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Mostrando postagens de agosto, 2018

de encantado sorriso disse-te

“…  de encantado sorriso disse-te: - não sei porque acordo a ver-te acordar, porque adormeço a ver-te adormecer, porque eu nunca ti vi adormecer e nunca te vi acordar. Não sei porque te oiço cantar a minha canção preferida, a que fala de madrugada, porque eu nunca ouvi a gargalhada com que acordas a alvorada, nunca escutei a paixão das nossas noites não destinadas. Não sei. Quando te digo que podia ter mil amores, na verdade não poderia ter nenhum, jamais mil amores seriam um, mas o teu amor sim seria mil amores. de encantado sorriso disse-te …”

Não gasto todas os sonhos num só sonho

Não gasto todas os sonhos num só sonho. Guardo alguns para quando o céu me convidar a comparecer na reunião dos sonhos.   Tenho sonhos que são mais sonhos do que outros. Outros são, autentica delinquência de fantasia.   Outros ainda, utopia fina e devaneio. Os que me sobram se sonhados são: - pesadelo pela ausência que têm de serem sonho alguma vez -

Não há silêncio em mim, se em mim existe vida.

Todo o silêncio em mim é barulhento, não tenho silêncio nos pensamentos que esculpo, nas noites balsâmicas em que me tento abstrair de ser, neste sentir que não aprecio de todo querer.     Todo o silêncio em mim é a festa com que sonho, a guerra que almejo, a paz com que o musica em fundo me ameiga. Não há silêncio em mim, se em mim existe vida.   Pode até silenciar-se o vento, o rio desaguar noutro mar, o grito emudecer, a cidade falecer, o vulcão transformar-se num jardim florido de lilases de flor de alecrim e lavanda, que, enquanto os meus sonhos e angustias forem desejos de perturbados amores e se enaltecerem nas minhas veias, o silêncio será sempre uma ruidosa metáfora silenciada pelo ruído da minha existência.

O amor quer tempo sem tempos.

As amoras no campo amadurecem ao sol. À sombra, vivem os corações esquivos reduzidos pela resistência amaciada pelo amor.   O amor não prefere sombra ou sol. O amor quer tempo ... sem tempos.

de nova mente em mente nova, acrescento alma à alma

de nova mente em mente nova, acrescento alma à alma

guardo todas as palavras para nada, sou todas as palavras para tudo.

guardo todas as palavras para nada, sou todas as palavras para tudo.

vai-te ser feliz

vai-te ser feliz, disse-lhe, enquanto eu  - esperava que o céu se esvaziasse dela -

quando desço do castelo para a cidade

As saudades da saudade das madrugadas em que pouco mais éramos do que o prazer das palavras em carrossel, tanto que fomos sorriso, proximidade e construção, era única a felicidade de todas as madrugadas.   Foi só e apenas madrugadas, sempre o entendi, nunca o aceitei. Aceitei somente quando as saudades da saudade das madrugadas se tornaram só, em saudade e nada mais do que esvaziados momentos de tempo.    Não sabia o que sangram as palavras com que não te pude abraçar, vão gemendo quando desço do castelo para a cidade.   Afago-as, para se abraçarem a mim. 

Todos os dias, as mesmas horas, as mesmas correrias, as mesmas inquietações repetidas, a mesma cidade,

Todos os dias, as mesmas horas, as mesmas correrias, as mesmas inquietações repetidas, a mesma cidade, Alegra-me o amor não ser o mesmo, alegra-me ser mutante e praticável, assenhorado e incoerente.   A coerência não é uma forma de amor, não tem conteúdo para amar, O amor é contraditoriamente ilógico, absurdo, disparatado e irracional, se não, será outra coisa qualquer.   A amor é sentir africa dentro da europa, o mar todo á minha porta, e o céu à janela da minha alma, É a demente conclusão das palavras que se soltam amordaçadas, no entendimento sôfrego do fogo amante de se amar.   Todos os dias, as mesmas horas, as mesmas correrias,as mesmas inquietações repetidas, a mesma cidade, Todos os dias, as mesmas horas, as mesmas correrias, as mesmas inquietações repetidas, a mesma cidade, Todos os dias, as mesmas horas, as mesmas correrias, as mesmas inquietações repetidas, a mesma cidade,

zeca

deixem o Zeca entre os nossos, com sete palmos de terra junto dos indios da meia praia.

é o sonho a comandar a vida

sem nenhum destino saio pela noite, estou cheio de palavras, de abraços, de sorrisos escondidos no banco alto, da mesa alta, onde se sentam os senhores à procura de senhoras, misturo-me por ali, despertencente,   sei-me despertencente na pertença do destino pela noite adentro, o que faço aqui? embriaga-me o teu ar que fantasio de mulher e guardo todos os sorrisos e abraços para ti numa noite que há-de acontecer, o teu sorriso dança nos braços do homem diferentemente homem dos restantes homens da noite branda, a minha hora chegou, já nada por ali sou,   retiro-me do sonho que acompanho com agua que é o mais puro que estas noites têm, desço a serra, abraço-me ao trompete que me acompanha até ao leito onde adormecendo me irei acordar, do sonho que sonho acordado.   um dia, ver-te-ei de sorriso em punho para mim quando a revolução se der, resistentemente forçar-me-ei a sonhar, lutarei com estes versos de uma poesia que nunca te irá chegar, é o sonho a comandar a vida.

lonjura

não meço a distancia do termo - longe - porque longe foi sempre o mais perto que senti,   mais me dilacera a distância junto a mim, do que a lonjura de um peito de termo - distante -   não meço assim a distância pela ausência, sinto-a aguda na proximidade,   ausência é:  - sentir-me distante de tão próximo te ver dançar nos braços que queria que fossem os meus -

Da minha mãe, herdei o meu lado ateu da fé …”

" Da minha mãe, herdei o meu lado ateu da fé …”

loucura do desvario

A ternurenta loucura com que falávamos distinguia-nos. Distiguia-nos nos limites que afinal tínhamos. Sabíamos onde acabava e começava a ternura que se transformava em alguma coisa loucamente apetecível, era parte de nós e a nossa parte, na loucura do desvario.

“reviravolto-me”

Quando as palavras me acordam pela manhã e me trazem o sabor dos teus beijos, espreguiço-me sem tempo,  “reviravolto-me”  e tento adormecer para acordar de novo.

narrativa

“… como posso narrar esta sóbria confusão do meu ser?   Já a narrei embebedado de céu azul e estrelas que se punham sem direção.   Já a narrei em delírio, ajudado por comprimidos de uma marca sem resultado sentido, que me aliviasse as dores e toda a impreparação para conjugar a vida neste verbo dado à nascença.   Já a narrei esburacado no estomago mais do que no peito.   Já a narrei sem palavras estourando em silêncio a minha magoa de solidão.   Já a narrei com a sobriedade de ter dez amigos, depois nove, depois sete, depois três, depois nem um, que no meu entendimento nenhum me pode sobrar.   Já a narrei com o sobrevivente que sobrevive em mim.   Já me narrei deixando-me ir, sentado no chão do caminho a ver as pessoas passarem pelos seus pés, as mãos dadas entre elas, e a musica que eu escolho perfumada com erva do sul, cantarolada pela boca dos lábios que me acalmam e ajustam à narrativa que não sei fazer de mim   Como posso eu, narrar esta sóbria confusão do meu ser?…”

À janela, na aldeia, o tempo sossega-se apiedado

" ... e nas esquinas de todas as casas da aldeia cresce a saudade, em todos os pátios geme poesia, todos os corações se embalam de música e alegria, e o amor configura-se com amor. À janela, na aldeia, o tempo sossega-se apiedado..."

eternamente

vou passar por aqui (vida) vivo, cheio de erros, decisões erradas, duvidas, medos, revolta, solidão, desamores maiores do que o contrário, em constante procura, bebedor em excesso de poesia, música, natureza e pouca gente.   vou passar por aqui (vida) pisando mesmo a sítio onde vivi, com mal afamados credores de vidas inglorificadas, ruínas e apodrecidas ideias de que fugi religiosamente em pecado, julgado aos olhos dos homens de deus, que não me domaram o pensamento.   de outra forma, não teria passado por aqui (vida), alguem teria passado com o meu corpo e os ideais que não os meus, eu teria morrido à nascença e agradeceria por isso, eternamente. 

Eu não sou um triste.

“tristezas não pagam dívidas” exclamou. Fiquei sem saber se as dívidas se pagam com a tristeza e pensei: - Não pode, se não, não existiram dividas, já que me parece haver mais tristeza.do que divida, parece-me haver mais oferta do que procura, e uma coisa abateria a outra.   Numa outra perspetiva posso tentar entender que, a alegria, gere crédito para abater na tristeza enquanto divida, Parece-me um pensamento não disruptivo e quase conformado, Não creio na tristeza e na alegria, como credito e/ou débito/divida. Isto parece-me quase como a milenar mentira do castigo e do pecado, na tentativa mercantilista de ajustamento empírico do que não é experienciado. A tristeza paga dividas intrapessoais, como um autoflagelo estupido e sem sentido. É quase como justificar a tristeza como um não direito a estar triste. Eu sou triste. Mas eu não sou um triste. Sou um homem de contentamentos e descontentamentos. 

Tudo

“… E quando te digo tudo, depois de eu mesmo ter decidido tudo dizer, tu queres começar tudo de novo outra vez, temendo que tudo não seja afinal tudo o que querias saber, já não há atalho que se faça, tudo foi feito e já estou no meu caminho, sem retorno. Afinal tu, não querias que eu te dissesse tudo, quem queria tudo dizer-te era eu, em toda a minha alma. Tudo é: - a minha essência – e não os factos que catalogaste: - ser tudo - …”

Verdade

Tudo é verdade. Mesmo quando o não é, há uma altura em que uma mentira é verdade. Assim sendo, entendo que o poder da verdade é infinito, e destrói todas as tentativas que façam parecer não ser, a verdade uma verdade.

val de mar a endireitar-se com a vida

" ... Já é mais do que madrugada no país de onde vim. Aqui, ainda o sol se põe dentro do mar e as poetisas esperam a inspiração que lhes pode valer um sono em sossego. As ruas não estão desertas nem povoadas. Tudo é final de dia, e nos finais de dia, não existe nem dia, nem noite, nem luz, nem penumbra. Nos finais de dia existe acumulado o tempo e o poder da noite, existe a melancolia descansada no balouçar de uma cadeira, e o cheiro a flores na varanda de onde avisto o céu esmorecido. Sinto as mãos e os pés mais grossos com a idade e, os invernos longe da aldeia já nem os lembro. Longe da terra que devora a minha mãe. Longe do meu país, sem pai, que no meu país se tornou esta cidade. Oiço em murmúrio as ladainhas das poetisas que esperam que o mar lhes traga os seus filhos. Se não vier peixe não importa, que isso é dor deles, a dor delas é abraçar os seus filhos de mar. Já é agora menos do que dia, a madrugada está mulher feita e bela. Vou adormecer antes que não tenha tempo para...