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Mostrando postagens de agosto, 2009

Sentir farto

  Instalou-se um sentir farto. Farto de um querer tão farto, como farto de um não querer, tão farto de sentir. A intuição comanda-me os sentidos. Dolentes por um sentir de querer. Embalado por uma música que ruiu nos momentos e afaga os instantes seguintes, fartos de ocasiões. A ambiguidade gere os meus dias. As noites, juntamente com a senhora madrugada, num sonho inventado e descoberto, acompanham-me. A madrugada trouxe-me a notícia em jeito de boa-nova. Envenenada. Adivinhada e sentida.   Passeio pelas noites agraciadas p´lo um ar quente que o mediterrâneo exala. Uma luz encaminha-me pela noite cheia. Os barcos salpicam o cais ténue de luzes que aguardo. O firmamento desconjuntou-se aguardando a ordem de regresso a mim. Falta-me o pé nesta maré de enxurrada. O sono não me acompanha. É vespertino este vulcão desconcertante de lama fervente. Aguardo enquanto deixo o meu cérebro comandar o coração. Volto-me em mil voltas desconfortáveis, na esperança do conforto que não tem hora marcad...

Abraço urgente

  Dá-me um abraço urgente, Pela urgência do abraço. Decepa-me desta gente, Raiva sorrateira, construída, Dá-me um abraço urgente.   Dá-me um abraço urgente, De amigo, de verdade. Vil dor que se sente, Confusão, culpa e erro, Dá-me um abraço urgente.   Dá-me um abraço urgente, Madrugada, ilusão, Incorporada e quente. Vem ter comigo amigo, Dá-me um abraço urgente,

O meu primo carlitos

  Não sei se todos têm um primo como eu. Tipo exemplo. O Carlitos. Eu tinha. Sim, tinha porque já não tenho. Ainda é vivo mas não me é nada. Desfamiliarizei-o. Todos os Invernos no mês de Dezembro, mais propriamente de vinte e quatro para vinte cinco, as marafonas das meias aos losangos a largar pêlo, lá estão depositadas em nome dele. O comentário anual é igual, vindo da minha mãe: - “não sejas assim”, após a minha observação habitual e também anual.   Acabou de sair da minha frente. Vê-se que está de férias pela indumentária. A bela da calça de fato de treino, os ténis fluorescentes e uma t´shirt de marca desportiva que não vem ao caso. Gostei do respeito que demonstrou por mim. Falou aprovadoramente do meu título honorífico. “Ó Carlitos vai-te f……” gritava a minha cabeça num ruído que me cegava e ensurdecedia. Cago de alto para se a tua mãe (minha tia) teve um avc, dois, três ou dez. Que raio tenho eu a ver com isso.   Mudam-se os tempos, mudam-s...

Mais logo Kusturica!...

    Numa esteria colectiva o paredão passeia as tias. Os cães abanam-se vaidosos olhando de soslaio os rafeiros junto aos caixotes do lixo. Cães amaricados, vestidos e penteados. Os do caixote são elegantes. Têm amigos em vez de donos. Eu sou um cão vadio, não tenho dono. Gosto mais dos cães dos caixotes do lixo e de crianças. Sentado ali na marginal passa várias vezes o mesmo cão apaneleirado com a dona pela trela, ambos se abanam em tons rosa chock intragável e perfumado intenso, de sandálias brilhantes a condizer. Gosto dos hippies, não adoptam cães de marca, cuidam-nos.   Do outro lado da rua um arrumador faz-me um sinal. Leva dois dedos à boca em sinal pedido de um cigarro. Dei-lhe três e meti conversa. Dei-lhe sinais. Ficamos amigos. Falei-lhe de mim e ele ouviu-me. Ouvi-o também. Sabe viver na rua e não ter amigos, mas quer uma casa e amigos também. Não sabe se sabe. Mas precisa. Não sabe até se quer. Sei disso. Sei o que é não saber. Sei o que é não saber se se quer. Disse-lho....

Pensamentos do Cardilium a´nexos II

  Cheguei agora à minha ilha, vindo do desfraldar dos moinhos empurrados pelo vento. Escrevinhei numa ânsia que me acompanha, questões filosóficas que distam o ter, ser, sentir, ver, desprovido e consumo.   · Não ter o que tenho e ser infeliz é renegar o que tenho de felicidade. Ter a ilusão do que tenho é não ter a lucidez do que não tenho   · Ser aquilo que não sou e não aceitar o que sou, é ser uma imitação do que não sou. Pode alguém ser quem não é?   · Sentir de dentro forte é a singular forma de não sentir o vazio.  É rejeitar sentir o que se sente.   · Ver não é olhar. Olhar, é ver por ver. Ver, é ver com o olhar.   · Desprovido é ter a audácia de perder para ganhar. É ter congruência, alma e fé.   · Consumir é o tapar emotivo do buraco de não se ter, ser, sentir, ver e desprovir.

A falácia complementa-se?

  A força do que acredito é inesgotável. Desacredito no encantamento de possuir. Encanto-me pelo desprendimento e a facilidade com que a lucidez me enlouquece. Falo neste canto quase anónimo dos meus pensamentos peculiares, naturais e intrínsecos, que não são entendíveis na maior parte das vezes, ao discurso dos meus amigos mais distantemente contíguos.   Vivo viciadamente numa individualidade que prezo, mas que sei ter um preço. Dividi-la seria um preço muito alto. A lua meia em crescendo, ilumina a noite tão forte quanto a cheia. É sempre minha a forma com que me olho e revejo. Sou boa pessoa. Sou único, especial e diferente. Não há ninguém como alguém. As diferenças são ou não incompatíveis? Não o são na pessoa do outro, mas são-no na perspectiva individual do admirar e contemplar. Gasto-me como os outros e os outros gastam-se como eu.   As pessoas não são coisas que se têm e se deixam de ter. Se se teve alguma vez, ter-se-á eternamente, mesmo não tendo. Se nunca se teve, nunca se t...

Estou aqui para sempre

  Uma criança corre verde num prado solarengo no cedo da manha. Sentado, encostado numa arvore dedilho a minha viola e teimo em fazer um poema que não sai….   De repente vinte anos desapegam-se. Salta menina linda, a paz ainda é tua, não deixes o teu crescer, furtar-te essa arte de dançar e adormecer. Corre sonho meu, que me dás vida, alucinas e encantas. Sei que está na hora. Vais voar. Vais migrar no teu … no nosso sonho. Sei que estás grande, que chegou a momento.   Os dias passam numa correria desenfreada em direcção a outra cidade, outro ritmo, outra experiência. Fico, mas vou contigo, estou lá, estou aqui, para sempre.

Brando ... Brandíssimo

  É patético historiar vivências de outros entes. Tontaria pegada não calçar os sapatos de quem faz o percurso e refazê-lo. Displicente e anárquico, incoerente, achar saber-se o sentir de uma ditadura vivendo em liberdade. Por esta linha de raciocínio entendo assim os laranjas e os rubros alaranjados deste País. Entendo o pôr à margem a oposição dentro da semi-oposição, para eleger o opositor. Assim sendo Morais Sarmento & CA, Passos Coelho e afins, ficam sossegados antes que azedem o cozinhado que está em lume brando. Brandíssimo. PS agradece na pessoa Socrática.   Os poetas irão continuar a escrever sobre o Amor, o sonho, a liberdade e a evasão. As peças de teatro continuarão a ser escritas. Os talentos continuarão a emigrar Europa fora, ou adentro, como se queira. Seremos cada vez mais seres (continuaremos) analfabetos, doentes e ladrões, por analogia com o “infuncionamento” da educação, saúde e justiça. Já nem o futebol anima a malta. E o rock and roll está em vias e...

“Dai-nos a paz”

  Refúgio emergente do vento e saudade em fervença. África incendiada pelo gosto escapulido e quente, árduo e vadio, evadido da noite num mar urgente. Invadido, difícil e toante esta alegria de espuma, feita de luz. Encanto e sedução carregam esta lágrima num sorriso ténue e arrebatado. Abjecta pura ilusão o tender idílico e imaterial. O mar revoltoso de bem, fere a rocha que se esbate numa cor cada vez mais escorregadia e verde. Subelevo de admiração intrínseca a imensidão do abismo, visto da ilha que inventei existir. “Santa Maria Mãe de Deus” sussurro. “Dai-nos a paz”, grito. E em enlevos de brilho, peço a Deus que me guarde os que Amo. Em êxtase retiro-me e adormeço, ciente que a liberdade pela madrugada rompera afora os seus pergaminhos. O mundo apregoará o dia. África acasalara o mar com as marés. Estou prenhe de solidão.

Pensamentos do Cardilium a´nexos

  - Aprender sem pensar não subsiste. Pensar é um acto contínuo no processo de aprendizagem.   - Pensar sem sentir, ou sentir sem pensar, é dúbio na forma e no conteúdo. No entanto o conteúdo é implícito na forma de pensar e o sentir explicito na forma de o fazer.   - Quem usa o tempo faz dele um aliado, quem o gasta um inimigo.   - O que não é vontade acontece primeiro. A vontade será por ultima a primeira.   - Deus como manifesta cobrança de desejos, não é nunca a junção de factos e coincidências. Deus como convicção é o reparo dos pormenores.   - A minúcia não é um caminho. Ensinamento é errar. Glamorizar é ego. Ego é narcísico, imprudente e vazio.

A solidão não é solidão, faz companhia a ela própria

  A silhueta do teu corpo adormece-me e adormenta-me. Solto abraços por dar num continuado descomprometimento. Na senda da direcção errada tatuo o caminho.   Alma voante que parte. Escuto vozes no ar, num emaranhado de veias cerebrais, que me ajustam no tempo e no espaço. O respirar é sôfrego e descompassado. Mais do que um astro, vi no céu riscado um sinal ardente de fogo. Ali, à minha frente, o firmamento incendiava a madrugada estrelada e cadente. O teu perfil quedou-se desenhado. Desenhado de luz. Narcotizo.   Observo as luzes semeadas do alto do monte, tremulas pela intensidade da distância. Ao longe as cidades pacificam mais um dia. Dorme a urbe no vale e na colina. As horas sossegam igualmente. Sinto os cheiros agrestes e a natureza conjunta a vibrar. O vento passa por mim numa vénia fresca que corta o Agosto já estafado. Foge-me o pensamento, não o agarro. Desmaia-me entre os dedos incontrolável como a areia da praia do vale que frequento.   Estoira-me na cabeça, o estrondoso r...

Sem obstar

  Sem obstar o pensamento, um rugido violento ecoa. Risos soltos ouvem-se do outro lado do monte. Em caminhos empoeirados cumprem-se promessas de uma fé em direcção ao local de culto. As mulheres caminham gemendo orações devotas, ritmadas, fartas de cadência. Os homens abrem caminho entre silvados e em silencio pisam forte o chão. Ao longe um salpicado de luzes tremulas, descansam as aldeias, silenciosas.   Vou tirar carta de poeta e licença de autorização das palavras. O sentido das mesmas, o emaranhado habitual e a velocidade que me habitam, precisam de ordenação e de ser respeitadas. Preciso de ficar em paz, mais do que em sobressalto. Preciso de me apaixonar e reflectir. Não ter medo, nem ficar oprimido. O pior medo é o de nós próprios. A nossa prisão e opressão, é muito mais o que fazemos a nos próprios, do que aquilo que nos fazem, ou deixamos que nos façam.   O palavra amor esta gasta e suja. Amor é uno, não o sendo não é amor. Troca-se a palavra amor, por uma série de vocábulos...

Alem Tejo

  No céu implícito o teu nome, Brilha, Jaz, afigura-se, padece.   As tuas mãos fortes em dedos airosos, Esbeltam a tua face na lua, Rodada para poente.   O sol madruga em ti, nascente, O quente que trazes nos lábios, Parte de ti, ofertado.   Sei-te amargurada, De não teres Alem Tejo, A terra que te pariu.   Reconheço o teu brilho, Quando entre os montes vês, O Guadiana contemplado   Graciosa falas de silêncios, Hipotecados, doados, Desprendidos e amarrados.  

Amora

  Giesta rubra de cheiro manso, Saltitam negras amoras Nos silvados dos teus olhos. Desprende-se musica, Do teu abraço pousado numa nuvem.   Levantas poeira ao passar, Os teus passos! Frescos. Empurrados pelo vento que não alcanço, O pôr-do-sol, Pousa no teu peito.   As tuas palavras soltam-se, Envoltas num sorriso. Um grito surdo, Habita a tua presença. Invade-me em surdina o teu cheiro.   A tua pele salpicada De sol salgado e mar. As tuas mãos esguias Ensinadas pela madrugada, Levam-me até mim.

Baça !...

  Observo crises existencialistas defendidas por uma dita, arrumada e resolvida resolução extravagante e eufórica. Coisa que sinto ser de fácil resolução com ajuda especializada. Mulher que se abusa de si própria e de si mesmo é abusada. Mulher de ego tão inflamado quanto a sua própria dor. Sorrisos afirmativos de uma solidão que dói e exaspera. Sonhos frequentes adiados e projectados, nos filhos que deixou de conhecer e cuidar. Cavalos brancos, aprumados e elegantes, esperando um príncipe que já faleceu e não voltará. Pessoas insubstituíveis esperando substituição. O que foi não volta a ser, mesmo que muito se queira e querer muito é poder. Discurso delirante tentando constantemente enganar o olhar frente à frustração. Ensaiando ajustar o chorar. Choro de todos os abusos e caminhos invertidos por um beijo, ou uma vã e pseudo conquista de uma noite de mentira. Trocada pelo alter-ego em prol da auto estima e um sonho inventado. Discurso alienado farto de anti-comunicação. Sorriso e cami...

Dimingueiros

As páginas já são tantas. As que escrevo. As que invento. As que sonho. As que leio. As que observo. Tenho dentro de mim fatias de carne viva que ainda sangram. Tenho dentro de mim, corais coloridos sarados e guardados de momentos e pessoas. Tenho vontade, decisão, e sei o caminho. Sei por onde se vai. Não invisto em feiras de vaidades ocas e desprovidas de substrato e conteúdo. Melhor, inundadas do que não quero. Bronzeados, conversas desconversadas, marcas e ostentação, não são o meu reino. Não são o meu mundo.   Gosto de acordes simples. Maiores, menores, sétimas e diminutas, sustenidos e bemóis. Dominantes. Gosto de vozes fortes, de encantamento. Gosto do estado que é invisível aos olhos. Gosto de ler nas entrelinhas. Gosto de olhares, pedidos e cedências.   Estou sem vontade de novidades. Arrecado-me no que conheço e é seguro. Os domingos são dias onde se circula melhor nos caminhos costumeiros e há mais tráfego nos acostumados.   O rio espelhava sabedoria e melancolia, saudade e ...

Dilacerado

  Tenho direito à diferença. Tenho direito a pensar. Tenho direito a usar a minha inteligência. Tenho direito á minha massa critica. Tenho direito a não me vender ou emprestar. Tenho direito a tratar-me tão bem quanto o consiga. Ando numa fase politizada da minha vida. Nem tudo o que luz é oiro. Ainda o é menos, o que reluz.   - É kafkiano olhar o interior, assumir e gostar. - É kantiano olhar o interior segundo a ética e as intenções. - É freudiano e libido o degustar extraido da teoria das emoções.      Escrever não é fazer, é dizer como se faz sem fazer. A escrita tem várias formas de o ser. Vários objectivos, intecções e direcções. Os ombros carregam o peso do mundo. A minha vontade é forte, a força para lhe obedecer é fraca.   Dei tempo ao tempo. Esgotou-se sem direcção. Voltei a ter rédeas no tempo. Voltei para mim, inteiro. Sou inteiro. Não importa o que profiram, importa o que na verdade sou. Não me divido em divagantes teorias acerca de traição impessoal, pessoal, ou de origem...

A vida ao contrario !...

  A vida ao contrario. Começando do fim para o princípio ou do princípio para o fim, o meio é sempre no meio. É sempre na altura meia de vida que a vida é um todo. É vida inteira. O que se vive não é adiável, está vivido. O que não se vive, esta vivido também. Ao não se viver qualquer coisa, está-se a viver outra coisa qualquer. Não se vive, vivendo? Várias metades são metades, duas metades são duas metades, não um todo.   Belo filme, estranha historia, o filme que precisava de ver. Do fim para o principio. Um amor inexistente cheio de existência, feito de metades inteiras. Vulnerável contorci-me três horas num sofá, aprumado, sentado, deitado. Presságio puro e perpétuo. A normalidade da vida feita de morte. A morte como um hino á existência, da soma das metades. As respostas são a natureza. Tudo é perfeito, existente e viável.   Assim consigamos separar-nos do que nos separa. Assim consigamos desprover-mo-nos de bens. Não precisamos mais do que precisamos. A filosofia tal como a matem...

Crise ????

  Gosto deste País assim, a banhos. Frequentado nos sítios do costume com especial incidência a sul. Desapoquentado nos sítios do costume, especialmente a sudoeste norte. Felizmente.   A crise foi de férias conjuntamente, já não é lembrada. Há ténues sinais de retoma (gargalhada). Depois é esquecida porque começa o futebol. A seguir campanha eleitoral, e em campanha não há crise, há obra feita (duas gargalhadas). Posteriormente Natal e somos todos “bonzinhos”, e ulteriormente passagem de ano, vamos todos “pastilhar” com o pensamento useiro, de que “para o ano é que é”. Depois vem o 13 de Maio e lembraremos o Santiago Carrilho e a Vera Lagoa.   Está ao rubro a dama de cera (psd) e o filosofo estafado (ps). Um, tem o programa que o outro diz não ter. O outro tem o programa que diz que o outro não tem. O outro ainda (cds), anda de mercado em mercado a sentir as mãos rudes e vazias de pão. O outro foge do capitalismo como o diabo da cruz (cdu). Outros ain...

O Natal não é quando um homem quiser?

  Ontem inventei uma noite de Natal. Abomino o Natal. Como tal inventei um Natal num Agosto quente. O Natal não é quando um homem quiser? Recebi uma prenda. Várias prendas. Não acreditei nelas, não as guardei, nem ofereci. Destruí-as para que ninguém ficasse com o veneno, em forma de lembrança de laçarote farfalhudo, envolto em palavras soltas, gastas e desiguais.   Guardei uma. A mais valiosa. Uma história. A historia da borboleta cúmplice e intuitiva que convidava sempre as outras borboletas para passear. Revi-te. Sem que o saibas remirei-te. Numa desenfreada e louca correria, imóvel, verifiquei o quanto a expressão se altera numa dissonância hiperbólica, ornamentada e ensaiada de falsas questões, as minhas.   A lua ontem balançava meia, na barragem afogueada. Era noite. Foi Natal. Desaguavam em cascata cadentes estrelas. Vi mais que duas, nesta noite decadente de Natal. Como me apraz as tentativas de entendimentos vazios. Satisfaz-me o entontecimento geral, ao entendimento das auto-...

O que! como! gosto! e amo!...

  O que me irritam os queques, os betinhos e os loucos de barriga cheia. O que me irrita a portuguesa alegoria da desgraçadinha. O que me irrita a soberba importância mesclada de ignorância. O que me irritam as óbvias conclusões ao indiviso. O que me irrita afinal Portugal já não ser um País. O que me irrita o novo-riquismo disfarçado de diferenças tão iguais. Também me irrita o velho-riquismo cheio de Antónios Marias, Carlotas e afins.   O que me irrita a plena incapacidade de olhar para dentro. Do simples questionar. Do facilitismo e da anti-tomada de decisão, da ajuda exterior, do empurrar o balancé. Como me irrita a auto-estima ser chamada de grandiosidade e pedestal. Como me irrita a mim mesmo adoecer com a minha própria incapacidade de entendimento, e ficar azedo do fígado, e corroído de dores estomacais. Como me irritam belos discursos fartos de palavras mas livres de acções, esvaziados de acções mas fartos de palavras gentis, coitadinhas, boazinhas, mas inofensivas e ...

E volta na volta morremos

  Todos estamos sempre na senda de um qualquer caminho. É isso que torna esta viagem alucinante.   Todos estamos sempre numa qualquer posição. Falamos de tudo, entendemos, vendemos e damos opinião.   Todos não estamos sempre no verbo estar. Estamos em festa, agonia. Estamos por estar.   Todos estamos na vida de forma excitante.   E volta na volta morremos….prolongando a vida.    

Entontecimento !...

  Deus sabe porque ditou. Num palco improvisado de tons doces e um olhar parado, perdido e sucumbido, todos os sentidos se perpetuam na audição. Descalço deambula vertiginosamente num violino sabiamente velho e capaz. Responde a uns imitados sons de pássaro. Que felicidade desentender as palavras e entender os pássaros. Já não oiço bem, cada vez oiço pior. Agradeço a Deus poupar-me ás palavras. Mas oiço o mar, os pássaros e as arvores. Tudo o que preciso para realmente ouvir.   Palavras ditas cansam-me e fartam-me. As escritas, tolero-as. Palavras sem consequência deixam de ser palavras. Palavras sem vida imobilizam-se. Não são nada, a não ser isso mesmo, palavras. Palavras lindas são lindas, mas apenas lindas. Palavras feias não há.   Os acordes têm movimento e vida. Como os rios. A solidão também tem movimento e ampara o entontecimento chilreante. Entonteço e engrandeço. Entontecimento é uma palavra linda que me seduz, que me ajusta aos actos. Difere-me a capacidade de ver a luz.   C...

Apelos e acenos

  Dei por mim na margem do rio…! Local magico, onde a noite sem rosto se mostrou suave e convidativa a loucuras, embalada por um luar magnificente. O reflexo das águas era o espelho que ilustrava o desejo. A luminosidade noctívaga reflectia as sombras do teu sorriso. O rio implacável, de braços fortes, arrastava as tuas mãos que deslizaram pelo meu corpo. Marés únicas, incontroláveis. A corrente, forte como as emoções, assaltam-nos. Sem forças nem vontade para o evitar, desabafo com as aguas que me ouvem. O rio confidente e atrevido, de mansinho envia convites. Tentadores acenos e apelos, que arrebatam os meus sentidos. Sem força sucumbo ao desejo da lua, do rio, da corrente, e de uma musica que ao longe me acaricia. A saudade faz do sonho, o sonho de ter a saudade.  

A nossa existência é o nosso patrimonio

Noite de lua nova. Clara, alourada, misteriosa e cheia. Um mosteiro debruado por D João I, do mais desenhado gótico. Um castelo verde juntando um gótico renascentista. A noite! Mãos, beijos, desejos, gemidos roufenhos, palavras, conhecimento. Cheira a verde pinhal, num colo feito de dois. Prazeirosos momentos edificados no sentir. Mãos de prata e lábios de ouro fizeram de mim arauto de uma liberdade platinada. Como te recordo em cada instante seguinte do meu dia, do meu acordar, do meu adormecer. O teu cheiro cristalizou-se em mim. Luxúria que teima em não me abandonar, que me acena em gestos e sonhos azuis, embriagado pela tua boca que me enlouquece. Sinto o teu orgasmo trémulo fundido no meu. Olho os teus olhos raiados de azul pedindo-me prazer e caminho, como a lua. Vejo o teu bronzeado chamar o meu nome. A nossa existência é o nosso patrimonio.

Fumo enrolado em saudade

É bom rever a saudade, inundada de beijos, novas palavras e velhos sabores. Entusiasmadas novidades e gargalhadas frequentam o regresso. Os velhos abraços são novos. É bom rever a saudade por onde o tempo não passa e demite. Os abraços não se desabraçam nunca, nem se desembaraçam. A saudade é como uma árvore plantada e afagada em terra farta. Cresce, engrandece, ganha raízes, seiva e sabedoria. Tem vida e dá existência à vida. A saudade é como um papel de poema amarelecido pelo tempo, mas guardado com alma. A saudade é secreta e aparece de enxurrada. Tem abundância e vontade. Quero encontrar-me com a saudade de olhos negros e brilho nocturno. Falador de frases mudas fantasio a saudade. A saudade é o intervalo vivido entre o ser e o estar. Um cigarro arde um fumo enrolado, calmo e baço, após a partida. Ausência adivinhada. Ausência regressada.

Espírito sedento e adivinhado

  Era tarde. A noção do tarde ou cedo é-me breve. Assim como breve é o momento seguinte. Subi lânguidos os degraus frescos da noite quente, apressando débeis pensamentos. Esquinas inversas, outras esquinas esquinam-me o sentir. Aguardam-me beijos soltos. Apanho um a um. O abraço retorcido espraia-se, como quer.   Uma música, vinda do outro lado do mundo, dança-me na mente. O espírito sedento e adivinhado contorce-se de prazer. Sublimado percorro a memoria como se fosse momento. A lua crescente ilumina a noite onde vagueio em sonhos arrojados e claros. As noites em bolina ventosa não são de verão. Preparo a viagem que me conduzirá a um deserto de sons ablusados.   Oiço homilias preparadas em julgamento. Não julgo, cresço e entendo. Acompanham-me largos de cheiros adocicados da minha infância. Levam-me as palavras ensinadas. O beijo solta a roufenha voz do seu dono. As tardes de por do sol acabam atrás da serra. As manhas adivinhadas crescem a sul. Não me envergonha a verdade. Não me emb...

Lá, aqui e acolá

  Sei lá. Sei cá eu de que parte do mundo me observo e pertenço, Sei cá eu se volto, de cá para lá, Se venho de lá para aqui, ou se vou para acolá. Aqui sei, efémero mas sei. Sei o que me eleva Lá, aqui e acolá. De lá sei que sonho aqui, Sei lá eu, Se daqui pertenço lá, Sei lá, Sei cá eu. Sei lá, sei lá…. Acolá.