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Mostrando postagens de setembro, 2010

Preciso de “mim” feito de um “eu” novo

Preciso de um novo sangue, de novas mãos e um novo olhar. Preciso de uma nova alma e um espírito aguçado. Preciso de um novo país e uma nova cidade. Preciso de “mim” feito de um “eu” novo. Encandeado de promessas submeto-me à vida. Prefiro ler poemas a ouvir os discursos dos políticos, prefiro um prado verde semeado de pão aos discursos miserabilistas e adiados. Prefiro um rio lilás a um mar sem marés. Gosto do sal brotado e silencioso que tempera o meu olhar. O Outono desprendeu-se em mais uma estação. Indiferente, o espaço reduz-se em partículas. As horas carregam a noite mais cedo. As manhãs frescas e salpicadas de orvalho despertam-me. Livre nasci, para viver preso nas horas falseadas de afazeres e responsabilidades que não o são.   - Não poderei ler ou escrever quando me apetece? - Decidir chorar ou sorrir no fragmento de tempo que mais me convir? - Saborear a lua batendo na recta de rio que desfalece nas margens? - Imaginar sóbria a minha loucura? - Não poderei nunca?   Como eu q...

Lenine e mais os outros todos

Disseram-me as mesmas coisas de Lenine e Jesus Cristo, de Karl Marx e João Paulo II. Não me disseram. Ensinaram-me. Mais tarde li. Disseram-me que todos defendiam direitos iguais para deveres iguais. Que a força do trabalho deveria ser distribuída equitativamente. Que a justiça social, o direito à habitação, emprego, justiça e saúde era um direito humano. Escreveram-se direitos humanos que não chegaram ao Dafur nem a Portugal pelos vistos. Ensinaram-me neste País pós cinquenta anos de ditadura que agora é que era. Ensinaram-me não, prometeram-me.   Continuam a prometer todos os dias, nos jornais e telejornais e diabo a sete. Promete o Sr. engenheiro que não é engenheiro nem primeiro-ministro. Prometem os adjuntos e os encomendados, promete a oposição, os secretários, os adjuntos e titulares, os assessores, os autarcas, os de direita, os da esquerda, os de centro moderado, os da esquerda chique e intelectual e os da igreja também. Todos prometem e ninguém cumpre.   Cumprem os seiscentos...

Mitos e ecos

Estou escondido numa folha de papel que não é papel porque já não se escreve em papel. Estou oculto nas palavras furtivas e recônditas. Levanto de mim poeira assente e exponho-me ao sol que me queima. Escondo-me nos finais de tarde por entre persianas semiabertas. Semicerradas de mim. Pálpebras ausentes. Enlouqueço o meu corpo de espasmos e vontades. Alegorias encantadas. Mitos e ecos. Nas horas longínquas e serenas adormecidas vagueio inerte. Sentado viajo pelo mundo inteiro. Viajo pelos meus livros e autores. Viajo no desassossego proeminente da minha alma. Na calmaria de espírito pousada no mar.

Pêssego lagartoso

Passei pelo luar esta noite. Estava cheio. Cheio de luz. Encadeou de chama os meus olhos. Lembrei-me do meu pedaço de mar moreno, que fica prateado em noites como aquela por onde passei. Esta noite veio-me o sabor a sal e a saudade aos lábios. Soltaram-se-me lágrimas desavindas, cansaço, e melodias que não tenho ouvido.  Veio-me inesperadamente a nostalgia das madrugadas acordadas por pequenos raios de sol e músicas em alaridos do lado de fora de mim. Rebentaram-me viagens, o cortar a serra ao meio pelo vale das vinhas mortas. O cheiro a mato rubro e giesta. As pedras desfalecidas e escuras do caminho. Os acordes que dedilho em silêncio e as musicas que faço indivulgáveis. Recordo o anonimato seguro e prazeiroso da grande cidade. O olhar perdido e depositado em cada onda amansada. Os cheiros. O cheiro a agua doce. O cheiro a agua salgada. O cheiro das estações e do pôr-do-sol. Do infinito. Os abraços cheios de braços envolventes e envolvidos. O dejá-vu contante, contente e desconsolant...

“Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar”.

A cidade enrodilhada acorda. Faço o caminho diferente do habitual. Não me apetece dar os bons dias do costume, à Margarida que me serve o café. Quero entrar de óculos escuros às oito da manhã e não ter que os tirar por ser Dezembro ou Abril. Não quero dizer ao gordo do marido da Cristina palavras sem sentido e de circunstância, ou à mulher dele aquele “sim, olá está tudo bem”, o que vou fazer, ou se a minha filha voltou, regressou ou simplesmente ficou por lá este fim-de-semana. O que eu quero mesmo é conversar com alguém que me interesse, entusiasme e me prenda de conversas e magicas prazeirosas e interessantes. Como diz o pensador, “se olharmos muito tempo para um abismo, o abismo também olhará para dentro de nós”. Olhar par dentro de nós é um exercício aterrador, ao mesmo tempo fantástico e libertador. A liberdade de encontrar, de saber mais e de entender.   “Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar”.   Friedrich Nietzsche  

Desvia despir-me de mim próprio

Desvia despir-me de mim próprio, despedir-me sem sequer ter que me despedir. Expulsar-me. Enfrentar as crostas sangrentas das palavras sujas e malévolas sem fundamento, desconhecidas. Devia desvendar o mel que me adoça a alma e que teimo em esconder com o ar rude com que me enfeito. Castrar-me é perder-me dentro de mim próprio. É labiríntico poder cruzar-me comigo mesmo, não me reconhecer e abraçar. Doem-me as têmporas. As duas. Dentro da minha cabeça existem imagens desarrumadas. A serra soluça ao longe. Os relâmpagos clareiam a noite soberba de arte. Corro para a chuva de braços abertos e de cara erguida ao céu. Que bem me sabe aqueles passos molhados da primeira chuva. A estrada luzidia reluz. A terra vertendo vida. Tenho saudades do tempo que ainda não veio. É como se quisesse apreçar a vida. Alcança-la. Ver a colheita antes da sementeira. Sou semente. Adormeço numa quietude inquietada com o acordar. Sonho.  Desminto os meus pensamentos. Creio. Avanço. Espera-me a sala quinhentista...

Mares, seiva, brilho e luz, demência, alarido, prossecução e visita.

Demência, alarido, prossecução e visita. Desentendido o poema que se crava autoritário e fascinado no peito desabitado de vida por habitar, constrói-se. Remexo-me sem encontrar a posição fetal. Letal. O vento dança com as folhas que já sucumbem nos ramos. Rompem os verdes camponeses numa azáfama rotineira. Os campos deixam em pó, os trilhos que se irão enlamear. A passarada à solta foge aos últimos tiros furtivos. Não tarda a névoa encobre a manhã. Os dias díspares serão desiguais pelas estações fora. Gosto do fresco que me enternece. O calor que invento, o meu mundo, a minha janela desenhada, as ruas movimentadas nas horas que antes eram de um calor irrespirável. Gosto do movimento e da praia chuvosa. Das nuvens escuras trespassadas teimosamente pelos raios de sol. Dos dias enormes de trabalho e pequenos de tamanho. Das noites longas de tempo. Dos beirais chilreados de pássaros, e da partida dolorosa e feliz da minha filha. Dolorosa pela ausência, feliz pela missão. O tempo avança des...

Observatório sul

Deixa arder o fogo que o teu coração emana. O coração não envelhece. Os corações aproximados não têm problemas de linguagem. Usam uma linguagem universal que detém todas a formas de expressão existentes. Não se alimentam somente de palavras.   Quando nos descobrimos, descobrimos que não vivemos apenas connosco. Descobrimos a presença, a ausência e o passado. Descobrimos quem por nós passou como se não tivesse passado. Descobrimos quem por nós passou, ficou e ficará. Esta inteligência emocional aguda desconsertou-me para me construir.   A minha imaginação pode fazer de mim um poeta. Os meus versos não são imaginados, são reais e fortes, são palavras desiguais e em conformidade. A minha imaginação pode matar-me e ressuscitar-me. Fazer-me nascer de novo. Nasce-se em vida mais do que uma vez. Nasce-se tantas vezes quantas aquelas em que se morre.   A nossa existência e a nossa vivência são a verdade que nos resta. A fé e a esperança são as horas do dia. A caridade as horas da noite. Já pou...

Impossivel ....

Nada é impossível a não ser aquilo que eu acho que é, disse eu à nuvem, que quase me tocava na cabeça de tão baixo que estava pousada no céu. - Olhou e disse-me: mas é isso mesmo o que estás a dizer, se apenas é impossível aquilo que achas que é, quer dizer que nada é impossível. - Não me baralhes, isso foi o que eu afirmei. - Não, o que tu afirmaste foi: nada é impossível a não ser aquilo que tu achas que é, e o que eu disse foi que sim, que apenas é impossível, aquilo que tu achas que é, o que desdiz a possibilidade do impossível. - Pois é, tens razão: Se apenas é impossível aquilo que eu acho que é, tudo o mais é possível.   - Sei tão pouco sobre tudo. Provavelmente existem mais possibilidades do que aquelas que eu vejo. Sei tanto de nada. Como eu gostava de ter a liberdade de morar no céu, mudar de cor e forma como tu mudas. Viajar por aí e tratar as estrelas por tu. Chorar água cristalina. Mudar do estado sólido, líquido e gasoso como se desvendassem segredos guardados uma vida. F...

Mundo feito de mundos

Eu sou um mundo feito de mundos, Mundano, Libertino, Demasiado mundo, Para se ser. Eu sou assim num mundo, Que não alcanço, Um mundo pequeno, Imenso Existente. Paixão, Guerra, Irracional, Um mundo assente em poucos, Emocional. Países absortos, Loucos, Afastados, Desviados, Desvairados, Mundo feito de mundos.

Principio, meio e fim

Entre noites e dias, claridade e penumbra, querer e não querer, vontade e anti-vontade, esperança e pôr-do-sol, madrugada e empenho, volto-me dorido de uma dor boa e suportável. Os sonhos habitam-me os raciocínios e ideias que executarei mal brilhe o raiar do dia e o sono se solte e apegue ao desejo vigilante de um continuado trabalho por findar.   Os dias lá fora são quentes e o verão espraia-se longínquo. Dentro de mim ardem reflexões e concepções. No tribunal as noticias são as mesmas, feitas de discursos eloquentes de culpa formada e contraditório ausente. Borrifo-me para isso, o poder resolverá. Penso nos fracos da história, os excluídos, os desacreditados. Sou solidário por convicção.   Enquanto isso, surgem letras contadas em cascata, juntando-se em turbilhão num lago que irriga os campos onde sei que florescerão frases, que na colheita serão parágrafos e farão sentido. O meu sentir é quebrado aqui e ali pelo modo terreno de existência. Desço à terra acordado por um café que não...

Só a fome é farta

Só a fome é farta.   Nos contornos da lua que não se vê, revejo as imagens que procuro no meu olhar, como luz feita em noite de escuridão. A lua está escondida, está a crescer, parece um baloiço   Já baloiçaste na lua? Já andaste de baloiço na lua? E com a lua? Baloiçaste-te? Embalaste a lua? E não caíste?   Já baloicei na lua, e já escorreguei nas nuvens   As nuvens não têm fundo. Não se cai das nuvens . As nuvens encantam-me, prendem me os sonhos feitos de brincar. Ensinaram-me a escorregar, o difícil é lá chegar. Saltitar por lá é como cantarolar por cá.   Ensinaram-me a sonhar, sabias? O sonho também se ensina, como a matemática. As estórias revoltosas são tempestades de paz A paz é o conflito de se chegar ao entendimento   Se da tua boca se soltam sons feitos de música na graça dos teus sentidos, embalas e sossegas os meus. Sossego-me antes. A paz é o adormecimento da alma, desassossego me por ti. O adormecimento da alma é o sono do espírito O teu desassossego faz me viver conscie...