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Mostrando postagens de outubro, 2011

Reciprocidade

À medida que crescemos não perdemos amigos, modificamo-nos. Reaprendemos então, e por força de um processo cognitivo/emocional/evolutivo, que os nossos amigos verdadeiros são os que, mesmo não gostando de tudo, em tudo, gostam de nós. À medida que caminhamos verificamos que a nossa pele estica ou encolhe consoante o peso que pesamos. Os amigos têm como normalidade encolher. Recordo-me ter vinte e cinco amigos do futebol, dezoito da natação, mais vinte da música, trinta e quatro da catequese. Por ordem invertida de factores tornei-me ateu, e, logo aí, perdi trinta e quatro amigos a quem eu apenas servia em número de fé, assim sendo, agnóstico, já não contava para a estatística e podia ir à minha vidinha. E fui. De seguida deixei de nadar em grupo. Acabou a idade do jogo de futebol. E fiquei só. Só mesmo só. Só de solidão. Só no meio de uma multidão e de um bairro. Outra fase. Os amigos do jardim-escola perderam-se para os do ensino básico, estes para o do preparatório, os do preparatóri...

O amor nos teus braços estremecidos de saudade, apetece.

Deita os teus olhos ao mar, Barca sôfrega de vida em ti, De nós, Veneno bom semeado e colhido, Plantado e recolhido sangue nosso. As sementeiras, Fora de época, Dentro do tempo que em nós existe,  Gritam mais, Do que o poeta na barca dos amantes. Mais do que naufragar, Existe o amor à tona, Tricota a sangue vivo, O nosso sonho, No firmamento. Atroz esta violência de inocência cega, Surda, Autista, Desperdiçada ausência, Senhora dos meus iguais sentidos, Desglorificada, Sem deus,, Nem o diabo. Profano, Sacrossanto, Herege, Obcecada alma, Espírito desassossegado, Musica inventada. Cravadas na areia, Desmaiam na praia as tuas mãos. Sabem a mel e alecrim, Ilha feita de sinais, Sem cais, Partida ou chegada, Não vou, fico, Acabo com os dias, Mudo o oceano e a solidão de porto. A tua presença, O teu corpo briga com o meu, Miséria grandiosa, Conspurcada, Sedenta de planície, De vento e jasmim, Sal dos teus lábios, Lágrima gemida e enfeitiçada, Passado, futuro, presente. O amor nos teus braços ...

Quem não sou

Posso ser mágico, pedreiro, artilheiro de fantasia, poeta, mecânico, ou até deus, mas jamais poderei ser quem não sou. Jamais me castrarei ou direi sim, quando quiser dizer não. Foi uma conquista que tanto e demoradamente me custou. Posso mesmo dizer que me atacou em créditos de sangue, suor e lágrimas. A vantagem de não me renegar, é saber exactamente o caminho que percorri, as noites que não dormi, e o viver na expectativa, do que ainda não me foi revelado. Essa primazia a longo prazo é-me vantajosa, porque me faz por inteiro no imediato, mas é uma atitude inconveniente e solitária.   A solidão não é a mesma coisa que estar só. Solidão é uma dor contínua, que nos azeda e ressabia. Estar só são momentos quase decididos, e como momentos que são, são instantes, logo vão e depois voltam. Hoje, no meio do bosque onde o cheiro a Outono já habita, e o fresco da manhã me desentope da civilização crescente, a que não consigo fugir, apeio-me da minha viravolta, olho o céu, elevo-me, mas não re...

A noite é de vidro

A noite é de vidro, Opaca nos sentidos, Translúcida à cegueira, A noite tem o teu nome, O desenho do teu corpo e expressão, Amanhecem nas tuas mãos, O conhecimento, o gemido, a presença, O suor, a vontade e o orgasmo. A noite é de cristal, Como a paixão, Razão irracional, Descomandada, Agoiro, Bom tempo.   Desejo, Que a noite nunca acabe, O que a ausência rejeita, Se a noite se amantizar com os dias, Os sentidos farão para sempre, O sentido que a noite tem.

Indignados

Desço a avenida. Envergo um cartaz. Peço por paz. Espera-me um homem, Enche-me de porrada. Castigo divino. Deu-lhe o Gaspar. Nem férias. Nem natal. Nem subsídio vai gastar. Olhei para o lado. Fiquei estarrecido O homem que me bateu. Estava rendido. Gritava revolta. E a sua conversão. Esperava-o o colega. Cego de razão. Deu-lhe porrada. Filho da puta. Cabrão. E mais uma volta. Indignados à farta. Desce-se a avenida. E já não há farda. Os que antes usavam. Gritam por pão. Querem nos filhos educação. Querem um lar. E direitos humanos. A pouco e pouco. A avenida fez jus ao apelido. Liberdade. Igualdade. Fraternidade. Desce-se inversa a avenida. Já não há porrada. Mudaram de sítio. Pelos filhos. Descendentes. Do sentido primogénito. Esta não vai com cravos. Escutei. Que paguem os culpados. Soltem os operários. Marcha solidária dos embuçados. Assim se faz uma nação. Paz, pão, educação, saúde e habitação.

Faço disto a poesia e aceito nos seus versos o destino.

Às vezes apetece-me morrer, outras vezes não. Ninguém está preparado para morrer antes de perder a memoria e, esta, segunda consta, perde-se de trás para a frente, enquanto a vida se perde, de frente para trás. Não se parte enquanto se tem amigos. Parte-se, quando se muda de consciência. Partir este figurado, transfigurado, cadáver de dor solta, desprezado e silencioso. Quando a energia nos dá alento e os livros conhecimento, parte-se de quem fica desconhecido. Não é uma partida de partida, é uma âncora desamarrada, um ir leviano aos olhos de quem fica, aventureiro e sedento de quem parte. A partilha diminui o infortúnio. O infortúnio deixa de o ser quando aos amigos já não interessa ser afecto, mas apenas existir aos vocábulos. Acredito na verdade relacional mais do que na fantasia relacional da verdade. O sentir é fugidio, mas quando adiado, esfuma-se como um uivo de um lobo, em prol de gargalhadas desculpadas de um “agora não me apetece falar/sentir disso” e desfazem-se assim as pal...

Um tesouro e umas ruínas

Quando decidido me enfrentei, descobri em mim um tesouro e umas ruínas. Descobri um tesouro de sensibilidade que se transformou em ruínas, à medida que os dias se aglomeraram, nessa senda espaçada de tempo em crescendo. Descobri igualmente umas ruínas por edificar, uma margem enorme de criatividade, uma bolsa de oportunidade e a reconstrução de um palácio desconstruído, mas que se manteve alicerçado à terra, essa terra fértil, onde apenas se pode levantar do chão, uma obra sã. Descobri uma sapiência desconhecida mas análoga a esse desconhecimento. Descobri um menino e um idoso. Um homem e uma mulher. Um rico e um pobre. Um democrata e um fascista. Descobri um fado e uma canção. Um poeta e um prosador. Um delinquente e um justiceiro. Um amigo e um inimigo. Um negro e um branco. Um índio e um cowboy. Um pássaro e um peixe. Uma madrugada e o solstício. Uma onda e uma maré. Um lago e uma floresta. Uma pétala e uma flor. Reconstrução é: saber quem sou. De onde vim. Para onde vou. O que é a ...

A fingir que está tudo bem

A fingir que está tudo bem, se vive. O tempo solta-se em brados pelas ruas e as esquinas da cidade ficam translúcidas nos encontros que marcamos. As pessoas encarnam sorrisos moribundos e olhares de soslaios invernosos. Ferve-me o sangue destroçado. A árvore, plátano centenário chilreia e agita-se por dentro das suas folhas. Amei-te, amámo-nos numa mesa de pedra por debaixo dela, madrugada embriagada aquela onde fingimos estar tudo bem. A passarada à solta espiou-nos mais os vultos que vimos passar. Em Outubro existe na lua nova, nos montes, nos rios, nas nuvens e no mar, o Outono. O Outono é a decadência e o declínio, o ocaso e o decrescimento. Os amantes do conhecimento apelidam-se de filósofos, loucos ou estranhos. Os loucos, excessivos ou arrebatados. Os estranhos, desusados ou misteriosos. Os filósofos excêntricos e lunáticos, ou mesmo indivíduos portadores de défice cognitivo. Tanta mentira, prenhe de tanta verdade. Os amantes por si só, carregam dentro do peito um mar incendiado...

O que saberá o Alberto?

A negação do desenvolvimento social da juventude está nas ruas. Estudar ou não estudar vai dar no mesmo. Desemprego. Esforçar ou não esforçar tem o mesmo resultado, mediania que se torna numa imagem de esforço com uma boa recomendação, a chamada “cunha” de uma forma dissimulada.Aprender não é importante e não aprender até tem a sua importância, retorna-nos ao tempo em que tínhamos um povo feliz pela desinformação e analfabetismo. A pouco menos de duas horas de viagem temos um exemplo bem vivo disso. Onde há a maior taxa de abandono escolar? A maior taxa de analfabetismo? De alcoolismo? De subjugação eleitoral?...  Na Madeira esse paraíso à beira mar plantado...   A Madeira escondeu 1.113 milhões de euros em despesas, que deveriam ter sido reportadas às autoridades estatísticas, mas foram omissas.   Comparando, o "buraco" da Madeira é superior à receita que o Governo vai arrecadar com o corte no subsídio de Natal este ano, que ascende a 1.025 milhões de euros.   Os cortes prev...

Eu sou de viver, não sou de existir

Entra. Podes entrar.   Estás sozinho?   Sim, estou sempre, respondi. Mesmo acompanhado estou só. A minha cabeça traiu o meu coração. Já estou esbatido deste sentir, o fogo percorre-me a cara, sinto-me quente. Empedradas, as minhas mãos estão calejadas. Presumo que o amanhã será como anteontem. Envelheço por dentro mais rapidamente que por fora. Também é certo que jovial me encontro, perante os demais da minha geração. Mesmo não vivendo de acordo com a fase em que me encontro, vivo. Eu sou de viver, não sou de existir. Existir, existe todo a gente. Viver, só vive quem escolhe. Há “coisas” que são autênticas montanhas russas na minha cabeça. “Coisas” vertiginosas. “Coisas” descabidas e sem sentido. Um dia tive um amigo que fugiu. Fugiu das noitadas dos amigos. Um dia sem sentido levaram-lhe os quadros por dinheiro da sua arte, quando apenas companhia seria necessário. Um dia, os meus amigos do meu amigo, pactuaram com a sua misarabilidade interior, raiada de vulnerabilidade, vertendo ant...