Quando um dia me descreveres como mais do que um fogo de ternura, e a tua pele se arrepiar de pensares nas mil vezes que te implorei amor, saberás que desde sempre, desde nunca, desde o primeiro minuto, desde a primeira vez, mudei de alma, troquei de ser, e fiz do lago defronte à minha casa o teu espelho, esperando todos os dias voltar a sentir-te minha. Voltei a ver-te fugidia ao som de uma valsa que nem sei dançar, não adorei ver-te nos braços de quem nem sei existir, mas soube-me a felicidade ver-te, de saia redonda, mãos elegantes, sapatos pretos, vestido branco, em afrontosa e dedicada dança, presença de vida em tarde esquecida. Quando um dia me descreveres sem possível descrição, apenas serei eu a recordação, tudo o mais, não foi se não eu, a minha velha sala de chão de madeira esburacado, a janela de vidro quebrado onde entra o sol e o frio, e o lago quebrado que foi o espelho fracturado, tudo o mais, é somente palavras que junto com o cheiro a pele amada.