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Mostrando postagens de setembro, 2016

Metamorfose da experimentação

" ... e na confusão de não ser de acordo com a tua opinião começa o impiedoso ataque.   Antes fora o convencimento. Antes não fora o entendimento. Sobram os olhos cheios de nada e o silêncio de uma boca cerrada pela raiva da razão. O andar é outro e a razão não é nunca o singular dela própria.   As mãos agora gélidas já não são o plural do sonho. Tudo volta a ser igual. Tudo será verdadeiramente diferente.   Sou acrescentado a cada dia. Acumulado. Nada se me retira quando feliz fui, quando adormeci sem esperar pelo sono. Nada é, nada será nunca igual.   É a metamorfose da experimentação..."

O meu amigo íntimo

Hoje agarrei a mão do meu amigo íntimo e fui conversar para o sopé da serra que guarda a minha terra, do outro lado do mar. Falei-lhe de saudade, de encantamento, de desilusão, de severidade, de sonho, de poesia, do luar, de nevoeiro, de compromisso, de caminho, de amor e de tantas coisas que queria deixar sair de mim há dias e dias, sem que o conseguisse. Ouviu-me e não disse nada. Acarinhou o certo e o errado, ambos com a mesma humanidade. Não riu, não chorou, não deixou que nada nos incomodasse no silêncio das palavras, no sentir cúmplice de bem querer. Apenas olhamos imóveis a montanha enorme vista na perspectiva do sopé, e ambos, eu e o meu amigo íntimo, adequamos a nossa pequenez à nossa existência. Nenhum de nós sabe nada a não ser existir. O meu amigo vê pelos meus olhos, sente pelo meu peito, caminha pelos meus pés, toca pelas minhas mãos, sente no meu sentir. Como pode o meu amigo íntimo afastar-se de mim tantas vezes, se o meu amigo íntimo sou eu.   

naturalmente

A vida, tal como nós, também não sabe o dia de amanhã. Se deus não existe, e o homem não decide, sobra-me crer no universo e na força decisiva e decisória da natureza.   Se não vejamos: A força do vento, a chuva, as marés, a força do mar, a lua, os vulcões, os terramotos e maremotos, as doenças e a saúde, a morte e a vida enquanto nascimento, é sob a forma da natureza das coisas que se expressa, mais do que sob a força humana, e é decidida pela essência natural do mundo, e no que os homens têm como prioritário. Cuidamos da natureza com descuido, logo não podemos esperar cuidado dela para connosco. A impotência da vida e o equilíbrio está na nossa natureza e, na força e consciêncialização da transformação. Para o bem e para o mal.    

voz

Primeiro foi a voz, Depois foi o olhar, Mais tarde fomos nós, A noite de te abraçar, Depois foi o beijo, As mãos e o desejo, Adormecer sorrindo, Acordar no teu peito,   Agora é todo o amor, Saudade que faz parte, A dança de querer, Palavras para viver,   Caminho por percorrer, Almas em fusão, Primeiro foi o a voz, Agora é a paixão, E se também há dor, É porque nos pertence, É nosso este amor, De mãos dadas em frente.

A decência de eu ser

A decência de eu ser, a uniformidade de ser eu, neste mar acrescentado de terra que é o meu país. O meu país é pouca gente, somos dois ou três a quem eu bato à porta de madrugada, quando a madrugada me sangra no pensamento, num rodopio escanzelado e cruel que quase me faz descrer na minha decência de eu ser, na uniformidade de ser eu.   Este meu país de mar acrescentado de terra, onde me falta terra e sobra mar, onde o mar se ajunta de terra e eu, me reconforto em dois ou três peitos feitos de mar, amizade e amor. Os meus amigos lembro-os muito. Vejo-os menos do que as vezes que sangram as madrugadas em mim. A sua porta sempre aberta espera-me entreaberta, é este o país onde vivo, um país pequeno de mar, acrescentado de terra.   As minhas palavras tendem à normalidade para me sentir menos só, o entendimento do que sinto é invulgar e, muitos dias os há, em que sozinho me sinto menos só.

suada saudade

O teu cheiro, O teu olhar, As tuas mãos, São as minhas ruas, A cidade e o porto de abrigo onde atraco,   O teu peito são as noites onde embalo todo o meu querer, o meu amor entregue ao teu,   Saudade suada sentida presença, sem ausência que a saudade não se mata somente de presença.  

É maior a paz que o sufoco agravado

Não sei das palavras que se enegreceram na noite, Nem o sorriso da manhã, Nem a vontade do dia, Nem a poesia, Nem tudo só … - eu já podia -.   Já não sei onde fica o teu corpo, Se na ausência, Se na minha loucura feita de doçura, Se no alívio, Se no fogo ou na tortura.   Já não sei se o que sinto é sentir, Se conhecer o mundo velho, E as esquinas desistidas, O caminho pesaroso e melindrado, É maior a paz que o sufoco agravado.

terra infertil

Rasga-me o medo de não sentir medo amparado pela coerência do que sou.   O que sou, creio e sinto é a minha essência existencial.   A verdade do que intuo acaba sempre por me arrebatar, pacificar e devolver-me ao que acredito, num ajuste permanente à verdade da minha alma. Ao meu eu existencial.   Tal qual as flores rasgam a terra infertil.

gosto deste entretém feito de água e de mim

Regressado do monte descanso junto à fonte rodeada de musgo. Oiço o cantarolar da água que geme no seu caminho, entre as silvas e o aroma forte do fim de tarde. As minhas mãos tentam segurar a água que não se deixa agarrar. Há anos que tento segurar a água com as mãos e, não se desvanece em mim, a esperança de o conseguir, embora até hoje nunca o tenha conseguido.   Penso: - como me pareço com água –   Como me pareço com o fim de tarde e o cheiro forte do mato rubro que grassa na encosta. Como me pareço com a água calma e temperada e o dilúvio alterado.   Sou como a água que geme entre o fim de tarde e o anoitecer, que ainda vem a mais de uma hora do meu peito, refresco-me por aqui e sou feliz, tentando segurar a água entre as mãos que sei não conseguir agarrar, gosto deste entretém feito de água e de mim.

A arte da espiritualidade

Eu sou um homem das artes e de alguma conseguida espiritualidade.   Tenho nas artes o recato introspectivo do espírito. Na minha espiritualidade existe apenas a entrega da minha espiritualidade.   A minha arte não tem a arte da espiritualidade. A espiritualidade não tem a minha arte.   Na arte que escrevo, leio, oiço e vejo, sinto-me descomposto, desorganizado, desconstruído, desnudado e espiritual.   Este sentir tem os mesmos anos que tem a minha idade e o meu mundo.   Continua a não ser comum e fácil a sua partilha, aceitação e entendimento. É um mundo desabitado de gente, farto no sentir, solitário e desumanizado, tal é a humanidade incompreensível que detém.   Baixo os braços ao desencalce que consegue. É meu. Só isso. Simples para mim. Inalcansável na maioria das vezes para os outros.   Gosto dele, mesmo reconhecendo a sua dor feita de momentos felizes de pedaços.

existência e ressurreição em cada manhã.

Preparo o barco da ilusão para me lançar na minha viagem. Sem astrolábio ou carta de marear, sem saber dos ventos ou das estrelas desenhadas no céu, sem conhecimento das marés ou sequer da sorte.   Não conheço nem o destino e, a avaliar pelo que sei do azar, do vento, das estrelas, da carta de marear que não tenho, ou do astrolábio, nenhum deles seria mais audaz do que a ilusão que detenho, e o sonho que parte de mim, nesta viagem que inicio sem medo, fé, ou conhecimento.   Assim foram todos estes dias que vivi até hoje. Dias semeados às semanas, regados de meses a fio de soalheiro, e chuva de anos e sobrevivência. Chegou a hora em que a morte e a vida já não se importam mais com o desamor.   Agora, somente resta e basta o quanto baste em suficiência para ser definitivamente caminhante de mim mesmo, sem sentir a solidão de me ter somente a mim enquanto navegante, e sentir o mar na face, as estrelas no peito, os vento no desejo, e a ilusão no sorriso e no pranto.   Sem medo. Sem medos. ...

Solidão e presença

Só existe solidão onde existe presença, sendo a presença solidão do intervalo da saudade.

Fiz nada

" ... Sobravam apenas os dias já que as noites saltavam insensatas e desadormecidas, restava apenas uma réstia de vida como os dias que sobravam e uma certeza de morte como as noites acordadas de sono. Faltavam amigos como o que faltava de dia, noite, vida e morte. Faltava-me eu. Tudo regressou sem que eu me apercebesse que tudo me estava a ser devolvido. Fiz pouco. Muito pouco para além de deixar que fizessem por mim: - dia, noite, vida e amor - Deixei que me matassem a morte e me abraçassem de vida. Fiz pouco, mas deixei que vocês fizessem muito, deixei que vocês fizessem tudo. Foi noutro século, noutro milênio e tem dias (todos os dias), em que preciso de me lembrar para me desentristecer. Que preciso de me lembrar para agradecer. Que preciso de lembrar para me alegrar... "

Fogo das marés

Inocência desfraldada como uma barca na maré, Creio num peito que não o meu, Num exercício cego de me dar, Acreditando no vento que sopra sem aviso, No sentir descompassado,sério e louco, Deste meu peito turvado de consciência ausente, Porque o amor não sente lúcida a razão, Porque o amor vive somente do fogo desfraldado do vento e das marés.  

A aproximação da morte potencia a vida

A aproximação da morte potencia a vida.   É como um jogo, querer viver em pleno a cada instante que a morte se abeira. Com a idade, o valor da vida retorna ao seu valor real. Ficamos mais conscientes da dádiva que foi o desperdício do tempo miseravelmente gasto. Das noites desgraçadamente consumidas. Dos invernos desaconchegados e dos verões transpirados de gente, sem ninguém que fosse gente, sem pessoas que fossem alguém.   Com o tempo desgastado e sem regresso, cada dia é menos um, e os cumprimentos habituais sob a forma de um: - “ está tudo bem” ou “é mais um dia”- sangram num: - “é o que faço por ser” e analogamente “é menos um dia” - e, é esta a aproximação à morte que potencia a vida, agora num corpo encarcerado de uma alma mais serena e de uma vitalidade acercada de património vigente e ousadia desvanecida.   As mágoas já não são mágoas, passam a ser tesouros divididos com quem nos serões, escolhemos para nos acompanhar, nas escolhas de quem nos acompanha.

trans qualquer coisa

Para além de todos os sintomas não creio na esperança como um local recôndito e obstinado.   Creio na mudança do pensamento. Creio na mudança como solução dos sintomas que induzo, altero e transformo na reflexão dos meus sonhos.   Tantas tardes o mesmo caminho levou-me aos mesmo sítios com sentires tão diferentes.   Entendo que não é o caminho, não é o sítio. É somente a transformação reflexiva de querer transformar a própria esperança no mar que me invade, perturba, cresce e salva.

Medo IV

Que o medo aplane o medo. Que destrua o medo projectado nele mesmo. Medo para além de medo não existe. O medo é a antecipação dele próprio, se não, não seria medo, seria coragem, coragem de enfrentar o medo de ter medo.   O medo e o tempo! Não se sabe muito bem o que são os dois, o tempo e o medo. O medo e o tempo não têm existência que se meça ou realidade que se sinta. São transformacionais e não têm direcção, apenas têm como fim, antecipar.   Antecipar o tempo. Antecipar o medo. Ambos enquanto reais são acção. São ser. São construção. Ambos, enquanto não o são, são meras projecçoes de temor e de ausência, da decisão de saber mais fundo o desconhecido sentir, numa vã tentativa de adivinhação da vida.

menos imperfeito, longe da perfeição.

Já não existe mais mundo ou pessoas por dilacerar o que sinto. Já não há hipérboles ou figura de estilo que se afeiçoem ao pranto de felicidade que choro. Não recordo este choro de felicidade, este sorriso choroso que quero dividir. O meu corpo não reconhece estas lágrimas dessalinizadas, o sabor que o teu cheiro verte enfeitando a minha pele de luz.   Já não recordo, lembro ou conheço, este baloiço onde feliz me embalo e este céu que alcanço livre, de cada vez que ensanguentado me descubro imperfeito. Agradeço a evolutiva dádiva de recuperar, mudar, fazer. Agradeço a descoberta de ser. Agradeço a compreensão de me saber um homem pecador e convertido, um homem de caminhos mais abrangentes do que afunilados.   Inimigo da perfeição narcísica, rogo por manter a paz da imperfeição, a caminho da essência de ser menos imperfeito e longe da perfeição.

apreensão da consciência

medo do amor como se fosse perigo, perigo de ter medo ao amor, como um jogo de sorte ou azar, presa fácil do temor, apreensão da consciência, coragem desconhecida, fé e medo, amor fortalecido.

Caminho sonho afora

Perder-me  é a oportunidade de reflectir e aceitar que não me perco nunca, que apenas trilho o meu caminho.   É a oportunidade de entendimento que caminhar é o contrário de estar parado.   Percorro os caminhos que tiver que percorrer, mudando, recuando, avançando, mas caminhando sempre, enquanto o sonho tomar conta de mim.

capitaes da areia

O centrismo é ditatorial e impede de ver para além do mísero ego. Promove todos os conceitos que alimentam e cegam a razão por vezes sábia que, os anos, as repetições, os erros e os acertos nos dão.   Conquistar um egomaniaco é tarefa fácil mas pobre.   Há mais vida para além das certezas irrefutáveis. Há mais amor para além do amor. Mais loucura para além da loucura. Mais livros para além dos escritos. Mais poemas para além dos que gostamos. Mais gente para além da gente e, há mais pessoas para além da solidão.   Um egomaniaco é presa fácil de um "vendedor", tudo se vende a quem tudo compra, basta sublimar o "eu" do outro. Não há busca que satisfaça a falta de lucidez da insaciável procura. É como o arrastão na praia dos capitães da areia de Jorge Amado. Tudo se destrói na sua vulcânica passagem. Sem dó, consciência ou piedade.

Pudesse eu

Pudesse eu trocar de peito, de alma, de amor, de vida e de choro, abraçar cada madrugada sem querer saber das manhãs, de cada encontro vislumbre de encanto, de cada noite como folha branca virgem das palavras que choro, das vísceras desordenadas e das penas doridas por saciar.   Pudesse eu desencantar-me a uma ordem desobedecida de mim próprio, a um mar e à calmaria da planície, ao sôfrego querer descompassado e imundo do meu corpo, e há espera perturbada dos meus olhos, Pudesse eu querer a felicidade sem questionar o caminho desconhecido.

Esqueço

Esqueço por isso escrevo, Escrevo por isso esqueço-me, Escrevo por isso esqueço-te, Escrevo por por isso lembro, Escrevo por isso lembro-me, Escrevo por isso lembro-te.   Escrevo porque esqueço, lembro e sou.  

Quase que já não lembro o tempo

Quase que já não lembro o tempo, quando o tempo desistiu de mim, o tempo em que a angústia era a decisão.   Hoje, já nada decido e, a angústia já nada tem para decidir nos meus dias. Hoje, já nem recordo o rosto daquela mulher que chorou para não partir.   Hoje, já nem recordo a escolha, o cheiro, o nevoeiro de todas as manhãs, o nascer do dia sem sol, e o sol que nascia ao meio dia, apenas recordo os meios-dias de sol e as meias-manhãs de nevoeiro, o seu rosto, já não me lembro.   Recordo a voz. Era uma voz feita de sombra, grave, doce de silêncio. Recordo as mãos de aconchego e o timbre amoroso como gemia o meu nome.   Quase que já não lembro o tempo, quando o tempo desistiu de mim.

por inteiro, desfragmentada e disponível

Toda a humanidade sofre e se alegra com a natureza inteira, por inteiro, desfragmentada e disponível. Os homens não necessitam da tristeza que todos os homens são capazes de infligir nos homens todos. Os homens não precisam da raiva dos outros homens. Aos homens basta a generosidade da natureza, o entendimento das estações, a alquimia dos braços envoltos nas mãos que cuidam das flores, das árvores e dos rios.   Na velha rua que desço ao final de tarde anos a fio por desacerto ou ajustamento (nem sei), os homens são restos de uma juventude errante, os homens são a pouca idade na muita dor dos corpos que os albergam.   A polícia vigia a rua. Os homens têm a boca sem dentes e a alma sem esperança. Os becos têm mais vida nas horas mortas do que deus no céu designando o caminho do céu, purgatório ou inferno. Os homens desta rua já não podem ser escolhidos por deus à hora da morte, já o foram neste bairro da vida. A morte, deus, o inferno, a prisão, o purgatório, a dor, o céu, a fome, a depe...

siamês gostar

  O céu alberga siamês o gostar, Estrelas refectidas no rio, Perjúrio são as horas anteriores, Siameses sentires quando afastados, Esquecem o siamês sentir da noite, Unida por um sentir e dois corpos.

entre nós existe

Entre nós existe uma planície e horizonte para alcançar, uma montanha para ultrapassar, um mar para navegar,  vento para refrescar, sol para iluminar, noites para amar, madrugadas para espreguiçar, manhãs para caminhar, bosques para namorar, relva para rebolar, rios para banhar, mãos para dar, amor para trocar, bocas para beijar, música para embalar, livros para partilhar, peito para afagar e sonhos para concretizar.   Entre nós ... existe nós.

retorno

O retorno, essa forma divina de justiça é como as primaveras, regressam inevitavelmente.  Sempre!   Ao contrário, grandes discursos não provam a verdade, confirmam geralmente a mentira.