na encosta voltada para a avenida de ceuta. Eu vi. Existia bocados de morte morta a céu aberto. Alguns aderiram. Outros poucos salvaram-se. A morte inteira não sei o que é. Muitos souberam. Alguns abracei. 

onde o gato vive desmaiado de preguiça

Gosto do cheiro a carpete do teu armazém contiguo à sala enfumarada da lenha que arde no fogão negro do canto onde o gato vive desmaiado de preguiça. Gosto dos tapetes do chão e das cores das tapeçarias que forram de alma a sala onde me recebes com café, livros velhos e música. Gosto dos cheiros com que me envolves.

Felizes. O dia, a noite e a madrugada

Começa o meu dia com o horizonte tão escuro como a noite a gemer a claridade da manhã e a esperança que o sol trará de aconchego. Pela metade da vida já o mundo mexe e eu me descanso neste Alentejo sem tamanho, grandioso de céu em altura. Depois, a tarde não resiste e deixa-se ir com a noite madrugada adentro. Felizes.

Jaula social confinada

Sinto-me domesticado nesta jaula social onde já quase não decido que mar ir ver, que amigo abraçar, que mulher amar. Sou de fácil apego, daí fugir a que me retirem de mim, a deixar-me ir sem que seja eu o proprietário da minha pele e organicidade. Nisso tenho a minha idade de prática a militância de um solitário convicto, aqui e ali, feliz até. Agora domesticado numa jaula social, fere-me a vida de morte. Preciso de voltar a escolher o mar, o abraço e a quem amar.

Obrigado PCP

100 anos são muitos anos a lutar pela liberdade e igualdade de todos, têm o meu respeito e admiracao.

Brandamente

Se seu ventre mãe, me voltasse a fecundar, voltaria mansamente num brando caminhar, e, seria agreste, a minha sede de viver.

A deus não creio

A deus não creio, nem grato posso eu ser alguém de fé, se a representação divina na terra, tão má representação tem, que exclui de mim a fraca reputação a que me dou, sem indício físico que tenha que demonstrar, silêncios ocos de grito, de mundo inexistente e harmonia.   Nem grato posso eu ser da fé em que não creio.

desprazer

desprazer este de te sentir em cada flor, em cada sombra, em todas as recordações assombradas de destino.   desprazer este de te saber no jardim, sem vida, hipérbole de exagero e dor.   Desprazer este de teres partido, sem aviso prévio, de ter a morte sido vida.   Desprazer duro, sem crença, sem afago.

as aparências dos sentires

Ser grato é ir ao encontro das nossas vontades? É a confirmação da vontade acedida? É somente uma demonstração de vontade? Ou não existe como não existe a felicidade ou a infelicidade? Tudo são apenas e somente pedaços de tempo de sentires. Tudo é efémero. A harmonia não se apregoa. Guarda-se. Protege-se. Zela-se. Esconde-se de tudo, menos do brilho que as solidões dos olhos tomam.   As evidências da gratidão não são aparentes, são um processo, nem se dão por elas.

Encontros

Sim, vamos voltar a encontrar-nos na fresca manhã e partilhar os mesmos raios sem que tenhamos que dividir o sol por cada casa de nós. Havemos de nos voltar a encontrar, partilhados.