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Mostrando postagens de maio, 2020

Domingo

Hoje é domingo. Hoje, já quase que foi domingo. Os domingos são normalmente dias sem calendário, quase assexuados sem horas ou alma. Hoje não. Hoje foi um domingo daqueles em que não podia deixar de ser domingo. Foi um domingo fausto e de Fausto por um rio acima com o mar ali mesmo à mão, com cheiro eriçado a pinhal. Hoje foi domingo de gente boa, domingo de minha gente, domingo de meu amor, domingo de abraços, sardinhas e doces. Podia não ter mais domingos no mundo, mas não podia de deixar de ter no peito espetado este domingo do meu povo.   Hoje é domingo. Hoje, já quase que foi domingo, mas ainda será domingo por muito tempo.

terra, arado e liberdade

Num Portugal aqui, Não falta cansaço no corpo alugado por mais de dez horas, Não falta olhos fundos e medo, Não falta terra, arado e liberdade. Não falta polícia secreta e analfabetismo, Não falta uma revolução por fazer, Não falta um deus misericordioso com que me tentam enganar.   Sobra-me sonho, Sobra-me o sonho de que um dia existirá em tudo o que falta tudo o que existe.   Já houve um abril insuficiente, neste país daqui.

a sorte que George não teve

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Tenho o coração confuso e as mãos doridas dos punhos cerrados de ira.   Não me peçam mais tempo, razões subjectivas ou a objectividade de raciocínio.   Não tentem ou escolham por mim palavras adequadas e justas.   A noite passada trocou-me os sonhos e as ruas tornaram-se apertadas no meu peito.   Ontem deitei-me morto, envergonhado encurralado de lágrimas.   Ontem assisti a uma morte em horário nobre sem a conseguir explicar a uma criança. .   Ontem foi só uma de todas as noites do mundo que tenham, ventura´s, bolsonaros ou trump´s.   Tenho medo.Vergonha da raça humana   Já tive um pé no pescoço, não morri. Tive a sorte que George não teve. 🙏    

Os sorrisos flutuam no rio

Os sorrisos flutuam no rio, o campo de girassóis assiste ao por do sol dos teus cabelos.

Em imagens de paisagens

Quando penso nas paisagens que deixei, sinto a forma com que me debrucei nelas. É isso que faz a permuta da saudade na vontade de me saciar em todas as incendiárias tardes, manhãs e noites. Tudo o que foi orgânico foi para além da imagem. A dorida alma, o corajoso querer. Em todas as ruas, o forasteiro, agudo e sentido frenesim de peito e estomago, as rusgas da consciência, a infância, os dias em que a morte sobeja, as estações sempre iguais, sem vento, sem chuva, sem sol, sem vida. A agonia do bairro sem cor. Da encosta deslavada de gente que se desloca em direcção a sentido nenhum. As mulheres ternas e desgostosas, desamadas. Os homens inconsequentes nos dias sem dias.  Ninguém abandona a paisagem. O céu está encoberto pelas nuvens, todos adormecem desse ópio incandescente até que o mundo seja de claridade aos dias.   Mais tarde, os dias chegam aos poucos. Primeiro, atordoados. Depois, amantizados com o sonho, aos bocados. Um sonho de cada vez. De sonho em sonho. De quimera em quimer...

deuses, semi-deuses e o diabo

Ferem-me todos os sentidos. Em boa verdade quase que me aniquilam alguns dos mesmos, cada vez que vos oiço homens quase responsáveis com cargos políticos e públicos a defenderem os vossos deuses. Um deus branco. Outro um deus negro. Outro um deus assassino. Outro um deus apaziguador. Uns ainda se debatem no direito da igualdade de género, às orientações sexuais, aos espoliados, aos pobres, aos ricos, às minorias das minorias, às maiorias, tudo em troca de uns míseros votos cada vez menos representativos em número dos que se vos confiam. Como se os direitos às escolhas e orientações viesse em manual simplificado onde se pusesse uma cruz de escolha à nascença, e não fosse um direito assistido no parto de entrada na vida em processo contínuo e evolutivo. Vós ridícula gente da escolha dos deuses inexistentes a querer fazer-nos crer, que os apregoados direitos não são a nossa pele, o nosso sangue, a nossa líbido, e que são uma dádiva vossa escrita nas manhãs do hemiciclo e, quiçá, que vos d...

Não me agarras, não me encontras, não me apanhas ...

… brincámos aos soluços com as palavras, não me agarras, não me encontras, não me apanhas, e vida fora os soluços e as palavras foram sendo escorreitas e parafraseadas memórias perpetuadas no tempo. Não me agarras, não me encontras, não me apanhas. Até hoje ...

menos muito e mais de pouco

Tenho amigos em bocas de outros amigos que não são outros nem amigos, porque amigos conto-os aos poucos, que serão mais do que um e de metade feita de outro tanto, que essa coisa rara de amizade, não floresce em bruta floresta, nem em campos ceifados e estéreis, cresce em lamacento e difícil peito, que tem coração mais do que boca, menos outros do que tantos, menos de muito e mais de pouco.    

palavras aos poemas

Um poema ensina-me a transformar as mais belas palavras do mundo nos mais profícuos e prazeirosos sentires. São as palavras dos poemas,  são os poemas e as palavras,  são os poemas das palavras, são as palavras, são as palavras.  são as palavras aos poemas.

Canto à ausencia do beijo esperado

canto à ausência entre um bando de pássaros que sobrevoa a sombra onde me sento, beijo efêmero, boca silenciada de eternidade, sol tardio, noite esperada.

conversa de palavras mais do que palavra

Sabes, disse-lhe eu. Vender a alma porque não se crê numa forma de regeneração, é como uma orquestra emudecer ap enas porque um violino partiu uma corda. É desacreditar que todas os outros instrumentos são isentos da capacidade de serem melodia. É injusto, já que somente a alma existe, o corpo é podre.

Inventam com cada coisa dos poetas

... não deixo que os meus escassos sorrisos sejam banalizados, ou que o deixem de ser por serem escassos. O meu sentido de humor é incomum, as minhas palavras mais risonhas não são escancaradamente bem dispostas. É sempre no meu mais profundo eu que está a graça, ou que encontro a bem disposta alegoria. A alegria vem-me sempre com a manhã. Ah, e não há poesia triste. Inventam com cada coisa dos poetas!... A minha semi-arrogância é deleitar-me com as palavras desentendidas e deixar que elas sejam em mim o que escolherem ser. 

Anda, o inferno não existe

Anda, não te detenhas no pensamento que te enche de medo, o jardim tem bancos vazios onde nos podemos sentar a conversar sobre flores, onde podemos não dizer nada e ouvir somente a água a correr no rio. Anda, não te detenhas na infeliz imagem dos anjos de rosto sofrido que te fizeram crer há tantos anos atrás, crê na felicidade da norma, na regra do nosso querer, no retorno da paz, na imobilidade do mundo que criamos por ser nosso. Anda, o inferno não existe e a primavera urge.

Esquecida e desarrumada

Exausto do peito, cansado de todos os músculos que gemem a dor de mais uma passada, a vida como se fosse uma divisão de arrumos, de guardadas e velhas lembranças, de recordados cheiros e choros, de miséria e esperança, de beijos vadios de noites esquecidas, de manhãs acordadas e desabraçados.   A vida como se fosse uma divisão onde a porta se mantem sempre fechada, onde se guarda o medo e a loucura, sem luz e sem fechadura que se abra, sem janelas nem ar que se respire, sem vida, sem morte, sem nada, a vida arrumada numa divisão de arrumos esquecida, e que se quer manter assim mesmo – esquecida e desarrumada -

A pele arrepiada de sonho adiado horas depois de amanhecido

Amanheceu o tempo no olhar que me deixaste, as horas e os pássaros voaram sem que as minhas mãos acenassem em despedida, o rio inquieto e silencioso, o silêncio declama um manifesto ao silêncio, o tempo imóvel, a alma crente ao encontro de mim, a arvore retorcida em cruel despedida.   A pele arrepiada de sonho adiado horas depois de amanhecido.

Vindas da serra com o vento

Abri as mãos para que saíssem todas as palavras que não deixei chegarem à boca. Abri os pulsos como se diz. Os pulsos têm nas mãos palavras seguradas e por dizer. Abri o peito para deixar sair as madrugadas. Em todas a últimas madrugadas adormeci sem me sentir vivo ou morto. Adormeci como se tivesse morrido, entristecido com a vida, desolado com as minhas mãos, peito e pulsos, cansado de me deter, cansado de me suster entre a vontade, o desejo e a essência que teimo em domar.   Recordo os frescos vales de água perfumada e as flores cristalinas da minha loucura feliz. Recordo-me em pedaços de tempo curto. Dou mil voltas ao meu corpo na cama onde o sono não vence o cansaço. Já pensei em todo o desamor que invento descendente do amor que procrastino. Doem-me os pulsos das mãos cerradas de mim. Abro e fecho as mãos. Espreguiço os dedos. Aponto-me. Julgo-me. Aplico a pena que mereço. As noites continuam iguais, desertas, silenciosamente caladas, trituradas de gente ausente, desacompanhadas,...

Dia mundial da língua portuguesa

Esta é a língua com que sinto, é a língua das palavras com que o vento sopra, a língua com que comecei a andar, a língua que fez o amor, o sal e o mar, a pátria de Camões Luiz Vaz. Esta é a língua sem saudade igual, paixão imensa da palavra: - povo -

Encontrei-me, mãe!

Neste desnorte, sonhei ver o sul lá fora mãe. Encontrei todos estes dias, "desbussulados", sem direcção certa que não a intuição que trouxe de teu ventre. Sonhei ver a sul a nortada que me guie. Encontrei-me, mãe!

Subversivas manhãs

Subversivo alimento d'alma que teimo guardar, como quimera por realizar, como canção por musicar. As mãos grossas e inchadas pelo caminho, os pés ensaguentados pelo destino, os poetas que morreram, as mulheres que desistiram, a bárbara manhã do bairro incandescente, o regresso, a partida, a tempestade de flores que me vestem e cobrem o sexo desnudado de vergonha. Subversivas noites que me trouxeram até esta paz que me fere o amago e a esperança. Esplendorosas rosas de maio que perfumam a varanda onde já tarde adormeço de recordações e patrimonio.

Tom maior de sol

Aglutinam mais do que separam. Partilham mais do que dividem. Assim são as almas que se encontram no céu e o deixam riscado da palavra declamada. As almas são como ribeiras em crescendo de rios que vão abraçar o mar, são como beijos desejosos de bocas frescas e olhos secos de lágrimas cristalinas. A emocionada liberdade da aglutinação e sonho são como passos cadentes de uma valsa cruel que se dança amantizada. Que se dança em tom maior de sol.