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Mostrando postagens de março, 2010

Depois do espectaculo ... regressado

Cidade claustrofobica. Alucino e vejo os prédios dançarem como se a cidade fosse uma pista de um salão de dança. As pessoas passeiam-se vidradas sem reparar que existem. Cheira a fumo. Os carros parecem-me bólides na imobilidade da cidade. Tudo liquidado numa velocidade estonteante. O horizonte não existe. A noite cai. A cidade fica com uma emancipada normalidade. As pessoas ressuscitam e tornam-se expressão. A noite tem esse encanto mesmo na cidade. Encanta-se de vida. A ponte acende-se. Iluminada fica reparável aos meus olhos, bem como os barcos que povoam o rio. Os bares berram embriagados e roucos. O fumo excitado salta ao som de uma batida que não sendo a minha já o foi. Reconheço-as. Os corpos ausentam-se da alma numa volátil sedução. Bandos de gaiatos escrevem pergaminhos na relva onde se rebolam. A cidade é apertada para mim. Salpicam monumentos e espectáculos que é o que me faz habitá-la. Adoro a estrada que me traz, de um regresso atempado e premeditado. A cidade agrada-me. A...

Sempre, se, e as suplicas

Sempre a duvidar, Se o tempo vai mudar, Se a razão vai amanhecer, Com a noite a expirar, Se os astros vão virar, E o meu ente ser ou estar.   Se a mentira triunfar, A verdade se exilará, Se os poemas marejarem, Será mais praia que mar, As súplicas cantarão, Nas vagas a madrugar.   Se o nome que gravei, Terá a palavra amar, Quando eu partir ou morrer, Deixarei critério e obra, E o meu peito a arder, De adjectivo e boa nova.

É como um filho :-)

Giestas perfumadas barram-me o caminho. Rastejo e passo para o outro lado. Arranho-me de querer. Desta força faço a luta que travo no meu caminho. Mais lutador que guerreiro, ergo-me de cada vez que rastejo. As papoilas lilases acariciam-me a face e retrocedem no meu tempo. Ao longe o trigo baila com o vento. Vejo o pó da terra levantado pelo um arado que trata a lezíria. As cegonhas altaneiras observam-me. Sinto-me pequeno mas robusto. Tenho uma planície minha, só e sem companhia. O céu escurece, leio nele uma mensagem. Oiço as palavras balbucionadas pelo vento que gravo e penso em escrever. O veneno da solidão quando acaba transforma-se em força e lucidez. Não escrevo multidões cheias de nada, escrevo muito mais solidões cheias de tudo. Uma mão cheia de tudo é nada e uma cheia de nada é farta. A urbe mata-me. O campo renasce-me. Lugares comuns empobrecem-me, os não triviais enriquecem-me. No fundo as escolhas são actos não pensados, são muito mais caminhados que decididos. Não existe...

2004

Diz-me só mais uma vez o que não quero ouvir, Diz-me se existe em ti o medo de mim, Diz-me se as minhas duvidas, São fatais, Diz-me se a noite em mim já não o é mais.   Diz-me só por dizer o que pensa a lua, Diz-me o que vês no sol a cair no mar, Diz-me o que vês em mim ao despertar, Diz-me só mais esta vez como a madrugada, Diz-me no abraço seguro da alvorada.   Diz-me se é meu e teu o anoitecer, Diz-me e dá-me o alimento de o poder ser, Diz-me meu amor somente, Mais do que as palavras, Diz-me com a tua boca de sabor água.

Despeço-me assim !...

Barcos pequenos e embaciados pela distância alcançada dos meus olhos bolinam soprados pelo vento do mar lá longe. O meu pensamento inventa na extensão de lá aparecer, uma história de partida mais que chegada. Na verdade sou muito mais partida do que chegada. As partidas desde miúdo que me fazem chorar. Não gosto de partidas. Detesto o hino da despedida.   Ainda mal conhecido de mim próprio e acerca do que me move, reconhecia já o desconhecimento deste choro aguçado, frio e cruel da saudade. Senti sempre o choro da despedida antes do abraço final. Cheirava-me a despedida logo pela manhã, na preparação dos cozinhados mais elaborados, dos doces ou na toalha de mesa retirada da arca raramente. Da toalha “anaftalinada” e amofinada.   Despedidas? Ainda hoje não as frequento. Prefiro desaparecer a despedir-me. Uma despedida tem em mim o dom de me ensanguentar a alma. De sentir uma dor no peito como se um punhal se me cravasse nele. Um nó na garganta tamanho do sentir de um enforcado. Um peso ...

Partícula

Partículas de um amor querido misturam-se nesta época em que o pólen é agressivo e forte. Isso não faz com que o amor seja pacificamente brutal ou sentido. O amor por si só já o é. O oferecimento que faz da vida e da morte cruel e fantástica, divina e sublime, agastada e conquistada é um carrossel, uma montanha russa ou o poço da morte. É divertimento e alegria, tristeza, angústia e medo. É morrer de cada vez que se ama e nascer de cada vez que se pára de amar e nos reencontramos. É equilíbrio e obsessão, vontade e fuga. É voltar a virar as molduras que estavam deitadas de face para baixo e erguermo-nos das noites claras pensadas em branco. É voltar a sentir o orgasmo das palavras, o prolongamento dos acordes, fazer melodia com a presença das palavras. O amor é um inferno que vale bem a pena. O céu é uma pena por cumprir. O amor de final feliz, é o desencontro desencantado com o acreditar na oportunidade de conhecer um amor mais afortunado ainda. O amor é diário e recorrente.   Do alto...

Este rio feito de veias

Rasgo com as minhas próprias mãos o meu peito e arranco-me o coração. Maldito coração que me atraiçoa diariamente. Corro para o rio que atravessa o castelo da minha cidade e da ponte não me jogo ainda. Jogo na corrente abundante o ensanguentado órgão que detenho nas mãos, ainda vivo e soluçante. A água torna-se encarniçada, volúvel e absurda. Esta é a cor da miséria que a água não lava. Assim desta forma purifico um corpo gasto e sujo pelo trabalho que dá viver sem nexo e rumo. Sem ouvir e ser ouvido. Os excessos constantes atenuam a culpa que dorme na cabeceira do meu sono. Já não sonho. Nem a dormir nem acordado. Já não sonho. Foram-se os sonhos com os pássaros. Vazaram com a maré na enseada. Zango-me com os milhões de motivos que me fazem arrancar o coração e deitá-lo fora, assim, sem hesitar, na corrente avassaladora do rio que faz de enxurrada a minha vida. Vai de mim mais que palavras. Vai de mim o sujo das palavras que ouvi, das camas onde dormi e do nojo, da esperança, das pess...

Leon Tolstói

Embrulhado em pensamentos espero pelo sono que não vem. Esvazio e encho a cabeça de pensamentos enrolados. Relembro uma frase de Tolstói que acompanha e seduz a minha entidade:   "Os ricos farão tudo pelos pobres, menos descer das suas costas".   Só esta frase produz em mim feitiço e engenho de escrever sem conseguir parar. Escrever sem fim. Só esta frase vale o romance. Só esta frase tem o peso da igualdade, da injustiça social. Esta frase é o mundo hoje, já o era quando foi escrita. A actualidade do pensamento filosófico tem destas coisas, é intemporal e não perde a validade. É cristalizado pelo tempo, referido pela história, verificado pela existência. Ganhar o sustento é tudo o que o ser humano, dignamente necessita. O livro a Ressurreição de Leon Tolstói fere-nos da sua actualidade embora escrito no século XIX   Frases de Tolstói:   "Quem nunca esteve na prisão não sabe como é o Estado".   "A arte é um dos meios que unem os homens."   "Não existe...

Henrique Medina Carreira

Parte superior do formulário A economia vai derrotar a democracia de 1976. José Sócrates, é um homem de circo, de espectáculo. Portugal está a ser gerido por medíocres, Guterres, Barroso, Santana Lopes e este, José Sócrates, não perceberam o essencial do problema do país. O desemprego não é um problema, é uma consequência de alguma coisa que não está bem na economia. Já estou enjoado de medidinhas. Já nem sei o que é que isso custa, nem sequer sei se estão a ser aplicadas. A população não vai aguentar daqui a dez anos um Estado social como aquele em que nós estamos a viver. Este que está lá agora, o Sócrates, é um homem de espectáculo, é um homem de circo. Desde a primeira hora. É gente de circo. E prezam o espectáculo porque querem enganar a sociedade. Vocês, comunicação social, o que dão é esta conversa de «inflação menos 1 ponto», o «crescimento 0,1 em vez de 0,6». Se as pessoas soubessem o que é 0,1 de crescimento, que é um café por português de 3 em 3 dias... Portant...

Só por sair daqui vi

Só por sair daqui vi. Vi povos de cores e costumes diferentes. Mulheres mães albergadas de filhos. Só por sair daqui vi. Vi estradas intermináveis de montanhas e as nuvens descansadas no céu. Vi plátanos plantados no pôr-do-sol. Vi uma terra queimada de passadas e lagos com hipopótamos. Vi homens de saia e mulheres a trabalhar a terra. Ouvi outras línguas e dialectos. Só por sair daqui vi o que nenhuma universidade me ensinaria. Vi a chuva cair já seca nas frestas da terra. Vi um lago encher-se numa noite de chuva. Vi flamingos aparecerem do nada e colorir a planície. Vi zebras, elefantes e girafas. Vi uma mulher de olhos verdes, embaciados e opacos. Só por sair daqui vi uma ponte de neve e o Kalimanjaro. Aqui não é o meu sítio muito menos a minha gente. Aqui sou eu adaptado, inerte e adoptado, filho de ninguém. Só por sair daqui vi que não pertenço aqui. Sou um cheiro mais forte que este. Feito de “dócil e feroz loucura”  

Dilacerado

  Dilacerado suponho, Fantasia, consumada, Feitiçaria, Pranto de agua,                                                        Vertem os olhos, Choro e primazia.   Encantamento viajado, Pelas montanhas, Premeditado, Sucumbe o querer, Deste abraçado, Peito meu enfeitiçado.   Junto minhas mãos, Às tuas, Desmedidas sem razão, Envolvo-te em flores, Escolhidas, Sem espinhos, com paixão.  

Solidão

  A solidão é uma prisão, Prende novos, velhos e assim-assim. Solidão não é o mesmo que estar sozinho, Solidão é a não identificação, A solidão não se vê ou escuta, Pesa ou mede. A solidão disfarça-se, A solidão pode ser um acto contínuo, pensado e crescente, A solidão é diferença e diferenciação,                          A solidão tem a força das tempestades. A solidão disfarça-se de sorrisos, A solidão espera, tem tempo, A solidão não falece, A solidão não tem despedida. A solidão tem gente, A solidão não tem ninguém, A solidão é escura e incandescente, Sobriedade e embriagues, A solidão é a poeira do caminho, O cheiro a azinho, Fantasia e alucinação.   A solidão é uma esquina povoada de solitários que não se falam  

Afecto II

  O valor do afecto transcende-me, Entristece-me e alegra-me, Intensamente. Faz de mim preocupado e ausente, Dilacerado e presente. O valor do afecto sente-se.   Sinto-me presente presentemente, Consolidado feito padrão, De saudade construída, De fogo, frio e paixão, Paradigma e modelo, Afecto, verdade, união.   Adormeço à noite enleado, Numa hera trepadeira, Vislumbro sombra, Vislumbro sol, Cheiro a sal e a sorriso, De voz doce verdadeira.   Oiço ao longe, A melodia, Partitura em poesia, Feita de Jazz em compasso, Terno e quente e um abraço, De um ser desbravado.

Bónus ?

  Estranho os trabalhadores (palavra em desuso de conotação comunista) verem os seus salários congelados por recomendação ministerial + pec etc etc etc, e os gestores públicos de empresas privadas com capitais públicos (coisa para se entender melhor), discutirem nestes momentos pagar ou não pagar dividendos em forma de bónus, pela avaliação de desempenho. Baseado nuns critérios que conheço perfeitamente incluindo a forma de cálculo, isto sinceramente faz-me pensar o seguinte:   - Então porque não vão os trabalhadores (palavra em desuso de conotação comunista) fazer manifestações e em vez de pedirem salários, escreveriam nos cartazes e nas músicas cantadas a palavra “bónus” e teriam frases de ordem mais ou menos com slogans como este: “produção nacional, bónus igual”.   Depois espanta-me sinceramente nesta fase de desgraça nacional onde já hipotecámos os nossos filhos de dívidas e mais os nossos netos, estarmos a discutir os tais bónus distribuídos aos gestores. V...

Um olhar sobre o tempo

  Ruge a tempestade em pré-aviso luminosa riscando o céu de relâmpagos. Espectáculo soberbo visto do alto do monte da lua cheia. Não se julgam palavras que descrevem a natureza. A natureza somos nós fazendo conjunto com os elementos constituintes. O cheiro agreste dos silvados associam-se ao festim. Do outro lado invisível aos olhos e sensibilidade ausente, seres despreocupados de ser, preocupam-se com o sentir dos outros, alheando-se em bonançosas teorias acerca do conhecimento do desconhecimento humano. Uma idosa curvada e respeitosa benze-se e diz baixinho uma oração a Santa Barbara. Tem nas rugas o conhecimento dos mares e das marés que o envelhecimento lhe deu. O xaile que a envolve respira o conforto da segurança e o entendimento do cantar madrugador dos pássaros e dos voos picados ao entardecer. Na minha porta decorada com um número que me dá uma morada, espreito o burburinho dos homens saídos da jorna bebericando conversas animadas. No largo empredado de musgo entre as pedras, ...

Brotar

  A ironia ajuda-me a passar as horas delirantes em que sinto actividade cerebral exacerbada. Visto mil peles transeuntes. Já imaginei vidas pelos cheiros, pelos sorrisos, pela forma de andar, de olhar, pelos adjectivos, penteados e roupa, pela música, pelo tamanho, peso e expressão. Neste exercício solitário vem-me ideias e objectivos. Vão-se sonhos e empreitadas.   Separo em dois o mar, a lógica e a plenitude. Sarcasmos e figuras de estilo tenho-as em jarras onde outrora viviam flores que secaram de sede. Analogias? Crio-as sem me aperceber em desculpadas teorias ao bom senso. Sentidos figurados brotam-me de sorrisos solitários. Não gosto do esmagamento da falta de sentido dos pedidos.   Envio sorrisos num envelope e deposito na caixa postal arremessado e imprudente. Sinto-me filho de mãe diferente e pai igual. Desconexo reparo em mim. A falta de sentido comum faz as separações. Irrevogáveis e distanciadas, verdade que se torna desaparecida, total e imprecisa no tempo.   Qual serra, ...

Acerca da estagnação

  Tenho dentro das minhas mãos ordens emanadas do meu cérebro. Ordens para roubar a quem rouba, para matar a quem mata, para libertar o libertador. Tamanho é o sofrimento, aquele em que me julgo capaz, de usar a justiça e ser justiceiro. O poder económico gere este aglomerado de “populaça” onde um é mais forte que o outro se for cotado em bolsa, ou ostentar sinais exteriores de riqueza mesmo que seja em leasing. O estatuto cego dos olhos do mundo.     Tenho tido tempo. Tenho lido livros que não são lidos. Livros que não estão no top ten, livros malditos escritos por malditos. Outros nem tanto mas por necessidade académica. Os livros têm direito à diferença. A diferença existe e abençoada seja. Abençoado quem dormiu no casal ventoso e não morreu.     - Obviamente que a diferença se tornou num sentimento que são vários sentimentos num só.   - Obviamente que extrinsecamente se vive em comportamento ajustado, com pensamento divergente e associativismo corporativo de sobrevivênci...

Cabo de Mundo

  Ao princípio as cores baças e desbotadas estendiam-se pelo mato e assim esgotavam e transformavam a inferioridade das horas diárias em que o sol estava acordado e espreguiçado. Cada vez se elevava mais tarde e se recolhia mais cedo. Naquele pedaço de rocha azul esbatido e espumado pelo mar a perder de vista. O cabo Sardão é um bocado meu, imutável. As gaivotas felizes arrulham em cumprimento, enquanto eu sentado a ouvir Zeca, escrevo para ti sem saber se algum dia te enviarei estas palavras suadas de um sol que me queima a alma, mais que o corpo fervente. Construo aqui um quarto com lareira, uma cozinha e uma casa de banho. Suficiente a minha desmedida ambição de felicidade. Pintarei as paredes de paz e assentarei os vidros das janelas aos quadrados de uma paisagem que não se gastará. No pequeno quintal as alfaces serão o depósito do orvalho. As manhãs chilreadas pelo som do púcaro de café aquecido nos movimentos ainda lentos do acordar, cheiram a ti. O sorriso aformoseado do teu cam...

Sem rede

  Esfolei os joelhos, Fui para a escola primária sozinho pelos carreiros, Andei de bicicleta de noite sem luz, capacete, joelheiras e cotoveleiras, Subi e caí das às arvores e fiz cabanas, Fui à fruta a que chamávamos “xinchada”, Escorrei em placas de plástico pela encosta do olival do Pimenta como se fosse neve, Fui Índio, Tomei banho no rio em Novembro, Joguei futebol num campo improvisado com relevos e pedras, Vi a Heide e o Sandokan.   Ganhei anticorpos que a protecção nunca me daria”. O que na verdade me ia matando foi a curiosidade das novidades pós-abril, onde de repente entrou atrasado o conceito Maio de 68 estando nós no ano quente da revolução de Abril de 1974. Tudo o que se vive fora de tempo é perigoso por isso mesmo, por ser fora de tempo. Há erros que aos 13 anos não são erros, mas são-no aos 18, e por aí fora com o intervalo de tempo adequado. Desses cometi alguns, que se justapuseram mais tarde e se harmonizaram com idade.   Fico descansado em deixar a ...

Blogosfera !...

  Nunca entrei nessa carneirada de acompanhar blogs ou muito menos ter seguidores. Por várias razoes. Das centenas de blogs que leio ou já li existe um ou dois que registei. A qualidade não é por aí além. Já li textos interessantes? Concerteza que li, mas em todos eles existe muito padrão e pouco desvio. Gosto de textos desviantes, duros, meigos, fortes e fracos, opinativos, problemáticos, delirantes, honestos, de sonhos inventados ou adiados.   Não quero que o meu blog seja uma rede social de identificação tipo twitter ou facebook tão em voga. Se assim fosse, quase que sentiria que teria em minha casa alguém sentado no meu sofá. Não quero ser acompanhado, analisado, gostado ou desgostado. Tanto se me faz o que pensem, não me importa. Escrevo para mim e como já não tenho sítio para guardar o que escrevo, guardo aqui nesta fantástica memória adquirida. Por estas e variadíssimas outras razões que não acorrem ao caso, leio mas não publico comentários, bem com assim não os faço a ninguém. ...

Só por estar

  Não sei donde vim, Onde estou, Se faço parte, para onde vou.   Se por aqui ficarei, Ou farei desta terra, Minha miséria.   Se serei borboleta, E de um dia serei vida, Se serei rio.   Em cada metro, Desaguado, Se serei aventurado.   Noite fatigada, Ou dia, Nascida alvorada.   Se serei arvore, Canteiro ou flor, Se serei anjo ou amor.   Senhor, Escravo, Ou libertado.   Liberdade, Prisão, Democrata ou sedução.   Não sei donde vim, Onde estou, Se faço parte, para onde vou.  

O Jorge da Praça da Alegria

  Barba forte agressiva do frio e meiga do calor. A casa acompanha os seus passos. Três cartões, dois cobertores aos quadrados, uma garrafa, uma faca, um recipiente. Era conhecido naquele jardim de caricato nome, Praça da Alegria. Pela noite, juntam-se os amigos e aquecem a noite com a cumplicidade de não terem abrigo. Têm um mundo não entendível aos olhos comuns, mas glorioso aos seus próprios olhos.   Ao início da madrugada aparece uma carrinha com “qualquer coisa quente” mais uma palavra gasta e igual. São palavras por bem mas iguais há tantos anos, palavras lisas como a agua que bate na pedra. No final da madrugada o homem do costume paga o leite, o bolo e o café. Bem-haja o senhor que se veste desigual.   Não existe memória. Todos os dias, um a seguir ao outro, a cidade apaga-se dentro de mim. Apagam-se as luzes, os cheiros, as caras, as mulheres, os homens, as crianças, o silêncio e o burburinho. Todos os dias o castelo altaneiro padece imóvel. Todos os dias se sobe e ...

Bebo da fonte

  Cada vez que amo, escrevo ou viajo sinto-me sempre mais novo. Só quem dá recebe. O conhecimento é para se deixar, embora se leve com a vida, porque a morte não existe. A idade trás a verdade. Onde eu bebo, serei fonte. Sinto-me mais novo cada vez que viajo, escrevo, ou amo. Sinto-o porque estou mais velho não sendo a velhice mais, que um iluminado estado de existência. Amar é nascer de novo. Viajar é pisar terra desconhecida, aprender como criança. Escrever é como ler, é um acto contínuo de conhecimento. Escrever é também antecipar, prever, lembrar ou ajustar. Por isso se escreve o amor, as viagens e tudo o mais que se observa, sonha, produz ou sente. Os vértices deste triângulo são a minha vida concretizada. O concreto tem definição.   Por alguns destes motivos escrevo ao vento, ao mar, à maresia, à chuva, à montanha e à planície.   Por alguns destes motivos escrevo ao amor ido, ao presente e ao que há-de vir, porque não amar vivo é estar defunto, e ser defunto vivo é morte prematur...

Sinais

  À medida que o fogo arde as palavras queimam-se numa troca de ideias banhadas de sentidos e dádiva de vida. Lá fora habita um frio que nos tempera a alma. Cada pedaço de madeira ardido torna-se em energia do nosso afago conivente com o sorriso de uns olhares crédulos de estarmos ali. As labaredas dançam geometricamente de uma forma não linear. Quatro porcos de loiça de ar feliz e bonacheirão assistem ao quadro que pintámos, de quem está ali com vontade de estar e conversar. Os nossos olhos atraiçoam-nos com os primeiros sinais de um sono, feito de cansaço feliz, pela identificação tornada empatia e vontade. Os nossos cheiros são agora um, amantizaram-se. Falamos de um sonho lindo feito de Africa e suicídio. Da nossa forma de não estar estando. Dos outros e de nós próprios. Um falar sem palavras escolhidas feitas da essência de nós próprios. O bem-estar sentado em mim balança-se numa cadeira perigosamente confortável. Sinto-me como se sempre ali estivesse estado. Como se a minha alma ...

A menina dança

  Sentado num recatado recanto de encanto “enfumarado”, absorvo-me em dois corpos dançantes que se me desfilam capazes da arte de transformar a musica em sensualidade. Nunca tive uma mulher nos braços balançando-se nessa mutação descompassada dos compassos musicais. Não sei dançar. Adoro ver e queria estar ali naquele quadro que invejo por não saber ter. Realizo-me numa atitude “voyeirista” com o empertigamento dos passos deslizados em bicos dos pés e as caras firmes de uma atitude digna de arte e conhecimento do outro. Reparo na atitude inata do macho e da fêmea. Do jogo balançado dos corpos sabedores da direcção. Imagino-me ali envergonhado estatelado no chão tropeçado. Sorrio. Nunca tive uma mulher assim nos braços dançando. Já dancei. Claro que já dancei. Sozinho ao som de uma música que pela letra e batida me faziam embalar pelos copos consumidos junto a um balcão onde absorto em mil pensamentos sonhados, trago após trago inventava uma personagem distante e ...

Fantasiada forma de ser

  Escrevo poemas não fantasia, Fantasia tem na livraria, Pinto Correia, Rebelo Pinto, Existe maresia na poesia, Existe o que não se vê Oculta forma, De viajar, O que se sente existe, Vida, Morte, Historia, Boca e beiços, Sentida poesia, Velhos sábios saberes, Escritos no chão, Perdão e comunhão, Caminho e sedução, Não é fantasia, é poesia, Canta a alma, Arritmada, Como coração sentido, Não é fantasia, é poesia, Espírito poético, Parece patético, Em quem não se arrepia, De não ser a fantasia, A merda da poesia, Que me traz dependente, De um não sentir ausente, As noites de maresia, Não são fantasia, Prende-me então poesia, Autorizo, subscrevo, lacrimejo, De uma vontade mais que verdade, Amor, paixão, doença, Fantasia também é poesia, Alegria chorada de tristeza, Enxurrada de liberdade, Maresia rimada de palavras, Não é fantasia, é poesia.

Saboreio

  Oiço, Calo, Penso, Falo.   Admiro, Olho, Saboreio, Colho.   Fascínio, Sensatez, Perfume. Embriaguês.   Tu, Eu, Bailado, Meu.   Simples, Sedução, Palavra, Paixão.   Sílaba, Forte, Emoção, Norte.   Sul, Praia, Sol, Valha.   Areia, Luar, Momento, Espraiar.   Começo, Verão, Madrugada, Coração.  

Quem dera

  Quem dera que as arvores actuassem para mim como bailarinas e se revezassem pelos quintais fora deambuladas como o vento de cabelos soltos, como o galopar de um alazão alvoraçado e feliz. Quem dera que de floresta em floresta se acendesse fogueiras de música inca e dançássemos sedutoramente canções agrestes delineadas pelo fogo que alcança a minha imaginação.   Quem dera pai que o teu abraço nunca me desprendesse e tu minha filha existisses sempre na minha cabeceira. Quem dera Pai os Dezembros idos à lareira quando os teus olhos ficavam mais azuis, da paz que a lenha ardida cheirosa de fumo emanava. Eu, tu a mãe mais a Joana chilreando numa infância feliz e colorida.   Cresceu está grande e é precisa. Belos e bons pensamentos tem. Puxou a nós como diz o povo. Não é por acaso. Nada é por acaso. Tem no coração a tua alma. No sábado esteve comigo da mesma forma como eu já estive com ela. Ali solícita, carinhosa, atenta. Os olhos são como os teus. Falam, mas falam fartos de um doce negro...

O bom rebelde

  Um bom rebelde será sempre uma boa pessoa. Um bom rebelde já sentiu a terra e pulsação alterada. Já sentiu os poros suarem de arrepios sofridos por mais que um sentir. Um bom rebelde converter-se-á e a sua pele arrepiar-se-á de ternura, sensibilidade para sempre. Um bom rebelde já afinou os sentidos e apurou os elementos à sua vida. Por vários motivos associados a rebeldia dá-nos humanidade. As teorias duram uma semana. O exemplo feito de actos são eternos e tornam-se parte de nós, são inclusivos. As teorias são destronadas ate existir uma outra mais provada e coerente. Os actos são cravados na nossa existência. A musica não é monocórdica seria um aborrecimento. O que a torna bela é a paz e a guerra feita nela pelos acordes, compasso ou descompasso. É como a existência humana o que nos torna belos é a rebeldia, a sensibilidade, o ver para além de …. E a paz. Um bom rebelde será sempre um homem de cabelos brancos, viajante, interessado, disponível e afectuoso. Um bom rebelde ser...

Lezirao

  Sublime a voz roufenha que deténs quando te vens. Quando me pedes para te possuir devagar para sentires o burburinho que se exalta no meu corpo e as vozes que gritam no meu coração. Como eu gosto de ver transfigurada a tua cara de prazer. O ar selvagem nas pontas dos teus dedos apertados e arranhados no lençol que nos envolve. As palavras que inventas sem prévios ensaios. As funções dos nossos corpos suados e fundidos. Como eu guardo a ultima vez que te despi devagar sem pressa de te desnudar, fazendo de cada vez única e última. Fazendo da próxima vez a primeira…. irrepetível.

Pedaço de caminho

  Denso e forte este cheiro cravado de Abril na minh´alma. Forte a areia vinda do mar alto pela força da corrente. A areia engrossou densa a passagem. Retenho em mim a cor cinza da manhã e a desgraça despenhada donde penso executar-me um dia. Será num Abril qualquer. Virá o sol enevoado e as nuvens dançaram chorosas céu abaixo.   Enrolam-se limos nas minhas passadas que escorregam numa vida inteira feita de partes. A média ponderada não me diz nada. Denso, forte e frio, este tórrido sentir. As noites em branco dão-me a alegoria que me transporta pelas estorias inventadas de realidade. Sento-me! Não fico bem. Debruço-me! Melhoro.   Debruço-me então sobre a imagem da virgem e hipnotizo o meu olhar com o dela. Rogo bênção e agradeço. A pequena capela escarpada na rocha enlameada é o abrigo. O feixe de luz e o cheiro húmido da porta de madeira encantam o nicho voltado para mim. Oiço o encantado esvoaçar das gaivotas no batimento das suas asas. De olhos mutilados imagino-as graciosas.   Mai...

L ?????

  Fragmentos não sei feitos de quê mas negros, percorrem o meu corpo. Incontrolável esta dor. Apenas me resta esperar nas noites em branco e nos dias arrastados que me passe. Tenho saudades de dormir sem dor e acordar entusiasmado com o dia. Não entendo donde vem esta dor de uma cartilagem que não existe. Se for de esforço esforço-me para que passe. Nada posso fazer a não ser tomar umas pílulas grandes e vermelhas que me secam a boca do plástico. Tenho uma alma que por períodos se vai secando. Dou mil voltas na esperança de encontrar a tal posição. Percorro os minutos vermelhos de um relógio despertador na espera da manha. Sento-me e caminho, caminho e sento-me. Conduzo mal e em esforço mas acredito sempre, acredito que a próxima viagem vai ser mais confortável que a anterior. Sinto-me dono de umas chagas que não cicatrizam.

Desmedido

  A maior parte do meu querer é desmedido. O passar dos anos ensinou-me que querer muito é poder, não sendo no entanto o querer determinante. As coisas não são exactamente como o eram ontem e a minha lucidez de espírito diz-me que não o será igualmente amanha. Esta mutação constante é fascinante.   O que muda afinal? Eu? A envolvência? Ambas? A envolvência transforma-se. Eu modifico-me com a envolvência, modifico-me emocionalmente e intrinsecamente. Essencialmente transformo-me emocionalmente. Absorvo cognição que me oferta caminhos. Palmilho o caminho que me dá experiência e apresenta-me novas formas de pensar e sentir. Sinto mais do que penso. Penso muito no que sinto. Experimento liberdade mais que prisão. O processo prisional interior é o tempo anunciado de a liberdade se mostrar. Aguardo, tolero e sou paciente.   Quem semeia colhe. É a inevitabilidade das estações. Uma tempestade repete-se tal como a bonança. Não sei se não há amor como o primeiro. Sinceramente acho que existe mai...