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Mostrando postagens de março, 2023

“eu não sou, mas tenho um amigo que é ”

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As tuas mãos labirínticas. O bairro desfalecido. A Inês que deixou de ser mulher para ser o Ricardo. O pré-conceito dilacerante e obstinado. O mar entediado com a maledicência. O Ricardo frágil. A Inês quase forte. Gosto dos dois, que um pénis a mim não me altera o gostar. A coragem vive mais do que a cobardia. Os drogados não se importam com a Inês.  Os alcoólicos "desimportam-se" com o Ricardo e, se ele pagar um copo, podem até dizer:                                          “eu não sou, mas tenho um amigo que é ” A Inês, tem uma amiga e um amigo que são.  São os dois no mesmo corpo: - paixão, coragem, mãe, madrugada, esperança, mundo, solidão e magnificência –  mas são do verbo ser, antes mesmo da maldita desdita.

Todas as noites que nos cruzamos sob palavras adivinhadas

Linda, no embalo dos passos dados, no olhar com que me ameigas, no sonho com que me abençoas, no semi-sorriso que arde em ti, nas mãos dadas que ficam na saudade, e de todas as noites que nos cruzamos sob palavras adivinhadas.

Insolvência religiosa

Estou em insolvência religiosa. Descobri também que o pecado é uma invenção e o amor um caminho para a redenção, seja lá isso de redenção o que for. Hei-de morrer um dia, desnascido, mas vivo, sabedor que não há maior prisão que a do pensamento.

Loucura do entendimento

Que tamanha loucura em forma de normalidade habita gente a quem nem o mar educa. (gostava tanto que os "chegas" desta naçâo o entendessem) 

As ruas da minha infância são sempre felicidade

As ruas da minha infância são sempre felicidade.

O futuro em mim, é o presente a dividir pelos dias

O  futuro em mim, é o presente a dividir pelos dias.

Felizes despertencentes

Felizes despertencentes, convictos poetas de abril e das primaveras.

Palavras e degraus

Estas palavras moram nuns degraus ondulados e gastos pelas passadas, são sombrias, e o amor sabe aos olhos de quem entorna maresia,   os beijos soam à pacatez do silêncio, o toque a fresco, a luz a madrugada,   as colinas dançam de azul fresco à janela, a floresta tem a cor de cabelo prateado, o pôr-do-sol esbate-se rubro, ardente e despenteado,   as ruas têm nomes de rua, os becos, gente e vida, as esquinas gemem num sussurrado murmúrio de carpideira … – saudade –   a delonga espera faz os dias sempre iguais, o juízo enlouquece, as divisões estrangulam-se, as horas ficam sem tempo e o corpo sem amor.

Desmaterializado e convicto poeta

Sou um pertencente, feliz, desmaterializado e convicto poeta, de abril e das primaveras.

Pensamento em formula divinizada.

Mas eu sou ateu não tenho fé. Nem precisas de ter, aqui, enfiamos-te a verdade pelos olhos adentro. Saí ainda mais descrente da fórmula conveniente da fé, confirmando que a quaresma nada tem a ver com o medo, que a divina providência nada tem a ver com a tempestade, que o castigo e a justiça divina são como os livros do major alvega que se desenham e inventam. Não me entra pelos olhos adentro nem a verdade, nem a cegueira do pensamento em fórmula divinizada.

Morte a declarar

Em cada dia existe a morte declarada e uma forma de a declarar, que se preenche em papel timbrado, no dia em que declarada a vida expirar.

Havana

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invento em cada navio, viagem, em cada pessoa, história, em cada dor, abraço, em cada olhar, tristeza, em cada sorriso, disfarce, em cada música, alegria, em cada poema, sangue, em cada lágrima, vida, em cada noite, alvorada, aqui, nesta praça, invento poesia.

O demónio faz falta

Um homem envelhece mais rápido quando conta somente os anos que tem. Há dores que são viuvezes antecipadas pelo afastamento. O demónio faz falta para existir contraponto existencial.

- poesia adoentada -

Todos os medos têm o meu nome, todos os sorrisos têm o meu cheiro,   A cegueira que me acompanhou o medo foi a libertação, quando juntei os bocados de miséria em ressurreição.   As amarras foram em mim: - poesia adoentada -

Um dia igual a tantos outros, não será igual a nenhum deles

Incomoda-me ver-te de negro nesse olhar a dançar em passos certos e o teu corpo a fugir-te dos sonhos. Sei da ânsia dos teus dias e o medo das tuas noites. O teu fogo é, o teu peito farto. As tuas mãos trémulas pronunciam - saudade - Um dia igual a tantos outros, não será igual a nenhum deles.

8 Março

Tenho uma filha. Mulher. Menina. Criança. Adolescente. Adulta. Independente. Autônoma. Pensante. Meiga. Terna. Arisca. Senhora de si. Decidida. Com massa crítica e filtro. Educada. Assertiva. Louca. Ajuizada. Amiga. Cuidadora. Friorenta. Com sentido de humor. Inteligente. Informada. Culta. Humana. Empreendedora. Livre, liberta e amorosa. Vai lá ela celebrar dias assinalados acerca de direitos que já são dela por direito próprio? Claro que não vai. Obrigado, filhota. Amo-te mulher.

Envelhecer sobrevivendo

Conheci mulheres que se enfeitavam de flores no cabelo, e velhos anciãos ocupados de mar, soube, que se sobrevive antes de envelhecer, para se envelhecer sobrevivendo.   Bebi vinho e resisti em divisões vazias, escutei as rugas do tempo, li poetas vencidos, em quartos de lua, a envelhecer sobrevivendo.   Maltratei o meu corpo, vi o meu rosto separar-se de mim, deste pedaço esfarrapado, que me sobra e que me resta, a envelhecer sobrevivendo.

Na minha morada fiscal - como o vento -

O meu vil fígado desembargou no porto dos náufragos, dos errantes e titubeantes seres imperfeitos, incultos da sabedoria massificada.   A minha oração são três vocábulos, a sina não normalizada da lei humana, e a liberdade dos entendimentos.   Assim, me passeio acompanhado desta solidão de companhia, na minha morada fiscal - como o vento -

Escrita cardíaca e desenfreada

Esta escrita cardíaca e desenfreada, recolhimento da música e do silêncio, construída por enclaves onde o sol desvirginda a luz, e o cheiro rasga o nevoeiro da poesia, onde a serra e o mar se desordenam.   Esta escrita cardíaca sobra-me do coração.

Teimo em inventar o teu passar

Debruço-me na janela a acreditar que por lá passarás, mas não, não mais passaste, há muito tempo que não passas. Enquanto isso, invento amores, saudade e tempo presente do verbo inventar. Adormeço com dois sóis, o da tarde, e o que espreito debruçado na janela por onde já não passas, mas que teimo em inventar o teu passar.

Arco-íris

O arco-íris é a dúvida entre o sol e a chuva, é cor com que o céu se enfeita de sorriso.