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Mostrando postagens de janeiro, 2020

Detesto a cobardia de não me meter ao caminho

Detesto a cobardia de não me meter ao caminho. Gosto da sabedoria duradoura dos iletrados e do significado do nevoeiro por cima do sol nascente

Há uma questão quase burguesa dentro de mim proletário

Há uma questão quase burguesa dentro de mim proletário. Uma questão solidária e solitária. Uma questão como a das flores, as bravias cheiram a flor, as outras são pétalas de enfeite.

Afinal é só comigo que tenho assunto e palavras

Afinal é só comigo que tenho assunto e palavras, fora de mim escondem-se subtis argumentos que não são em mim, palavras nem assunto.   parece tão simples este quase sofrimento de: - ser só comigo que tenho assunto e palavras, afinal

O nevoeiro é como o arco-íris, no delírio sábio da minha fantasia.

O nevoeiro é como o arco-íris, no delírio sábio da minha fantasia. 

Assim, antes da vida, o mar, a terra, acordes, ventos e cravos

Não sou fácil. assusta-me a minha sedução pelo vazio, o inexplicável, o suicídio, a solidão, o medo, o desafio, a morte mais que a vida,  os regressos mais que as partidas. as minorias, os bêbedos, os drogados e as prostitutas, é como se a miséria colorisse a vida, é-me querida.    Fantasio festins de alegria com as minorias. vejo-me louco e feliz, sempre de mala feita para partir, seja da cidade ou da vida, anseio real o pensamento do sonho, sinto os lábios de rocha e pedra, amo esporadicamente, momentos.   Assim, antes da vida, o mar, a terra, acordes, ventos e cravos.

Arcebispada

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Voto sempre em quem nao ganha, gosto de votar em quem luta e tem ideias para vivermos melhor e sermos mais felizes. É uma mania minha, nao votar em quem ganha. Sempre assim foi. E seguiu, com a "arcebispada" no lábios trauteada.  

O cheiro dos cheiros é a soma dos aromas

Tantas noites assim caídas esvaziaram e esgotaram a minha alma, como se funestos devaneios e madrugadas por romper espalhassem esses cheiros, que constituem esse aroma confidente e melancólico onde me acolho e sossego. O cheiro dos cheiros é a soma dos aromas.

Sem tradução que não um peito ardente.

Viver pela metade é fútil e iníquo do tanto que poderia viver, Viver que seja já, que seja tudo, E que seja nesta vida, Que outra não existirá, Se é que esta existe, isso veremos depois,   Serei poeta? Não sei, Que seja pelo menos trovador do meu descanso, Do sentido que necessito para ser gente, E que seja enfeitiçado de sílabas candentes, Sem tradução que não um peito ardente.    

sem que branco se tornasse o negro que ficou

as flores murcharam com o descuidado amor,   as palavras, o coração, tudo secou, sem que branco se tornasse o negro que ficou.

Nem com grades nos meus olhos

Há sempre grades no olhar, distância por abraçar, sonhos por sonhar, correntes entre os passos a dar, algemas na preguiça a erguer, e grades que se levantam nas mentes que se queriam mais livres, do que apenas e somente - espírito solto -   Espírito solto apregoado não é a liberdade da alma, o que se alcança não se proclama, inalcançável são as grades do olhar que torturam e angustiam.   Há sempre prisão no olhar, mesmo quando as mãos se ensaguentam na planície, e o caminho parece terminado, o sonho não se confina.                                                                                                         Nada se encerra, nada se enclausura, nem as grades no olhar fazem sentir menos livre. 

Amofina

A miséria nas tuas mãos, O corpo gasto, As derradeiras palavras e o pranto, Todo o jardim entristecido, O sol que não brilhou, A lua agasalhada com nevoeiro, A morte, As despedidas à despedida, As dedos trémulos e o frio, O fim e o adeus. Num canto do pátio o teu cão com os olhos baços e a tristeza dura da distância pressentida, amofina.

Infância

À medida que uma mãe vai gastando o tempo, a nossa infância vai morrendo. Morre, no dia em que a nossa mãe morrer. Até lá, a infância vai envelhecendo.

Sempre inesperadamente

Melhores dias virão: - disseste-me - Sim, é verdade. Os melhores dias são os que ainda estão por descobrir, que por serem novos e virgens, tudo têm para serem os mais longos, bonitos, frios e difíceis, e são-no porque ainda não desaguaram no céu, não viram as nuvens que os vão apresentar, ainda não são sequer dias, ainda não são ao menos nascidos. São os melhores e os piores por isso mesmo, por não existirem. A mim não me importa se são bons, importa-me por serem os dias que me vão acompanhar, mas quero que com eles se me exibam os mais belos raiares de mim mesmo, e a mais bela poesia jorre das mãos que irão segurar as minhas. Os mais belos dias, são as mais sublimes e desconhecidas horas que me soltam e apertam o peito, inesperadamente. Sempre inesperadamente.