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Mostrando postagens de agosto, 2017

Janelas da alma

Em todo o mar foste sal, em toda o céu foste voo, em todas as manhãs foste claridade, em todas os beijos foste boca, em todo o amor foste sexo, e em todo o sexo foste amor também.   Para quê mais tempo se a morte já se anunciou?   Quando assim é, basta-me o recato do meu recanto, a poesia do meu pranto e todas as estrelas do céu que não se ausentam.   Quando assim foi decidido por ninguém, (porque ninguém decide a vida), basta-me com todas as forças que me restam, estar por aqui e ser todos os minutos que me sobram para ser.    Se deus existisse talvez fosse ele o decisor, mas deus não existe, e a mim não me dava jeito nenhum que existisse, se não eu não pensava, não analisava, e teria nele todas as justificações básicas de: - é como ele quer porque ele é que decide, ou não é como ele quer porque ele não tenciona querer-   e, eu, não seria nenhuma evolução, seria apenas um ser involuído.      Não quero dessa maneira descomprometida tamanho descomprometimento. Quero de uma forma digna c...

Hasta publica

Exproprio a identidade que me mostraste por falta de propriedade. Anuncio  a publicar em hasta pública, que a mim já me basta. 

inverno novamente inverno

"... o vidro é como uma parede nua.  O vidro embaciado é uma como uma parede a desnudar-se. Os vidros e as paredes podem ser vestidas ou despidas de destino ou amanhecer. As mãos que me tremem de peito seguro, são todos os outonos a arrefecerem-se dos meses seguintes. Os pés quase cansados aguardam o que desconhecem de vida. Nada sobra ou resta de miséria. Nada se põe como a tarde entre os pinheiros feitos de agulhas que se espetam na terra, nada se atreve a ser como a chuva após amaciar a dor. No canto da sala visto do terreiro para o canto da sala, jaz por ressuscitar, a lareira. Este inverno aliás como o anterior e os outros, será feito de vidro embaciado, de parede desnudada, de amanhecer, de destino, de pés cansados, de pinheiros, do canto da sala, e de inverno novamente inverno ..."

Ler

Diz-me o que lês dir-te-ei quem és.   

é como deus sem o pecado

o teu rosto cor de cal é como o mar descolorado, não pode ser mar, nem pode ser rosto, é como deus sem o diabo, é como deus sem o pecado.

Árvore

Entram-me árvores pela janela dentro, entre um ofício e outro, entre o falar de como ganho a vida, e o matar a distância para o discurso seguinte em megawatts hora.   No intervalo sou o que: - quem me recebe não faz ideia - Sou o momento feliz do meu dia.   Eu. A viagem. A paisagem. As árvores quem me entram pela alma adentro.

silabas desobedientes

Tento criar beleza às silabas. Devagar. Lentamente. É o que deixo de fortuna. É o que fica de minha herança, a tentativa de dar amor às palavras, como se duas palavras, fossem duas bocas ou dois peitos, que se pudessem beijar ou abraçar. Em boa verdade conseguem-no. Não posso escrever bonito ou demasiado feio. Posso meramente criar beleza em silabas desobedientes de acção. Posso até falhar como homem, mas se der liberdade às palavras que me habitam, está tudo bem no meu coração, atendi-o.

Acostumamos-nos

Amor é um desábito, Começa por ser um hábito aquele estado sem palavras que o descrevam, O tempo depois finge que se distrai e o hábito aparenta se acomoda, Mas nem o tempo se acomoda, nem o hábito se distrai, Desabituamos-nos, Depois recomeçamos tudo de novo e morremos, Está feito. Acostumamos-nos.

Bebi até que a revolução se desse

Bebi até que a revolução se desse. Fiz uma revolução por dia, por hora e uma batalha por minuto. Bebi até que a revolução se desse. E deu-se. Deu-se em estrofes camufladas de liberdade. Deu-se na solidão necessária. Deu-se na aprendizagem de mim. E deu-se na mudança, Em goles de revolução por dia, por hora e uma batalha por segundo. E foi assim: - Bebi até que a revolução se desse -

Dança miúda dança

Dança miúda dança.   Dança com a menina que os teus olhos não conseguem esconder. Dança com a miúda que a desilusão não conseguiu castrar. Dança com a mulher madura e sensual que dança a: - vida de vida- .   Dança com as lágrimas que já secaram e com as promessas que tens por cumprir. Dança com o teu sorriso, com as flores, com o vento, com o mar, com a madrugada, contigo.   Dança com o amor, com a não desistência, com a saudade, com tudo o que te constrói, dança com tudo o que não te devastou.   Dança com tudo o que tens para dançar e serás a melhor bailarina do mundo, e, é-se, a melhor bailarina, quando a valsa se dança como se não existisse outro planeta, que não essa dança:  - da porta do coração aberta -   Dança miúda dança. Dança miúda dança. Dança miúda dança.

opacidade

"... formas opacas, o sombreado nas nuvens quando se atravessam ao sol. Vejo-a chegar, aproximar-se e seguir. A sombra.   Nunca me soube bem ter só o sol. Nunca desejei ter só a chuva. Sempre me quis a mim e a alguém que conversasse sobre sombra, acerca do sol. Das nuvens. Do caminho. O que está dentro de mim, sempre foi meu desejo que fosse igual fora de mim. Que alguém o aproveitasse.   Apetece-me café. Está longe. Adio. Bebo talvez lá para o final do dia com a geada. Vou ligar ao João talvez me abrace que eu preciso. Não, lá para o final do dia com o nevoeiro procuro-o.   É sempre no final do dia, o inicio da minha existência. Formas opacas, sombreiam a noite quando as nuvens se atravessam ao luar. As arvores mudam-se de lugar para de manhã parecerem imóveis outra vez.   Opacidades…”

Partida III

sem brilho, gosto, desgosto, sentir, navegar, aproximar, chorar, ou partir.   sem nada com que se desista, é ter nada com que se exista.

Todas as flores

... mesmo que todas as flores do mundo se  revoltem por as colherem, a primavera tentará sempre apaziguar o inverno ....

Azulejo

Cada azulejo acrescenta ao desenho final a emoção de como os teus olhos te assentam bem no rosto, em cada cor de cada raio de luar, o teu sorriso espalha-se no azul do Tejo, que passa devagar no fim de tarde , do fim do dia, do fim de mim.   

só sei falar de frio

" ... e toda a gente sabe como resolver ou adequar-se ao mundo. Eu só sei falar de frio, de calor, de lágrimas e sorrisos, de geada, luar, mar e maresia. Dessas coisas que os outros falam não percebo nada, nem sei se existem, só sei sentir o que sinto ..."

lua apagada

Não sei se acredito na lua enquanto bola branca no céu, se enquanto melodrama que a cadela da minha vizinha faz, se enquanto energia e alto astral daquela mulher que me diz ter a lua dentro do coração, e se sente mais mulher com a lua, mais lua como mulher, mais desejo do que luar, mais viva do que crescente, mais diminuta do que nova, mas lua sempre mais luar.  A lua em mim, são as noites em que me vejo brilhante de lua apagada.

Lua

A lua esperançou-se no céu, desceu já pela manhã, era domingo no mundo.

Cinzas

Vivendo numa península escolherei sempre o mar para sair. Escolherei sempre o mar para ficar. À terra não doarei o meu corpo. As palmas da minha mão em concha sao lagos que encho de lágrimas e sal que escondo do céu.  Convidaste-me para te fazer um poema. Não se faz "encomendas de sentir", não se faz convites quando se pertence, não há nada a fazer quando um poema é um corpo inteiro de poesia e delicadas mãos acariciadas.  À terra não doarei o meu corpo. No mar ficarei falecido, recordado nas ondas onde me escolheres depositar.   

o corpo fica de fora

Quem passa por mim normalmente diz-me lindas palavras, basta-me esperar pelo tempo que as azede e as transforme, é a diferença de quem passa para quem fica, de quem me viu para quem me olhou. Normalmente calo-me depois. Não adianta o desmentido do que disse porque não disse, do que ouvi porque não ouvi. Relevo. Fica mais do que corpo nas minhas memórias. Não tenho memórias de corpo. Tenho de cheiros. De sorrisos. De silêncio. De musicas. Da época. Do céu que sei descrever. Do caminho da lua.  Da direcção das nuvens. Das estrelas e das estradas. Não guardo memórias resignadas de ilusão e o corpo fica de fora.

Nenhum sossego se alvoraçou

Não ficou nada depois de todas as palavras com que me esfaqueaste. A tua vida mesmo que a veja em retratos, vejo-a sempre baça, que a luz com que te enfeitavas emudeceu para sempre. Em mim, sangra não me teres reconhecido para além do corpo.  Não teres guardado o pedaço de alma que te deixei. Nenhuma música se enche de mim nas ultimas noites. Nenhum fogo me incendeia o rosto. Nenhum sossego se alvoraçou.

entre os dedos

Escondo os nomes entre os dedos para que os meus lábios não me atraiçoem na hora de te chamar amor, e é tão duro chamar-te amor com os nomes escondidos nos dedos para que os meus lábios não me atraiçoem.

Nenhum homem é deus e deus não é nenhum homem

Nenhum homem é deus e deus não é nenhum homem.Em toda esta frente de mar em que na madruga me descanso, apenas o mar está vivo e as rochas que me defendem. Há noites em que me projecto numa memória passada, e trago a companhia de com quem fui feliz, a maior parte das vezes apenas estou com a loucura de me saber ali acordado, sem sono, e esperar que o dia desça e me resguarde da gente que vai, entretanto, acordar.

revisitar

posso revisitar todos os lugares - os de morte, os de vida, os felizes, os infelizes, os de amor, os de paixão - embora o meu corpo se esquive ao que a minha cabeça ordena ao coração - a lua não irradia os lugares que posso revisitar logo, não os tenho visitado -