Reciprocidade
À medida que crescemos não perdemos amigos, modificamo-nos. Reaprendemos então, e por força de um processo cognitivo/emocional/evolutivo, que os nossos amigos verdadeiros são os que, mesmo não gostando de tudo, em tudo, gostam de nós. À medida que caminhamos verificamos que a nossa pele estica ou encolhe consoante o peso que pesamos. Os amigos têm como normalidade encolher. Recordo-me ter vinte e cinco amigos do futebol, dezoito da natação, mais vinte da música, trinta e quatro da catequese. Por ordem invertida de factores tornei-me ateu, e, logo aí, perdi trinta e quatro amigos a quem eu apenas servia em número de fé, assim sendo, agnóstico, já não contava para a estatística e podia ir à minha vidinha. E fui. De seguida deixei de nadar em grupo. Acabou a idade do jogo de futebol. E fiquei só. Só mesmo só. Só de solidão. Só no meio de uma multidão e de um bairro. Outra fase. Os amigos do jardim-escola perderam-se para os do ensino básico, estes para o do preparatório, os do preparatóri...