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Mostrando postagens de agosto, 2015

O vento, as palavras e esta folha já escrita, entendem-se.

ainda agora as palavras aqui não tinham nascido e já o vento soprava delirante o teu nome, As palavras nasceram do segredo desta folha em branco.     O vento, as palavras e esta folha já escrita, entendem-se.

As minhas “coisas” são as minhas “coisas”

Preciso de ouvir este ruidoso silêncio que estala no meu cérebro, de escutar o vento e entender a mensagem.   Preciso de deixar embaciar os meus olhos, de subir à montanha e regressar.   Ressaco de mim como se eu fosse a minha própria droga, como se tudo em mim fossem insignificâncias.   Tenho saudades minhas. - As minhas “coisas” são as minhas “coisas”, não são banalidades, são importantes, são a minha forma de sentir -

Assimetria dos sentires.

Desordenados sentires de loucas vontades desmedidas, desconexas de entendimento, desarticuladas e por verificar. São como o norte e o sul, a primavera e o outono, a presença e a solidão, a inadequação e a confortabilidade.  - Tudo o que experimento não cabe dentro de mim.   É como se as árvores da floresta não se conhecessem umas às outras, e as ondas do mar fossem desprendidas delas mesmas, e o cheiro a pinho se soltasse da madrugada, e a madrugada cheirasse a giesta, e o mar tivesse luar, e o luar marés. - Tudo o que sinto se avassala dentro de mim.   Esta assimetria de sentir não é ajustável na minha essência. A minha essência é desajustada a uma dissemelhança desarticulada que só sente, que não entende tudo o que a sustenta.   Assimétrica está esta manhã, onde o sol já se põe e a lua está a nascer nesta desigualdade de sentires. - Tudo o que experimento e sinto é: a assimetria dos sentires.

Vive-se

Vive-se nas rotinas dos horários das nossas "desnecessidades" como convém, E na vontade alheia que impõe, castra e detém.   Vive-se na aglomerada urbe a que se chama cidade e afins, E onde desabitados estão os jardins.   Vive-se numa desenfreada correria animalesca, Onde tudo é bom e, tudo se dispensa.   Vive-se só para gastar a vida, Sem tempo de abraços, - vida "desvivida"-.   Vive-se sem se viver, Vive-se para morrer.   Vivo sem amar a noite e a lua, Vivo sem beijar a pele que é tua.

Desejar que o sonho que plantámos, amadureça

Eu gostava de deixar-te a lua à cabeceira, Esta inconformada decisão escondida na gaveta do móvel de entrada, E que nos teus lençóis permanecesse a luz com que te amei, E o desejo com que te quero amar, Eu gostava de não ter que me esconder para chorar, E se me escondo e não me mostro, É somente porque não quero que as minhas lágrimas entristeçam nas tuas. O mais fácil é: - Desejar que o sonho que plantámos, amadureça -

Sorte

A sorte não se desenha a lápis de carvão, A sorte é colorida e não pode ser desenhada, A sorte é construída, não desejada.   A sorte não é arquitectada, A sorte não é esboçada, E se o fosse, seria a lápis de cor.   A sorte e a morte são de todas as cores - (como o arco-íris de Novembro), Como o mar estonteado num tormento, Como a planície e o monte escrito com o vento.   A sorte e o mar, O vento e o montanha, São como a lua desenhada na mãe esperançada do que lhe vai no ventre.   Abril depois matou a sorte, E a sorte passou a ser morte, E existe somente, sobreviver.

dois acordes

Há horas tão lentas que moem mais do que a saudade, Horas de dias intermináveis, Horas de noites incompletas, Horas mais densas que as arvores na floresta, E as gargalhadas da lua entre as nuvens como que abençoando o momento.   Há horas vociferadas pelos deuses e pela razão, Horas sem nada completas de presença, Horas abastadas de solidão mais claras que as manhãs de verão, Horas desorganizadas como o silencio da minha garganta, Já não consigo sequer juntar dois acordes, mesmo menores.    

Frágil e poderoso

Escrever é o acto de preenchimento de mim próprio nas palavras que não necessitam de diálogo ou resposta. É extorquir de mim mesmo o que sinto sem a necessidade de entendimento de outrem, porque na verdade existem sentires que as palavras não adequam.   Escrever oferece-me a possibilidade inigualável de exprimir o que sinto sem o retorno esperado ou explicado, do mar que me habita alvoraçado. Existe apenas uma alma e, essa alma é una, com a remota possibilidade de ser espelhad a numa outra. Uma vida pode não ser suficiente para tal encontro.   Cada dia aglomerado de mim próprio faz com que essa possibilidade seja uma necessidade, uma vontade, ou tão e somente a aceitação de mim mesmo como a minha melhor companhia e liberdade.   Os filhos são outra dádiva do sentir. Por isso existem filhos. Por isso existem pais. Os pais sentem os filhos pela simplicidade de um olhar ou tom de voz. Os filhos estão no seu caminho reconhecendo nas mãos dos pais, os abraços.   Frágil e poderoso.

Sou cheio de desconhecido!

Parece-me evidente que a loucura e a sanidade são meros conceitos e mitos, dogmas impossíveis de quantificar ou qualificar, tão cheio é o ser humano de desconhecido.   É no desconhecido que me sinto a habitar, no mais profundo desconhecimento de mim mesmo, na dura descoberta de não me reconhecer ou entender.   Sou cheio de desconhecido!

eu, ela, nós, juntos

Eu: coberto de maresia desprovido de conceitos como se não existe mais mundo   Ela: agua, flores, oceanos de rios, enxurrada, luz e perfume.   Juntos: pisámos a terra virgem e desbravámos as acácias por florir, na inexistência da razão e no agudo sentir impensado.   Nós: juntamos as lágrimas com as mãos, os dedos com os cabelos, as bocas com a boca, e esperámos sem tempo o amanhecer bravo do coração.

Escassa probabilidade de ser livre

Escassa probabilidade de ser livre, Menina giesta a florir, Mulher madrugada descalça solta ao vento, Neste desabraçado sentir, Da probabilidade livre de ser emoção.   Experimento o perfume da tua pele, Num abraço de uma noite perfumada, Vi-te chorosa esperança, despedir-se, E as nossas bocas quase foram apenas uma, Na livre probabilidade de ser livre.  

Se nas minhas palavras nem existes

Nunca vou esquecer o teu olhar de versos e dor, Os teus olhos prontos de partida, Pressentindo a impossibilidade de ficar.   Viverás em mim definitivamente, Como se não tivesse existido fim, Mergulhado no meu peito secretamente.   O teu nome rebolou na ponte sobre o rio, Vinculada presença incapaz, Ausência crassa permanente.   E a quem falo eu do que sinto? Nos meus dias disfarçados de acenos, Se nas minhas palavras nem existes.

Não vivo como escrevo

Não vivo como escrevo, Não escrevo como vivo, Para viver como escrevo, Teria que ter asas, Sem horário para voar,   Tenho amarras que só se soltam, Nas madrugadas que invento, E neste viver ao contrário reside em mim somente, O sonho conseguido, Nos fragmentos de tempo casto em mim.

Um dia seremos uma história de verdade, com sujeito e predicado.

Aproximei-me lentamente. Calmo, frio e lúcido. Já antes o mar invadira o paredão, e a lua sobrava à janela. As trocas de sílabas ajustavam os nossos gostos. Líamos o mesmo autor. Ouvíamos o mesmo compositor. Mesmo sem estar nos mesmos sítios encontrávamos-nos regularmente e, olhávamos as mesmas estrelas. Falávamos dos sítios que haveríamos de visitar. Sonhávamos juntos em camas separadas.   O firmamento iluminava o nosso astral. O mundo parecia-nos parado quando nos juntávamos. Falávamos de verdades benditas misturadas com as mentiras do sonho. Os cheiros, as mãos e o olhar ligavam a nossa existência. A nossa imaterialidade era soprada pelo vento, que fazia lá fora e nos adornava.   Os vidros das nossas janelas humedeciam por estarmos quentes. Trocávamos música e poesia nos silêncios. Trocávamos quadros, pareceres e amigos. A vida semi-encantada tornou-se real, assim como real se tornou o sentir do encantamento. Esperávamos pelas trocas, horas e dias-a-fio. A música foi a companhia do ...

Debruada com uma boca de luar

Como um raio de sol que invento no inverno, Assim elejo um ombro, Onde deposito o meu sentir, E descubro uma mão que segura o meu pranto, Afigurada alma, Aurora de luz, Debruada com uma boca de luar.

Como que acabado de acordar

Quando romper o outono, Desgrenhado, Como que acabado de acordar, Sonolento, As flores outrora floridas secarão, Tal como as lágrimas acabam por secar no meu rosto.   Todos os rios chorarão da água, Secada dos meus olhos, Todas as flores e a lua, E todas as nascentes, Saberão que a água que corre desfeita no seu leito, Levará em si toda a minha solidão depositada.

Palavras de um personagem de: - “Palavras por ver o sol um dia XXIV”

Chove pouco mas certinho. As lágrimas que caem do céu são vida para as entranhas da terra. Misturam as sementes. A chuva a mim também me faz bem. Faz-me pensar. Enrolado no meu sítio fico atolado de pensamentos. Penso em mim. Penso na minha infância e nas tempestades. Penso no sabor das torradas de domingo à tarde que a minha mãe preparava quando vinha da bola. Penso nos primeiros acordes que dedilhei. O amo r que ganhei à música. As primeiras palavras que escrevi e os primeiros números que somei. Penso naqueles três ou quatros amigos. No meu professor da primária. Penso na aventura que foi as minhas primeiras saídas à noite. Os meus primeiros amores. As minhas primeiras desilusões. Na raiva lenta e maligna que comecei a sentir. Na inadequação silenciosa. No medo mascarado de fortaleza. Nas minhas primeiras férias sozinhas, já não me lembram. Hibernei. Vivi uma mão cheia de anos, sem me lembrar, ou querer lembrar-me sequer. Recordo cheiros e sombras. Não me amei ou amei. Não me lembro ...

A fé

A fé é o momento anterior às respostas que o tempo tem. A fé não me parece, um exercício de promessa de troca de um desejo, por uma dádiva. A fé se não for cega é uma visão antecipada do que se quer ou deseja, aprazada no tempo, com cobrança à posteriori. A fé é a confiança de que o caminho escolhido é o caminho conquistado. Posso no final do caminho perceber, que no princípio, aquilo a que eu chamei fé, não foi mais do que ambição. Percebo, chegado ao local, que a fé foi a soma do que eu precisei, com a semente que arremessei á terra. A fé foi, a colheita do que semeei. A fé é mutável e pode ajustar-se ao trilho. A fé é o momento imediatamente precedente, às respostas que a vida tem.

alegoria antes de ser conto

Quero viajar devagar, Muito devagar, Como se de um poema as paisagens se cuidassem, Como se na maresia as madrugadas se adormecessem, Como se numa pedra no mar eu habitasse, E assistisse às noites, De breu e vento, E às manhãs claras, Como em todas as partidas antes de viajar.   Não preciso de viajar para um sítio distante, Basta-me ser viajante.   Preciso somente de navegar nos meus sonhos, Na alegoria antes de ser conto.

A distancia não acaba com o amor

A distancia não acaba com o amor, magoa-o, Mas não o mata, Fere-o apenas pela impossibilidade da vontade, Pela possibilidade do desejo se adiar, Ou nenhuma das coisas.     Talvez nenhuma das coisas consiga acabar com amor, Com certeza que nenhuma delas o conseguirá, O amor é um estado permanente e tudo o sustenta, Distancia, mágoa, saudade, desejo, tempo, ausência, Tudo o suporta e ampara, como a lua e o mar.

No recanto da minha solidão, decido melhor

No recanto da minha solidão decido melhor, Quanto mais eu, melhor decido, Preciso de estar na minha floresta, Junto das minhas árvores, Com o cheiro da terra e o mar na alma.   Preciso das cores do arco-íris a desabrocharem como música no meu peito, O arco-íris tem sete cores decifráveis, Os meus dedos dedilham sete notas, E o mar de sete em sete ondas, Ruge e acalma.   Preciso do silêncio e da melodia, Da noite e da madrugada, Eu gosto da minha companhia nos dias que preciso dela, Eu preciso da minha companhia nos dias em que me preciso acompanhado, Preciso da lua para iluminar.   No recanto da minha solidão, decido melhor.

O presente é o passado e o futuro desinquieto

Antes, Foi sempre a maior emoção, A mais forte vontade, Foi sempre antes, Antes de estar, de saber, de sentir.   Depois já não há antes, mesmo sendo antes o anterior instante ao próximo momento. É sempre antes o mais forte que experimento.   É como o tempo, O passado e o futuro, Intervalado, sem prazo, Mesmo chamando presente a esse fragmento milésimo que não pára.   O presente é o passado e o futuro desinquieto.

Resta-me sobreviver com menos luz

Agora que passaram alguns dias mas que já ninguém se lembra, arrisco-me a falar da morte, da horrível palavra enterro, da expressão incompreensível: - “festejo fúnebre”, da saudade, das lágrimas já secadas, dos dias de direito a gozo profissional denominado: - “dias de nojo” e de o corpo a caminho da transformação de ser vivo para defunto, a tombar para o esquecimento. Depois, pode então ser cremado ou incinerado como lixo, que é o que a carne é.   Estou agora em condições de chorar, celebrar a tua alma, essa sim, vida para além da morte, essa sim, recordação cristalizada em mim, essa sim, a nascente da saudade que não se apaga ou diminui, que cresce comigo feito do teu tempo e ausência.   Agora que já ninguém se lembra, continuo incompreensivelmente há procura dos desígnios de deus na nossa vida, mesmo ateu, dá-me jeito responsabilizar alguém que não a vida, pela morte.   Agora que já ninguém se lembra e já tudo chorou, e toda agente desejou o: “descansa em paz” via estrangeirismo (RI...

livro aberto a uma ilha

Sou como um livro que não se abre, Um livro que se descerra e não se lê, Indecifrável, Com palavras feitas de letras sem sentido, E a quem o sentido não oferece o céu, Mas as estrelas, incoerentes, beijam-se e dançam desgarradamente, O sentido agudo do sentir. Sou como uma peregrinação pagã, Sem deus e sem altar, Sou a mais louca correria de um cansaço disforme de luz, Sou um amontoado de mim, E um livro aberto a uma ilha.

Cortaram o trigo, agora os meus olhos vêem-me melhor !...

Estão a cortar o trigo, agora os meus olhos vêem-me melhor…   Estão a cortar o trigo, os meus olhos agora vêem-me melhor. O velho armário cheio de pó tem riscado o sítio por onde os livros passam. Está desgastado. É como se a mobília tivesse um calo como o que se tinha outrora, no dedo que pegava o lápis, na época em que ainda se escrevinhava. Um velho carvalho faz sombra e autoriza selectivamente alguns raios de luz de sol a entrar, bem como a alguns clarões de sombra padecerem, naquele primeiro andar de chão encerado em tiras de madeira. Cobrem-no velhos tapetes gastos e pálidos. Ali me embriaguei dias seguidos de noites, embrulhado numa manta aos quadrados que mantinha o frio longe.   Li o mesmo livro quatro vezes, obcecado pelo que se escapule numa primeira leitura. Não sei quantas vezes vi a chuva cair pela janela nos campos perdidos de vista e, quantas vezes vi o sol enterrar-se na terra trocado pelo erguer da lua. Sei de cor o ranger do soalho às minhas passadas. Conheço as aran...

há sítios que me acolhem

Há sítios que me acolhem. São estes os lugares que eu gosto de habitar. São estes os sítios que revisito quando me revisito a mim mesmo também. Há ilhas a que eu pertenço para sempre mesmo que, e, provavelmente, nunca mais as habite, mas é de lá que venho e parte de mim pertence para sempre a esses sítios, mesmo “suportando” outros.   O mesmo acontece com as pessoas. Há pessoas que me albergam e a quem sempre pertencerei. Há outras que são lembranças de mim mesmo. Outras são saudade. Outras são lágrimas. Outras são cheiros. Outras são floresta. Outras não são coisa nenhuma. Outras mataram pedaços de mim. Outras ressuscitaram-me. Outras ainda são a essência da minha vida, quase o prolongamento oxigenado do meu sentir.   Acontece-me o mesmo com as músicas, os livros, os poemas e os sorrisos, todos me albergam e a eles pertenço.   Se não pertenci jamais pertencerei, o contrário é a minha subsistência no meu sentimento, só porque um dia pertenci .   Porque há sítios que me acolhem … porque...

Viagem na madrugada da lua azul (01.08.2015)

Azul cheio de lua, Luz repleta de fundamento, Lua, luz e pensamento.   Delírio, loucura, azulada. Lua azul extravagante, Lunática e divagante.   Sem cor negra que a tolhe, Sem a nuvem que a escolhe, Estroina é, no céu que a acolhe.   Fascinada é a terra que a agasalha, Exaltada e sem fim, Vidente, lua e marfim.   Os meus olhos são de lua, O meu peito é da rua, Anilado, azul de lua.