Postagens

Mostrando postagens de novembro, 2009

Conto do milhão de palavras

  Neste desabafado e plantado Blog de nome cardilium, este mês findo hoje, foi mês de contos. Mês de Novembro que me deu à luz uma filha linda, e, prenuncio de uma outra vida nascida a seis de Dezembro. Continuará a sua missão de ser apenas um desabafo, uma opinião, um devaneio, uma critica, um recanto meu, sem qualquer veleidade acerca de ser uma escrita de escritor, ou sequer bem escrito. É a amante de madrugadas e de intervalos de trabalho, e até de fantasiosas musicas dedilhadas. Tem conhecimento. Tem vida.   Um milhão de palavras não mudariam coisa nenhuma, já experimentei e ficou tudo na mesma. As lágrimas sabem a sal e fazem bem à pele e à alma. Lavam-na. Mil esboçados sorrisos dispõem. Sorrisos e abraços não encerram mentira. A mentira é um fenómeno que existe, apenas porque a verdade pesa mais e é mais difícil de saborear no imediato. A verdade degusta-se e não tem prazo nem validade. Vale sempre o mesmo. A mentira é como uma droga de ascensão imediata, que à posteriori se des...

Conto de um trabalho acabado

  Os resultados não são mencionados, são feitos e dão trabalho. É este o epílogo de uma semana de trabalho que não sinto. Trabalho desligado do mundo. Quase não sinto fome ou sede, e fisiologicamente fico descontrolado. Ligam-me os cigarros ao mundo, numa manhã que não sei se é noite, ou numa noite que não sei ser já manhã. Sei que a lua esta em crescendo e o meu trabalho cresce com ela. Liga-me ao mundo uns mails trocados de avaliação e reestruturação. Está feito, e agora que já passou fico vazio. Afinal eu gosto de trabalhar. Eu gosto de ter sucesso e de sentir que cada dia que passa, as minhas competências aumentam, e que posso cada vez mais, confiar na minha cabeça.   O busílis da questão é saber se posso confiar no meu coração. Um órgão hipersensível ao meu sentir, semeado de nomes lindos e rudes, ao olhar do coração dos outros. Já foi apelidado de louco, carente, frio, rude, amoroso, especial, terno, mau e bom. Sei como ele sente. Não sei como se sente. E não sei sentir o que se ...

Conto do índio petiz

  De mãos dadas avançavam cúmplices na direcção da escola. Separava-os um ano de idade e outro de nascimento. Ela de cabelo entrançado, ele desabotoado, ou de botões trocados nas casas onde deviam abotoar. Iam pelo passeio como lhes recomendava a mãe todas as noites antes de os beijar adormecidos. Partia todas as manhas para mais um dia feito de fadiga e amor. Petizes de ar sério e compenetrado como gente grande. Os seus olhares cúmplices protegiam um ao outro. O pai emigrara e não voltara. Conheci-os no caminho para a escola. No recreio era o meu amigo, bem como nas contas aprendidas, e nas palavras inventadas. A passarada acompanhava e misturava-se no chilrear do intervalo das dez e quarenta e cinco. Eu era índio enquanto a maioria era cowboy. As cabanas eram a mais confortável casa que algum dia tinha experimentado. Guardava segredos e protecção. Ficava numa fazenda de grãos grossos de terra, debaixo de uma figueira velha e redonda. Era forte como nós, os índios. Crescemos e a vida ...

Conto do que resta de mim

  O que resta de mim nestes dias, Nestas noites, Vagabundas, Onde o meu pensamento sai, Sem dizer onde está, Ou sequer onde vai.   Resta-me de mim, Um esqueleto, Seca brandura, E umas mãos, Resta-me o dia já posto, Restam-me sonhos em vão.   Sobram-me livros por ler, E uma criança a correr, Um bailado por visitar. Restam-me pedaços de sol, Um choro longínquo, Por decifrar.   Resta-me assim, Sobras de um tempo, De amigos por visitar, Um paraíso de cores bravias, Nem paz, nem guerra, Resta-me amar.

Conto do afago

  Dei por mim a fumar ao espelho, irreconhecível. Carregava no olhar esperanças. Esperanças são mais que uma, são desesperançadas despedidas, vicissitudes de palavras que perdem o sentido de tão gastas e repetidas que estão. As palavras esgotam-se e escasseiam. Felizmente são regeneradas num termo comum hoje em dia. São recicladas e soam difusas. Reciclam-se as palavras, fecundam-se e inventam-se outras novas por finar. Olho-me a um espelho novo que não está gasto pelo uso do meu olhar. Contemplo o desconhecimento e admiração do espelho de mim próprio. Apresento-me. Sou o JN, o eu feito de mim próprio! Reflectido, vergo-me numa vénia muda de palavras, elegante de modos. Sou uma visão errante, de um eu meu, ignorado. Afago-me num abraçado soluçado, desentendido e desconhecido afago. Sozinho num normal acto irreflectido, volto o espelho para a parede, não quero mais cumprimenta-lo à minha passagem. Olhos nos olhos de mim mesmo, revejo cada solidão, cada palavra desenhada sem sentido, cad...

Conto do prefixo "de"

  De cada vez que me dou ao mundo regresso ao meu casulo com uma soberba sensação de que preciso pouco mais do que de mim próprio, da minha genuinidade, conceitos e princípios. Existe prostituição, desonestidade e miséria intelectual. Existem exercícios intelectuais tão fortes que se podem mudar as estações, o mar de sítio, as arvores das montanhas. Pôr a neve na praia e a areia num pico de uma serra nevada. Pode-se até trocar o amor pelo desamor no minuto seguinte de se amar. Na verdade o que não se pode mudar é a admiração, que se tem por alguma coisa ou alguém. Perdendo-se a admiração, acabou. Já não se admira, não se ama. Não se admira, não se deseja. Não se admira, não há riso, muito menos existe choro. Não se admira não há vontade. Desadorar é deixar de admirar. É um processo doloroso e desistente, de tão raro ser. É um pensamento de impossibilidade. Impossibilidade de anavalhar ou golpear um coração pensado nosso. Impossibilidade de embalar uma noite como se fosse a ultima, mesm...

Conto da ponte parida do rio

  Peguei-te na mão e fui em direcção a uma ponte baixa que tocava no rio. Não entendi nunca se vinha do céu para abraçar o rio, ou se era parida pelo rio numa elegância que não fazia dela uma ponte. Sei que juntava as margens de um labor citadino, com a calmaria da lezíria. Tinha na margem plantada e um largo com árvores espaçadas. Na margem o canavial inventava músicas feitas de vento. Olhavas-me de olhos pregados no chão em movimentos de cabeça afirmativos. Com a minha mão dada na tua caminhamos pela margem de cá. Atrás de nós uma enorme tenda que me fazia lembrar um circo, animava a minha imaginação de arlequins de trompetes empunhados e rapazes do trapézio voador. Imagino um vinho transpirado, uma alma, um ritual e a forte e escura mancha deixada num vazio fingido e cheio. Cegam-me luzes fortes de arrepios provocados pelo teu olhar, pela tua passagem e toque. Escrever para mim é uma luta contínua contra a neurose em direcção ao equilíbrio e lucidez. É uma purga do que não se faz, o...

Conto de uma marcha de vida

  Outrora era um homem cheio de vida pleno de convicções onde o importante era ser genuíno e ser dono de atitudes irrepreensíveis. A vida dera-lhe muito trabalho. Dera-lhe o trabalho que o entretinha e o tornara sabedor do que fazia. Era detentor dos segredos e da magia de uma peça única e soprada de vida, saída dos fornos com temperaturas extravagantes. Ao cair da noite, depois de uma árdua jornada, amava a terra e cuidava dos frutos que dela colhia. A sua horta era um pedaço de terra confidente e confiável. Ouvia-o em desabafadas confissões, acerca das desigualdades que lhe enchiam a alma. Nalguns dias feitos de noite, pescava na porção de mar que apelidava de seu. Era próximo e percorrido de pedaladas fortes e vigorosas, pelos pinhais da sua casa ate ao mar, e do mar até à sua casa. Via em São Pedro o rio desaguar no mar, sem senti-lo realmente e verdadeiramente, desaguado. Rio percorrido entre um pinhal denso de historias até a exaustão. Rio feito de segredos e de pinhal verde de s...

Conto alucinado

  Que droga tão rara eu conheci, Mais rara que o teu sabor, Que me excita, aclama e acalma! Que me transpira, Seca e adormece, Que droga tão rara és tu!   Sem vendedor, Sem esquina, Onde se encontra! Onde se perde, Que me enlouquece, E sem sítio para comprar!   Entre mil cores sonhadas, O inferno, O paraíso! Que me faz sábio, Ignorante, Que droga tão rara experimentei!     Que me apodrece, E me encanta, Sem poder! Poderosa, Miséria encantada, Ilusão!   Que droga tão rara experimentei, Esta droga feita de ti, Pensante! Mortal, Indolente, Que não te ausentas!   Deixas a minha alma cair, De dor, Nem uma droga de droga! Me alivia, Aliviam-me os teus lábios, O teu olhar!   As tuas mãos, O teu sôfrego querer, A tua paisagem! A tua inexistência, A tua presença, O teu andar!   O teu balanço, A minha insónia feita de ti, O teu desquerer! O teu sublimado toque, Eu e tu, Que droga tão rara experimentei!

Conto visitado

  Fui visitar o amor Num degrau fresco e sombrio. Num abraço, No fogo, Numa vontade avassaladora, Nuns lábios suaves e quentes.   Fui visitar o amor Não o sabia a prazo, Nem à ordem. Lancei fogo, Num corpo cortado, dilacerado, Corpo amado.   Bocas sôfregas Paixão. Prendi-me, Senti-me tocado de um castigo desejado, Prendi-te, A minha boca reconheceu.   Visitei assim o amor Numa gargalhada. Pisei o perfume que a tua pele tem, Numa historia, Numa madrugada, Num poema.   Uma noite Um punhado de palavras. Uma despedida, Um beijo, Numa noite inteira, Visitei assim o amor.    

Conto da terra geracional

  Lancei um almude de esperança à terra. Uma porção de terra herdada, um pedaço de terra de vida, viva e fértil. Colhi de uma sementeira amada o retorno que a terra me deu. A fertilidade rosa branca de um estar, simplesmente por estar, sem esquecimento. Plantei numa pouca de terra uma árvore que medrou. Ganhou vida e embelezou os meus olhos, criados em mim. Dei nomes e apelidos ás minhas sementeiras. Nomes ternos de recordação e saudade, mais do que de sumiço. Nomes glorificados na existência e vivência de uma vida dividida, preocupada, partilhada, alegrada, de frustrações e sucessos. Plantei, remexi e cuidei, adubei e colhi. Apanhei as folhas e voltei a coloca-las no seu local. Escrevinhei num cheiro emanado pela chuva e dormi uma sesta à sombra do sol. Sonhei-me em pequeno numa corda feita de um baloiço segurado pelos teus olhos azuis e orgulhosos. Escrevi o meu nome na terra vindo do teu apelido. Escolheste o meu nome no semeio. Derramo a agua que verto no cuidar cuidado, com que ad...

Conto vivente do terço real

  Prendo-me em mil pensamentos sem cor. Mais um dia em que dezoito horas bastavam. Se ele há dias em que as vinte e quatro horas são menos do que precisava, este foi três vezes maior das que desejava. As horas num hospital não são horas. São agonia, impotência e a sensação de que o mundo nos é apenas cedido, até que alguém ou alguma coisa o queira. É assim para todos e não só para alguns. Se assim fosse essa parte estaria só disponível aos pobres. Felizmente é equitativo, embora haja diferenças de acesso. Mas isso vale o que vale. Para alem dos três terços a mais que alguns dias têm, a individualidade tem três terços a menos do que necessitava. Tanto que eu me queria ter divido ou poder tê-lo feito. Teria estado lá, aí, e aqui contigo. Mas como o dia tem as horas que tem, e a individualidade é una, retiro deste sentimento mais uma lição. Pertencemos onde pertencemos, estamos onde temos que estar, nas horas que a vida nos dá, e nos locais que escolhe para estarmos e sermos. Somos na ver...

Conto filosofico

  Filosofia dos porteiros das casas nocturnas bem frequentadas ou não.   Parecem se todos paridos pela mesma mãe. Escolhem todos o mesmo tipo de actividade diurna, normalmente ginásios. Tomam anabolizantes para inchar, e têm pescoço de porco. Cortam todos o cabelo no mesmo sítio. Vestem-se todos de igual. De negro escuro. São cinzentos e não sorriem. São mal-educados. Fingem-se distantes e abstractos. Absortos, imagino-os a fazer crochés no colinho da mamã. Acho-os sem apetite sexual e abichanados. Completamente o inverso da imagem tentada, em vão transmitir. Os das casas mal frequentadas, ambicionam subir na classe e chegar a um Kremlin, em plena 24 de Julho.   Segundo Immanuel Kant, que tentou compreender os limites racionais do comportamento humano e deste modo atingiu a discussão sobre o carácter formador da identidade cultural, a ponte entre um rigor conceitual, formador de toda a filosofia kantiana, capaz de abranger os conflitos humanos desde a consciência à prática, assim como ...

Conto da palavra

  Vou inventar três palavras. Palavras que murmurem, que pintem telas, voláteis, que não prescrevam no seu final. Palavras que sejam vivas, com vida e interactivas. Palavras quentes, fortes e coerentes. Palavras não esquecidas ou entorpecidas. Palavras ágeis de sentimento, mais do que de entendimento. Palavras com cores que abranjam todas as raças, credos e opções sexuais. Palavras de toda a gente e para toda a gente. Palavras para a vida, mais do que para a morte. Palavras que nos façam alegrar o sentido da mensagem. Inventarei assim uma palavra pincelada em cada boca, em cada par de mãos que entrelaçarei. Palavras doces, que se desfaçam de sensibilidade ao serem proferidas e abraçadas. Inventarei palavras adequadas ao tom de voz de cada pessoa e alma. Palavras que não castiguem, que irmanem mais do que afastem. Palavras mensageiras. Palavras que se construam numa gota de água de um ribeiro. Que cresçam num rio e se evidenciem num mar. Palavras que se festejem num oceano, fortes como ...

Conto desistente

  Quando um homem se farta de ser homem, Troca humanidade pela miserável essência.   Demente inventa a guerra, Alienado inventa o desamor.   Ergue lacunas do ego, Constrói discursos.   Delírios surdos, Iludido de si próprio.   Numa audição abafada, Teme crédulo.   Os seus condiscípulos, Afeiçoa-se á malignidade.   À força fútil de existir, Insignificante e leviano.   Produz desumanidade, Profícua e inglória.   Troca humanidade por miserável essência, Quando um homem se farta de ser homem.

Conto da canção de amar o mar

  A chuva borrifa-me a cara que o vento traz. O mar revoltoso enche a enseada de mar e cobre as rochas negras de uma espuma branca que se dilui como a neve. A junção dos elementos orquestram a noite. Uma música soprada pelo vento estridente imita um violino. O mar bate compassado como uma percussão tocada ao longe, mas audível  ali mesmo tão perto. A maré viva é entoada num vislumbre da junção do céu, mar e terra. O meu coração é desenhado numa concavada poça de água destruída e reconstruída à passagem. O meu pedaço de mar é enfeitado de sorrisos, musica, corpos imaginados e suados. É enfeitado de tranças, mãos, proximidade, paz e palavras mais sentidas, do que trocadas. A madrugada clareia de dia o nascer da aurora. Oiço um poema só por existir, questiono e recebo mensagens nas respostas que a natureza me dá. Acredito num Deus meu, iluminado e transcendente, que ilumina a aura. A minha pequenez é embalada em dois corpos que se querem, de uma tremura constante e tremente. Como diz o po...

Conto do ruído do silêncio

  Saboreio o ruído do silêncio. O mar em forma de baía cortada pela mãe natureza em dois montes ali colocados, separa a agitação, do sossego melancólico. Oiço dois sons. O mar mexido à entrada e o mar parado dentro da baía. Nem parecem mares do mesmo mar. Ao longe salpicado de luzes trémulas nas encostas, urge a urbe sem vida vislumbrada a esta distância. Deslumbrante este ruído feito de silencio. De quando em vez, um ritmado feixe de luz intervalado com uma buzina, dá sinais da terra para o mar. Luzes balançam-se nas ondas numa faina piscatória adivinhada. No alto donde contemplo tamanha harmonia, puxo de um bloco pequeno e vermelho e escrevinho. Escrevinho uma história de partilha que invento e desejava.     “Era uma vez um menino que habitava um corpo já grande e desenvolvido. Intelectualmente o quociente não estava de acordo com o quociente emocional. Era normal lavar os olhos com lágrimas de saudade e dedilhar canções que morriam ali depois de tocadas, sem sequer serem ouvida...

Conto balançado

  Numa batida com ânimo jazz, Energia forte, Suave e suada, Unem-se vontades, Não anunciadas.     As vontades deviam anunciar-se, Como a primavera, Ou o Outono, As vontades deviam, Agasalhar-nos.   E descobrir-nos? Não!   Numa batida Funk de cadencia, O verão cria noites, Ausência de sono, Corpos dançantes, Austeros de presença.   Vontade misturada! As vontades deviam, Autorizar-se!   Numa batida Soul, Corpos embalados, Conversas trocadas, Por olhares, Calmos e bailarinos.   Feito de estrelas. Os passos marcados, Liberdade roufenha, Numa voz negra de tão suave. As vontades deviam,   Balançar-se… no Soul!    

Conto da peixeira

  Já não há bancas de peixeiras a apregoar o pescado. O conceito de peixeira é actualmente instituído a alguém que tem a coragem pública de descompor arruaceiramente, utilizando linguagem aliviante de mão na cintura a condizer, de preferência na via pública, e, aos olhos do mundo e povo. Peixeira é quem o é não tendo imagem para o ser. A peixeira do chavão subentendido, de cariz popular e vernáculo desapareceu. Já não existe o apregoamento de indução sexual, que divertido e agilizado se tornava. O peixe e as peixeiras desapareceram dando lugar ás vendedoras de peixe iluminado, em bancas de hipermercado com luz apropriada que torna o peixe enganadoramente fresco. Tenho saudade das peixeiras e dos mercados de calão apregoando o fruto do mar. Saudade do “ai freguesa aqui a sarda é boa e tão fresca que parece viva”, “ ai freguesa a sardinha é de prata”. Vozes gritantes enfeitadas de lenços à cabeça. Mãos sabedoras e conhecedoras. Vê-las amanhar o peixe sem segredos, ...

Conto fora de moda

  O frio de Dezembro cortava e lacrava a fronteira guardada pelos carabineiros. O ano de 66 e a guerra do ultramar estavam em festim esplendoroso e sem sentido de estado. Era o estado novo. Guerra de miséria, fome, viuvez e órfãos. Tinha decidido não passar aquela natal e o início de 67, num lar que seria a guerra colonial. Feita de senhores feudais barrigudos da riqueza, expropriada pela força de trabalho dos operários, que seriam o Abril anunciado. Os poetas em Coimbra iniciavam os poemas de Maio. O Zeca, o Adriano, o Alegre, o Freire. O Maio de 68 romperia em França e as flores inundar-se-iam de música. Sentia todo este ardor dentro de mim e tinha decidido não passar este natal com a morte. Deixaria uma mulher sem marido, minha mãe e três filhos sem pai. Eu o irmão mais velho que levava o sonho no alforge. Sonho de Liberdade, pão, trabalho, justiça e vida. Saberia que as gerações filhas dos meus irmãos, e filhos dos meus filhos, cantariam este sonho sem medo e sem carabineiros, usan...

Conto do enfeitiçamento

  Searas de adolescência soltas do teu cabelo ao vento embargam-me o vislumbre. Queria ser o teu cavalo gracioso e alado numa alvura cândida e esplendorosa. Os anjos seguram-te o gracioso caminhar. Estrela de alva, madrugada adiada, por compor. Solto um ai grave, rouco e surdo, de uma saudade impedida mais que escolhida. As tranças afundam-se. Uma febril vontade de te ver para além das montanhas, verosímil e confundida por um discurso desconhecido que achas tão bem conhecer. Fobia da arte do desconhecimento raiado de certezas incongruentes. Quero ver o teu sorriso posto ao sol-posto. O teu cabelo segurando-te os graciosos movimentos que as tuas ancas enfeitiçam. Demência malvada, transfigurada. Quero sossegar os teus seios de encontro ao meu peito e abraço. Quero sentir-te arrepiada de um corpo que conheces. O trilho, ontem de senda em riste, veio ate mim e iluminou-me. Obrigou-me em juramento célere à promessa de me tratar bem. O sol poente tem outra luz, tem outra cor. Uma luz cega e...

Conto das estrelas cadentes

  Jogo ás estrelas, Baralho e dou, As constelações, Ferem-me e vou, De sorriso em sorriso, Parto, baralho e dou.   Estrela riscada, O teu nome, No céu, Fogo estrelado, Firmamento, Gloria vã.   Planetas, Hipotenusas, Ângulos rectos, Natureza geométrica, Respostas, Afectos.

Conto do muro por derrubar

  Em vez de comemorações nefastas de muros que caem e se erguem, falemos realmente dos muros que nos fazem criar distancia e avolumar preconceitos. Existem muros erguidos nas mentes das pessoas. Muros quase indestrutíveis e cheios de reserva e resistência à mudança. Muros que não nos deixam amar. Muros cheios de interesses materiais e egoísmo. Muros carregados de miséria intelectual. Muros que não nos deixam ver o amanhecer e o pôr-do-sol. Erguem-se muros diariamente nas mentes dos que tentam impor a sua vontade, em prol de uma desmedida cegueira mais cega que a cegueira de quem não vê. Olhos baços, muros erguidos e confirmados na desconfirmação mais básica da essência humana. Cansam-se os meus olhos e ironias nestes muros por derrubar. Como eu queria voltar ao útero materno e não sentir. Muros que são no fundo farrapos de humanidade. Muros grafitti decorados de vergonhosas cores e conceitos. Muros de intenções mais que de acções. Não sinto alegria em ver derrubar os muros. Não festejo...

Conto tocar-te com as palavras

  Mais do que escrever bem ou mal, escrevem-se boas ou más ideias, bons ou maus conceitos, boas ou más analises e bons ou maus pensamentos. Divagantes e/ou imaginativos. A arte de escrever pode ser tão ou mais simplista que a arte de não descrever, e atafulhar de adjectivos sem sentido um discurso. Sem sentido sensorial. Descrever com a alma eleva-nos, e leva-nos ou transporta-nos, para dentro de uma história, de um sítio ou de uma ideia. Torna-nos parte integrante e activa do que nos quer ser transmitido, criando o milagre da sudação pelas palavras. Arrepia-se-nos a pele nos parágrafos e chega a soçobrar uma lágrima num ponto de exclamação. Lê-se em cada pedaço de frase, uma leitura diferente. Mais carente, menos carente. Mais emotiva ou pragmática. Vê-se em cada bocado de descrição, a luz do local a que somos levados, ou de onde somos oriundos. Sente-se em casa sílaba lábios e beijos. Em cada exclamação a dúvida do caminho. Numa tal vírgula cheira-se até o arco-íris. Não se escreve b...

Conto do desaguamento

  A paixão conheceu-me mas escondeu-se de tão encantada que se sente por detrás de um monte longínquo. Distância feita de medo que julgamos existir. Dentre as máximas e as mínimas fontes do sentir jorram, brotam e gemem de uma encosta feita de nascentes sem o saber desaguado. A água é feita de paixão. Nasce assim, sem se saber desaguada e é neste percurso revoltante e revoltado, que disfarça a paz que fecunda a mente. Vontade de secar a fonte, sem ter vontade de a secar. A paixão não é um ofício que se aprenda ou se execute bem. A ternura é um apêndice da paixão. A paixão seca por dentro, uma vil e forte descompensação. Um desequilíbrio tão forte que parece não ter mais fim ou retrocesso. A paixão viva e experimentada torna-se na espera de voltar a ser sabida e sentida. Essa corrente descontrolada nasce sem saber onde desagua. É infinitamente efémera. Sinto um mar a flutuar dentro de mim, sem cais nem amarras. Uma cidade incendiada, um tribunal sem poder decisório. Um crepúsculo famint...

Conto de uma ano por inventar

  Rompe mais que rasgado o coração. Estoura na minha cabeça uma guerra de petardos. Qualquer barulho é mais que o suportável. As janelas do meu quarto têm grades, cadeados grossos e correntes. Há uma prisão em mim. Sinto-me só. Não, não me sinto. Estou só. Lá fora tudo igual. Esquinas petrificadas com seres sem rosto que se movem apenas numa direcção, a mesma que me fez chegar aqui a este quarto, onde só quero que passem os dias, e seja incendiada a réstia de fé férrea que me resta, depositada não sei em que parte de mim. Antecedem-se respostas ás questões. Similar esta forjada esperança desesperançada. A praça está salpicada de gente incolor e sem expressão facial. Os casais arrulham-se em discussões de sentido inverso, promovendo o anti-dialogo de quem já não se suporta. A música impede a comunicação e exalta os corpos dançantes embriagados e alucinados. Birrento tento transmitir do que se vive. Tento entediado falar de vida. Não sou visto nem ouvido. Sinto-me transparente. Não sou s...

Contos de um conto anunciado e repetitivo

  Demência colectiva de um natal que se aproxima. Noite que passo sozinho normalmente, e, é mais curta que a maior parte das “famílias”. Eu, quando são 22.30 / 23.00h estou despachado do bacalhau com batatas e das peúgas aos losangos que largam pêlo, que o primo Carlitos e a Ludovina, ofertam nas suas prezadas pessoas.   Histeria adivinhada a avaliar pelo que vi hoje num hipermercado perto de si. Balcão para embrulhos a funcionar. Dum lado embrulha-se, do outro põe-se laço. Linha de montagem de embrulhos, parameterizada e rentável. Uma loucura. Brinquedos amarelos, verdes, vermelhos, grandes, pequenos, de plástico, que fazem um estúpido barulho, e silenciosos.   Numa sala contígua abriu uma coisa chamada Book It. Vazia, ninguém por lá. Os livros empoeirados à espera que neles reparem. Livros para crianças de todas as idades, livros técnicos, romances, e até o famigerado “Caim”, enfeitam os escaparates cheios de ausência. Existe um balcão para vendas. Vazio. Um em...

Conto do Paul e da toca do lobo

  É místico aquele passeio useiro e quase banal. Não o é na pesada carga que encerra. A velha igreja em ruínas, a estrada de saltos e terra, o seixo, as horas por ali passadas. As searas de milho que anualmente se semeiam, crescem e colhem. O restolho que assiste às conversas, que escuta as noites quentes de verão, demolhada de beijos. O espiar dos amantes. A fonte que não seca. O cheiro a pinhal e a eucalipto. A juventude por ali gasta, a maturidade, a entrada pela idade adentro. Retorno sempre ao mesmo local que sendo igual, é sempre diferente. Aquele pedaço de céu, de lua e a porção de estrelas são dissemelhantes. Não é visto de mais sítio nenhum do planeta. Pertence apenas ali, aquele local, entre dois montes escondidos e um rio atravessado que corre em direção serpenteado até à foz, afluente de mar. Entre o Paul e a toca do lobo cheira a peixe pescado e grelhado. Os riachos que se cruzam num desenfreado labirinto, a passarada à solta, os espargos bravios e os agriões nascem numa d...

Contos de tu e eu

  Baldio, Terreno ocupado,   Tu, Miséria, Mãos rudes, Palavras alheias,   Eu, Salpicada, Torturante Deus, Secreto, selvagem, inventado,   Tu, Pecado inexistente, Sacro santo, Perdoado,   Eu, Trocada tisana bebida, Espírito adulterado, Confundido,   Tu, Sapiência desmedida, Experiência, Vivência,   Eu, Contos de verdade, Inventados, De partidas, Antes da chegada.

Conto da excitação sonhada

  Deito-me com o sangue a pulsar-me nas veias. Não há à-vontade. Não sei se espero que me toques ou se te toque eu a ti. Espero, fingindo-me em adormecimento. O cheiro a calor humano exala dentre os lençóis. Não me sei sabedor dos teus gostos e formas. Do que te leva ao revirar dos olhos, à gemideira e ao ranger dos dentes. Não me sei sabedor se gostas por trás, pela frente, se por cima ou por baixo, ou até de lado. Sei que me sinto carne viva fingindo adormecimento. Penso em cada milímetro do teu corpo lambido, voluptuoso, e no arrepio e perca de controlo que imagino vindo de ti como um vulcão. Sinto um libidinoso e sonhado pensamento, enquanto me finjo adormecido. Lasciva e obscena esta minha tortura. A tua respiração alterou, está mais pesada e profunda. Adormeceste com o meu adormecimento. Sonho agora com a tua boca em mim, todo. Com os espasmos que sinto numa explosão forte e lenta, produzida com a maldade que esse teu bem me produz. Olho os teus cabelos pendentes como fios de pra...

Conto do entristecimento

  Conto do entristecimento. Entristeço quando as flores que rego e cuidam de mim secam. Quando o terreno arável se torna infértil. Quando o sol se espreguiça e se ergue tarde. Entristece-me quando a minha voz não é reconhecida. Mais do que reconhecida, quando é trocada, banalizada ou confundida. Questiono o conhecimento, em que o gesto e o cheiro, seriam suficientes. Entristeço-me quando o desconhecimento não adquire conhecimento numa ignorância tão certa, que me fere mais ainda por ser certa. Uma seta envenenada cravada na minha alma. Fere-me a verdade única e reconhecível do sentir dos audazes, transformada e substituída. Ferem-me imagens desconstruídas num ápice. Desiludem-me construções metafóricas mais que metafísicas. Ferem-me análises desprovidas de fundamento e conteúdo. Fere-me e questiono a máxima, do “pode alguém ser quem não é”. Entendo finalmente que sou especial, pelo ferimento e entristecimento desilusório e recorrente. A poesia alivia-me. O entristecimento põ...

Conto do grão de areia que trouxe do mar

  Houvesse quem pudesse guardar aquele grão de areia que trouxe do mar. Houvesse em quem confiar aquela canção que encontrei na imensidão. Houvesse quem fosse o meu sonho feito de acalmia e pranto. Houvesse quem fosse a inspiração que deposito no linho onde me inclino. Houvesse quem fosse que fosse, mais que imagem projectada, desigual e trigonométrica. Houvesse quem ouvisse mais que escutasse. Houvesse quem mais admirasse que amasse. Houvesse mais definitivo que efémero.   Ai se... Vigorasse mais verdade que mentira. Vigorasse mais ternura, encanto e primazia. Vigorasse mais princípios, directrizes, satisfação e plenitude. Vigorasse mais aromas, cores, musicas, poesia e vida. Vigorasse o silêncio em troca de adjectivos cabisbaixos e modificáveis de uma noite. Vigorasse a sensatez dos defeitos.   Os defeitos são reais e inimitáveis. As qualidades são passageiras e forjadas.   Ai se vigorasse a força que habita dentro do espartilho........ e houvesse quem me guardasse o grão de areia qu...

Conto evolutivo

  Longe vai o tempo da espera. Esquina dobrada de um medo evadido sem motivo e sem razão. Sapiência da idade leva-me a descobrir outros mundos, repletos de novas razões e caminhos. Turvada a minha vista, aos poucos desnudou-se. Desnudou-se para a vida sabida existente e não frequente. Sabia que dali à morte faltava metade. Como tal a vida não cabia em si de contente. No meio da uma vida pendida, descobri o algoritmo genético. Baseado na solução, procuro o encontro na busca e na optimização. A evolução, a biologia evolutiva, a selecção, a hereditariedade, a mutação, e recombinação, estendem-se para além do meu ser. Reencontro o milagre desacreditado e omisso aos olhos dos que habitam numa mente cinzenta, rotineira e fechada. Dos que não se lembram dos encontros e do fascínio, do sentir das palavras partilhadas. Reencontro-me com as esquinas que outrora dobrava. A cegueira escassa da pobreza presenteada com a necessidade mais que a vontade. O prazer desinstalado submeteu-se ao deleite vá...

Conto do encantamento em palavra de só maior

  Pérola rara, Sagrada, Despedida, Inventada, Trança de vento, Sublimada.   Escadaria, Defronte, Rio, Estreito, Vigente, Ingrato.   Vestido, Seda, Boca, Trégua, Amor, Limite.   Paixão, Partida, Abraço, Calor, Desejo, Fim.

Conto do desencanto

  Apregoa-se com cores densas e musicas que fazem sonhar, produtos que fazem ser ou sentir bem-estar ou um imaginado estatuto. Basta ter aquele carro, aquela marca de perfume, uma casa no bairro xis, frequentar o restaurante da moda, vestir a roupa que nos cataloga, o telemóvel topo de gama, ou até ter os filhos a estudar no colégio tal. Tudo extrínseco e vertente da inverdade da vida e da verdade da depressão, neurose ou psicose que atinge a real vivência acima das possibilidade do século corrente. O interior pouco importa. Pouco importa que o ensino ensine mesmo e se acredite que o esforço e o trabalho valham a pena. A felicidade vem de dentro para fora e não de fora para dentro. A comparação ao outro é o pêndulo do sucesso. É mesmo o conto do desencanto.

Conto de S.Gião

  A correria tresloucada das crianças não pára. Satisfaz-me saber que na hora da merenda se aquietam. Lá fora o sol catraio dorme  repousado à espera que o entardecer volte cansado e se acame. Salpicam sóis à cabra cega. No jogo do “lá vai alho” o caixa de óculos é sempre quem leva com os outros em cima, também por ser gordo. Cruéis os petizes. O mais aplicado dos alunos é pobre em sais minerais e rico em polisaturados. As meninas de saia rodada e soquetes pelos joelhos fazem uma roda e cantam. Os rapazes travessos gritam mais que o mar em rebuliço. Dentro do meu carro leio um livro à espera do toque que traga a minha filha, e do abraço expressivo da palavra, Paiiiiiiii…! As auxiliares na ombreira da porta apanham os restos de sol amarelecido que trespassa as nuvens lilases e conversam desenfreadamente sobra a vida alheia. A professora mais evoluída fuma um cigarro de aborrecimento de ver-se ali plantada de catraios à ilharga. Observo os meus joelhos esfolados da bola...

Conto do Amor é sentir que !...

  Amor é sentir que o outro nunca morrerá, disse eu. As minhas palavras não pediram licença e entraram pela porta da cozinha que dava para o quintal e estava entreaberta. Assustaste-te. Cheirava no quintal a roupa acabada de estender, que tem um cheiro diferente da estendida por apanhar. A roupa acabada de estender cheira a agua, a estendida cheira a sol. Entretanto arrefecera. Estavam agora perto de zero graus. E zero é zero. Nem é positivo, nem negativo. Era assim a minha jornada quase travada e antecipada por questões existenciais. Estava a zero. Nos quintais sobranceiros ouvia-se lenha a arder nas lareiras. A luz ténue fazia as sombras terem movimento. As sombras movem-se com o fogo. Vi o que me parecia ser uma senhora idosa num movimento autista. Para cima e repetidamente para baixo, consoante a labareda aquecia ou procurava mais um pedaço de lenha por aquecer. A agua da roupa acabada de estender e o fogo autista do movimento, estavam presentes nesta minha transfigurada análise, d...

Conto de Finados

Ficcionado esta minha forma de estar, ser, pensar e sentir. Ficciono historias que me vêm do nada, Historias. Alter-ego que não é mais do que:   - Alter -ego do (latim alter = outro ego = eu ) pode ser entendido literalmente como outro eu , outra personalidade de uma mesma pessoa. O termo é comummente utilizado em análises literárias para indicar uma identidade secreta de algum personagem ou para identificar um personagem como sendo a expressão da personalidade do próprio autor de forma geralmente não declarada.   Para a psicologia, o alter-ego é um outro eu inconsciente.   Num outro sentido, o alter-ego de uma pessoa não é uma faceta escondida ou secreta da sua personalidade, mas sim alguém de muito íntimo, um amigo fiel e inseparável em que essa pessoa se revê e deposita absoluta confiança. O alter-ego é, neste caso, um perfeito substituto em que a pessoa pode delegar a sua representação ou outra função importante, na certeza de que ele pensará e agirá como ela pensaria ou agiria,...