“…. Quem me tirou a luz? Sim, quem me roubou o escarlate e o fogo, e me fechou o postigo por onde ainda gemia uma réstia de luz baça. Mesmo bacenta é luz. Quero-a de volta ao postigo de onde a arredaram. Calma avó. São os teus olhos que cada vez estão mais escuros, a claridade no postigo está cá, eu vejo-a. Tens a certeza? Sim tenho, estou a tocar-lhe com os dedos e a desenhar figuras que me fogem. Hum, não me desencantes Mari´estrela, não me desencantes tu também. Sabes uma coisa? A vida devia ser vida, apenas e enquanto é vida, depois já não é vida, mas mesmo assim ainda por cá continuamos vivendo. Sabes que mais, deus errou muito, muito e sempre. Já a madrugada mesmo com aqueles olhos de nevoeiro bacento como a réstia de luz que eu via pelo postigo, errou menos. Sabes outra coisa? A madrugada é a tua mãe, foi ela que te trouxe, depois de uma noite de alvoroço, ainda os meus olhos eram claros como o nascer dos dias …. “