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Mostrando postagens de junho, 2010

Acendido

Floresta por fora, Deserto por dentro.   Imensidão de alma, Claridade.   Espírito colorido, Criança.   Aprendiz de dolo, Feiticeiro de lagos.   Verde plano, Historia por inventar.   Flor de paz, Braço de ferro.   Droga, Sanidade insensata.   Muro derrubado, Mentes abertas.   Certo e errado, Deslumbrante.   Deserto fechado, Acesa floresta.  

...ia ao mesmo que eu

Entro na igreja fresca e sento-me apenas a olhar. Respiro o fresco que os frescos manuelinos replicam. Vou à procura de uma fé que sei existir mas que sinto ser mais do que a ironia herege que sinto. Peço um sinal, uma direcção. Castrado pela fé pecadora induzida no minúsculo ser ainda moldável, não creio no que aprendi no catecismo bizarro e pouco eloquente. Creio nos sinais já experimentados e feitos de improváveis factos e coincidências. Ali sentado e só, não me creio. Já não creio no vulcão em que o meu pensamento se tornou. Na minha existência descobri que fiz mais do que julguei conseguir realizar. Que tive forças quando me julgava exausto. Que recuperei o animo quando o desespero era predominante. Que reconquistei verbos já não conjugados. Que amei já morto de sentir. Que senti já ressuscitado momentos não escolhidos, ofertados pela hora errada e o sitio errante. Que transformei cores e tornei terra árida em terra fértil. Que me devolvi à prostituição intelectual e avassaladora ...

Quando me enfastiam as avenidas

Quando me enfastiam as avenidas, Povoadas de gente e de ninguém, As luzes trémulas ausentes, Já não dou nem três vinténs, Das almas penadas que caem, E os Outonos que nas árvores jazem.   As pedras calcetadas, Nos caminhos encetados, O mar bravo sossegado, A lua cheia armada, Neste Junho já finado, E eu? Eu aqui quebrado.   Estes nacos de solidão, Em noite quente de verão, Outrora foram ilusão, Palavras de mão em mão, Gritos de paixão, Corpo meu em exaustão.   Agradeço assim passar e não ser visto, Mesmo assim não desisto, Das coisas por fazer, Misturo o que sinto no verde, No rio que ferve e passa, Na avenida enfastiada.   PS: Estas palavras não foram escritas segundo o novo acordo ortográfico.

É fixe

Na verdade o caminho só se faz caminhando e para saber o que custa fazê-lo, só calçando os sapatos de quem o fez e palmilhá-lo.   O outro lado dos alunos é o professor e ensinar (bem) tem muitas horas de trabalho e dedicação por trás. Falar quatro horas para quem não nos quer ouvir é trabalho árduo. Chamar as pessoas para a sala, quase ter a obrigação de ser entertainer para os sentir ali, participativos, a quem como é o caso, só quer um papel que diga que têm, que fizeram, que possuem, é dose. Ou se gosta ou não se gosta.   Eu gosto e foi esta a ultima descoberta que fiz.   Gosto de pessoas (isso não é novidade para mim embora a minha rigidez latente), gosto de dividir, de dar, de inventar formas de fazê-lo, de o fazer com humor e amor. Ter a capacidade de trabalhar, das 08.30h ás 23.30h é novo, e torna-se no meu alterador de estado de mente e demente preferido. Deitar-me numa cama ás 00.00h e nem ter tempo para adormecer porque adormeço mesmo antes de adormecer, “é fixe”.

Estória da História

Regressei ás ruas onde vagueei. Deambulo de olhar perdido e fascinado. Está tudo diferente. As casas velhas não existem e fizeram uma estrada a meio. O Mário, o Alentejano, o Chico, e a Russa cabeleireira de voz grossa estão na prisão, e os outros no cemitério. Saí agora da escola. As aulas correram bem e os alunos assimilaram bem o conhecimento, a informação e a comunicação. Vejo-me agora aqui perdido nesta hora tardia no bairro onde pensei falecer. Estou muito mais vivo que morto. Pertenço aqui mesmo pertencendo a outros sítios também. Por vezes penso que tudo é uma época, uma fase, e que ciclicamente a vida se retorna. Lá em baixo, os prédios coloridos não têm a cor das barracas destruídas nauseabundas e escuras, feitas de um estranho conforto que me abundava e bastava à época. Assustadora esta parte ainda vigente em mim. É como se a adaptabilidade fosse mais um sentido meu. Na verdade a inadequação e a adaptabilidade são duas partes distintas de tão iguais se parecerem que coabitam...

A minha oração

Fica formosa a praia à noite salpicada de bóias florescentes dos pescadores junto à barraca do Abílio, aquele amigo que mesmo visto de tempos a tempos me faz sentir que o tempo não nos separa. Que me faz sentir que o tempo quando provido de conteúdo um dia, jamais será intemporal.  Regressei esta madrugada a este pedaço de mar moreno, onde a espuma se evapora na areia. Onde as ideias varridas de preconceito são incandescentes e os raios de luar e as estrelas de fogo no firmamento são inventadas e coloridas. Onde o passado é presente e as dores da privação antiga são recordadas. Onde é ardente e fogoso o meu desejo e o meu peito bate descomandado pelo descompasso das ideias. Descompensado e bruto jaz o areal debaixo do farol, que numa iluminada luz esclarece mar adentro num código em feixe de luz, que não me canso de observar. O mar, a noite, o céu e as nuvens confundem-se. Na madrugada não destrinço onde começa um e acaba outro. A lua de quando em vez irrompe iluminada. No céu as nuven...

Dias há em que encontro as coisas todas fora do lugar

Dias há em que encontro as coisas todas fora do lugar. São dias em que avanço, sonho e evoluo. Questionar-me por dentro das horas de mágoa ajuda-me a entender os sinais e respostas do tempo. Por vezes, os dias vindos do nada são tudo o que tenho e guardo. Analogias metafísicas ou sensoriais desacautelam-se nos horizontes vermelhos do pôr-do-sol. Alegorias do meu ser fecundam vidas do meu alter-ego.   Sinto-me só. Alimento a solidão e arrisco a enfrentar-me. Os meus gostos não comuns, celebram-se de forma antagónica ao meu círculo. Um círculo nem sempre é circunferência, porque tem lados e pontiagudos ângulos inacessíveis às formas geométricas com que me deambulo, entre a folhagem almofadada da terra que piso. O direito à diferença diferencia-me e torna-me torneado e esculpido sem igual. Assim como torna todos os outros que me rodeiam.   Cada vez mais só, construo-me mais que as noites encostadas a um balcão não escolhido em troca de olhares perniciosos e desprovidos. Tenho que fazer, e...

A vinte de Junho nao te deixo

Os rios correm no céu. Todos passamos de bestiais a bestas com a morte, é a instantânea hipocrisia latente. Fizeste-lo em vida, divergente e pensante. Estavam “muitos” mais presentes, que aqueles que gostarias que estivessem. Era escusado. Podiam estar “todos” nos Açores com os outros, não haveria qualquer problema. A ignorância que o regime ditatorial deixou neste País mantém-se. Pessoas como tu incomodam. Fazem pensar, acrescentam conhecimento e melodia ás palavras. Como tal não são útil ao capital e capitalistas. Li-te, reli-te. Irei continuar a fazê-lo, não porque morreste, mas porque estás vivo em mim, como os salgueiros das margens do Almonda da Azinhaga, e os pescadores avieiros que te embalaram nesse nascer cristalizado de vida que não acabará nunca.   Ouvi numa tv que o Nobel tinha sido atribuído ao livro “Intermitências da Morte” mete-me nojo tamanha barbaridade. Fico sem palavras para tamanho... não tenho palavras.   NÂO FOI. O NOBEL FOI ATRIBUIDO A TI, À OBRA-PRIMA DENOMINA...

Obrigado José Saramago por tudo.

Enquanto morrias eu escrevia.   Não morreste porque vives.   És imortal tal qual o teu deus questionado.   Equitativo lutaste por uma diferença que não interessava que fosse pensada.   Um homem de essência é um homem que faz os outros homens questionarem-se. Um ataque é uma elevação intangível para os críticos.   Nobel???   Neste País o que é isso?   Coisa pouca neste País de miseráveis sem escrúpulos vendedores de pedaços desta nação que amaste.   Vive em paz Saramago. Vive em paz porque é vivo que estás.   Muitos daqueles, os dos outros, dirão agora que eras diferente, bom, muito bom especial blá blá blá blá   Obrigado José Saramago por tudo.  

De nascente para nascente

A foz são duas nascentes abraçadas. Uma que corre para sul e a outra que aflui do norte, sem norte ou direcção. Encontram-se e ali mesmo se despojam e amam. Depois, desabraçadas fundem-se e seguem juntas de mão dada. Juntam o sal lacrimal e as ondas de emoção. Tornam-se mar.   A montante foram água doce, a jusante sal e alto de mar. Foram corrente antes de se tornarem maré. Enseada antes de serem baía. Calma antes de correria. Ancoradouro antes de porto e enlaço antes de abrigo. Segurança antes de fuga. Juntas fazem do mundo nascente e foz, foz e nascente, e não se sabe onde começa uma e acaba outra, ou onde ambas se inebriam num ser.   Calcorreiam estradas de fogo em noites de lua cheia de amantes. Ouvem os uivos de amor que brotam das encostas nas noites loucas de paixão. Entre as serras que fazem das margens um percurso impensado mas escolhido. Das escolhas feitas, caminham de mãos dadas e abraçam-se. São espelhos de Narciso, inspiração de poetas, prazer de corpos lavados, peixes qu...

Serra anunciada

Promontório, Elevada serrania, Luz da noite, Verde Maria.   Cheiro crasso, Tal espaço, Dorme a cidade, No vale em baixo   Ceio a tua boca, A tua elegância, Amasso o teu corpo, A tua fragrância,   Cheira rupestre, O teu corpo, Incendiado no meu, Da parte faz-se um todo.

Sines de mar

Voo distante e difuso num continente submerso e límpido de cores vivas e fugazes. Fins atingidos pelos princípios e pelos meios. Uma estrela encaminha a minha vil emoção e a minha sacrossanta fé. Dúbio, escuto as palestras que me entram sem autorização sala adentro. Em segundos como que tendo molas salto e faço off ao mundo. Necessito manter-me sóbrio e a estatística não me ilumina.   Jamais seria o que sou, senão tivesse sido o que fui. Ter sido o que fui, faz de mim o que sou hoje. O passado é então o pronuncio do futuro e o presente património do passado.   É cada vez mais clara a minha certeza de ser emocionalmente descoincidente. De ser um bravo e soldado, um guerreiro temporal e não rendido, um insatisfeito lutador de, e por mim. Jamais me renunciarei. Encho de vida cada dia mesmo de inaptos sentires. Intenso, passeio-me em marginais de luz, observado pelo mar que rebenta em estouro no meu peito. Vibro. Caminho.   A vida que não sei existir é o prelúdio desta que vivo. Violinos t...

Dependurado

Um texto sobre mim disseste-me: cuidando porventura que me era difícil escrevê-lo. Tenho existido nos últimos vinte anos debruçado sobre mim. Sobra as minhas características, qualidade, defeitos, possibilidades, angustias, credos, mudança, sobre a modificação evidente, da necessidade atroz de me entender, de encontrar o significado existencial, pragmático e espiritual, da energia, vibração e intensidade que me conduz e ilumina.   Simplificando, entendi o adormecer e o acordar, os olhos que me vêm mais que os meus próprios olhos. As minhas cores mais que as cores das coisas. Os sentires que me adequam e ajustam. O entendimento das palavras dos outros. O ambiente externo que me habita. Os meus passos, sonhos e realizações. A minha cobardia e as dos demais. A trafulhice eminente e sexual. O desperdício da vontade. Os adiamentos. As concretizações intrínsecas, a minha intra pessoalidade. O estatuto das pessoas e a falta dele. As desilusões e as ilusões. O mar, a terra, o fogo, a chuva, o a...

ADN

Vira-se-me o barquinho cheio se emoções num mar de lua forte. Vagas que não me deixam adormecer saboreiam a minha insónia. A água que cai da chuva junta-se à água que se deposita nas poças. A estrada que corta ao meio a serra, esconde o mistério que faço por entender. No alto enfeitam-se agora pás grandes de moinhos que fazem a luz brilhar no sopé da montanha, em casas que deitam fumo com cheira a família. No meio do temporal emocional habito-as sem lhes pertencer. Há dias atrasado ouvi sons de animais nas moitas que se contorciam de espasmos.   Existem em mim sim pensei, não sempre, mas existem. Existe um cadeado com um código que desconheço. Existe um gnomo, um duende e um anjo. Um genoma indecifrável, um ADN por descodificar. Faço mais do que falo. Faço mais, do que digo fazer.   Cansado espreito-me lá à frente e chamo-me. Afago-me e retempero as forças que gasto para não sentir, mais do que pensar. A planície descansa plena.   Alturas há, em que vejo o castanho da terra de laço e f...

O momento

Ventre azul como o firmamento desconexo. Raios da cor de laranja formam nuvens como gomos. De presença mistura-se a natureza. Adivinha-se pela cor cinza iluminada, a chuva que seca a terra e refresca de paixão a alma. O vento leva-me desconhecido a um sítio ermo. Assim, sempre que possa quero ir, ser e estar. Pesa-me o pensar que não me deixa adormecer. O pensamento faz-me andar rápido entre a floresta feita de árvores.  A noite está a caminho e de encontro a mim. Espero-a sentado numa pedra de musgo e entretenho-me a descascar da pedra fria o verde quente. Nas minhas unhas ficam pedaços de terra que limpo com a caruma adormecida no chão. Deslocam-se na terra movimentos que escuto sem os ver. Numa insónia de ausência, acordo-me depois de me embalar. Tantas vezes cruel, tantas vezes sujo, tantas vezes adormecido em braços alheios, em camas envenenadas, em festins de silêncio, em silêncios atraiçoados, em lugares abstractos, sem nome, sem mim mesmo feito de presença, sem sono, nem verdad...

Deixo-me na areia !

Um profundo pensar, Invade-me sem autorização, É visceral. O meu coração? Tem dó! Sinto as tripas, Feitas laço e nó.   Borboletas aos pedaços, Cor forte, Afrodisíaco, Envolve-me um bailado, Ameno e paz, Mais que Cristo.   E na areia deixo os pés, Que o mar vem apagar, Embriagado. Descalço, Na água salgada, Faço-me embalo.

Fado

Neste azul bordado em mim não resta nada....   Perguntaste-me se gostava de fado... Respondi-te: - O fado é bonito. É bonito por ser complexamente desproporcional à simplicidade do que resta luso nesta nação. O fado tem na morte a vida. O fado tem gestos, sabores e magia. Tem uma vontade terrena de algemar os amantes. Tem solidão e lágrimas de esquecimento. Tem Portugal-idade (leia-se portugalidade) e esperança. Tem desenho e projecção de imagem. Tem estatuto, é clássico e contemporâneo. Gemem os olhos fechados e é aberto e orgasmico.   Disseste-me, como assim: Respondi-te com calma depois de um respirar aprofundado: - O fado tem fascismo e liberdade. O fado é bem e é do povo. O fado nada tendo, é farto. O fado é arte. O fado junta nas palavras, lágrimas e sorrisos, paixão e descarte, amor e perda. O fado tem a métrica da matemática, o encanto da poesia, e a questão filosófica de um povo. O fado é menor por assim serem os seus acordes, é maior porque se eleva, é dominante e diminuto, é...

Postado 527

Sem trilho ou caminho, sem bússola ou astrolábio, fiz-me ao destino. A noite já sobe no horizonte irrompendo pelas nuvens pousados no céu. O vento sopra de uma forma não sentida mas pressentida. É como se as cidades tivessem morrido de tão adormecidas que estão. Das fogueiras acesas já só restam as brasas. Vejo o teu rosto belo e mágico. Tudo é silêncio e ruído. Paz e guerra. Tempestade e bonança. Noite e dia. Homens e mulheres. Voz e grito, solidão e presença. Caminho sob as folhas estaladiças da calçada que povoam a floresta até à montanha. Adormeci. Adormeci a meia viagem para retemperar a alma. Nos subúrbios do meu ventre, num dilacerado frenesim, cantam querubins. Uma improvisada melodia que me embala a cada passada, sucumbe à madrugada enfeitiçada. Enfeito-me de perfumes coloridos. Continuo bosque fora. Enquanto caminho revisito-me. Vejo-me numa escadaria que verte água e humilhação. Um querer que não sabe o caminho. Vejo uma luz cega de um farol que brilha entre as árvores e me ...

Ai Deus o é !

A lucidez quando é clara, É trocada com confusão, Como uma pérola perdida, Cálculo feito equação, Trama e cala quem não entende, Ser lucidez a paixão.   Se x é o quadrado de y, E y a raiz quadrada, O amor sereno é calma, Aos olhos da minha amada, Que faz do desvio padrão, A presença alterada.   Cobardia emocional, É ser lúcido e actual? Não fazer da afinidade, Verdade, palavra e mentira, Mentindo dizendo a verdade, Deste fogo que me abrasa .