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Mostrando postagens de junho, 2021

Extracto de palavras para verem o sol um dia depois do sol se pôr

Punha-se o altar de lavado. Mulheres de um lado, homens de outro. A outros tanto fazia, eram homens de fé no sentido não sexista do termo, eram de esquerda, ateus, anti estado novo. Era por esses que eu me enfeitiçava, homens e mulheres, era a minha religião, a liberdade, a poesia na canção, as flores de cheiro primaveril, abril, maio, devia ser por aí.  O mar, esse sempre me trouxe e levou. O grito ainda me prende a garganta. A recordação ardente solta-se no sorriso que guardo de ti. A França devolveu-te em poemas que me trouxeste. Devia ser por aí. Maio, Abril. E foi. 

Deserto descansa despovoado

Todo o deserto sucumbe à infame sombra do oásis em vislumbre alienado, como se a má fama fosse vizinhança curiosa e sabedora das horas da madrugada. Sopra o vento em gesto de carícia. O deserto descansa despovoado.

Cais do sodré

Saudades do cais do sodré de oitenta quanto mais de há um ano.  Muita saudade e musica a condizer. Gente a preceito e noites até ser dia. Os jardins em frente ao rio a abraçarem-me. Cais do meu porto. 

Os sonhos decidem-me

Os sonhos pulsam-me como o coração, arrebatam-me como um quadro que me paralisa, e decidem.   Tudo o que alcanço, antes foi um sonho, a pulsação é braçadas de flores que caiem das estrelas, é a última realidade que guardo na gaveta, de amontoados papeis, que aguardam ver a luz do dia.   Os sonhos decidem-me.

essa esperança duradoira do que espero e alento

Existe entre mim e o passado uma floresta, entre mim e o presente uma arvore, entre mim e o futuro o mar, entre a floresta, a arvore e o mar, existo eu, no passado, no presente, e nessa esperança duradoira do que espero e alento.

abraçamo-nos assim

Se não for mais do que amor, não entendo então o que é esta desmedida vontade de saudade tua, estas horas por aqui comigo, as recordações das tuas palavras primeiras, o teu sono velado, o teu cheiro.   Hoje, Sobrevivo com a tua voz de cada vez que vejo escrita a palavra filha e começo por um: - Olá Joana, tudo bem? e começamos, eu sei de ti, tu sabes de mim, e abraçamo-nos assim.

Pandemia vinte, vinte e um

Esta peste vinte, vinte e um, aproximou as pessoas pelo afastamento. Outras, manteve-as na mesma, afastadas pela proximidade.

semideuses

Os deuses detestam magia, desacreditam-nos e dão igualdade, aos mágicos. 

Sempre após, nunca durante

O amor e o tempo da desgraça quando fogem um do outro, a mordaça que fica entre os dentes a conter as palavras, o arrependimento depois do fogo se avassalar no poço fundo sem luz.   O amor, essa incrédula forma de não sentir dor, o desamor, esse incrível formato de só sentir dor, ambos se ajustarão ao tempo da existência na pacatez do silêncio.   Sempre após, nunca durante.

A amizade essa forma de amor escolhida

Tenho amigos que não os vejo. Outros não me veem a mim. A amizade essa forma de amor escolhida. Atempada. Sem possibilidade de casualidade ou nexo.

Pnsac

As pedras mudam--se com a estação. A serra que subo tem agora a dureza das pedras sorridentes do sol que as temperam. Há semanas tinham as lágrimas da chuva que as lavava. Quem inventou que as pedras não sentem?  As pedras são mais felizes acompanhadas dos dias maiores e dos cheiros bravios e rudes da encosta agora em flor.  Na estação que há-de vir, serão as pedras a retribuir todo o amor às flores queimadas pela geada. As pedras e as flores cuidam da serra que me possui, da serra que possuo. 

Papéis

... sabes, aqueles papéis escrevinhados de há anos? já mudaram de cor. Agora são como borboletas renascidas em bocados de pensamentos e poesias, mas ainda são papéis escrevinhados e têm o mesmo lugar, a bolsa da velha guitarra das fogueiras acesas de nós  ...

Café bom

Interrompe-se-me o raciocínio por uma virgula mal colocada, como se lei mudasse o sentido do crime. Agora já não sei onde ia e tenho que recomeçar tudo de novo. Nova oportunidade para ser satisfeito no meu resguardo. Velho momento este reconhecido pelas células da memoria. Mais café. O dia clareia nos ponteiros do relógio que não se calam. Sobrevive o velho poema rouco do Dylan em companhia de fundo. Sobrevivem os sonhos desacreditados quando acordado, reais quando adormecido. O fio condutor já me liga o pensamento. Café bom.

tentativa de poesia

Sei pela poesia das palavras, e não pelas palavras em tentativa de poesia, que a morte já me foi vida, sendo a vida mais do que morte, traço sonhos, caminhos desconhecidos no astrolábio, e pergunto a cada labareda que arde em mim, se o fogo me adormece deste mar.   sei que na poesia há palavra, e que há nas palavras poesias, ambas em mim são: - tentativa -

Passam-me tantas e tão poucas linhas no horizonte que me guardem os sonhos

Passam-me mais mil palavras de um livro por editar escrito em paredes de casas, muros em ruínas e na pele de corpos reinventados como as marés. Passam-me tão poucas loucuras em contraponto com o risco de as já ter executado como um comando desobedecido do meu corpo.   Fogem-me os acertos de juízo tão recomendados no jardim da minha infância, foge-me a morte no bairro, devolve-se-me a vida nas montanhas desabitadas. No final de tarde que há-de ser final de tarde, espero o café e o silêncio, aguardo a imortalidade do corpo que jamais será velho enquanto sentir este arrepio de esperança na demora. Passam-me tantas e tão poucas linhas no horizonte que me guardem os sonhos. Tantas e tão poucas

Pessoss densas

Pessoas densas enchem-me o mundo, alegram-me a tristeza, ocupam-me a solidão.