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Mostrando postagens de julho, 2010

Viagem

Falta no um génio neste País que transcenda, que guie e seja escutado. O nosso barco naufragou. Voltar ao mar e navegar é preciso. É pelos olhos que tudo me entra. Em mim, as imagens são o que escrevo. Estou desconsolado vou estornar o caminho. Não compreendo, como ainda hoje haja quem entenda a guerra colonial como uma aventura.   Fazer amor com os pássaros, o sol, o mar, uma flor, uma enseada, ou uma madrugada é tão forte como fazer amor com a mulher amada. Faço amor de cada vez que me imobilizo incrédulo, com o que se me depara do nada. Sou crédulo na mãe natureza. Faço amor com a lua cheia, com os sorrisos e as lágrimas. Faço amor com as cores e os romances. Com os pensamentos e as palavras. Com o que escrevo e o que não digo. Com o que não escrevo e com o que digo. Faço amor apenas porque o amor faz.   A coisa mais difícil e apaixonante é ser-se homem. Tenho um pai homem. Não guardo a ingenuidade da infância como sonho. Vou fazer um monumento de imaginação. Esmaguem-me. Já senti m...

As Putas

A Puta que ama todos os clientes, Depois do banho apenas ama, O seu filho que é um homem. A Puta que morre todas as madrugadas, E ressuscita depois de almoço, Quando vai para o trabalho, A Puta com sabor a látex, Corajosa e guerreira, Que deita nos seus lençóis, A incerteza do prazer alheio, E a certeza do alheamento ao prazer. A Puta referenciada, Pelos cobardes, E usufrutuários, E pelas mulheres dos mesmos, E as outras, A Puta mãe, A Puta filha, A Puta mulher e humana.   As putas sem nome, São mais putas, Que as putas com nome, Dá-me asco as putas finas, E medo os filhos da Puta, Que furam vidas, E entram quando menos se espera, De espada em riste, As menos putas, Por si só, Aos meus olhos metem-me dó, As putas putas com decote, Fantasia, olhar de archote, E caminhar de nádega solta, Loiras de semana, Ruivas à noite, Morenas de alma, São como actrizes, Que representam, O que as menos putas, ausentam.

Como pode um abraço ter o mundo inteiro nos braços?

Solto ao vento rasgo os caminhos de terra que me retiram o cansaço acumulado. De peito voltado ao céu, cego no firmamento e pouso-me repousado na terra que sobra ao vento baixinho, embalando-me. O mato crescido faz-me sombra e corta a luz forte que me apaga.   Ao longe os pássaros em bando desenham flores e cores com o seu voo no céu. Adivinham o acordar do dia seguinte sagrando chuva. Dançam baixo e em redondo anunciado a volta do tempo. De vez em quando existe um feito artista que comanda e diverte os riscos no firmamento. Entretido com esta obra de arte admiro o momento.   Relembro os meus amigos na urbe sofrendo em esplanadas cheias de olhares desobrigados de nada e palavras somadas de moda e conceitos arruaceiros e banais, construindo uma imagem que para ser aceite não pronuncia verdades por aí além. Apetecia-me ter comigo aqueles com quem converso feliz e veloz sem balbuciar uma palavra que seja. A magia que privilegio em conversar com o conhecimento adquirido e os raios de olhar...

É como no poço da morte

É como no poço da morte, É como no poço da vida, De que cor é o amor? É da cor dos teus olhos, Pode ser rosa, violeta, Escarlate, pérola, marfim, Tem início e não tem fim O amor não tem cor, Tem sabor e sensatez, Porque se amando uma vez, Amar-se-à mil dias seguidos, E mesmo que o amor ausente, Será sempre presente, E a cor dos teus olhos, Mesmo sem cor, Têm a magia, Do tom que os teus olhos sorriem, É como no poço da morte, É como no poço da vida.  

Pôr-se....

A vida segredou-me não existir a expressão tarde de mais. Ouvi-o no retrocesso dos dias abandonados por descobrir. Acordar foi o martírio dos dias exilados e ausentes. Nas noites “desensonadas” e transpiradas não existe o sonho. Os deuses para além de desleais estão enlouquecidos, tamanha é a obra verde, azul, floresta, mar, céu, estrelas que concebem a perfeição exacerbada indominável e pacífica. Seduz-me não entender onde fica a foz e cai a nascente. Alicia-me não entender onde o sal dessalga a água e salga as ondas. As guitarras noctívagas gemem mais do que de dia. Os acordes suados encantam mais, tanto quanto a noite se abraça à madrugada. As fogueiras acesas num redondo têm magia, encanto, saudade e presença. Os deuses mesmo não se vendo concebem o cheiro que exala do calor das palavras que adornam as canções feitas de fado, mensagem, alegria e choro, suspirado de prazer. O mote da vida é viver cada dia como um final que se nos apresenta como presente, único, irrepetível, esperanç...

Fere

O silencio escutado Não fere, Não fere quando sozinho se exprime E acompanhado se ouve. Fere quando em companhia Não se avista, Se sente gélido e sangrento No silencio das bocas amarradas. Do medo de semear palavras Irreversíveis, Silêncio que faz o mar Coragem. Alucinação Cansado e bem, Sem ausência Com presença e melodia. O silencio Não silencia, O desejo As palavras por dizer. Desamarradas Destemidas, Destinadas Encaminhadas. Amadas O silêncio fere, E não fere E fere.

Estilhaços

Estilhaços de olhares vagueiam na rua que desce quente em direcção à praia que já sossegada descansa. Já passa das onze da noite. Do mar já só se vê a espuma e sente o sal marejar nos meus olhos. Sento-me em frente a ele e reinvento-me. Deito-me na areia e olho o céu que me dá a visibilidade estrelada de que o mundo é redondo. Enrolo-me em posição fetal e aconchego-me de pensamentos positivos e viagens por realizar. Aquele pedaço moreno de mar meu nunca me falha.   Só tenho sono nas horas em que estou acordado. Nas horas em que posso dormir fico acordado. A sesta já me faz sentido. Dormir a sesta é fazer de um dia, dois. A morte é irmã do sono. Morre-se de ideias e ideais. Morre-se de amor e solidão. Morre-se apenas porque se está vivo. Posso entender a vida como a opressão da alma e o maléfico querer material a prisão do espírito.   Nasci sem roupa porque me vestem no renascer da morte?   Quero ser cremado nu, tal como nasci. Quero que numa noite de luar me dediquem palavras sentidas,...

auto da felicidade

Auto-dominio, auto-imagem, auto-crítica, auto-conhecimento, auto-reconhecimento, auto-estima, auto-controlo, auto-piedade, auto-sensatez, auto-justificação, auto-tolerância, e tantos outros termos que nos transportam à auto-aceitação, são única e exclusivamente meios para atingir o famigerado fim.   A contemporaneidade das emoções e a modernidade da solidão dos tempos actuais alerta-nos.   Toda esta necessidade e abrangência de depositar em nós a responsabilidade e compreensão da auto-felicidade, declinam ser a nossa felicidade responsabilidade dos outros, em prol de ser da nossa própria responsabilidade, com tudo o que aí advêm, e da dificuldade da sua conquista.   Ser feliz dá trabalho. Muito trabalho.

Nascido de Cardilium

  ... Enquanto isso danço debaixo das oliveiras junto ás ruínas que se ergueram dentro de mim. Danço um som quente já partido. Lhasa de Sela embalou-me e manteve-me. Partilhou o meu sucesso nas minhas madrugadas de estudo. Fumou comigo à lua e debruçou-se na minha varanda. Fez quilómetros comigo. Recordo-a quando danço ou adormeço no nevoeiro que brota da terra e faz da névoa mistério. Recordo-a no momento seguinte com a amplitude de sentir o momento presente como nómada. Recordo pessoas por a recordar a ela.   Neste bosque que existe em mim perco-me. Perco-me em paz, sabedor que acharei o caminho. Sedento de vida despreocupa-me a morte. Fascinado pelo cheiro rubro que as giestas emanam, imiscui-me de mim num desejo. Sonho sempre antes de alcançar, o que prova que quem sonha sempre alcança e que nada se alcança, sem que antes se sonhe. Sonhar é o primeiro movimento de nós mesmos.   É como uma gota de água que faz o rio e a soma dos rios que fazem os oceanos. É como os mares e as marés....

Retalho de agua viva

Retalho, Agua viva. Seara, Vida. Um bocado, Um pedaço, A vida toda, Num abraço. A bênção, O céu. A estrela, Manto e véu. Altar, Celebração, Feito mar, O coração.

“desucesso”

Neste País constroem-se estádios de futebol que ninguém usa e as escolas que se usam fecham. O resultado, as analises e fórmulas matemáticas ou estatísticas do sucesso do investimento ou do “desucesso” da deseducação a olho nu se vê. É atroz e pecaminoso. Perverso e execrável.

Sete lagos

Queima-me este encontro das nossas bocas. A presença feita de nós. Encontro adiado, depois prometido. Percorrido e desejado. Este mar cavalgado de ondas em mim, salgado. Tempestade incendiada. Saudade. Mil estrelas no céu cadente riscado iluminam o teu corpo. Uma mesa de pedra quente espera os nossos corpos de madrugada. Ali mesmo ao luar os nossos corpos contorcem-se num desejo tocado e beijado. Transpiro de ti. Trago o teu cheiro que me adormece e afaga. Mil duendes e feiticeiros abençoam-nos. Beijo-te a alma com o coração, dizes-me estranho nas estranhas. Abraço-te. Parto acompanhado pela música que ouvimos junto ao lago adormecido desperto de nós. O vento quente da noite transforma o bailado num palco de árvores incerto. Corpos dobrados numa dança cadente embalados pela mãe natureza sem pensamento ou razão, animalescamente suaves e comprometidos pelo êxtase. Pinto este quadro inventado como se a tela fosse a vida, as minhas mãos um pincel, e a essência as cores da inspiração. Perco...

Desigual

Injusto este mundo antagónico. As mulheres olham de esguelha e muitas vezes de frente. O sexo mistura-se com a religião e as palavras orientadas pelo caminho sedução. Cristo e anticristo são próximos e a verdade só existe e é valorizada, porque a mentira é proeminente. Quem jamais deveria mentir não sabe o que é verdade. A verdade são sete letras como os pecados capitais.   O pecado é transgressão. É violação se outros seres se encarcerarem. A prisão é a liberdade que se dá a quem já não aguenta viver. Viver implica ser livre numa prisão. Prisões não são grades e fechaduras barulhentas ao trancar. Prisão é a mentira vivida como verdade. São discursos bonançosos, daqueles que ao ler penso   - “ Quem te ler não te leva preso”, e logo a seguir penso:   - “ Melhor levasse, seria em nome da liberdade própria e a libertação de quem se prende sem decidir”.   Liberdade é abrir mão e sofrer porque se acredita no renascimento da alma. O espírito sôfrego do ego é mentiroso, a transformação da men...

Pop Dell´Arte

Noite, o vento batia quente em direcção aos acalorados acordes que me chamavam. Cheguei e sentei-me na relva convidativa. As cadeiras brancas estavam ocupadas pela agradabilidade da noite. Disse para o meu amigo: “daqui a meia dúzia de cantigas estarão vagas mais de metade”. E assim foi.   O João Peste e os amigos trataram selectivamente do pessoal. Até os “betos” malucos que saltam por dá cá aquela palha, ao som de quase toda a batida, não resistiram à força da mensagem traduzida em acordes e conteúdo das palavras. Na verdade a musica que faz pensar não vende, não rende uma deslocação, não aliena da realidade. E assim regressei aos anos oitenta e à genuinidade das palavras abraçadas pela música dos Pop Dell´Arte, e tive saudades.   Melancolicamente vieram-me à cabeça duas ou três pessoas, curiosamente já não terrenas, mas vivas em mim. Comparei as noites de outrora e as de hoje. Havia lá sandalinhas douradas de tacão agulha na época. Não havia. Havia era ténis e pó, e cheiro adocicado...

Banquete

Deslocou-se o olhar que me afagou. Reconstruído pouso as minhas mãos nos joelhos e sento-me no jardim. No banco verde de ripas vejo as pessoas passar. Olho cada passada como se fossem minhas e engendro o caminho que fazem. Tenho fome. Fazer uma refeição só para mim é um acto de maturidade, é como se não fizesse sentido, pensar, preparar, ferver com amor, pôr talher e prato, e degustar-me. É como se o simples facto de me nutrir se tornasse num acto reconstrutivo de destruição criativa. Fazer para voltar a fazer, sempre igual e rotineiro, apenas uma necessidade básica à naturalidade da sobrevivência humana. É este conceito de necessidade básica que me ajuda a compreender o entendimento de necessidade básica.   Verifico que não divido as minhas necessidades fisiológicas, higiénicas, de reconhecimento e segurança com ninguém, então porque hei-de eu achar que a alimentação se diferencia das outras?   Concluo que é cultural, que alimentar-me não é mais que uma necessidade básica, porque cres...