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Mostrando postagens de março, 2015

Tantos momentos sem que nenhuma vez o fosse

Disse-te tanta coisa na noite calma, De cem vozes minhas e de quem me fiz expor, Tantas vezes sem momento algum, Loucas preces desesperadas de fé, Consolo procurado onde somente ardeu a vontade, Faminta fome não saciada, Insaciável dor que eu em mim causei,   E foram tantas as vezes sem momentos nenhuns, E tantos momentos sem que nenhuma vez o fosse.

Póstuma lembrança apaziguada

Se as árvores morrem de pé, E o vento esbofeteia a face.   Se os lírios mudam de cor, E o sol constrói a sombra.   As chagas também secarão, Neste peito apiedado.   Nesta fonte a escorrer, Nestas flores por secar.   Neste abrigo perpetuado, De póstuma lembrança apaziguada.

Falta-me o cheiro da terra

Acordei dum desassossego mudo. Sonhei com a felicidade. Tamanha loucura mete-me medo. Felicidade. O cheiro a terra semeada de solidão embrenha-se-me pelos poros adentro. O sol pinta a minha resistência. As palavras são surdas e duras quando em confronto. São escorreitas e doces aquando em dança na celebração da verdade. Gosto de cegar e ver pessoas a passar. Cada passo segue uma direcção. Cada passada obedece ao sentido que lhe é ordenado. Observo a tristeza de um olhar que não enfrenta. Reajo aos risos. Entendo os sorrisos e as lágrimas que se aglutinam na rua feita de movimento. Cego, decido olhar. Subo, desço e vivo a vida na fantasia que construo com a minha cegueira. As crianças contemplam com olhar de descoberta, enquanto passeiam balões pela mão. Caminham em correria com se cada pedaço de passeio fosse um jardim imaginário. Como se cada declive fosse um baloiço, como se cada baloiço estivesse habitado por outra criança. Subo em direcção ao Chiado prendido à esquina onde ecoam al...

O nosso amor morto é melhor do que moribundo, deixemos então o nosso amor morrer em paz

Sentado defronte da noite esperei que o movimento das árvores me abraçasse. Já era mais do que madrugada calculei eu pela água jorrada da fonte nos seixos que ali nascem, e aí mesmo provém o prodígio da junção de água em vida que o rio absorve no início do seu caminho. Eu já vi nascer um rio numa noite abraçado pelo movimento das árvores.   O nosso amor morto é melhor do que moribundo, deixemos então o nosso amor morrer em paz.

As palavras que tornam idêntico o meu sentir são universais

Naquele dia, naquela hora, naquele sítio, com aquelas pessoas, a morte foi-me denunciada, Naquele dia, naquela hora, naquele sítio, com aquelas pessoas, foi-me a vida transformada, Naquele dia, naquela hora, naquele sítio, com aquelas pessoas, a mim fui-me apresentado, Naquele dia, naquela hora, naquele sítio, com aquelas pessoas, foi-me devolvida a essência, Naquele dia, naquela hora, naquele sítio, com aquelas pessoas, foi-me semeado os abraços, Naquele dia, naquela hora, naquele sítio, com aquelas pessoas, foram-me apresentada as lágrimas e os sorrisos, matéria da mesma fonte, Naquele dia, naquela hora, naquele sítio, com aquelas pessoas, fiquei vivo até agora. E em comum aconteceu existir, este dia, esta hora, este sítio e estas pessoas.   .......................................................................As palavras que tornam idêntico o meu sentir são universais.

O nosso amor morto é melhor do que moribundo, deixemos então o nosso amor morrer em paz.

Sentado defronte da noite esperei que o movimento das árvores me abraçasse. Já era mais do que madrugada calculei eu pela água jorrada da fonte nos seixos que ali nascem, e aí mesmo provém o prodígio da junção de água em vida que o rio absorve no início do seu caminho. Eu já vi nascer um rio numa noite abraçado pelo movimento das árvores.   O nosso amor morto é melhor do que moribundo, deixemos então o nosso amor morrer em paz.

Palavras por ver o sol …II

A vida é uma terra por arar onde os cavalos se soltam sem direcção e livres galopam sem horizonte que lhes trave o sonho. Se não houvesse corpos a morte não tinha a quem escolher. As estradas não percebem o caminho. As estradas são usadas como os deuses o são, desconhecidos pela oração. Os caminhos são pequenas parcelas de destinos que não entendem o trajecto e desconhecem onde habita o desejo. As cidades não se elevam das praças para as torres. As cidades são as pessoas sem destino ou direcção de encontro à direcção que o destino desconhece. Metamorfose emocional mais do que empírica tem o caminho da vida. Como existem corpos, tanto a vida como a morte, tem onde se depositar. Deixo-te a minha voz pousada num beijo, ardendo neste abraço que desconheces.

Espero que não fujas com outro a meio da noite … - minha querida liberdade -

Arde-me sôfrego este sentir. Apenas posso sentir. Somente poderei sentir o que não posso mais adiar. Este carrossel de sentires não me deixa sossegar, esta impossibilidade de adiamento julgo querer-me sufocar. Visitei na madrugada passada o mar, por momentos senti esta loucura eminente mais a saudade partirem, sem me abraçarem.   Espero que não fujas com outro a meio da noite … - minha querida liberdade -

Palavras por si só

Palavras sisudas, Palavras risonhas, Palavras construídas de palavra.   Nas palavras falece ou nasce o entendimento? Transpostas palavras que não fecundam o diálogo, Presas que são, soltas que estão, Nos egos maiores do que nós próprios, E nas palavras onde podia residir a salvação, Existe somente prisão.   Palavras por si só, São letras aglomeradas, É somente estarmos sós.  

noite atormentada

Acordei. Espreguicei-me com o mar. Lavei o sal dos olhos de uma noite atormentada. Rezei com o nevoeiro e o arco-íris e parti. Parti para o dia deixado pela noite e a esperança que rompe com o sol as nuvens e desenha histórias no céu, como as gaivotas que beijam a terra na saudade da manhã. Assim me cheirou este acordar. Cheirou-me ao teu corpo acordado que me adormeceu.

míseros momentos em mim espelhados

Sou o lavrador que lavra a terra que abunda em mim, Sementeira bravia, E doce colheita.   Sou a lágrima que enche o bornal, E o sorriso no lençol bordado, Entre a escolha e o acerto.   Sou a palavra que incendeia as nuvens, Nos míseros momentos em mim espelhados, Na face lavrada de vida, da terra que semeio e colho.

mesmo

Hoje trouxe o meu corpo para me acompanhar, quem sabe se não me fará jeito, tal é o desejo que ele tem do prazer que lhe dás.   Este prazer sem o prazer do teu sorriso e ais, ou da tua forma de olhar, não seria nunca o mesmo, mesmo que o teu cheiro e as tuas mãos cheirassem ao mesmo, e me tocassem da mesma maneira.

Quando parti não disse que voltava

Quando parti não disse que voltava, E quando voltei não disse partia, E destas partidas, E destas chegadas, Fui ficando, E fui partindo, Mas sempre ficou metade de mim em ti, E mais da outra metade também.  

almas desnudadas

Pode a distância separar duas almas desnudadas? Desnudadas de verdade mais do que de vontade. Duas almas unas que constroem pontes de pensamento e florestas de entendimento, juntas sem espaço físico nem necessidade da sua presença, porque jamais mudariam o que já possuem. Logo, estarem afastadas por um mar de intervalo, não promove não existir a existência, não são separadas, como o não são os átomos de uma molécula em anéis indestrutíveis de bem-querer. É alma com alma, independentemente do sítio onde estão. Depois existe a carne que vincula a alma na sua forma mais terrena, e, é nessa espera serena que existe o amor, a entrega da alma sem distância nem tamanho. É nessa espera de se saber que o dia chegará, e na certeza de que as partículas do tempo “alma com alma” fundir-se-ão em alma com corpo e corpo com alma, e beijos, e gemidos, e orgasmos, e corpo congregado com corpo, sem que as almas se separem dos anéis da floresta do entendimento da proximidade. Posso sentir-te aqui, antes d...

Fica comigo onde existirmos

Espera-me na ponte logo pela manhã cedo quando o rio ainda estiver adormecido. Leva os teus desejos e aquele brilho que pões nos olhos. Não precisas de levar mais nada para eu chegar antes de ti ou duvidar até, se não estou já lá, ou se de lá nunca saí. Espera-me antes que qualquer raio de sol. Espera-me antes da chuva. Espera-me antes de tudo, porque antes de nada já eu estarei junto ao rio adormecido, esperando a tua espera. O meu corpo fica inerte na margem na esperança que me faças vivo desta morte desesperada. Põe as tuas mãos na gélida água adormecida e desperta-me. Canta-me aos pássaros da madrugada. Parte comigo para onde não existir mundo. Fica comigo onde existirmos.

Choves torrencialmente dentro de mim

Choves torrencialmente dentro de mim, Levas-me e elevas-me, Tal enxurrada incontrolável, Na árvore, o meu amor enlouquece, Amadurecem as flores já perfumadas, No meu jardim de mar de giestas, Aguardo rebolar-me nos teus beijos adoçados.

Ali vi ela

Nascente, Olhos de água, Tarde pousada no vale perfumado das madressilvas.   A saudade veste-me num arrepio, O vento salpica-me cada passada, O rio transborda na fonte.   Os teu olhos fundos, Assemelham-se cristalinos à água que jorra dentro as pedras, O caminho emudece as palavras desfeitas de paraíso.

Extracto de palavras por ver a luz um dia VIII

"… E calmamente sentados sobre o próprio sentir continuavam a conversar sem dizerem qualquer palavra, eram os olhos que lambiam os vocábulos e os tornavam perceptíveis ao coração. Daquele imenso ruído mudo, de repente, ergueu-se uma expressão: - “Tenho-te sentido voar, por isso presumo que voas, e se voas é porque tens asas, logo, sinto que tens deixado o arrepio comandar a tua alma”. - “E leste isso tudo nesta lágrima que me caiu?” - “Sim li. Li nessa lágrima de silêncio e na complexidade da sabedoria da simplicidade que tu consegues.” - “Enches-me, sabes? Entendes a minha alma. Falas o meu dialecto e vês-me para além deste silêncio ruidoso” E calmamente sentados sobre o próprio sentir continuavam a conversar sem dizerem qualquer palavra, apenas deram as mãos …"

Extracto de palavras por ver a luz um dia

“ … Nasci aqui. Sempre aqui vivi. Os meus familiares morreram aqui, e, eu sinto que aqui nunca pertenci. Como poderei eu adiar uma vida? Um lugar? As pessoas? Os jardins? As chamas que me ardem dentro? Ou o amor? As feições das pessoas que passam por mim explodem ou num arreganhado franzir de testa, ou num sorriso que me sabe a fel. Não há normalidade. Não há existência. Por aqui me passeio, adiando as horas em dias que não se regeneram em mim. Se regressasse ao útero que me encomendou e nascesse de novo? Voltaria a crescer de urgência? Voltaria a saborear estas ruas cheias de gente desertificada de humanidade? Voltaria a ter o mar como sonho e a floresta como recanto? Voltaria a não confiar no padre de voz sumida e sorriso forçado? Voltaria a partir e a ter amigos que partiram antes de eu chegar? Disfarçando as lágrimas nos tombos das esquinas sufocadas de ninguém, andei mais uns passos rua abaixo, e as pessoas sem hesitações de simpatia, ora franziam a testa, ora doavam um sorriso. P...

A primavera existe mesmo fora de estação!

A consciência inconsciente de existirmos, Torna-me numa flor que não morre, Num olhar que te vê mesmo não te olhando, Num ímpeto sôfrego de te ouvir, Num sossego desassossegado de te sentir em pleno.   A primavera existe mesmo fora de estação!

Amo a mulher minha filha

Gosto das mulheres que cheiram a madrugada e que têm na pele o desígnio do destino; Gosto de mulheres que me enfurecem de desejo e me acalmam com o olhar; Gosto das mulheres de mangas arregaçadas e de timbre solto na voz; Gosto das mulheres de cabelo livre como a alma; Gosto das mulheres de um ano inteiro; Gosto das mulheres arautos da beleza e simplicidade e, de lágrimas prontas a parir; Gosto de livre arbítrio, do pensamento divergente e da mulher entre as mulheres; ………………………………………………………………………………………Amo a mulher minha filha.

Palavras por ver o sol um dia IX

“… Era eu e um outro corajoso habitante de mim mesmo. Guerreámos anos sem que a consumação da mesma alma ficasse menos distante ou una, sendo as duas pertença do mesmo ente. Numa manhã enfeitada de valquírias no bairro da lagoa negra surgiu um fogo que nos retirou as palavras da voz. Restava entendermo-nos por sinais inventados que descapitalizassem as palavras e nos abraçassem em sintonia. Descobrimos o abraço, aquele gesto que a palavra intimidade não decifra ou explica. Aquele gesto em que o coração partilha mais do que o coração. Aquela atroz fusão entre a proximidade e a necessidade de nos enlaçarmos. Afinal as palavras foram apenas sons emitidos sem descodificação. Deixei de ser eu e um corajoso habitante de mim mesmo e, passei a ser: - um ser habitado de mim próprio…”

Sete ondas

Quatro luas no céu, sete ondas no mar, as colinas que avisto não são sete nem são quatro, no céu fica cheia a lua quando cresce, e no mar a sétima onda é o desejo. ... Adivinho que para além da colina existe um chão forrado a poesia.

Tenho ao alcance do que sinto, o que não consigo alcançar pensado.

Tenho ao alcance do que sinto, o que não consigo alcançar pensando.   Tenho um mundo e a maresia, E desfragmentados pedaços de alma que construo.   Tenho a intempérie e a bonança, A saudade e a esperança.   Tenho mil ideais sonhados, E eu próprio alcançado.   Tenho ao alcance do que sinto, o que não consigo alcançar pensando.

Salgada mente

se não me recordo já nem da tua cara, é porque as lágrimas foram verdadeiras, e fizeram o seu propósito, salgaram-me a mente, lavaram-me a alma, e já não tenho mais respostas, nem perguntas por duvidar.

Derivante

Fresca e profunda melodia. Derivante. Delirante. Nas esquinas da cidade escurecida a luz dessa melodia fascina-me. O rio cheira às flores que falecem nas árvores. No pranto da voz das mulheres escuto a dor que se solta das suas gargantas na felicidade que não as escolhe. Penso! Somos escolhidos pela felicidade ou elegemo-la nós?

O silêncio tem muito que se lhe diga

O silêncio tem muito que se lhe diga.   O silêncio tem a plenitude da sabedoria. Divide os silêncios comigo e … existimos!   O silêncio são as horas em que a dimensão da sabedoria me possui em reflexão. É o mundo a incendiar-me com a sua grandeza. Terra. Ar. Fogo. Água.   O silêncio feito de silêncio é a minha paz. Cheira a pinhal arenoso e mar. Sabe a vento e a lua e, beija-me a face como os raios de sol que me desadormecem.   É tempo nenhum esperançado de todo o tempo do mundo. É todo o tempo do mundo construído de pedaços de tempo nenhum e, assim nos vamos segurando, enquanto tempo nenhum ou todo o tempo do mundo nos abarca.   Vamos naufragando! Vamos navegando!

A poesia do teu ser

A lua é um poema no céu como os teus olhos são: a poesia do teu ser, O mar é a emoção que te compõe como a madrugada é: o sossego do universo, O arco iris é a dúvida entre o sol e a lua e, a chuva em ti é: - a cor com que enfeitas o teu sorriso, O vento é a música das noites e em ti são: - um verdejante prado que acaricia as tuas lágrimas e a saudade.

Posso tudo

Bem sei que a aurora pode amanhecer ao entardecer se assim for o despertar do teu silencio, E pode acontecer a madrugada anoitecer se por aí ocorrer a tua chegada.   As tuas mãos posso confundi-las com os teus cabelos pela suavidade, O teu sorriso com o sol pela tua luz, ... As tuas lágrimas com vento pelo teu sentir.   Posso adormecer no alvorada, E acordar na noite chegada.   Posso tudo! Posso tudo, por toda a desregra que existe em nós.