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Mostrando postagens de abril, 2014

A demência e o medo

Tenho medo que o medo deixe de ser medo, E se resolva aí nesse instante, A incoerência racional, Na concordância emocional, E o medo se transmute em coisa nenhuma, E o amor em alguma coisa, E me sobre só e apenas demência, Isenta de medo, Amor, Rios, Mares, Nuvens, E arco-íris, E não haja beijos abraçados de primavera, E braçadas de cheiros prendidos, Em alfazemas dependuradas nos olhares das pessoas, Em fim de tarde.   Que a demência e o medo se embriaguem em mim.

Antes que Abril se faça tarde

antes que Abril se faça tarde, e o mundo desacredite na sua própria crença, antes que a loucura infeste mais do que invada, o pensamento que diverge, e em risco, habita mil homens que mandam, noutros mais de mil que obedecem, e se castre o que ainda é alicerce, elevo estre trago, que em gole beberico, de liberdade da boa.   antes que Abril se faça tarde, ressuscita branda, e habitual madrugada de Maio, sem as lágrimas combatentes, dos que existem resistentes, mais as mulheres dos que existem, e os filhos que resistem.   Abril desabonado, Não abandonado, Ainda durmo sob o sonho de aroma a cravo!

Logo a mim que sou silêncio

Confiaram-me o ruído, Logo a mim que sou silêncio, Entregaram-me palavras que não me habitam, Para edifica-las, Logo a mim que sou poema.   As palavras feitas de amor são silenciosas, Emudeço no vento forte, Glorifico no vento norte, As palavras que me confiaram, Não as abasteço,   Ao vento sopro o silêncio, Ao sossego desenlaço o amor, À lua solto o mar, Confiaram-me o ruído, Logo a mim que sou silêncio.

Desordem

Todos os segredos desordenam a existência, Desassossegam a ordem das emoções, Guarda-se o amor em segredo, Que tal alvoroço é um abalo, Da mais profunda paixão.   Desordena-se no peito … o peito, Faz chorar o coração, Inventa-se uma outra balada, Dentro da própria canção, Ordenar esta desordem, Não tem ordem nem solução.   Unicamente os dias queimados de fogo constante, Valerão a tua ausência.

Fontes

Revisitei as fontes, A da barreta, A da sapeira, A do bom amor, A da ribeira, A da graça.   As fontes não enxugaram, E em mim, As nascentes rompem desenvergonhadas.   As fontes são os sítios da minha infância, Nas fontes matei-me:   - de sede, - de desejo, - de liberdade, - de juventude.   Matei em tantas luas o amor, E em bastas noites experimentei o luar.   Nas fontes revisito-me.   A água ainda cheira a pinheiro, E o silêncio, Ainda sabe a sossego, As noites ainda acalmam os dias, O sítio ainda, Pacifica o momento.   As fontes não secaram em mim, As fontes rejuvenescem-me, Como a água que delas rebenta.

Vivo

Admirado, Absorvido, Almejado, Amor, Amei.   Apaixonada, Alma, Apartada, Alienada, Amantizada.   Amanhã, Amanhecerei, Amado, Amortalhado, ………………………Vivo

Homem mascarado de destemido

Em muitas horas já fui frágil, homem mascarado de destemido, as mazelas do meu fígado, incorporam, o meu pensamento, o meu sentir.   Já fui um fraco homem, a sentir-me invencível, um sortudo declamando o azar, um alcoólico em carnaval diário, um aglomerado de fantasia e devaneio.   Reparti os dias em bocados de miséria de mim, tornei-me num homem pagão, ateu, abstémio, rendido, prendido, a uns laivos de memória sem passado, com promessa de futuro,  acrescentando ao espirito … a alma e o sonho.

Tu

Tu, estás tão viva que nunca partiste madrugada. dilacerado foi o adeus, sem cravo, sem beijo, sem um ultimo e único olhar. Tu, estás tão morta que nunca ficaste. romã aberta em chagas, como fiz minhas mãos denunciarem, o primeiro beijo, o primeiro e único olhar. Tu, partiste porque morreste em vida em mim ...

Transversalidade

  Transversalidade por inteiro,   Nas lágrimas,   Nos bancos perfumados da primavera,   Nos jardins enfeitados de outono,   Nas crianças,   Nos sonhos,   Nos direitos,   Nos mais experientes,   Nos cravos,   Nas ideias,   Nos ideais,   Nos continentes.       Transversalidade plantada de vida.  

Mar que salga a alma

Corpos disformes, Rostos da cor do brilho, Corpos em trabalho do romper do sol, À lua que chega, Corpos de musica que embala o trabalho, Filhos depositados nas sombras que jorram, Mar que salga a alma, Senhor que rouba a jorna, Corpos incandescentes dançam, Ao ritmo lavado das lágrimas, Sorrisos que teimam não morrer, Esperança que abarca a liberdade, Em faces difusas, quentes e humanas.   Com cor, De cor, Lindas de amor.  

Troquei

Tive que me desconstruir para a construir o meu mundo. Tive que mudar os olhos para voltar a ver. Para me voltar a ver.   Tive que mudar de mãos e deixar livre a minha decisão.   Tive que mudar de pernas e pés, a caminhada da vida usada pesava-me tanto, que não a sustentava carregada em mim. Voltei a caminhar depois com leveza e direcção.   Troquei de boca e de beijos, de braços e de abraços. Troquei pouco mas troquei o essencial.   Deixei nesta gruta nascente em mim sair a minha essência que, vivia como mineiro numa mina por descobrir.   Tive que mudar a mudança, tive que gritar palavras asfixiadas na minha garganta, aprendi palavras novas e outras que nem me lembrava.   Mudei de mundo. De barriga. De interior. De mar. De nuvens e arco iris. Mudei e troquei de luz. Subi à lua.   Na minha vida todas as trocas, desconstruções e mudanças, foram a expedição com destino a mim próprio.

A sorte que ouso tentar

Sinto pássaros não mãos que me forçam a voar, As asas que me abastecem, Neste voo sem direcção, Destemido, São feitas de palavras, Que me entontecem, De um sufoco na garganta, Quem me urge a cada manhã.   Dilacerar esta voz, Em poesia alivia-me a alma, Sem rumo, Sei, Apesar de tudo a rota, É feita de anéis de um cometa, Que se me entrega, À sorte que ouso tentar.

Abril quarentão

Soam vozes esquecidas de um Abril quarentão, A poesia jamais se esquece, De quem precisa de pão, E já não há virtude ou ideia, Ideal em transformação.   Idealizaram a sociedade, De capital e corrupção, Volta gaivota migrada, De asas brancas, Em debandada.   A liberdade é feita de povo, O povo merece a razão, Subjugada fraternidade, Miséria já é exclusão, Volta abril florescido de poemas e reflexão.

Ao chiado

geme o contrabaixo, e um, a quem chamam “de louco”, troca moedas por rabiscados desenhos.   as escadas que sobem, são empedradas pelas que descem, são perfumadas por um adocicado cheiro que fumega, dizem ser inspiração, da musica que se desenha, com o que se desenha na musica.   há jazz ao Chiado do Pessoa, uma mulher empalidecida pede adormecida, diz-me ter fome de pão, e sono de dormida, desperto-me neste mundo existente, da musica que me rasga, do despertar que me sufoca.   Há acordes soltos engalanados de cortinados vermelhos aveludados,   … ao Chiado!

Jazz ao S. Luís

um homem desgrenhado, desce a escala de um piano mal iluminado. é como se amasse um corpo de uma mulher semidesnudado, elevando na escala ascendente, entre o dó e o si, o só de um sol sustenido, num fá bemol da paixão, escrito na canção saudade. nenhuma mulher sabe o que uma oitava faz, á alma de um musico curvado, desgrenhado, num piano, mal iluminado.

A tua voz perturba-me já

A tua voz perturba-me já a paz adquirida sem o veneno salgado e avinagrado do teu ser, ontem tanto como hoje, durmo o sono leve do pesadelo amontoado.   Leva-me mar dobrado,  o sufoco das noites acordadas, esta sede de me ter mais que morto carregado.   Alma que me entusiasma e me traz de um poço sem fundo, tão profundo, raiado de luz.   A tua voz perturba-me já ...

Rosa sol

A luz gela os meus olhos, A claridade ferve no meu pranto, Escuros passos sem sal, Rosa sol, Palavra prisão.   Não tenho mais vontade, Vivo somente a saudade, Besta crua, Mentira repetida, Transformada verdade em ausência.   Queimo etapas em dias de vida, Como uma locomotiva gasta estações na sua viagem.

Sonhar-te

Entrou assim sem nada dizer, De cor arrozada, Purpura, Quente Felina, Disforme, Sonhada, Iluminada, Ao quartos, Às metades, Inteira, Toda e sempre lua.   Traz o que me leva a cada vez que se me dá e parte … sonhar-te

Nunca tinha visto um luar assim

Nunca tinha visto um luar assim.   Entre as serras abandonadas de homens e o mar invadido de ondas, esculpi nos meus pés e nas minhas mãos a vida com que posteriormente me incendiei. Soletrei dias a fio conversas comigo mesmo, como se a serra, o mar, e mesmo o mundo inteiro, fossem meus por inteiro igualmente, mas estilhaçados de rompantes pensamentos e urgentes dias que sabia vindouros.   Amareleci com o sol e escureci com as sombras que me protegeram. Estive desperto mais de mil noites e adormecido nos mesmos mil dias amantes dessas noites. Neste desmedido meu mundo, amadureci um homem menos acompanhado, mas vivo e recebido pelo entusiasmo de se aceitar desacompanhado e só.   Acompanhado desta solidão, escuto um mar de gente, um burburinho de bocas sabedoras e teorias inatingíveis, de conceitos silenciosos de tanto se quererem fazer ouvir.   Nunca tinha visto um luar assim, entre as serras abandonadas de homens e mar.