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Mostrando postagens de dezembro, 2013

Casas onde nascem as arvores da saudade

Velhas estas casas onde as arvores crescem dentro.   A estrada subterrada de mato alto já não deixa vislumbrar as janelas ruinosas das fendas que não existem, e de onde já não se avista paisagem alguma. Subsistem ainda os velhos e elegantes quadrados sobrepostos de pedras, construídos por quem deixou descendência que não ousou manter viva, a vida que outrora jorrou em jovial corrente.   Estas são as ruínas da casa da minha aldeia onde a minha juventude já não se pode acercar, mas onde não pára de se inquietar. Estas são em mim, as ruínas que cuido num pensamento nostálgico da primeira década da minha existência em quietude.   Grito alto um roufenho bramido de saudade.   A saudade não se beija ou acaricia, a saudade verte-se pelos olhos e estrangula-se entre os dedos de um punho cerrado. A saudade não é o tempo passado. A saudade existe apenas no presente, existe somente na impossibilidade de se fazer o momento. As ruínas e a saudade, são ambas, os escombros de uma alma que já sentiu pr...

Intemporalmente

Beijo-te a carne, os lábios, as mãos e o teu sangue, Por ser o fim de um início qualquer.   Dou-te o meu cheiro, o cabelo, e o olhar, Por ser início de um qualquer fim igualmente.   Empresto-me a ti no começo, Dou-me a ti por fim, finalmente.   Começo, Retomo, Enlaço-te de abraço, Sem duração, Sem um tempo, Intemporalmente.

Sem tempo

Não tarda e as redes socias ficam cheias de “balanços”. Já cheira.   Já cheira a balanço do género: “este ano foi assim mas para o ano vai ser assado” e, na realidade, não foi bem assim, e não vai ser diferente coisa nenhuma, porque os dias continuam com as mesmas horas, as semanas com os mesmos números de dias, os meses com as mesmas semanas, e o ano com os mesmos meses. A velocidade com que se vive quiçá aumentará, e o adiamento será o mesmíssimo. A doença proliferará, e o tempo esgotar-se-á da mesma estupida forma, e, diremos o mesmo daqui a um ano: “Este ano foi assim, para o ano será assado”.   O diferente na verdade é uma necessidade, nem que seja apenas dita pela necessidade de se dizer ou purgar uma espécie de culpa pelo mau uso do tempo, e assim parecer-nos-á que se libertará de nós na consciência da palavra dita, mas, na realidade, a diferença far-se-á no retirar de: horas aos dias, dias às semanas, semanas aos meses, meses ao ano, tempo para nós, para fazermos coisa nenhuma ...

Escrevo para separar o sentir

Escrevo para separar o sentir, e escrevo para aproximar o sentir. Escrevo para não sentir o comum dos sentires, e escrevo para sentir uma incomum sensibilidade onde não existem luzes coloridas, ou barrocos bonecos carregados de uma fardo sinalizado de religião e profanado sentido. Escrevo desnudado de coração e adornado de tripas. Escrevo a escravidão da direcção induzida e a liberdade solta do pensamento. Escrevo porque não creio, e creio no que escrevo por ser o resultado do sinto. Não escrevo natais, nem carnavais, nem festas pascais. Escrevo miséria e liberdade, tolerância e presídio, devoção e afecto, e, escrevo das entranhas fiéis da futilidade vigente. Escrevo passado na primeira pessoa do presente, e escrevo sonho na forma condicional da fantasia. Escrevo porque me alivia a mágoa e me seduz o alegramento. Escrevo incólume e inteiro das partes de que sou construído. Escrevo porque me alimento de entendimento e me chicoteio da obtusidade. Escrevo somente porque as letras me baila...

Histórias paridas de dentro de mim

A inquietação da minha quietude explode-me no peito. A terra remexida desta época desassossega-me. O ébano é o meu farol saciado pelos ventos. Sorrio ao caminho e arrependo-me de seguida. Tenho nas mãos cheiro a eucalipto, herdei do meu pai que tem nos olhos a cor de flor de pinheiros. As serras deitadas ao longe no horizonte, lembram-me uma mulher morena, deitada de corpo e peito salientes. Fico com os olhos baços de água e sal dados pela comoção e saudade. Às vezes sou sensível como outrora, outras, sou duro como a vida. Esforço-me para não o ser, sendo-o. Não sou gente, sou humano. Sou sonho e alcance como as tralhas da feira da ladra o são, com histórias e necessidades.   É isto que hoje me explode no peito, histórias paridas de dentro de mim.

Palavras, sim

Sou das palavras que me encarceram, Das que me magoam e fazem doer, Sou das palavras que deitam lágrimas, E das que esboçam sorrisos, Sou das palavras de saudade, E da alegre tristeza de sentir, Sou de sentir sentindo magia, E das palavras esplendorosas, E das noites de palavras amarguradas, E das madrugadas roufenhas de amor.   Sou das palavras, Porque das palavras me expresso, E com elas amo, Amei, Amarei, Fui amado, Ressuscitado.   As palavras somadas contam estórias, E são a minha história, As palavras são o meu baloiço de infância, A minha loucura adolescente, O amadurecimento latente.   A envelhecida palavra não tem idade, A palavra é jovem, As palavras são felizes.

Uivos roufenhos ao amor

Sem existir madrugada rompe a manhã, Sem haver tarde ocorre a noite, Sem possuir uma vida com norte, Existe norte na vida, Existe verão sem outono e inverno sem-abrigo, Desabeira-se a alma com o espirito, Existe paz podre e guerra sã, Mas estações não se misturam.   Os uivos das árvores roufenhas melodiam as manhãs, O amor é a antecipação, É crer na adivinhação, É a amálgama da solidão do outro, Entre nada existir, Tudo existe na desapoquentação do sossego, Nas madrugadas inexistentes, Nas noites e nas manhãs.   Na presença de tudo o que não existe desapaixonado, olha-se a paixão na visita da lua.