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Mostrando postagens de dezembro, 2016

Escrever é o meu endereço postal preferencial

Escrever é o meu endereço postal preferencial. Gosto do silêncio que a escrita tem. Adoro as vozes que me envia e a descoberta do desconhecido sentir.  Gosto do ruído, da confusão e da paz que a letras somadas às palavras me dão. Escrever é o meu endereço postal preferencial, as minhas luzes da cidade, as ruas do meu bairro, as pessoas que desconheço, os homens conhecidos, as mulheres ausentes e a minha memória arrumada. Escrever é o meu endereço postal preferencial

Assim faz o amor à paixão, assim faz a paixão no amor

A noite cai, crua, cruelmente mata o dia, sem lhe conceder sequer mais um minuto de respiração, ávida e agonizante fecunda-se na pressa de nascer. Mais tarde, pela madrugada, o dia brutalmente desacorda a noite, e devagar permite-lhe a morte. Assim faz a amor à paixão, assim faz a paixão no amor.

o bordado das tuas palavras

“ … Este desassossego infindável de quem não tem um beijo como o bordado que as tuas palavras desenharam em mim. Esta induzida solidão de não estar no mundo, este meu corpo desiludido de corpos, desabusado de almas, há-de navegar um dia em paz na paixão da barca lançada ao mar... “

Noites de noite comprida

" ... noites de horas compridas , de relógio parado, de alma desabraçada. Noites de boca censurada, de mãos caladas, de voz emigrada. Noites sem noite pacificada, sem barco que me leve ou amor que me traga um beijo só. Noite de palavras mal escolhidas, desentendidas, vociferadas, ditas pela voz difícil da partida..."      

abstémio da assiduidade

“ … Começo a evaporar-me mal o sol se troca com a lua. Como se profundamente estivesse a voltar de um recobro, entre dores e confusão, anestesia e vida, morfina e amor.   Começo a evaporar-se assim que a vida me toca, entre o afecto e o desamor, entre a guerra e a paixão, entre o inferno e o pensamento, entre a solidão e, o burguês e abastado estar alienado e terreno.     Começo a evaporar-me assim que começo a habituar-me a ser presença. Concluo assim: que sou um abstémio da assiduidade …”

excerto de palavras por ver o sol um dia (155)

“ … Sabes, continua a apetecer-me o futuro. Não um futuro rápido. Pode ser um futuro devagar, onde nos demoremos lentamente a conversar. Um futuro vagaroso onde nos demoremos a rir. Um futuro onde vagarosamente nos demoremos a recordar um passado desfigurado de futuro. Sempre me apeteceu profundamente o futuro e, fi-lo. Fiz o futuro. Faço-o hoje. Fi-lo em noites acordadas depois de um dia de trabalho. Fi-lo em fins-de-semana fechado e agitado. Fi-lo na minha solidão partilhada. Fi-lo nos sonhos alcançados. Uns sonhos estão construídos e já não são sonhos. Outros são sonhos ainda, o que faz com que o futuro esteja sempre inacabado. Sem poder fazer amanhã o que somente hoje posso abarcar, continua-me a apetecer muito devagarinho o futuro, sabes? Voltou a embaciar os olhos e a gemer baixinho, sei, como sei!...”

Zeca Afonso

Vi morrer Catarina  E um pintor em Pinhel  Um general assassinado  Numa rua do chiado  Traz outro amigo também.   Torturadas sem dó Mais de quatrocentas bruxas  No comboio descendente  Senhora do almortao Indios da meia praia    Numa Grândola junto ao mar Num maio maduro maio Campos de  milho verde  Com a pide sempre em guarda  Embalo o meu menino d' o uro   Em novas coutadas Junto de uma era  Estrela d'alva chora liberdade Gritam poetas  Cantados por Zeca                 

Excerto de palavras por ver o sol um dia (189)

" ... a rua entre as casas onde mandávamos o nosso amor encontrar-se, já não existe. Morreu com a nossa separação. Apenas restam as árvores de onde caíam as folhas que nos encobriam. Sobram alguns beijos pelo chão que ninguém se dignou limpar. Talvez seja por não se limparem beijos do chão. Talvez seja porque alguém julgue que os beijos são pertences de alguém e, alguém um dia os virá buscar. Não tenho a certeza se vi umas lágrimas também. Pareceu-me. De relance pareceu-me. Mas nao tenho a certeza. O que tenho a certeza é que a rua entre as casas onde mandávamos o nosso amor encontrar-se, já não existe..."

Excerto de palavras por ver o sol um dia (154)

" ... Outra coisa que te quero dizer, alertar-te talvez, passar-te o que acredito, é que nem eu, nem tu, nem ninguém, vive com aquilo que sabe ou julga saber. Todos vivemos com o que não sabemos. Todos sabemos muito pouco. Os que vires na vida a julgarem saber muitas coisas, são os que nada têm a acrescentar-te se não, o entendimento de que necessitas para perceberes o teu lugar no mundo, e o que ainda te falta percorrer. Não tenhas pressa. Uma vida não te chegará, aprende devagar e com o tempo, observa a natureza, lê muito. Serás homem de cada vez que reconheceres o pouco que sabes para além de sobreviver. Vive-se com o que não se sabe, porque todos sabemos muito pouco. Sim. Todos. Muito. Pouco. És apenas tu, o mar, o vento, a serra, e o amor nalguns dias. Entendes? Sim. Percebo no meu silêncio que não desfalece de ruído...."

Excerto de palavras por ver o sol um dia (153)

" ... e mais, continuei eu. De cada vez que ressuscita um dia em mim é como se um bando de borboletas me acariciassem e protegessem. Já não tenho direção, perco-me nesta terra que sempre conheci, neste mar onde sempre mergulhei, nesta tristeza com quem sempre convivi. Finjo que vivo e vivo a fingir que vivo. Entendes ? Olhou-me como sempre sem me olhar, mas estranhamento sorriu e disse-me: o entendimento tens-lo tu, o vento, o mar, a terra, a chuva e tu próprio são a tua própria razão. O teu marcado território. A tua desilusão lúcida do que é a vida, o amor, as perguntas que anseias primeiro do que as respostas. Entendes-me tu? Pensei sossegado aquelas palavras devolvidas com o tempo. Devolvidas com o tempo. Aprendidas com o tempo e com o voo das gaivotas e o escutar do coração e do mar.  Sim entendi. Eu. O mar. O céu e sol.   

excerto de palavras por ver o sol um dia (152)

" … Sabes, às vezes habituo-me à ideia de que estou morto, e é terrível porque estou vivo. Habituar-me a um estado oposto aquele em que estou, é terrível. Estás a ouvir-me? Perguntei!   Respondeu-me um aceno sem olhar. Uma tristeza breve como uma labareda que ferve antes da seguinte. Continuei.   Sabes, alturas houve na minha vida, em que mais debilitado me senti. Estava a dar os meus passos, os meus primeiros passos. Nessa época tive por perto alguns amigos, conhecidos, sugadores de energia e atenção, companhia somente talvez. Não sei. Amigos não com certeza, porque os amigos são velhos como eu, e por cá continuam de vez em quando. Eram e são, pelo que vejo ao longe, uma espécie de empresários que põem os seus peões a belo prazer num tabuleiro, em que existe um presidente, mais espertalhão do que os outros, e um vice bastante limitado. Há um terceiro, talvez o mais inteligente, mas que não está para se chatear. É um homem bom. Infeliz por dentro mas esforçado por ser feliz. Desse...

excerto de palavras por ver o sol um dia (151)

excerto de palavras por ver o sol um dia (151) “ … Cansado de tentar esquecer-me de mim. Devo ter um enzima que me catalisa, que por muito que me esforce não me esqueço de mim, esquecer-me é lembrar-me, como me lembro, não me esqueço, disse. Ela continuava em silêncio a remexer as ervas com um cavaco na mão, como se eu não existisse, como se eu não estivesse ali à sua frente, como se não sentiss e o meu cheiro ou ouvisse a minha voz, como se não se lembrasse o que eu tento esquecer. Continuei. Já passei noites acordado, dias a dormir, já viajei, tentei sonhar sem sono com que conseguisse sonhar, sem matéria com que pudesse dizer, é isto, ou foi aquilo, e sempre apreendo a mesma coisa, não esqueço ou mato o que penso, porque me lembro, e as recordações são toda a minha vida por esquecer lembrada, sem que me recorde até do nome. Até dos nomes. Continuava remexendo as ervas que se amontoavam numa pequena pirâmide geométrica e perfeita. Ela sempre fora perfeita aos meus olhos. Sempre achei...

Reservado o direito de admissão

Propriedade intelectual privada, reservado o direito de admissão.   

Vai-te

Vai-te ser feliz, disse-lhe, enquanto eu esperava que o céu se esvaziasse dela.  

As religiões atrapalham a fé.

As religiões atrapalham a fé. Há urgência em voltar a ler. Ouço por vezes dizer que a educação é uma guerra perdida. Que não se educa por falta de autoridade disfarçada de pedagogia. Ouço-o, vindo de pais, educadores, professores etc. Vejo-o, quando vejo pais a acharem normal serem amigos dos filhos, e a não serem pais e amigos, que são coisas diferentes. Há que voltar a juntar sílabas e ler o que dizem as palavras. Enraivece-me essa coisa da tolerância. Tolerar é "engolir" o outro, promovendo a diferença de que o meu deus, se me enche na minha barriga. Não tolerar é aproveitar a oportunidade de estar com o outro, acrescentando e convivendo com a diferença, que o outro acrescenta em mim e eu nele.  Há que voltar a ler. Juntos.   Que a fé seja um caminho espiritual não religioso, desfeita de dogmas ou conceitos ignorantes, de vassalagem afecta a uma qualquer religião.   

Idealizada paz real

A paz idealizada não é a paz real. A harmonia nem sempre habita a paz. Na verdade, o homem sim, habita a paz que idealiza e a que consegue tornar real. É o idealismo enquanto necessidade a caminho da realidade. É a desnecessidade de passar a imagem contemporânea de felicidade e paz.  A paz é o idealismo do pensamento a caminho da paz real. 

Aprender a ser infeliz

Aprender a ser infeliz rende mais. É o caminho. Na felicidade todos nos movimentamos muito bem. É na infelicidade que a resistência é atroz e nos induz a falsa ideia de eternidade, quando na verdade as duas - felicidade e infelicidade - se completam na sua forma efêmera de colonização do ser. Uma sem a outra não existiriam. Uma sem a outra seria como o mar sem ondas, ou o sol sem a lua. Seriam impraticáveis. Aprender a ser infeliz, importa-me mais do que o inacto que é a felicidade.  Aprender a ser (in)feliz rende mais ...  

Ausência vinculada

Já fomos quatro. Agora continuamos a ser quatro com alguma ausência. A mãe vinculou o seu estado. O pai ficou com a neta e o filho com todos, mais a ausência da mãe. Somos quatro, por enquanto aos pedaços do inteiro que já fomos.

24 dez 2016

Onde se troca pseudo solidariedade natalícia, amor e carinho, hipocrisia, falsa humildade e missa do galo, por pão, medicamentos para idosos, sopa e educação equitativa para crianças?   

23 DEZ 2016

" ... tomara que seja 2ª feira rápido, a ver se esta gente se esquece de que é boazinha, à parte disso "tenho em mim todos os sonhos do mundo"

sina no olhar

Famigerada fome farta excluída do que sinto,   Bairros de poetas pobres e sábios, Anónimos desconhecidos do sentir, São o mundo inteiro ausentes de multidão, Pecado livre e pagão, Mulheres aos versos, Musica não mãos, Ruas engradecidas, Do que se escreve com o coração.   Bairros da tristeza pobre, Opulento e felizes, Assim são os poetas que trazem o fado, em forma de sina no olhar.

Ousasse eu

Ousasse eu ser o que sou com o medo e seria o mundo inteiro atracado em mim...

Rua da rosa-dos-ventos

Rosa-dos-ventos, De vento poente, Casa e sol nascente, Pertença e jardim, Pétalas desvirgindadas, Flor e bálsamo, Perfume deflorado, Adocicado, Sem espinhos que me trespassem, Rua de dor, Rua de cor, Rua da rosa-dos-ventos.

Escurecida III

Se este meu mundo escureceu, onde ficaram as palavras emudecidas, talvez na fúria do silêncio, na feroz e entristecida ausência, ou na mágoa calada, de quem com a ausência morreu em partes não ressuscitáveis. 

Labaredas da minh'alma

Há uma dor aguda a atravessar a floresta. Oiço-a na agonia da lenha a arder na velha cozinha, nesta noite que já é noite desde o início da tarde. Há uma dor aguda a sair das paredes que gemem as palavras que escutaram, sem que em ninguém confiassem.  Há uma dor aguda solta na floresta, nas paredes desta casa, nas labaredas da minh'alma.  

terra antecipada à morte

Sossega-te na fé que dizes ter. Fica semeado o amor. A liberdade será vindoura. Acima de tudo está a humanidade e o abraço fraterno que sempre te pertencerá. A minha velhice será recordada na tua juventude, o teu sorriso, a tua poesia jorrada pelos teus olhos. A saudade será a alegre tristeza com que matarei a inutilidade mundana. Sou como sou, sou como escolho ser, sozinho, por adequar e, terra antecipada à morte.

Sem estação

Está frio este acordar. Nublada visão do dia que acorda desprendido de vida. É este o frio que faz. Não é da temperatura que está fora de mim que falo. É deste frio gelado que me habita sem se importar com o inverno.   

Homens a caminho da morte

Aos homens foi dado a mentira em forma de verdade. Terra e estações para cultivar. Vida e a lua para guiar. Foi dado paz para destruir. Mulheres para amar. Filhos para ensinar a voar.  Aos homens foi dado o que os homens retiraram. Sem deus para cobrar. Sem domingo para parar. Foi inventado o natal para nascer da morte que nasce nesse dia afinal.   

alma esfacelada

A minha alma precisa de horizonte, por ser espaçosa, não cabe noutra vida que não a minha.   Esta alma que se dilui na planície, onde sobra o espaço que me falta a mim.   Esta alma esfacelada de âmago, que não tem espaço para ocupar.

Dedos e mãos

"... era mais do que madrugada. Era o inverno rugindo em clarão. Era a esperança adiada. Era saber-te em viagem desregressada. Era ssber-te sem destino, que o destino não fora afinal aquela terra ajuntada de mar.   Foi não saber mais a quem doar a minha miséria transformada do amor. Foi não ter a quem depositar estes meus sonhos que levaste. Foi não acreditar mais nas entranhas feridas que arrisquei mostrar-te.   É estar por aqui a escutar o vento e não crer no perfume do pinhal que se solta nestas horas, em que somente o medo me aconchega a saudade das madrugadas em que sabia que os teus dedos seriam as mãos que se dariam às minhas mãos de dedos..."

Imprevisibidade

A imprevisibilidade do ser é a impossibilidade de prever a natureza humana. É a ilusão que o efêmero é definitivo e o definitivo realidade. Nada nos pertence. Tudo é orgânico e a prazo. Não existem terapias para o desamor. Existe apenas o amor, nas mais variadas vertentes.   

escrevo

“ … escrevo até o medo desaparecer no cantar dos pássaros que habitam as arvores que eu queria habitar, escrevo até a chuva lavar todos os campos que a minha vistam alcançam, escrevo até a solidão ser presença, escrevo até a estória estar acabada, escrevo até existir…”

Cada dia é novo

Cada dia é novo, Há dias em que me esforço para me lembrar que é dia, Para me recordar de mim e onde estou, Já que novo sou todos os dias, Como os dias em que sou.   Dar as mãos é dar sempre as mãos, Não se repete ou possui, A memória é o que suspeito, Já nem recordo o que fui, Recordo o que sou no meu peito.   O sorriso que escondo e não mostro, Não é por não existir, Vive em mim o que choro e rio, A vontade e o resistir, E em cada dia novo eu fico, vivo não vou desistir.  

Não há

Não há melhor poesia do que aquela que habita dentro de mim, Nem outra vida que não a minha, Música ou jardim por semear,   Não há, de existir, Não há, de cuidar.

Eu sou mais de ser

" ... há lugares que têm mais alma, não digo do que a maior parte das pessoas que conheço, mas de algumas pessoas com que me cruzo, cruzei ou até já privei. A vida tal como os lugares evoluem ou não.   Civilização não é sinónimo de evolução. Desertificação não é sinónimo de ignorância.    Assim é com os lugares. Assim é com as pessoas. Civilizacão não é sinónimo de essência. Desertificação não é sinónimo de humanidade, e a permuta de ambos também é verdade.   Somos o que somos, não somos o que temos. Já estive em lugares famosos e supostamente evoluídos onde não se pensa ou sente, onde tudo é induzido a termos “sensações”.   Já estive em lugares desertos e simples e senti-me cheio de vida e felicidade. As pessoas e os lugares podem ter pontos em comum ou não. Eu sou mais de ser, tenho amigos (que passaram a conhecidos) com quem já nem consigo falar ..."

"impresença"

" ... Revi-te.Tinhas um ar forçadamente feliz e uma imperiosa necessidade de te adequares ao ar com que te enfeitaste. Disseste-me: - estou bem - com um sorriso rasgado, triste e esforçado. Não se pode estar bem, quando nem sequer se está. Filosoficamente estar não é um estado. É tao somente presença, e, em presença, pode-se não estar. Foi esta a forma como eu me senti. Não estava. Logo, se não estou, não posso estar num estado de "impresença". Quando estou, estou. Bem ou mal, assim assim o que seja. Quando não estou, nao posso estar. Estar sem estado, é nao estar. Entendes isto? perguntei ! Sim, entendo. Entendo sem entender. Entendo sem conseguir chegar-te perto da alma, onde um um dia julguei ter estado..."

nata dos ais

Nesta encruzilhada não há norte, nem há sul. O fogo aquece o horizonte que se torna futuro com o cair do dia, numa luz soturna e difusa. O amarelejado floresce espelhado no bulício da alma. O entardecer sempre formou em mim, o aditamento ao adiamento. Não sei se as tardes conhecem os encantamentos que me conformam e equilibram. Esta época o que tem de bom, é que passa também. Não me imagino um fantasma cínico a vida inteira. Assim, como assim, estes dias apenas contêm vinte e quatro horas como todos os outros. Se o natal perdurasse mais do que as horas que os dias têm, imagino-me a enlouquecer podre e barbado por aí, morrendo de uma forma rápida, escolhida e apressada, de encontro à morte sentida, abalando assim, deste desnascer improvisado que é a vida.   Nestes dias passados, a natureza expressou-se em entardeceres, marés, céu da mesma cor que o mar e o arco-íris. Todos se expressaram em respostas às minhas ansiedades e silêncios. Não foram necessárias palavras ou iluminados e extemp...

Por dentro e por fora

Por fora não se vê o maremoto, Por dentro não se vê a serena floresta, Por dentro e por fora, Por fora e por dentro.  

Dezembro ausente

Dezembro não é maduro como Maio. Dezembro aproveitado pelo capital em nome do bem. Dezembro apalavrado não implementado. Dezembro encaminhado por reis que não são magos. Dezembro de paz podre, crianças ausentes e velhos doentes. Dezembro desabitado sem recordação de Maio maduro Maio. 

Moribundo

Não respondeste à carta que te enviei. Nela disse-te tudo,  escrevendo o que sempre me pediste para te dizer. Escrever é mais pausado, sinto mais a cadência com que te amei, o burburinho com que te amo, e foi nesta aflitiva vontade, que te escrevi. Espero a tua visão do mundo em mim. Até hoje nada recebi, sei que a tua partida foi parte da minha morte, em mim todas as árvores teimam em cantar como nas noites em que dançavámos, estão a decidir com que fresco me vao abraçar, com que sombra me vão sepultar. Aguardo as tuas palavras como a extrema unção espera o moribundo.    

tantas são as vezes em que a estrada me leva e trás a saudade e o mar,

"...  tantas são as vezes em que a estrada me leva e trás a saudade e o mar,   o destino em que nao creio se desvia, fazendo-me crer, que a loucura se estabelece quando me sinto lúcido, e que a lucidez e a loucura são a estrada, que tantas vezes me trás e leva, aonde não posso estar.     tantas são as vezes em que a estrada me leva e trás a saudade e o mar,

Orgasmos

há mais do que tu mesma nos gestos em que as tuas mãos se prendem,  muito mais do que esse teu ar me diz, muito menos do que as bocas dizem de ti, há mais cobiça, mais inveja, mais maldicência, que o teu brilho enfurece, quem não passou o deserto, e se desentende com o sorriso, que espalhas triste e alegre, na fé que te sai pelos poros, na respirada sabedoria de saberes existir outra esquina por dobrar.    há muito menos amor nas bocas dos homens que te dizer amar nos orgamos em que já não crês, dos teus orgasmos sabes tu!    

Alma gélida

Esta alma que me gela, despercebida, de sabor a mel, nos dias em que as horas se soltam, gélida e tórrida nos dias em que as horas se prendem ao coração.   Esta alma que me gela e aquece, na vil presença de onde não estou, que me aquece no desconhecido ser que eu sou, alma pura e conspurcada, pecadora despertencente, sã e salva.         

Irrecuperável

Um dia em que não ouça uma música que seja música. Que não leia umas palavras que sejam alma. Que não repare numa flor que seja vida, não foi um dia, foi traição há minha existência.  Um dia que não repare num dia, é a equidistância entre a vida e a morte a aproximar-se. Irrecuperável.     

Excerto xv

  "... Não vou esperar mais pela madrugada, o pôr do sol, por deus ou pelo demônio, ficarei com as palavras que desentendem o meu entendimento, retomarei a minha condição de náufrago sobrevivente, lançarei ao mar todo o oceano que me invade, toda a vergonha e o medo que tenho das pessoas e do mundo.    Não vou esperar mais, nem vou esperar menos, a sorte sai ao sábado na lotaria que nem compro, logo, não serei um dos eleitos do entendimento com que me desentendem.   Não sou uma pétala sem flor, sou todas as pétalas de todas a flores e a fotossíntese do meu ser.    Despedi-me assim da última mulher da aldeia, da última aldeia que existiu. Despedi-me sem flores. Apenas com terra e palavras.    Parti. Já não há gente. Só casas e bocados de casas, com pedaços de quintal e ervas que crescem mais do que o mar. Não sei se há mais mundo depois da falência da minha aldeia. Vou à procura. Não vou esperar mais pela madrugada, o pôr do sol, deus ou o demônio..."

Toda a beleza tem saudade

Toda a beleza tem saudade, sem saudade a beleza não sobressai, vamos de mãos dadas à espera que o sol nos queime, e o mar nos inunde de solidão feita a dois,  solidão feita na nossa greve ao mundo, que o mundo não foi construido para existirmos nele, foi feito para vivermos na democracia do regime que inventámos para nós...    

Acrítica massa esquecida

Já não há quem faça pensar. O exercício é contrário ao pensamento. Subjuga-se melhor um povo acrítico, do que crítico e pode-se até chamar governação. Já nao há poesia nas canções. A poesia incômoda quem não pode/quer ser incomodado. Depois há as extremas que são iguais, as de direita, as de esquerda. A homofobia. O racismo, a xenofobia, palavras que a escrita inteligente das novas tecnologias nem conhece. Convém manter as pessoas distraídas para uns quantos alavacarem as suas propriedades.  A distração acrítica promove o esquecimento da felicidade e liberdade e é pouco mais do que necessitamos para viver, tal é o valor que tem.    A poesia precisa de voltar às ruas, aos campos, às cidades, à vida, às nossas vidas.  

boémia fantasia

A minha boémia fantasia despedaça-se no teu olhar, encorajo todos os versos que sou, nas palavras que te quero dar, sem que consiga dizer-tas ou mostrar-tas, a minha fantasia já se deixou de boémia, serena agora neste silêncio em que todos os fins de tarde, folheio o livro por acabar, pelo saber mais do que pelo sabor.   Todos os livros me sabem bem.

6 dez outra vez

"..  De reconstrução em reconstrução por uma obra sempre inacabada..."

Jamais

Antes, sem que eu o soubesse já eras vida.  Depois, sem que eu o adivinhasse foste a antecipação da dúvida de sobreviver. Agora, és apenas a saudade chorada aos pedaços.  

Giesta

Gosto das sardas que te enfeitam a cara. Do ar inocente que espreitas pelo olhar. Do manso sorriso que transbordas ao psssar Gosto da giesta e da madrugada com que perfumas o ar.  

Derrota

Admitir a derrota é a minha vitória. Altura houve em que julgando ganhar, perdi. Foi assim que aprendi a saborear as derrotas como oportunidades de vitória.  Admitir é a paz do reencontro.

Dias demorados

Há dias que se demoram mais em mim do que outros. Dias de horas com mais minutos, mais dor e mais saudade. Outros demoram-se pouco, e tão pouco, só me sinto.   Há dias demorados mais do que dura o sol num dia 

Lobo autorizado

Avanço na floresta à procura da árvore que me enlaça, No lago, os lobos pernoitam a alcateia, Os homens riem na aldeia a cada gole estridente, As crianças e as mães tentam-se adormecer no silêncio da infelicidade, Eu procuro a árvore que me enlaça com autorização dos lobos.    

Partes

Há uma aparente parte de mim, Que não é parte, é necessidade, Uma parte crente no que não crêem os crentes, Uma parte descrente no que crêem os olhos de gente, Uma parte que tem horários, Outra que não é pontual, Várias partes que são somente uma, E parte nenhuma, Que é onde eu habito.    

Mente

Esta mente ruidosa não me me deixa a alma escutar a música que escolhi,  ou ler o livro que desvirgindo folha por folha.   Esta alma que me atraiçoa e doa. Que me desentende e aceita.Que me tem e exclui.Que me é e foge.Que está e desaparece.   Esta alma ruidosa e sossegada.A quem sou eu porventura, que já falto.  

Prefiro estar comigo a estar só

Comigo não estou só. Só, seria estar com gente e sentir-me só. Conheço os dois sentires e estados. Prefiro estar comigo, a estar só 

Hoje é o dia

Voltam antigas noites já acordadas. Não se dormem as mesmas noites, nem se repetem velhos amores ou amores que não o foram, assim como a mesma água ou dor não assiste duas vezes na mesma ponte.  Tudo é novo e primeiro. Tudo tem o seu tempo. Tudo é Irrepetivel. Tudo é irrecuperável. Tudo é: - um tornado de sonho -               - um vulcão de realidade - Passado é passado e memória. Futuro é a colheita. Presente a sementeira.  Hoje é o dia. O mundo. O oceano. A estação. A chuva. O sol. Hoje é o dia.

É mais fácil para mim, viver assim, sem “saquinhos”

  “... é mais fácil morrer, disse eu. Mais fácil do que crer nesta fé de hábito e batina, esta fé desgraçada e voluptuosa, irradiada de boas acções a cada dezembro, ano após ano, a cada dezembro frio e lembrado, esquecido em todos os outros meses de que se compõem.   É mais fácil morrer do que aceitar “o saquinho de plástico” que me doam, à porta do hipermercado onde compro pão e leite. Por norma, quem me dá “o saquinho”, tem um ar fantasioso de desgraçadinho ou beato, algo do género, não sei bem, uma coisa assim. É mais fácil morrer e é tão difícil decidir fazê-lo e, como o fazer.   É mais fácil encher o “saquinho” com latas, e pacotes, e garrafas, e sacos, e latas, e garrafas, e pacotes, e pacotes, e pacotes e entrega-lo à saída com ar fantasioso de bem-estar, ou ao invés, sair dignamente sabendo que a caridade e a maldade andam amantizadas e, que mesmo sendo mais fácil morrer, eu entrego o que tenho que entregar em mão própria, sem negócio ou ar fantasioso e perverso. Entrego em mão...

O amor não depende do amor

O amor não depende do amor. O amor, asseguro-o na admiração, na vontade de dar, no desejo de ser, na saudade de estar. O amor não depende em forma de dependência. O amor existe na forma mais livre em que a liberdade se expressa, orgânica, livre e plural. O amor, não sabendo o seu tamanho, conheço-o na sua grandeza. O amor, são as cabanas que em criança deixei, construídas nas arvores a que subi. O amor não depende do amor. O amor, depende do sentir cerebral que reside nas minhas tripas, cérebro dois da minha existência e do meu sentir. 

Liberdade é uma expressão

Há quem veja no céu apenas as estrelas, Há quem veja as estrelas num fundo escuro a quem chamam o céu, Há quem veja as estrelas e não veja o céu, Há quem veja o céu e não veja as estrelas, Há quem não exista como quem não vê as estrelas no céu, Há a quem o amor não aconteça, Há a quem viver não apeteça.   A liberdade nunca é de expressão, A li berdade é uma expressão.