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Mostrando postagens de março, 2020

a complexa simplicidade: “do cantar da alma”

Passos, acordes, presença, voz, olhos, mãos, alguma saudade no final de tarde em acordar a noite, carregada, a poesia e a espontaneidade titulam sons anónimos, e sem que se soubesse é: - a complexa simplicidade: “do cantar da alma” -

o tempo sossega-se apiedado

nas esquinas de todas as casas da aldeia cresce a saudade, em todos os pátios geme a poesia, todos os corações se embalam de música e alegria, e o amor configura-se com amor. à janela, na aldeia, o tempo sossega-se apiedado

Clausura II

Nesta fase de clausura muitos desafios me são colocados, por este ou aquele motivo ou apenas por desinteresse temático não me seduzem, este seduziu-me, partilho-o. O desafio foi: Como é possvel sentir saudades de algo que não se viveu?   Saudades do que não se viveu é algo muito rebuscado dos meandros da mente. No entanto, acredito nessa possibilidade como real. Posso sentir saudades em forma de uma configuração que vou designar por déjà vu, aquela costumeira expressão de que alguma coisa é tão real que tenho a certeza que: ou já a vivi, ou já estive nesse local, ou senti esse cheiro, ou é tudo tão verdade e fácil que parece que conheço essa outra entidade há uma vida inteira, ou ainda, uma espécie de negação positiva, em que eu quero sentir saudades de algo que não vivi, porque isso me inspira, me ajuda a ser unidade com aquilo que estou a sentir.   Parafraseio um poeta que me ajuda o raciocínio, Gedeão, que reduz e confirma este argumento com um: - “sempre que um homem sonha o mundo ...

clausura

nesta fase de clausura muitos desafios me são colocados, por este ou aquele motivo ou apenas por desinteresse temático não me seduzem, este seduziu-me, partilho-o. O desafio foi: Como é possível sentir falta de algo que nunca se teve? a reflexão Parece-me ser possível. Posso sentir falta de algo que nunca tive naquilo que é material e aceito-o sem dificuldade numa dimensão menos estruturada do pensamento. Agora se me questionar, e entrar num campo filosófico, posso questionar-me numa primeira fase assim: - se nunca tive como sinto falta? Numa segunda fase posso pensar: - na verdade já senti falta de algo que nunca tive. Vejamos. Alturas da minha vida não tive algo que sentia falta, depois acabei por ter e aí confirmei que sentia falta de algo que não tinha e, quando tive, supri a necessidade sentindo-me feliz, ou eventualmente não me sentindo feliz, afinal não precisava daquilo para nada, ou precisava e, confirmava-se então a veracidade de “ser possível sentir falta de algo que nunca s...

desnascido vivo

"... estou em insolvência religiosa desde que a informação que me proporcionaste me fez efeito, tal como um antibiótico cura a infecção, é igual. Descobri também que o pecado é uma invenção e o amor um caminho para a redenção, seja lá isso de redenção o que for. Sabes pai, vou morrer desnascido mas vivo, sabedor que não há maior prisão que a do pensamento. Abraço. ..."  

reparei sonhei

algumas vezes só porque reparei sonhei, as palavras são agora: - fogo e insónia - já só espero acordar, despertar com os primeiros sinais, correr pelo vento fora, ver se és o sonho em que havia reparado.

os arrogantes e bem-falantes

 … a arrogância e a tristeza andam sempre juntas. Os arrogantes bem-falantes conhecedores, sábios, empertigados e cheios deles próprios, aos meus olhos, estão sempre tristes, é uma fórmula em forma distanciada de não serem da raça a que queriam pertencer. Os arrogantes e a tristeza apresentam-se-me sempre lado a lado. Posso abraça-los, é só pedirem, afago até … 😊

vai ficar tudo bem

Pouso um copo vazio de vinho bebido sobre o medo. O medo sufoca-me as palavras como uma guilhotina dilacera o sol em mil pedaços de angústia. Mistura-se um género de névoa com esta condição transcendente, construída por uma tortura que se apresenta como a criação de um medo real e um outro inventado e, é nessa fronteira que me situo e elejo a zona limítrofe de mim mesmo. Desconstruo o medo em medos.  Isso torna-o maior em número e menor em dimensão. É como se os conseguisse numerar e ordenar alfabeticamente e, inevitavelmente começariam e acabariam todos por loucura mas:  "vai ficar tudo bem"  

As ruas ainda têm nomes de rua

  As ruas ainda têm nomes de rua sem gente a minha cidade adia a vida as esquinas gemem num sussurrado murmúrio de carpideira – saudade – a delonga espera faz os dias sempre iguais o juízo enlouquece as divisões estrangulam em casa as horas ficam sem tempo o corpo fica sem amor   as ruas ainda têm nomes de rua … ainda

Aguardo a correria aos abraços

Abraçados pelo último abraço, espero pela corrida até ao próximo. Até lá despenteio-me, reinvento-me, leio, escrevo, limpo, cozinho, protejo-me e, após cada tarefa o abraço ainda que longe está mais curto de distância. A saudade essa está próxima e aguda. A estatística dá-me os dados dos infectados, a zona, os internados, os óbitos, etc, etc. O estado decide o meu estado, e eu decido por ordem de grandeza a saudade, a voz, os sorrisos, os abraços, os cheiros das manhãs na rua, o aconchego da noite e da lua, e tudo o que me faz sentir que a minha ilha tem gente que é gente, e não há ilha que não tenha mar à volta. Aguardo a correria aos abraços.

pensamento em formula divinizada.

Mas eu sou ateu não tenho fé. Nem precisas de ter, aqui, enfiamos-te a verdade pelos olhos adentro. Saí ainda mais descrente da formula conveniente da fé, confirmando que a quaresma nada tem a ver com o medo, que a divina providência nada tem a ver com a tempestade, que o castigo e a justiça divina são como os livros do major alvega que se desenham e inventam. Não me entra pelos olhos adentro nem a verdade, nem a cegueira do pensamento em formula divinizada.

extracto de um conto por ver a luz do dia um dia

Reparaste em como o tempo se fez mais velho do que nós, ficou escuro, enrugado, cinzento quase sem esperança, e nós aqui à espera que a manhã não seja portadora de leite e torradas, preferimos que as gaivotas nos brindem com os voos picados sobre as ondas, e o sol nos apanhe de costas para o mar. Reparaste? Reparaste que é o tempo que se faz velho. E nós por cá.  

A norma, essa anormalidade da regra ...

A norma, essa anormalidade da regra ...

Bojador e restelo

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Os profetas da desgraça são mais velhos do que os que sairam do restelo. Afinal, ha mais mundo para além do bojador.

encruzilhada

O amor, essa encruzilhada de esperança.

As amarras foram em mim: - poesia adoentada -

Todos os medos têm o teu nome, Todos os sorrisos têm o cheiro do teu cabelo,   Todas as moedas que em jeito de sétima doei, Foram como a sopa dos pobres que pode ser azeda, Que boca de pobre tem sabor a mulher adultera e assinalada,   A cegueira que me acompanhou o medo foi libertação, Quando juntei os bocados de miséria com a minha ressurreição,   Fiz de deus a redução de ajustamento à sua plena verdade, As amarras foram em mim: - poesia adoentada -

Peste

enquanto a peste protesta silenciosamente contra a escória governamental, o comum depositante dos votos confia no que ontem desconfiava, o medo atraiçoa sempre a razão.

Sopra o vento

Às vorazes criaturas do assombro que me presenteiam com esforçados discursos acerca de mudança, acerca da mudança, em organizações de indole social e promessas promissoras de um culto que todos juntos construiremos a quimera do sonho azul, anulem por favor o meu endereço e contacto que o meu vil fígado desembargou no porto dos náufragos, dos errantes e titubeantes seres imperfeitos, incultos da sabedoria massificada. A minha oração são três redondos vocábulos e uma sina assassinada da normalizada lei humana. A minha liberdade não é ou será colectiva, será una, coerciva e demagoga para outro entendimento que não o meu. Assim me passeio acompanhado desta solidão de companhia na minha nova morada não fiscal. Sopra o vento mais do que o vento.

Janela

Ainda hoje me debruço na janela a acreditar que por lá passarás, mas não, não mais passaste. Há já muito tempo que não passas. Enquanto isso, invento amores, invento saudade, invento no tempo presente do verbo inventar. Adormeço com dois sóis. O da tarde, e o que espreito debruçado na janela por onde já não passas, mas, eu teimo em inventar o teu passar.

dança das mãos

mãos em dança na luminosa madrugada, dedos que se erguem e lutam pelo destino, o rio num estreito fio de água escolhe na foz o descanso, o mar suplica a voz que se silencia, do outro lado o mesmo mar faz outra praia, e a outra praia é feita do mesmo mar, faz frio que não tem corpo, e no meu corpo sinto mais do que o frio e o mar. espero, aguardo, oiço, sei que o tempo serão pequenos pedaços que juntos, incorporam e decidem a luz que decide esta espera. mãos em dança na luminosa madrugada, dedos que se erguem e lutam pelo destino,