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Mostrando postagens de abril, 2021

Ilha

Terra crua e nua de Nemésio, tão escura de verde de tanto mar a abraça-la. Sem queixume cria os seus filhos de imensidão e beleza pura, sem caminhos por percorrer. Sobra o mar, sempre o mar. Sobra o mar e a fé de que para todos os filhos outra terra será a que não foi. Sobram os olhos que sonham em silêncio. Sobra sempre o sonho que transborda a mar.

Casa dos livros

Um dia apercebemo-nos que os livros e as ruas estão em ruínas e as avenidas que lhe estão a dar lugar são casas novas às cores, mas os livros, esses, não envelheceram, muito menos mudaram de casa ou de rua. 

Sensorial e pensante

Jamais entrarei nesse discurso de frases feitas e manipuladoras de identidade e do não direito a pensar de forma diferente e autonoma. A cidade que eu quero visitar tem os caminhos que eu escolho para lá chegar. Escusam-me de me poluir com "vive e deixa viver", "só por hoje", "grato" e outras. Sou organico, sensorial, pensante, ser indivdual com escolha colectiva de minha decisão e encanto. 

a nitidez da percepção angustia-me a realidade

a nitidez da percepção angustia-me a realidade

quase abril outra vez em recordaçao desmemoriada

"... na rua que se cruza com o céu a amanhecer, jorra a luz que trepassa escuro o céu e os gatos imoveis lembram-me o pai do xico da loja de ferragens que diziam ter aquele ar sinistro dado pela pide. O padre recém chegado à envagelização tratava da sua absolvição, assegurando-o a máxima da mocidade portuguesa - "tudo pela devoção à pátria" - Durante 50 anos, analfabetismo, pobreza, tortura, mortalidade infantil e meia duzia a dominar duzia e meia, pela lei, pela grei. Outros quase 50 anos depois, restícios se incendeiam outra vez. Atenção, alerta. ..."  

Sem razão

Sinto o que não sinto pela razão na voz rouca e triste da emoção. Não ha razão no sentir. Não há luz na escuridão. Não há jardins enfeitados de cheiros a flor na triste remissão da alegria.  Sinto o que sinto. Sem razão.

Caminhante

Já não percebo que todos os caminhos acabem no cansaço do reencontro inexistente. Que todos os mais exigentes caminhos sejam a procura do desejo de estar acompanhadamente só em vocábulos similares de sentido comum, e cansaço fraterno partilhado.  Que os caminhos sejam o destino, é o sonho 

Idealismo

O centro não se segura no equilíbrio do meu ser. Sustém a impossibilidade de se equilibrar em ângulos que percepciono sem abrangência lógica equacionavel.  Depois, o amor tem nos dias o idealizado.

Companhia

Quando a minha companhia é a melhor das companhias, ou me habituei a ela numa espécie de vício confiável, ou nunca experimentei o amor. 

O fogo e as mãos, os beijos e o sonho

E foi o fogo que pôs tudo no lugar onde pertencia. As mãos. Os beijos. O sonho. E foi o sonho, os beijos e o que as mãos seguravam que mantiverem o fogo. O sonho e o fogo, as mãos e os beijos.

Sócrates sabichão

Não me indigna o que não me surpreende. A justiça ser um serviço pago tem muitos anos. Há muitos exemplos. Muitas famílias a pagar a absolvição de crimes. Muitos compadrios. Muito tráfico. Muita corrupção. Muitos directores. Empresários. Religiosos. Políticos. Nada aconteceu ontem com o sr Sócrates. Nada. Melhor dizendo. Aconteceu muito e grave, mas nada que me indigne porque nao me surpreende.  Continuemos a votar na não mudança. A cada oportunidade votamos sempre igual, logo só podemos ter igual. Bem sei que arriscar a mudança não é facil. Mas não vejo alternativa que  não seja mudar. Mudemos juntos a educação e juntos mudaremos a justiça.  Sr. Sócrates afinal tem mais amigos do que se pensa, porque saberá muita mais do que o que diz. Essa é a sua segurança. O seu seguro de vida. A sua reserva de propriedade. Idiota. 

Extracto de palavras por ver o sol num dia sem sol

Os solavancos da estrada que me levou até à hipérbole com que descrevo o bater deste peito ressuscitado, é a semelhança entre o caminho e a ansiedade, a diferença entre ficar sem sentir, ou arriscar partir e chegar. Descanso-me agora em frondosa e fresca paz, murmurada pelo ribeiro que me vem buscar pela mão, e me convida a subir à calma companhia de mim mesmo, na paisagem que agora me é pertença. Cheira a mato rubro e a estação viva. Ando devagar reconhecendo-me a este sonho que se vai realizando. A serra quase ali, a terra deixada para trás. Com outros olhos me vejo, os meus. Com outros olhos admiro a pequenez da grandiosidade com que me vi enganadoramente. Agora sou da minha real altura, do meu engano tamanho.

todos os finais e recomeços são avassaladores

todos os finais e recomeços são avassaladores

sala de flores

Vou estender-te no caminho a felicidade, pedir aos pássaros que visitem a tua varanda, e a mil flores de primavera que perfumem a sala de onde espreitas o mundo.

Corpo

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Corpo belo, triste, feio e alegre. Corpo louco e ausente. Corpo de passado, corpo de futuro. Corpo com história e ensinamento. Corpo jovem, corpo envelhecido. Corpo presente e distante. Corpo ausente. Corpo actual. Corpo de verdade, que sente e foge, que é gente. Corpo escolha. Corpo escolhido. Corpo saúde, doença e remédio. Corpo duro, resistência e tolerância. Corpo de vida, corpo de morte. Corpo, cheiro, pele e sorriso. Corpo de lágrimas. Corpo de homem que pariu. Corpo que ama. Corpo que mata. Corpo que cuida e maltrata. Corpo de corpo, sensível e destemido. Corpo sem pressa, corpo caminho. Corpo de luta. Corpo por bem. Corpo, beijo, alma e abraço. Corpo guerra. Corpo de paz. Corpo esperança. Corpo canção. Corpo poema. Corpo mar. Corpo madrugada. Corpo céu. Corpo sim. Corpo de água. Corpo amargo, doce e pranto. Corpo sempre, entretanto.  Mãos que me seguram. Pernas que me conduzem. Alma que me gere.     

Fonte e passado

O passado a existir no presente é como água que corre na fonte, não sendo a mesma, é.