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Mostrando postagens de junho, 2017

Cheiro ix

Forte cheiro de aroma e recordação das mais de mil poesias guardadas nos dias por ler.   Um outro trago e, afabo todo o mar de uma só vez,  por não querer que o mundo me seja sóbrio, sentido, sensato e irreal, nesta fundação de mim mesmo ébrio.  Outro dia. Mais um dia.  Só um dia me descreve. O dia que findará na noite eterna e ausente, nos mais de mil poemas por lapidar.        

obra prima ou meia irmã

Rogo pelo fim do tédio das cabeças "descondizentes" com os sorrisos que me massacram o corpo.   Já nem um sorriso esboço quando, cai do beirado, uma gota de orvalho pela manhã fria e deserta. Deserto é sempre os dias em que me querem dizer o que não quero ouvir, e muito mais do que ouvir, saber ou querer sequer saber.   Não me interessa o tédio da vida alheia. A minha basta-me. Sobra-me até. De miséria chega-me bem. Odeio quem não gosta de ser só, e inclui quem à mão se presenteie.   Rogo pelo fim, mais do que pelo principio. Qualquer tela depois de pintada, não será mais virgem, no entanto, pode-se “revirgindar” por uma obra mais prima ou meia irmã.

Viver sem máscaras

Viver sem máscaras com uma única máscara de viver sem máscaras.   Viver sem máscaras é renegar o direito de sentir o que não é suposto sentir, e não há nada supostamente que não se deva sentir.    Não há sentir errado e fazer certo, a escolha de fazer certo a sentir errado é: - o convite à máscara única de viver sem máscaras.    Há livros desnecessários de ler.   Como tudo na vida, a oportunidade faz o ladrão, o engenho, a ilusão, etc.   A egoíca necessidade - faz de tudo -  

Verde idade

a verdade é o que sinto muito mais vezes, do que o que eu penso.    a verdade é sempre o que eu sinto, nunca o que os outros pensam.   a verdade, na verdade, não é um pensamento.  

Praça e o lago

A noite esteve adocicada no seu cheiro, iluminada de olhos e pessoas que por ali estavam, sem que eu as tenha visto.     Gosto de não reparar no que que me rodeia. É raro.  A noite distraída gastou o tempo, sem que eu tenha sentido o tempo para além de nós.   O castelo e o rio, a praça e o rossio, juntaram o mundo numa noite sentida pela distracção da paz.   

Eles

" ... Vou explicar te uma coisa. Quem escreve, escreve sobre o que observa, o que ficciona, o que cria e às vezes sobre o que sente. Amontoa palavras e purga-se. Nem sempre quem escreve é um pobre coitado. Quem o faz, faz companhia a ele próprio e purga-se na impossibilidade de se sentir acompanhado. Geralmente são pessoas que têm desinteresse em conversas enfastiadas e desinteressantes e, a vida dos outros, nada lhes interessa.  Alguns têm uma vida horrivelmente normal das 8 às 17h ... e, são também "normais" quando precisam de um salário. Chegam a desempenhar bem as suas funções... São pessoas de amor, em desamor continuado e escolhido. Para que conste ...."

Junho III

O prazer foi-se. A dor mantém-se, quiçá aumenta e recomeça tudo outra vez. É assim desde sempre.   

Outro corpo que não este

Diz me que já não posso mais neste corpo falecer, de tão morto que já foi nesta vida. Outro corpo, aguentará todos os pedaços de amor que houver por nascer. Este,  já não pode mais falecer.   

Tarde de tarde que é

sem que o mar tenha ordenado, o sal cristalizou nas lágrimas que voam dos meus olhos, partida sem regresso ou oposição, corpo incandescente e incomparável, à medida desassossegada que sufoca a minha alma.    Todas as tardes já são tarde para voltar. 

atordoado

atordoado pela visão com que a minha janela me brinda, um dia - nuvens carregadas de sol - outros - o sol cheio de chuva - outros - o vento cheio de desejo –   eu, de vontade repleta de anseio fico imóvel a ver sangrar as feridas com que me acometo, oiço lá fora as mulheres falarem, reforçando o discurso negativo, surgido da noite para o dia, da vontade comprometida, das palavras não apalavradas.

manso e calmo

“… recordo os pedaços de mar embriagados de nós, nenhum dia mesmo manso o mar esteve calmo, nós pegávamos-lhe a brava dança da areia que os nossos corpos produziam, pegávamos-lhe os nossos sonhos, e mesmo calmo, não houve nenhum dia em que o mar estivesse manso…”

Já não dói

Já não dói. Agora é apenas esperar que toquem os bombos e venham homens difarçados de mafarricos carregarem-me, que o diabo já não se esconde nem me consome pelo disfarce, às vezes, ainda sou enganado em enormes segundos que se desfazem antes do primeiro minuto. Agora é só esperar pela cedência dos orgãos, e olhar a beleza de cada quadro, flor, música, que de pessoas pouco posso esperar, sendo eu próprio uma pessoa de quem já nada espero.  Já não dói. O caminho desfaz-se no pó que o meu corpo será. 

“déjà vu” de todos os poetas do mundo

procuro todo o amor que extravasa de mim no mais reles que a sociedade possui, detesto homens como eu, distorcidos e amedrontados pelo que se lhe exclui da alma, sabendo tudo existir para que esta pele que me adorna, não fosse menos do que um arco-íris incandescente, encontro permanentemente o que procuro, sabendo que o que encontro, outra fortuna não é, mais do que miséria porfiada, antes de tudo serei a própria existência abandonada, e o “déjà vu” de todos os poetas do mundo.

Junho

Pedaços de palavras escritas no pó em cada pegada de caminho. Nas paredes onde me amparo, deixo as minhas mãos desfalecidas antes de falecerem. Recordo cada dúvida que me agoniou quando parti. Esqueço cada certeza que tive quando me deixei. Sempre foi a mim que me abandonei . 

des (entendimento)

" ... a humildade desmedida tranformada em arrogância, é como a falsa sadedoria resignada pela ignorância, sentem-se ambas na fuga consciente ao entendimento, não há idioma de língua mãe ... que o disfarce ..."

2112

a chuva de ontem, nem tanto, a da tarde de à pouco, já não molha, nem o chão já seco, aquece as palavras ferozes, de um mundo procurado, não encontrado, sem que a culpa seja do universo, sem que a vida seja a chuva, que tornou o amor infértil.  

Excerto de palavras por ver a luz um dia 2111

"... Deposito em ti toda esta ilusão que criei confundida pela tua educação. A minha parca maturidade sai-me em lágrimas que digo terem o teu nome, na verdade, tudo é meu, porque de ti nada me fizeste ou disseste para pensar em amor.   É difícil aceitar que me respeites e trates bem. Assim, envio-te estas palavras feridas, esta culpa de nada, este impropério escanzelado quase senil, de quem esperava mau trato e obteve respeito.   As tuas palavras não és tu. Tu não és as tuas palavras. Esta coisa dos poetas não é de todo o meu entendimento. Percebi agora que estas lágrimas não têm o teu nome.   Estás lágrimas são a minha agorrância a aconselham-me juízo..."  

Abraço I

Um abraço não tem validade. Um abraço confere eternidade.   Um abraço tem memória, tem história, tem os meus braços e os teus.   Um abraço tem no ventre a minha vida quando te abraço.   

Abraço

Um abraço nunca perde o sentido.   

asno obediente

Dias estes obedientes à solidão. Falo logo pela manhã. Não sei o que digo e mal me recordo do que ouço. Falo pouco. Falam-me muito. Não me lembro. Recordo simples vozes e o desinteresse pelo que me dizem, mais o desapego que retribuo, sem importância de ambos ou ambas.  É o que recordo.   Dias estes obedientes em corredores fundos, climatizados com gabinetes pensados para que a luz pareça ser luz, o som pareça ser sonoridade, e o ar pareça ser respirável, tentativa vã e frustrada de fazer obediência ao salário prostituído, mais do que recebido ou pago, pelo sexo que devo e quero.   Obediência esta de receber o recado de ser um asno pardacento, recado esse entregue a mim, por mim próprio, asno obediente.