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Mostrando postagens de março, 2016

na vida dos jantares de sábado ou outro dia qualquer

O dinheiro não interessa nas horas que voam nos nossos jantares, nem os carros, ou as casas, interessa-nos o amor de vinte anos, de trazer o mundo que não habitamos, para o sábado do nosso mundo, e aí nos despimos e somos, e as horas não são tempo, e somos vida na amizade que nos acompanha, afinal o que importa não é vida que fingimos, os negócios ou os cargos que ocupamos, importa-nos somente estar desabotoados, sem modos ou linguagem adequada, e sermos nós, na vida dos jantares de sábado ou outro dia qualquer.

Poema a uma empregada desconhecida da 5àsec

Poema a uma empregada desconhecida da 5àsec   Ainda a passear o ferro pela roupa perfumada? Ainda a cuidar do que me vai cobrir a pele?   Ainda que não saibas a quem essa roupa pertence, e o tamanho do ser de quem é propriedade, é nessa vontade de passear o ferro, que engomas a minha roupa perfumada, e depositas por lá a tua alma.   obrigado.

silaba por silaba

Silaba por silaba falei-te da minha intuição, do que nem deus sabe acerca de mim, do meu visceral sentir.   Mostrei-te a minha razão e sensibilidade, tudo o que se dilui em mim, a esperança, a confidência, o corpo.   Tudo te disse num sussurrado murmúrio, num grito roufenho desesperado, demonstrei-te na constelação das estrelas que caíam, no ultimo raio de sol, na lua azul do mar moreno, na madrugada e no amanhecer.   Nada foi suficiente, mesmo declamando silaba por silaba.

prisão pensada

Prisão pensada, adivinhada antes mesmo do sol raiar, o vento emudeceu, os meus pés já gastos do caminho, cederam à solidão, de estar sozinho entre gente, prisão muda, sem grades que me possam segurar, mais preso sou, livre, do que nesta prisão pensada.

O corpo de uma mulher tem palavras

A solidão é o argumento de espedaçar a ausência. Separa-me da minha última visita o tempo entre estar, e ficar. As minhas palavras são cada vez menos pronunciadas. Os assuntos são escassos e, nesta demoníaca e percepcionada vontade de conversar com alguém, o desejo de não o fazer sobrevive ao desperdício do tempo.   Afinal é comigo que tenho assunto e palavras.   No corpo de uma mulher encontro somente silêncio. Sem palavras, o corpo de uma mulher, não é o corpo de uma mulher. O corpo de uma mulher tem palavras.

Feliz errante

Feliz quem pensa no recato de si mesmo. Quem se informa. Quem procura. Quem não se vende. Quem não se entrega. Quem pode estar consigo. Quem consegue. Quem sobrevive. Quem sobreviveu. Quem pode ainda aprender.   Ao invés: Coitado de quem não tem paz no recato de si mesmo. Quem não se informa. Quem não procura. Quem se vende. Quem se entrega. Quem não pode estar consigo. Quem não consegue. Quem não sobrevive. Quem não sobreviveu. Quem já não tem lugar para aprender.   Feliz de quem tem uma história errante… Desafortunado de quem tem uma história sem estórias…

O mar cheio de flores veio despedir-se no dia certo

  O mar cheio de flores veio despedir-se no dia certo. O sal evapora nos meus olhos a cada vaga de despedida. Olho a terra. Decido as cinzas. Ficará a música que celebre a liberdade.   É nos versos do “meu menino é de oiro” que me quero despedir, e como num “sonho acordado”, dizer-te: “meu amor quando eu morrer veste a mais garrida saia, que eu vou morrer no mar alto e eu quero-te ver na praia”   O mar cheio de flores despediu-se no dia certo.

O túnel improvável da diferença

Foi noite todo o dia, Enegrecida a minh´alma esteve, Sem luz foi o dia inteiro, Recordação de um sorriso que foi choro em todas as horas, Na lembrança que sempre será mesmo que ausente, Presença viva despertencente.   Foi noite todo o dia, Sem saber-te, Sem o entendimento de entender, A noite que foi plena em todo o dia, O brilho, a ausência, O túnel improvável da diferença.

A relatividade das acções

Os grandes feitos da maldade serão pequenos se a mim não me servirem, e o meu número não é universal, e o meu passado não é vertical, e o futuro não o será igualmente, porque carrego humanidade em mim, porque peso tudo o que trouxe para esta viagem, que terminará quando eu não quiser, ou quando eu mesmo achar que deve terminar. A relatividade das acções é a mera cobardia das decisões.  

Este país repugna-me … por amor

Este país ensanguentado que padece de fobia compulsiva repugna-me, Repugna-me o excesso de futuro, a falta de presente, o esquecimento do passado, Este país que tem mar, sol, planície e a saudade para abraçar, Este país cheio de gente, sem pessoas, Este país ditador do sangue que nos corre nas veias, Este país carregado de desamor, entretendo a sua história com o presente envenenado, Repugna-me este país sem mareantes, Alentejo e povo, Este país repugna-me … por amor.

audazes amargurados

Não existe mais coragem na vida do que na morte. A vida não é uma escolha, sendo-o, à posteriori . A morte igualmente não se escolhe, é o mistério que ninguém crê e a todos abala. Cobardia não é enfrentá-la, decidi-la, escolhe-la! Isso é um acto de coragem, a que os cobardes apelidam de cobardia aos audazes. Despedidas são sempre amarguradas. Na morte reina o mistério de nada se saber. Viver, significa que a morte adiou mais um dia.

Este poema

Este poema é o som que oiço no meu silêncio, A calmaria que sinto na trovoada, O burburinho calmo da madrugada.   Este poema é uma tentativa, uma experiência, um ensaio, A compreensão do mar, A fuga e o ficar.   Este poema é uma música, Um jardim, uma alvorada, Este poema é tudo. Este Poema é nada.

há

Se abandonada de corpo a alma fica só, deixará desocupada a carne que será pó, ninguém sabe de alma, alguns creem saberem de vida, outros acham entenderem de corpo, redução mínima, do máximo que é o espírito, do excesso que é a vida, há uma hora, há uma partida.  

A quem vou doar todos os dias dos meus dias?

A quem vou doar todos os dias dos meus dias? a sombra da velha oliveira arredondada, o cansaço da íngreme rua que sobe em direcção a mim, a abrupta ausência de vida na cidade, as avenidas a correr de trânsito, a vida das pequenas ruas que frequento, os sítios de outra história que assisto.   A quem vou doar todos os dias dos meus dias?

ser no homem o que escrevo

Uma harpa brade uma adocicada melodia, induzo em mim uma sonolência de fim de tarde na minha alma, deixo-me resgatar por aquele corpo de mulher tocada em cordas afinadas, lua adentro viajo em mim como se a minha existência tivesse sido aniquilada, as pedras da calçada luzem à chuva que lhe cai, cresce de forma insegura este poema como mirra o dia antevendo a noite, invade-me o sabor da recordação dos lábios que me sorriram, cresce-me o sonho, o amor cruel, o desejo feroz, de ser no homem o que escrevo, a quimera feita de voraz vontade.

pés d´asas

Já gastei muitas palavras, palavras do tamanho do mar, palavras em prol do convencimento de que sou um pássaro, e que as asas que vês não são pés, e que os pés que observas, são simplesmente asas.   A minha ternura está cansada, exausta de ser amor, como te disse: gastei palavras, talvez afinal não as tenha gasto, porque as palavras não se gastam, as palavras reconstroem-se sem se despenderem.  

Comoção

Quando me comovo com os outros comovo-me comigo, Quando o nevoeiro cai sobre os teus olhos tolda-os de verde e enevoa a minha alma, Nasce em mim um vento macio que me acolhe, Um precipício e o paraíso, As sombras que saem pelas cortinas do tempo, Voltam sempre ao adormecer.

Forma

A forma ousada como murmuras o meu nome basta-me, Basta-me esse timbre, De ver os teus olhos quererem falar-me raiados de luz.   A forma como danças envolta na musica que te embala, Mesmo que não saibas quem eu sou, É a mim estrela de luar que encantas.   A forma como deixas fugir da tua boca flores de acácias, Como o teu cabelo se solta em fios desenhados, É para mim que sou descrente, fé e luz.

lembrança

Trouxeste a manhã clara e a penumbra da noite no mesmo beijo, Deixaste o mesmo sabor do abraço com que partiste, Ficou todo o mar que plantaste, Levaste contigo todas as flores que semeaste, A manhã clara e a penumbra da noite, Por ti foi lembrada … por ti foi esfaqueada.

dedos pisados das notas que não saem das cordas da minha viola

  Tenho os dedos pisados das notas que não saem das cordas da minha viola, recordo a conversa que tivemos sem palavras acertadas, sem sítio, sem luz, sem que conseguíssemos falar do vazio, aí, também o coração ficou pisado, como os dedos das notas que não saem das cordas da minha viola.

De um oceano inteiro só preciso de uma porção

De um oceano inteiro só preciso de uma porção.   Vagueio pela cidade embebendo cada recanto. Está fresca esta manhã. As ruas estreitas conhecem as pessoas. As avenidas desconhecem as ruas pequenas. A cidade reconhece as ruas, as avenidas e as pessoas. Paro-me num banco feito de cidade e deixo os meus olhos soltarem-se até ao rio. Esta cidade branca tem a luz que imagino existir no paraíso. A encosta ainda está sossegada de gente. Um velho músico compõe aos sinos que bradam, sai do seu saxofone agudas notas contorcidas nos sons que oiço. A música para mim tem porções de oceano dentro, estrelas, seios, lágrimas e agrado. Nas arcadas em frente ao porto, olho os navios depositarem-se no silêncio. Dentro de mim soluçam as recordações de uma outra terra, de uma outra vida, com ruas, avenidas e uma cidade reconhecida.   De um oceano inteiro só preciso de uma porção.

Todas as verdades

Todas as verdades estão sentadas no capitólio, As dementes, As forjadas, As falsificadas, As reais.   Todas as verdades são só uma, E todas são autenticas, As que se ousam insinuar, As que se arriscam cultivar, Todas as verdades se abraçam numa só.

Sofazando XIX

“ … Os corvos presos nos fios sob a terra arada de ti.   Não sei se em toda a minha vida foste a mais bela mulher que já vi, se todo o meu pensar foi puro e lógico raciocínio, ou se foi outra coisa qualquer que o meu corpo precisava e a minha alma clamava. Corpo saciado, alma inquieta e esfaimada. Nada acalmou nesta tarde onde as pedras se desenham transformadas. A estrada continua enegrecida junto à ilha, a terra escurece até ao caminho do mar, depois descerra-se a luz quando me entrego ao que me resta do dia, ao que me sobra das páginas por ler de um velho escritor que sangra com as palavras, que as alegra, que dança com elas e as trai quando as junta.   Depois, alegro-me porque a praia está deserta e o mar descontente. Depois, espero pelos antigos corvos misturados com as gaivotas.   Os corvos continuam presos nos fios sob a terra arada de ti … “

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  Ter certezas é viver no mundo absoluto. As dúvidas habitam no mundo real.  

fé

Percebo que sem fé é mais fácil viver e morrer, sem amor igualmente, com fé também, e com amor com certeza.   Percebo que sem fé é mais fácil resistir, a resistência à fé dá tanto trabalho que me parece ter mais fé quem tenta explicar a sua não existência.   Depois existem os silêncios carregados da inexplicável ausência de fé.   É isto a fé. A perda de tempo a provar que a fé não existe, tendo-a em nós percebida.

o fulgor, o declínio, o palerma e o idiota

Todas as questões pertinentes têm vida curta, todas as questões incómodas têm assassinos à espreita. Pensar não é recomendável, questionar muito menos, respostas? Impensável!   Em todos estes anos em que vivo e penso, a pior subjugação que vi foi a diminuição de alguém que pensa desvalorizada no seu parecer. Claro que há idiotas e palermas mas aí não há pensamento, há geralmente uma egomaníaca tendência ao desacordo por necessidade de brilho, aí não há nada a fazer, o palerma e o idiota fazem tudo sozinho, o fulgor e o declínio ficam por conta própria.

O resto não posso

Nada me dá mais prazer do que alimentar a alma. Não sei preferir um livro, a uma música, uma peça de teatro, a uma pintura, um filme a uma escultura. Todas, são o glorioso sentir que me acompanha. Posso viver sem muito dinheiro, um iphone, um carro de luxo ou luxuriosas refeições. O resto não posso.

preferência

Prefiro o ilógico de escrever palavras que se transformam nalguma coisa, poesia ou não, do que a incoerência de nada escrever, sem possibilidade de nada se transformar no que quer que seja algum dia.   Prefiro o fingimento do poeta que a veracidade de um cobarde.

O bairro da minha infância

O bairro da minha infância está em ruínas. Os velhos morreram. Os novos partiram e morreram também.   O Joaquim, o Paulo, o Zé Manel, a Palmira, a Elisa, o Tó Zé, a Luísa, o Hernâni, o Miguel, o João Paulo, o Vítor, o Júlio, o João José, a São, a Delfina, a Eunice, a Cristina, o outro Miguel, o outro Zé, o Antonio, o outro Paulo, a Maria João, o Joao Pedro, o Carlitos, o Francisco, a Amélia, a Maria, a Rosário, a Leonor, a Ana …. Todos deixámos o bairro da minha infância.   As nossas avós também nos deixaram. Os nosso pais também. Da minha infância aqui não passou tempo nenhum, mas as casas estão vazias e sem telhado. O bairro da minha infância tem um rio. O rio não está em ruinas, mas já não há cheias como as da minha infância. O bairro da minha infância tem uma igreja. A igreja ainda lá está e tem um sino, tem o sino com o mesmo badalar da minha infância. O bairro da minha infância nunca estará em ruínas, porque eu trago o bairro da minha infância, os miúdos, as avós, os pais, o rio ...

sorriso e calendário

Foi o sorriso e o calendário, Não conto mais os dias, Todas as datas me são iguais, Todos os dias são idênticos aos demais, Não tenho dia para rezar, Bem como noite para dormir.   Não rezo e não durmo, Quando o meu corpo cede deixo-o renunciar,   Quando a minha alma desiste não há oração para aliviar.   O sorriso e o calendário foram-se, Não há mais corpo, Cai gota a gota a vida como uma nascente seca em agosto, Não há mais corpo, foi com o calendário e o sorriso, Não há mais rosto, medo ou razão, e tempo também não, Esgotou-se no calendário como o sorriso que já nem lembro.

Sofazando XIV

“ … No campo não há menos sabedoria do que na cidade. A cidade tem na sua cosmopolitização, tanta sabedoria como ignorância. Fazendo das letras números, construindo uma equação, o vector nulo é a não representação de que quer que seja, é a não direção, é o zero como resultado.   No campo não há a matemática dos indivíduos, há a álgebra da natureza, existem pessoas, vizinhos, azeite, pão e lenha.   No campo não se pergunta: “sabes quem eu sou” porque a resposta é óbvia, “sim sei, és a cobardia”, de outra forma não perguntarias, dirias quem és, e entrarias na tua casa, onde existe sempre campo e cheiro a flores na mesa …”

separadamente

O prazer tem sempre adjacente a mágoa, O prazer tem sempre subjacente a inexistência do entendimento, O prazer, o entendimento, a mágoa e a inexistência, Coabitam os corações, Desabitam qualquer um deles, Isoladamente o amor, Separado nada existe, Juntamente tudo existe.

avassaladoramente

Cada momento da vida que passa nem sempre termina, não pode terminar se não deixar ir cada momento, deixar ir como um artefacto e permitir que fique como memória. Cada momento pode acabar sem terminar, se decidir não deixar ir. A memória atraiçoa-me.   Não tenho o passado no presente. Tenho no presente o passado. É dissemelhante este exercício que faço. Não tenho o passado no presente numa forma viva ou em possibilidade de vida. Tenho no presente o passado numa forma hedionda e evolutiva de aprendizagem. Também o tenho numa forma valorizada e feliz. Uma é a aparência que deixo ir. Outra é a configuração que guardo. Ambas são património. Ambas são uma decisão, o deixar ir, e o ficar. Cada momento de vida termina e cristaliza consoante a decisão que resolvo.   Sou atraiçoado e devolvido pela paisagem, cheiro, som, sorriso, abraço, vento, mar e poesia. Na poesia vivo por inteiro, completo e …- avassaladoramente -

A intimidade do olhar

A intimidade do olhar.   Raramente me olho mas vejo-me todos os dias. Vejo-me por fora e por dentro, por dentro e por fora. Raras vezes, são as vezes raras em que me olho e vejo. Normalmente em simultâneo e/ou conjunto, são raros os momentos.   Por vezes, acho que a solidão é não ter ninguém junto de mim. Depois penso que eu comigo não me dou mal de todo, e tem dias em que gosto das mesmas coisas, apetece-me o mesmo autor, a mesma música, a mesma praia, o mesmo pinhal, o mesmo farol, na mesma noite, na mesma madrugada, no mesmo acordar, no mesmo dia.   Raras vezes isto me acontece com alguém que não eu. Provavelmente, a solidão é apenas uma companhia discordante.   Eu com o meu eu não é bem solidão, será outra coisa qualquer, raras as vezes, em vezes raras, em que me olho, vejo e revejo … na intimidade do olhar.

a dos outros e a minha

“ … À medida que o tempo passa, faço cada vez a mais a vontade a quem tem a vontade como desígnio de si mesmo.   Deixo cada um ser como acha que é, e deixo-me ser a mim também. Vai resultando. Faço duas vontades na mesma deslocação, a dos outros, e a minha. A dos outros, porque não tenho na minha vontade o contrário. A minha, pela paz que me concede.   Não tento demover, promover, impor ou pensar em conjunto, pensar está em desuso, e gosto de fazê-lo sozinho. Habituei-me. Falo sozinho e tenho selectividade na escuta   Gosto de fazer duas vontades na mesma deslocação, a dos outros e a minha … “

Sofazando XXIII

" ... A esta cidade chamo Dezembro. Sem sopa e pão de uma forma igual e justa. Não há alegria na avenida da Liberdade, nem liberdade na praça da Alegria. Na estrada da Luz só existem trevas, e no Calvário, estende-se a cidade inteira. Em Belém não já não existem estrelas e os astros já não sobrevoam o rio. A cidade é fria e deserta. Sem sorrisos. Não existem olhos levantados do chão. É acinzentada, da cor de solidão, Os vestidos esguios das mulheres alegram-me um pouco.   A cidade está desertamente edificada. Nos jardins soa inerte o perfume das acácias. Esta estranha forma de existência tem gente. A solidão parece não ser solidão, e a amizade confunde-se com presença. O amor vende-se nas esquinas apregoado nos decotes atraiçoados. Esta cidade é como dezembro na minha terra. Os anjos estão recolhidos nas tabernas das ruas curtas, na esperança parca de que a fé os torne mensageiros. A cidade, a cegueira, o escritor. A cidade recorda-me o que não me lembro.   A vida e a morte estão ...

vida disfarçada

Terra semeada, Ano após ano, Vida vivida, De sementeira em sementeira, De safra em safra, É na lide que se escolhe a nossa história.   É no plural da mão que se faz o trabalho, É no singular do conceito que se tem o pão, O teu corpo sobrevive cansado à tua alma, O meu desejo já não tem choro nem exultação, Apenas os nossos olhos se entendem na poupança das palavras, Todos estes anos não foram tempo.   Todo este tempo não possuiu momentos, Todos os momentos não foram instantes, Todos os instantes não fecundaram ensejo, A terra lavrada, Depois semeada, Teve a vida disfarçada e ocultada em nós.

Sofazando XXII

"... Chove torrencialmente dentro de mim. Brados sufocam-me a visão e desentendo-me com o desconhecido. Desabituado a desconhecer o trilho, só me resta oferecer a minha mão e deixar-me guiar. Adormeço sossegado nesta turbulência que não o é, quando em presença. Todos os dias menos um, foram iguais na minha existência. Momentos iguais progrediram em mim em regressão, uns amorfos, outros desencantados, uns feitos de um falso domínio, outros de conhecimento, mas todos eles albergaram a mentira do entendimento, e a compreensão da anti entrega.   As ruínas apenas deixam de o ser depois da obra estar edificada. A surpresa da escolha, do escolhimento, ou apenas da disponibilidade do sonho, tornou real a conversão interior numa alteração partilhada.   Quando o céu se debruça e nos toca, as nuvens irradiam uma fragrância de flor. Quando a terra se rebola e nos atropela não resiste em nós mais o medo, e a confiança tem como resposta a expressão da natureza na nossa pele. A imobilidade do se...

Sofazando XXI

" ... Gosto das pessoas que me gostam mesmo quando não me gosto. Não sou fácil. Assusta-me a minha sedução pelo vazio, o inexplicável, o suicídio, a solidão, o medo, o desafio, a morte mais do que a vida. As partidas mais do que os regressos. As minorias, os bêbedos, os drogados e as prostitutas, são-me queridos. É como se a miséria colorisse a minha vida. Fantasio festins de alegria com as minorias. Vejo-me louco e feliz e felizmente louco. Nunca mais faço as malas e parto, arre porra!   Anseio real o pensamento. Sinto os lábios de rocha e pedra. Amo esporadicamente os momentos. Assim, antes da vida, do mar e da terra…Os acordes, o vento e os cravos”.   Este bairro que não sei se me habita ou se eu o habito a ele, está para mim como a minha terra esteve um dia, no dia em que saí de madrugada, antes que me desaparecesse a coragem, e, desorientado fico com a minha pertença, nunca sei se pertenço, se me pertenço, ou se sou pertencido..."

Sofazando XX

"... No meu bairro, o meu olhar vagabundeia no vazio da imensidão que me sacia no escuro entristecido dos meus olhos. Os meus passos escrevem palavras sem nexo, aos olhos da humanidade construída por eruditos. O meu passado, outrora descrito por um louco escritor que apodreceu entre as palavras, as garrafas, o fumo, e as mulheres que amou sem bem-querer, encaminha-me.   Li-o muito. Reli-o tantas vezes que me vi nele, tantas, tantas vezes, que me revejo nele.   O meu sentir único e exclusivo é-me querido. Cada voo de gaivota não me é indiferente. Pinto cada rocha como se fosse ímpar. O nevoeiro é em mim o arco-íris no delírio sábio da minha fantasia. Salto de sonho em sonho. Arranjo o tempo como se o concertasse e, escrevo. Exorcizo-me..."

O capital - Karl Marx

Deitas o teu corpo estafado de doze horas a obedecer, A promessa não foi essa, Pedem-te pão na mesa e um sorriso obrigado, A promessa de um filho não bastardo, Partiu no teu abril revoltado, A ceifa foi foiçada e tu a tudo, obrigada.   Leste o livro ”o capital”, Entre o medo e o querer, Foste na ceifa cantora, Vestida de persistência, Sabendo que um dia viria, Liberdade à resistência.   Cantaste o maio dourado, Beijaste a terra lavrada, A povo saiu à rua, O Zeca cantou liberdade, Eu morro agora por ver, O meu país a morrer.

inacabado

Na miséria abundante de vida renasce outro dia inacabado. Os dias chegarem ao fim sempre por acabar, reduz-me. Não recordo um dia completo da minha vida. É-me difícil esse exercício.   É como um poema que a cada vez que se lê, se acha, se encontra, sempre uma errónea silaba sibilante. É como a angústia de dar ao mundo palavras e pensamentos que não são nunca nossos e, nunca serão de ninguém. É como o quadro, sempre inacabado. A própria vida sempre por acabar. O beijo sempre desigual. As mãos sempre a procurarem a melhor forma de existirem.   Tudo me parece sempre inacabado, a começar pela vida, e pela vida a acabar.

pacto de deus

Todos os dias vejo mais do que queria ver, oiço mais do que queria ouvir, ando mais do que queria andar, gasto mais do que queria gastar,   Não vejo o que queria ver, não oiço o que queria ouvir, não gasto o que gostava de gastar,   Não decido, decidem por mim, quando decido já a noite vem desperta e eu adormecido, alguém organiza o meu estar social por mim, alegra-me saber que quem escolhe por mim, ou me escolhe, tem uma vida como eu onde:   - Todos os dias vê mais do que queria ver, ouve mais do que queria ouvir, anda mais do que queria andar, gasta muito mais do que queria gastar,   Alguém decide por ele, por mim, por ti, por todos e assim sucessivamente ….   Esta pequena reflexão fica inquinada acerca da teoria do “cada um sabe de si e deus sabe de todos” …………………………………………….deus não quereria isto, muito menos pactuaria

O labirinto oficioso da memória

O labirinto oficioso da memória.   É sugerido que a memória guarde o património oficial das emoções. A verdade é que o guarda e o transforma, como uma máquina onde se deposita roupa suja que se renova em limpa e perfumada. É isto que a memória vã me faz lembrar, a transformação que opera e que me induz ao pensamento: - “lavagem de roupa suja emocional”.   A memória manda o coração desvanecer, esquecer e negar. É bem verdade que todos os dias renascem novamente. Que os oceanos continuarão a ter marés, e que os rios continuarão a ter nascente e foz. É verdade que a solidão não terminará jamais. É verdade tudo o que sempre senti, sinto. Mudo eu, mudam os intervenientes, mas o que sinto já é antigo e de nascença.   Não descobri nenhum sentimento nas últimas décadas, tudo o que sinto, sinto há muito. A memória guarda e resguarda. As vísceras revoltam-se e apaziguam-se. A vida não é apenas a noite, e a noite tem sempre uma madrugada final.   O labirinto oficioso da memória é descomprometido ...

velha loucura

Aquela velha loucura que só foi amargura, Aquela velha loucura já só é a doçura da recordação, Já não lembro a dor, Já não lembro o pranto, Já não lembro a solidão, Vivo somente a recordação,   Indómita esta loucura permanente recordada.

Cuidarei eternamente do que me pertence

Na janela deflorada penduro sóis que guardei, Brilhos que trespasso, Em troca de pedaços de vida.   Nas escadas defronte da rua que desço, Calcorreio verde musgo entre as pedras húmidas, Um rosto antigo revisita-me o pensamento, mãe.   Ao céu declino o convite. Vou. Parto pensamento fora, no exercício que quero colher semeado.    Cuidarei eternamente do que me pertence, Terra, campo, poeira, mesas, portas, chuva, arco iris, nuvens, céu, lua, ribeiro, pão, semente, maças, cão, padre, carabineiros, contrabandistas, pai, filha, fado, - e de mim -

Não é uma questão de genéro

... Um homem sem terra como eu, talvez. Um homem sem homem dentro.    Há homens sem homens dentro. Nunca tinha pensado nisto antes. Há homens sem homens dentro. Há homens sem homens por dentro. Há homens sem olhar dentro. Há homens sem mãos que se lhe apertem. Há homens sem peito que se lhe abrace. Há homens sem sentir que se lhe afague. Há homens sem braços que se lhe segurem. Há homens sem caminho.     É disso que vou fugir. De um homem sem caminho. Ha mulheres também. Não é uma questão de genéro. É uma questão de humanidade ...

Despertencente parti

... Saí de madrugada antes que o dia me retirasse a coragem. Sem caminho. Sem terra. Apenas carregava em mim um furacão no peito. Uma dor que era mais do que uma dor. Uma saudade que sabia que iria viver todos os dias em mim, mesmo que a minha vida fossem mais horas, dias, semanas, meses, anos, décadas, do que eu soubesse que iriam ser. A vida seria sempre a saudade daquela terra doada a um homem que não lhe pertencia. Despertencente parti ...

Nada que pernoite património

Digo não, não quero, não vou, já não sou, não fui, alguém julga que eu sou, mas eu já não existo e nem eu já me acordo, já nem mesmo me recordo, de ser, estar, ficar, negar, ou querer. Sinto como se já não me sentisse e sentisse sem explicação. Já não me sinto sequer a sentir, e sinto que não sinto duradouro, o breve sentir já sentido.   Debruça-se inclinado sobre mim o medo, e sobre mim caem os alicerces pantanosos da construção. Tudo desaba na existência da desistência. Não me dou crédito ou confiança e, é de mim que desconfio.   Não me conheço ou reconheço, não me prendo, não me solto, e livre sou apenas solidão, e preso sou somente retiro, aborreço-me em exclusivo sobre o vento que me lava a cara, sobre a chuva e o dilúvio de sentir, que esta descoberta não terá vida suficiente para se plantar em mim.   Na escuridão da música que faço, na penumbra das palavras que me lembram o passado, aguardo em mim a revolta que calo, de não ser o homem, filho de uma mãe sem filho, filho de uma m...

mais do que juntar palavras

Quem não saber ler, pode ler melhor que o mais letrado idiota. Quem não sabe ler, pode ler melhor do que o melhor ouvinte dele próprio.   Ler, é mais do que juntar palavras. Ler é: dar sangue, lágrimas, vida, alma e a existência a nós mesmos a nós próprios.