Postagens

Mostrando postagens de maio, 2015

Crentes, ateus, sol, vento e sonho

Deposito tudo nos sonhos que mantenho, Sabendo que o vento não deixará de existir, Bem como deus para os crentes, E o sol para os ateus, Ambos se continuarão a abraçar, ... Nas partículas de sonho que acalentam, Crentes, ateus, sol, vento e sonho.

Sinto-me chão

Sinto-me chão quando me dizem louco, Sinto-me planície quando me dizem torto, Sinto-me regresso quando me sinto povo.   Povo feito de gente, Peito que sinto ardente, Sinto-mo louco não demente.   Nas farpas que o meu sangue jorra, Constituído desentendimento, Complexo e amargurado põe-se o sol lá no poente.   Deambulo na hipocrisia, Das verdades como um todo, Recato-me nesta ironia de muito mais sóbrio que louco.

Estar sozinho é um dom?

Estar sozinho é um dom? Estar sozinho no meio de gente num burburinho alucinante, deixar de ver e ouvir, é demência?   O amor não se conjuga. Ou se pratica porque é, ou não se solicita que o seja. O amor é justo. É o retorno do que se dá. Se não se sente, ele não mente. No mais intimo pensamento a verdade vigora. O amor não se escolhe. Se assim for ele descobre. No amor é-se escolhido.   O amor nunca será as palavras dos outros ou os pensamentos dos poetas, isso é uma coisa diferente, é apreciar o belo que não é nosso, porque o nosso, escondemos no agradável que é estar só, a fingir que se está ausente.   Quem ama sabe dizê-lo, Saber “ter-me” dar-me-á um dia, saber “ser-me”.

Um poeta tem nas mãos dedos de sentir

Um poeta tem nas mãos dedos de sentir, Um olhar cheio do que vê e um vazio olhado em que o observa. Tem palavras simples de indecifráveis sentires, Tem na alma a presença da distância e presente a distância de um olhar. ... Um poeta é mais que um mundo que nem se sabe existir, Um poeta habita uma miserável fonte que jorra sede que a água não cala. Um poeta desassossega o silêncio. Inolvidável tem dentro de si a morte e a vida, o amor e o desamor e da sua compreensão, faz a sua dor. Um poeta sabe que nenhum dia será estrelado como as noites acordadas de si mesmo e que nenhuma manhã terá a normalidade dos dias “baptizados de bons”. Um poeta tem uma alma revolta que sente na solidão presença e nas madrugadas, abrigo.

Pedra ilhada

Pedra ilhada que só o mar abraça, Pedra ilhada que o mar envolve sem maré, Pedra ilhada sem sal, maresia ou solidão. Na floresta os lobos uivam solitários, ... Duvidosos da validade da travessia, Solta-se da sua boca um silvo de agonia que escurece com o entardecer. Pedra ilhada que vejo sem se ver.

Assimetria do real

A vida ao contrário é a assimetria do real. Nem sempre nem nunca, nem nada nem tudo. Todos os desígnios vão para além da vontade. As escolhas não são sempre escolhas. O que nos vem é nosso, o que se nos escapa entre os dedos não o é, nunca o foi. Não seria o mesmo homem sem Kafka na minha vida. Toda esta ensanguentada existência já foi sarada e, na reserva que faço em mim, nada me garante que a morte que carrego no peito não seja a vida partida, mantendo-me vivo nela, mas m ... orto como a lua quando não brilha. O que me faz chorar são os dias em que não chorei. O que me faz amar são os dias em que não amei.

As chagas que lambes e não curas

Sou a chaga que lambes e curas, Apreendi aí ser infeliz.   Aprendo agora em fragmentos de felicidade, Que são e não são Que estão e não estão, Que ficam e que vão.   Deixo-me comover, Nas chagas que lambes e não curas.

Sobram pétalas

Sobram pétalas, Falta-me peito, Falta quem me abrace.   Falta quem me diga que o céu também escurece, Que o abrigo tem um recanto, E que a fugidia coutada amanhece a cada sopro de pronuncio da manhã.   Falta quem me lembre cada madrugada em que já não lembro a vida, Porque a morte tem um tempo, E o tempo tem os dias que sobram das perfumadas pétalas.

Palavras por ver o sol um dia XI

Como pode o início ser tão distante, desconhecido, enigmático e intenso?   O perfume que ficava quando passavas adormecia e acordava com a minha saudade. Saudade desconhecida do verdadeiro sabor da saudade. Saudade desentendida da verdadeira dor da saudade. A saudade mesmo estranhada não deixa nunca de ser saudade magoada.   Não sabia sequer o teu nome, de onde eras, onde te encontrar. Esperava por ti até não aguentar o meu coração desordenado e, quando te via, fingia não te ver, e voltava tudo ao mesmo. Saudade, saudade, saudade.   Num dia que não existiu beijei-te. A saudade atracou. Agora já sei o seu nome. Chama-se enleio e não tem época para florir, existe antecipada ao amor.

Mâes

Aos vinte anos sabia muita coisa e tinha bastantes certezas. Há medida que fui subindo a íngreme escarpa das estações, fui perdendo sapiência e perdendo certezas por aí. Hoje sei que ainda me falta muito por saber, hoje tenho bastantes certezas nas dúvidas que me conservam.   Certo de que a dúvida me retorna à essência humana, duvido da terra que lavrei um dia e da esperança semeada em torrões desfeitos, fragmentos grossos de terra boa plantada em mim.   Os dias não avisam quando nascem e as horas são pródigas de desencanto, nas searas da minha infância o sol assentou sempre, mesmo sem a minha presença.   As mulheres que mais observaram são as que mais sabem, sabem dar vida aos filhos, sabem dar vida à vida.

Quero o silencio inundado de volta

Quero o silencio inundado de volta e as nuvens soltas da minha infância, Quero sentir a escuridão da noite sem raios que me ceguem a esperança, Quero a inocência de volta e o frio fora das estações.   Quero sentir-me livre na prisão que os anos me entregaram, Quero ser, estar, cantar e dançar, Não quero ter porque não sei possuir.

A noite que foi da lua na madrugada que alvorece

Se eu fosse a minha sombra, Seria trevas e luz e um homem duplicado.   Sem ser a minha sombra, Sou um esboço de mim, Com tantos e vorazes sentires, E mil pensamentos sem fim.   Sou o mesmo e sou o dobro, Sendo igualmente eu, Como o mar que é desigual, E o vento semelhante ao céu.   Sou como a terra remexida que escurece, E a noite que foi da lua na madrugada que alvorece.

Dias velhos iludidos que são novos

Dias velhos iludidos que são novos, Sem substancial mudança que assusta, E dá-se à reforma do mês, dia ou ano, O advento da transformação, Renegada todos os dias anteriores.   Creio na metamorfose sem data que a defina, E nos dias não numerados, O meu velho coração tem a mesma definição, E a roupagem que o forra é na mesma emoção, São os velhos dias iludidos que são novos.

O demasiado óbvio não me seduz

O demasiado óbvio não me tenta. Podia até escrever frases muito sexuais e desenhar mulheres despidas, mas não é isso que me seduz. Gosto de mulheres vestidas e do prazer de despir, o obsceno evidente não me provoca, o que me seduz não é óbvio e fácil, é difícil e não banal, ensinou-me isto a natureza reguladora da minha libido.   As nuvens são ondas do mar depositadas no céu. São borboletas pintadas de flores. São o deserto estendido no horizonte. São as labaredas que ardem de fogo na lareira interna do conforto. São o beijo que aguardo guardado nos meus lábios de floresta. São o cheiro a pinho bravio doce no meu peito.   Na verdade, o demasiado óbvio não me seduz. Nada.

Um adeus sem despedida

Um adeus sem despedida e um até já sem medida, Um até logo sem fogo, Uma ponte que nos juntou, Um mar transbordado de prata, Os teus seios gritando abraçados no meu peito, Pele a arder com a pele, Dedos dados entre as mãos, Corpo no corpo desconhecido de corpo, Sobra um adeus sem despedida e um até já sem medida.

Palavras por ver o sol um dia XIX

“…. Quem me tirou a luz? Sim, quem me roubou o escarlate e o fogo, e me fechou o postigo por onde ainda gemia uma réstia de luz baça. Mesmo bacenta é luz. Quero-a de volta ao postigo de onde a arredaram. Calma avó. São os teus olhos que cada vez estão mais escuros, a claridade no postigo está cá, eu vejo-a. Tens a certeza? Sim tenho, estou a tocar-lhe com os dedos e a desenhar figuras que me fogem. Hum, não me desencantes Mari´estrela, não me desencantes tu também. Sabes uma coisa? A vida devia ser vida, apenas e enquanto é vida, depois já não é vida, mas mesmo assim ainda por cá continuamos vivendo. Sabes que mais, deus errou muito, muito e sempre. Já a madrugada mesmo com aqueles olhos de nevoeiro bacento como a réstia de luz que eu via pelo postigo, errou menos. Sabes outra coisa? A madrugada é a tua mãe, foi ela que te trouxe, depois de uma noite de alvoroço, ainda os meus olhos eram claros como o nascer dos dias …. “

Não deixo de ser por tu seres

Não deixo de ser por tu seres, E por tu seres quero ser também, Desalinhado, comprometido, Ser sempre eu e mais ninguém, Com riso próprio e choro meu, Por tu me seres alguém, Lado a lado, Sem par, Nem mão, Ser tu e eu, Abraço, Paixão.