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Mostrando postagens de outubro, 2010

Sol e sal

Temperado o dia foi sol e sal, Foi a anulação da existência no tempo, Como se anos atrás fossem ontem.   A indecência do tempo que só avança, E o que recua nele chamam saudade, E eu à saudade chamo o teu nome.   Os teus passos são iguais, O teu cabelo e olhar, Apenas mudou o tempo.   E os órgãos que contêm o tempo, Têm vida, libido e vontade, Tem doce e tem agro.   A recordação é funesta, Como a poesia que se encarcera, No nevoeiro da maresia.

Já está !...

Ao descer o bairro alto pelo rua das taipas desencontrava-me no alfarrabista que se me cruzava. Cinco ou seis metros quadrados não mais, de livros velhos, novos, usados e por usar, com e sem pó, de escritores russos, polacos, de outros e portugueses também. O cheiro ainda hoje me invade o sentido com o pensamento. À época, descer até à avenida da liberdade era uma prisão. As pessoas aos meus olhos eram assustadas. As suas passadas eram como fuga de si próprias, eu mesmo tardava em chegar ao Tejo e tinha esperança que um comboio me trucidasse, para não sentir a alma, e, se me esmigalhasse aquela dor. No cais ancorado o cacilheiro depois do apito estridente partia para a união à outra margem, sentado no ancoradouro sabia que demorava seis buzinadelas até chegar e outras tantas no regressar. Era a minha partícula de tempo. A medição desmedida, a avaliação do esgotamento do tempo, mais que pensamento. Adiava cada entendimento que me jorrava em enxurrada cabeça adentro. Lembrava-me de pouca...

Seis anos e tal !...

O sentido da vida é desconhecido e opaco, por isso me vergo numa oração ajoelhada sedento de encontrar um caminho, uma bênção, uma ideia venturosa. Os meus olhos presos ao conhecimento não arriscam ser cegos. A cegueira descoberta transforma-se em luz. Incorro em adormecer nestes lençóis suados de madrugadas por adormecer. Salto de mim e pulo como se outro corpo e nova alma, escolhesse para habitar. Retempero esta fria temperatura que me corrói espiritualmente, na busca de uma religião ainda não inventada. As poças de água em que chapinho a minha face, entre o passar do vento assobiado e da solidão presente nesta planície em que me encontro, seduz-me mais do que o corpo de uma mulher disponível e atraente. Desencontro-me de mim fugidio, para me encontrar à hora marcada com o desconhecido. Não se é feliz porque se pensa sê-lo. É-se feliz por se ser. Não há existência para além de nós. Não se debita existência nos outros. Tudo o que existe está dentro de nós, e descobri-lo é a razão e o ...

Ali !...

Sacrossanto segredo guardado, Espuma colorida estafada na praia, Gaivotas desunidas, Voam picadas, Adivinhando a tempestade. Passarada em terra é sinal de água.   O promontório dobra em sinal, A praia para lá de quente, O Bojador, Africa sozinha ali ao lado, Visita sonhada. Terra e esplendor.   Junta-se em arremesso, O pôr-do-sol, Como prazer de ejaculação, A areia de oiro que me abraça. Pendentes as horas. Prazer, emoção.

Girassois planetários

Tenho o teu nome cravado no peito e o teu olhar encravado na garganta. Não consigo engolir. A tua alma aniquilou-me, já não durmo. Tenho os meus ossos doridos e um fenecimento autorizado e aliviante nos meus dias. Não saber de ti naquela plebe, não te ver naquele jardim, não ouvir os teus passos no empedrado da rua sem horas feitas por bocados de mim que te esperam, faz de mim todo, ausente. O inferno desceu e habitou-me. O inferno não existe depois da morte. O inferno existe na vida plantado em mim. Existe extinto como um fogo tórrido e gélido, como o teu olhar no dia em que partiste. As paredes-meias com o paraíso ruíram em fragmentos, a tua boca feita de saliva doce arrependeu-se na minha. As mãos com que talhamos o destino violaram-me de desilusão. Os sorrisos feitos de sal e mar afogaram-se na maré. As promessas juradas ao luar desvaneceram-se e minguaram na lua seguinte diminuta. A fogueira que nos aquecia foi apagada na enxurrada desprevenida e repentina. O sítio gasto por nós e...

Jangada de pedra

A aldeia morre nas águas do rio que a viu nascer. Guadiana fora, autorizado, as casas nossas, foram substituídas pelas nossas casas. As casas nossas jamais seriam velhas. Tinham quintais empedrados e luta lá dentro. Tinham fascismo e liberdade. Era antes e pós revolução. Era Alentejo longe do mar. Tinham partos, tinham mortes. Tinham vizinhos e um relógio que se ouvia voltado ao vento norte. Tinha o rio que a viu nascer e morrer. O rio que a matou atraiçoando-a como se o senhor das terras onde as foices ceifavam a troco de nada, tivesse voltado e decidido. Povo este que de luz só tem o nome e que em nome da luz, coragem devia ser treva. Catarina tão ausente povo submisso e destinado. Sem vontade com a vontade se aguenta. Com a vontade se é solidário e se cuida dos velhos e das crianças. Catarina tão presente, Catarina tão exemplo. No meu sangue correm arrepios e extravagâncias de ver um barco à vela no meu quintal. No meu sangue a raiva sufoca-me de ver um bailado na minha janela, como...

Avieiro

Regressei hoje a mim. A este bairro onde existo. Regressei a esta luz que conheço, a este cheiro a cravos, e a campos salpicados de cores que rebentam com as primeiras chuvas. Regressei a este prado verdejante. O tempo vigora entristecido como os olhos que vi em ti, como a respiração que vem de nós. Nos vales abandonadas, as casas valem dinheiro nenhum, mas tem valiosa a saudade, sem preço ou avaliado. Desabitadas, da alma do fogo que queima o que resta das arvores por rebentar. Povoo-o a aldeia umas horas e sinto-a só minha e da minha infância. Recordo as mãos fortes que carregavam as redes do rio, ate ás casas içadas nas estacas. Recordo o sangue da lampreia e a maré vinda do mar, rio acima. O calma da noite e o rio feito de ondas chocalhadas contra a areia. A vida existia em conversas sobre a luz longínqua e trémula da cidade. As estrelas eram a companhia das palavras lidas, escritas e faladas. Os esteiros guardavam os barcos arrebitados e coloridos. Tinham nome e dono, eram da comu...

Fujo das elites pedantes

Fujo das elites pedantes que esvoaçam gargalhadas domingueiras, na tarde solarenga da esplanada perfumada de channel nº5. Na mesa ao lado escrevinho uns apontamentos que me ocorrem de um trabalho por concluir. Espreguiço-me ao sol e ao rio que passa em frente. A chilreada continua na mesa ao meu lado, numa enjoada conversa acerca de quem passa, do jantar de quarta-feira passada com o querido do Tó, e dos piropos que este lhe enviou. Olho o céu e salto para uma nuvem. A conversa do lado contínua agora num tom mais baixo, um tom de pecado e crime, onde se aborda a mulher do Tó. A pindérica da mulher do Tó, que eu entendo ser afinal a sua rival. Ficou claro para mim. A tia está-se a fazer ao Tó. E quem é o Tó afinal. O Tó é um jovem yupie do centro moderado, fã do passos coelho e bem encostado na vida. Não tem título nenhum conquistado, mas o dinheiro dá-lhe o estatuto de doutor, e monta-se em três amantes, numa secretismo desequilibrado do desejo que tem de mulheres. O Tó é enfadonho e m...

Longe vai........

Vieste para mim em flor mês de Maio. Cuidei de ti. Juntos crescemos com a madrugada do Ary, corpo cansado doutro sol nascente e baço. A maresia pousada no verde plantado no chão desfaz-se em manhã. Enfeitas-te com uma trança dourada e espreguiças os teus pensamentos nos meus.   Pode a distância separar-nos?   As giestas enfeitam-se glamorizadas de azul. Envio uma mensagem para o céu. Sei que o vento a encaminhará. Será lembrança de mim numa noite onde romperás o nevoeiro. Será luz. Afirmo-me embrulhado de uma saudade que não sai, que grita calada a sua existência. Longe vão as asas que me cortei. Voaram sem mim. Fiquei carregando-me nuns ombros fortes e numa alma sensível de robusta.

E se quando eu te encontrar começar aos saltos e correr para te abraçar?

E se quando eu te encontrar começar aos saltos e correr para te abraçar?   Não sejas tonto, pensei eu de mim para mim. A luz do bairro quando a noite se adivinha é soturna. Em dias invernosos as pessoas passam apressadas e curvadas. É como se conseguissem evitar os bagos de chuva que caiem do céu. Vive uma velha oliveira entre dois prédios. Está cada vez mais baixa e grossa. Mais redonda. Olhei-a da minha janela centenas de vezes para lhe fazer companhia.   Os teus olhos invisíveis têm pintado um olhar desviado. Não sei como isto se explica. Não se explica. Sente-se. Os teus olhos sentem-se. São embutidos de um conhecimento que não tens. Feito de adivinhação sentida. Feitos de ubiquidade. São como a presença e a distancia, a omnipresença e a companhia, o desvio e o caminho, a diferença e a semelhança. Verosímil aceito as palavras que me afogam o pensamento. Penso em sinais e na estrela cadente que vi dividir o céu em fogo. Da quietude e presença, do desejo não material que supliquei. D...

Palmas Palma !

Sentado esperei os primeiros acordes que o lobo malvado haveria de entoar na noite para mim respeitosa, pela obra poética, pelo matrimónio de sustenidos e bemóis, pelo conteúdo e forma. Denunciou-se pelas passadas disformes e pelo riso atrapalhado das palavras. A plateia reagiu em chacota, como se de o Zé Cabra se tratasse. Senti um arrepio. Como era possível aquele quadro dantesco estar ali presente. Desrespeitosas as pessoas, música após música sorriam. Os aplausos foram arrancados a uma ironia prenha de maledicência e desonestidade intelectual. O músico a isso se pôs a jeito. Mas quem gosta e ama, fica triste e abomina aquela realidade, que a mim próprio neguei. O Jorge Palma é o Jorge Palma sóbrio ou não, mas é a anos-luz melhor, sóbrio. Obrigado Jorge pela mensagem.

Um dia passei de assalto a fronteira...

Vivo em dois países. Um, incurável e irremediavelmente falido, mal frequentado, desamado e desalmado. Um país sem linha de horizonte sem rei nem roque. Sem rumo ou qualquer tipo de visão estratégica. Um sítio que não é um país. É um local onde sobrevive quem mais e melhores amigos bem posicionados tiverem. Um país francamente desactualizado e terceiro mundista. Esperto de mais para a cabeça que tem. Um sitio sem adn e arrogante por natureza, mas que se acha senhor de existir na senda de uma modernidade caduca, sem objectivos e trabalho caduco. Um país que não muda, um país que adia.   O outro, um país feito de convidados, onde o sol é de oiro e a lua toda de prata. Brilha mais de trezentos dias ao ano e a cultura marca o compasso do povo. Tem balanço. Trabalha-se a cantar, as crianças são iguais e os idosos cuidados condignamente. O mar oscila para a terra num bailado de sedução permanente. As escolas são mesmo para ensinar a ler e a escrever e só se passa quando se sabe faze-lo. Um pa...

Sete corações

Aos homens de coração de pedra dedico este ensaio sob forma de anúncio. Anuncio dia da mulher a oito de Março. Dia da Liberdade a 25 de Abril e dia dos trabalhadores a 1 de Maio. Esta “coisa dos dias de qualquer coisa” é lembrança escusada e hipócrita. Existindo um dia de “qualquer coisa” excluem-se os restantes. Assim sendo anuncio todos os dias como se fossem novos, únicos e últimos. Anuncio a existência, a desistência e o pragmatismo. A todos os homens que decidem a vida de outros homens. Aos que lideram. Aos que julgam. Aos que punem. Aos que executam e aos que inventam dias “de qualquer coisa”, anuncio a existência de vida. Existe vida constituída por seres humanos. Existem pessoas. Não existem sexos. Existem seres humanos com direitos iguais. Com direito a existirem. Alegra-me partirmos como chegamos. Desprovidos de bens. Alegra-me a alma encarregar-se do resto. Sinuosa e vertical a descida para o mar. Salgo a minha pele em braçadas vigorosas frente às ondas que me elevam e me fa...

O dia repõe-se

Acordadas choram as árvores ao rio, lágrimas prenhas de adiamento. Cáustico flameja-me a ironia de olhar atónito e bizarro. O dia repõe-se pondo-se. Correm ventos por serem mais que um. As nuvens sopram umas de encontro a outras. Escurecem. As margens unem-se e obrigam-me a desviar. Desvio as palavras por dizer. Sufoco os pensamentos. Aniquilo a verdade e ressuscito a mentira, qual republicano ardendo de monárquico num solo a cinco de Outubro, enfeitado de bandeiras despregadas verde rubras e fatiotas pirosas enfeitando anormais de discursos decorados em cem anos seculares. Quero a alquimia do deleite e a simplicidade de um movimento de lábios sorrindo. Quero uma lágrima encantada e um abraço de presença. Enterro os pés na areia e caminho com os pés gelados de inverno praia fora. Oiço o farol romper o nevoeiro. Assaltam-me pensamentos de um novo período. Vagas de lume encandeiam-me. Espero o sol debruado a ouro nascendo nevoeiro adentro. Adormeço onde as árvores que choram ao rio, prom...

Trova errante

Poeta errante, Vida vadia, Tarda. Tardia, Trova, Trovada.   Aventura, Alucinação, Desalinhada. Dança, Rio que corre. Que nasce de nada.   Nos degraus, Em que me sento, Encontro-me. De partida, Olho a margem, Acordada.    

Ombro

Para além daquele palmo e meio de ombro não quero mais nada.   Não quero fortuna, viagens, carros, sexo, sem aquele palmo e meio de ombro e afago.   Pode até parecer-me lamechas, termo em uso depois de ressuscitado.   Para além daquele palmo e meio de ombro não quero mais nada.