dias tão tarde se fizeram poesia, mais do que os dias, mais do que vidas, mais do que tudo sofrido e preso, abril demorou e pouco se vê por aí, e já se ouve que antes era melhor do que agora, e os pretos e os brancos, e os homossexuais e os outros, e a diferença, e a violência, e abril mudo, calado, sem voz, porque a esquerda já é moderada, e a direita abençoada, e as ideias já não sustentam os ideais, e os poetas já não se leem nos jornais, e não há pão como havia na rua da padaria, e apenas se ouvem roufenhos uivos do velho que morreu sem que abril se afinasse e transformasse em abril. e se não foi, já não será, que todos estão reunidos na mesma mesa sem convite à liberdade.