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Mostrando postagens de setembro, 2019

Ao que chamo tempo é apenas memoria

Ao que chamo tempo é apenas memoria. A memória sim é o tempo que guardo, vivo e esperanço. Só tenho memória e da boa, atulhada de boas e malvadas recordações. Tempo não tenho, sou apenas a simbiose do que gasto com o que uso, com o que me há-de ser cedido pela memória. Memória, essa amaldiçoada e bendita farsa e verdade. Ao que chamo tempo é apenas memória.

a perfeição gera confusão aos meus defeitos

a perfeição gera confusão aos meus defeitos

Parti

Domingo. Cruzei-me com gente vestida da fé professada com indumentaria a rigor perfumada de naftalina. Eu barbado e transpirado, bebi um café surpreso por quem me o serviu, numa aldeia onde todos se conhecem. Penso em turbilhão cada metro que percorro do que me vai na alma. Das nuvens saíam cantares de pássaros migrados em bandos. Parti.

Sou ar venenoso

Saber-me desencontrado fascina-me. Intelectualmente trocado pela razão. A membrana que separa o coração é ténue. Dilato os vasos sanguíneos. Troco o ar respirável pelo irrespirável. Sou metano poluente. Sou ar venenoso. Reajo á química e purifico. Sinto as artérias na barriga. Descompenso. Esquiziofrenizo. Destaco-me em burburinho na multidão.

Alivia-me ter que viver

Alivia-me ter que viver.

dias urgentes

dias urgentes de calmaria, mar sedento de promontório, o equador tranquilo e quente invertendo o céu, confirmando a terra de um deus descrente , como se a terra fosse brava do chão que eu piso, e soalheira no peito onde ad ormeço.

o cheiro que arde do fogo que se plantou em mim

"... as nuvens descem em fim de tarde ao encontro do chão, esse chão de terra em grão, que me espera no fogo que arde no velho fogão cansado, na esquina entre as janelas de vidros empalidecidos pela idade. Adivinho mais do que creio na música que o vento toca nas árvores. Creio mais do que adivinho no cheiro que arde do fogo que se plantou em mim.

oposto e dissidente

O rio do chão da minha terra converteu-se, nasce na foz e desagua na nascente, como eu gostaria de ter nascido assim, oposto e dissidente.

excerto de uma noite com o inverno todo numa só noite

“… todas as madrugadas a encosta em frente à mata que desce até ao rio está iluminada com ténues chamas que aquecem as colheres que abafam a vida. Os corpos resistem a mais um inverno que parece que se junta numa só noite todas as noites. Os corpos encostados animam-se do conforto esquecido nas casas abandonadas. Não há irmãos, pais, filhos ou outros parentes para além daqueles que daqui as umas horas abrem pequenas guaritas de guarda do quartel que sonhamos assaltar. Nada mais valioso há que o milagre de compor o corpo pela manhã, de o salvar da doença que o massacra descompondo-o.   Outro dia. Outra hora. Um copo de miséria com café. Um prato de solidão. Uma mão dada de esquecimento. Outro dia. Outra morte. Outro homem que fica e se junta às noites que têm o inverno todo numa só noite. Há mulheres. Miúdos que avisam a vinda da prisão solta em rostos cerrados de medo igualmente. Todos estão presos. Os livres. Os presos. Os que prendem. Os que soltam. Ou que decidem. Os que matam. Os q...

acabei de ler a vida

“… Acabei de ler o último livro que escolhi viver. Acabei-o entre o sono e o despertar. Entre as ternurentas personagens de que me vesti e as ousadas imagens de que me despi. É assim todas as vezes em frenesim. Esta compulsão quase recomendada, mas seriamente desaconselhada. Para mim é indicada, que eu não me importo que a morte me asfixie de paixão. Ou que estes homens escritos no papel por outro homem qualquer me roubem da boca palavras que são mulher, verão ou mar.   Esta doce melancolia ou esta agitada tormenta vai-se, quando a folha se vira em capítulos de dias decrescentes, e, cresce a vontade que não se submeta esta música a nenhum compositor. Aumenta o desejo de que a arvore grande e frondosa gemendo ao vento na praça inventada pelo escritor não seja jamais tocada na sua imobilidade, e, que o coreto continue lastimando suavemente aos amantes. Tão inventado. Tão vivo. Tão presente. Tão genial.   Que me console nossa senhora dos dançarinos quando a ti ando perfumado nos teus braç...

Entre

Entre os invernos desaconchegados e os verões transpirados de gente, mesmo sem ninguém que fosse gente, ou pessoas que fossem alguém, sobrevivo entre cada escombro onde me alento e sustento.

Não tens vindo por aqui passear-te, estrela

A falta dos teus passos são a minha falta de vida. A rua por onde passavas entristeceu e a que deixavas quando entravas na que subia o empedrado destino, já não fica a espreitar-te até desapareceres tarde dentro entardecida. Já não voltas aquela rua sombria entre casas que durante mais do que uma vida alegraste com a tua frequência. Já não cheira à lavanda que a tua pele renovava. Agora, sobram os pedidos que as sombras que se veem a romper a aurora, sejam tu a habitar outra vez a vida, mas não tens comparecido, não tens vindo encher-nos de elegantes passos e rubor na face ao teu passar.   Não tens vindo por aqui passear-te, estrela.

O meu deus é secreto e selvagem e não confere obrigação

Não me detenhas a ténue tentativa de me desobrigar ao que para ti é obrigação, nasci de um outro deus que não o teu, é um deus miserável que não crê em outra coisa que não seja amor. É um deus que não troca promessa por fé, nem milagre por multidão. O meu deus é secreto e selvagem e não confere obrigação.  

céu empedernido de loucura

este céu empedernido de loucura, distante, misturado com nuvens que se soltam em pedaços perfumados de primavera, é a vã tentativa de acalorar este frio que me transforma a vontade em estagnada saudade, incapaz de ter outro sentido que não seja, encontrar-me perdido entre outros desaparecidos, a quem o céu igualmente parece longe e empedernido.  

Não há quartos de hotel para homens solitários

Não há quartos de hotel para homens solitários, há um espaço confinado ao cansaço que torna o cansaço ainda mais cansaço. Antes um banco de jardim em noite de verão com a lua a passear-se no céu, as flores adormecidas no seu perfume, e as horas a cantarolar com a madrugada. Incendeiem-se todos os quartos de hotel para homens sós e deitem-se as cinzas na miséria das noites não dormidas

Tornam-se as tardes esperas demoradas do teu sorriso

Tornam-se as tardes, esperas demoradas do teu sorriso.

... ainda guardo o teu cheiro nos dedos das minhas mãos dadas nas tuas, foi o meu último domingo a seguir à saudade ...

... ainda guardo o teu cheiro nos dedos das minhas mãos dadas nas tuas, foi o meu último domingo a seguir à saudade ...