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Mostrando postagens de dezembro, 2014

Sou desajeitado para viver

  Sou desajeitado para viver, mas a simplicidade é mais do que sobra para estar vivo. Com meia dúzia de paisagens, acordes, cheiros, comida do antigamente, uns abraços e uns amigos e, sinto-me bem, por vezes até feliz.   Sou desajeitado para viver, é-me difícil olhar nos olhos de quem não empatizo. É-me difícil dizer sim, ou não, mediante a escuta da minha intuição. É-me difícil estar sem ser. É-me difícil ser e não estar. É-me difícil viver desajeitado no meio de gente com tanto jeito.   É-me fácil estar, ser e ter jeito, com quem é desajeitado como eu para viver.

A destruição definitiva do romance está hospedada na razão do sentimento

A destruição definitiva do romance está hospedada na razão do sentimento, Coincide com as histórias por contar.   O romance é a fase interna, Interior, E aguda dele mesmo.   O romance é a anti-vulgarização do gostar, É curto, É do tamanho do minuto seguinte, Por tempo indeterminado.   O romance tem um princípio e um fim indecidido, Apenas faz parte dele ilimitadamente o próprio.   Os romances são oferta, São bastantes letras juntas, Com palavras ou não, E parágrafos carregados, De natureza em elementos.   Os romances são lágrimas, Sorrisos, E medo abundante de medo.   Os romances são best-sellers emocionais, Vida revisionada, Vertente rasgada e verdade, Passado e futuro, É o presente sem exclusão de ninguém

Mãe de madrugada

Os teus dedos percorrem-me como se adivinhasses, a minha vontade, a nossa vontade.   Os teus dedos sabedores de mim, encontram na minha boca, os teus beijos.   O teu cabelo, cachos de ouro, percorro perfumado, no teu peito.   Sinto-te em tremor no meu tremor. Sinto-te em mim e desejo um mundo parado nesse momento.   Um mundo perfeito e louco, construído por nós pelas nossa almas, em uníssono desvario.   A nossa voz e timbre decai no orgasmo conjunto, e no sono justo em que nos unimos, serenos na noite.   O rio é nossa testemunha, mais a lua e os choupos que dançam ao vento, estrela selvagem e doce, sorriso meu arrancado do meu peito.   Desejo de te ter e ficar, madrugada d´alva.  

Tantos ventos por habitar

O meu coração consegue ouvir as tuas lágrimas a cair, As minhas mãos trémulas o teu pranto, Sem resposta ou crença de que seria justo amar-te, Com recompensa aprazada, E o fogo por apagar.   Consigo sentir-te, Sem que saibas que te sinto, Não consigo amar-te injustamente, Eu já tão perto do fim, Tu com tantos ventos por habitar.

De cada vez que o universo me toca arrepio-me

De cada vez que o universo me toca arrepio-me. Sempre assim foi. Sempre se me encheram os olhos de água com a beleza do universo. É como se não coubesse em mim. É como se transbordasse em mim pelos olhos. É tanto, que julgo que mais ninguém repara no que eu aprecio. Pode ser o vento a soprar nos choupos. A folha de outono em passadeira silenciosa e húmida, forrando o chão que os meus pés pisam a sentir o caminho protegido.   Pode ser o mar que quase consigo perceber as palavras que me oferece. Pode ser um arco iris plantado no fundo de uma planície esbracejando para mim. Pode ser um rio sufocado na curva e contra curva que tem que fazer atá à foz onde desagua e, finalmente, se dá ao oceano.   Sempre as palavras me chegaram em todas os romperes de dia. Tudo sempre se me cristalizou nos finais da aurora. Os dias e as noites, eu, e os meus amores. Não existem pessoas que me distraiam do universo e do que sinto, nem sei mesmo se queria que existissem.   Quando existirem, morrerei. Quando e...

Sou semente misturada na terra regada com a chuva de Maio

As lágrimas que caem do céu são boas para as entranhas da terra, misturam as sementes que faz o pão e os amigos. A chuva faz-me bem. Faz-me pensar. Enrolado no meu sítio fico atolado de pensamentos. Penso em mim. Penso na minha infância e nas tempestades só minhas. Penso no cheiro das torradas de domingo à tarde. Penso nos primeiros acordes que dedilhei. No amor que ganhei à música. Nos meus primeiros gostares. Nas minhas primeiras mentiras e desilusões. Na raiva lenta e maligna que comecei a sentir. Na inadequação silenciosa. No medo mascarado de fortaleza. Hibernei. Vivi mais de uma mão cheia de anos sem me lembrar, ou querer sequer recordar. Recordo somente os cheiros e as sombras, e o meu desamor em plenitude. Não me lembro de dez anos ou mais. Não me lembro de ontem ou de anteontem. Sei que estive em Marraquexe, Amesterdão e Lisboa. Sei que fui à praia em noites cerradas de breu. Sei que tive sexo com sombras, bebi e fumei. Dormi ao relento, viajei sem dormir e caminhei adormecido...

O caminho para o amor não tem itinerário

O caminho para o amor não tem itinerário. Para o desamor já não é assim tão linear. Há sempre uns incidentes pelo caminho. E não são mentiras ou coincidências. Normalmente o caminho para o desamor tem muitas verdades, episódios reais, substrato, recomeços e promessas. Tem muitas promessas, algumas mudanças, fossos e barreiras, e tem fundamentalmente o tempo que se esgota e fere a emocionalidade, o que torna impraticável o amor, é assim, de uma forma abreviada, o caminho para o desamor.   Anteriormente o amor tinha sido apenas uma avalanche que não se edificou.

Sabe de mim quem lê os meus versos

Depois de tanta vida ainda me sinto nascido e por nascer, Após todas estas horas quentes ainda espero pelo inferno, Ainda sem me sentir nascido nas horas quentes pernoitadas, Não sei o que é o céu, Conheço algumas horas de paz, Várias faces de bem-querer, E inúmeras escolhas resolvidas, Sabe de mim quem lê os meus versos, Sei de alguém quando saboreio um olhar, E neste aglomerado de rios desaguados em mim, Ainda me sinto nascido e por nascer.

Maré, maremoto ou vulcão

Podia citar Agustina, Florbela ou Pessoa, A tabacaria ou a Ofélia mais sofredora, Os poemas construídos pela dor, raiva e pelo medo, Ao meu passado presença de futuro, Às fobias ou paranóias, Ou simplesmente a nada.   Podia fingir ser maré, maremoto ou vulcão, Passarola voadora como Gedeão, E se nenhum deles me inspirasse, E se de nenhum deles falasse, Não faria das palavras deles, O meu sentir delirante.   A imperfeição conseguida fica mais perto do coração.  

Sempre foi o sonho a comandar

No inicio apenas um sopro, o perfume e a pele, Depois as palavras e o sorriso.   Num outro dia um acerto de um pensamento, Mais adiante o milagre de parar o tempo.   Depois a vontade que se instalou, E as duas vozes fundidas numa só.   E sempre foi o sonho a comandar, O desejo de ficar.   E sempre foi um sopro, o perfume e a pele.

A música, os cheiros, a felicidade

A música, os cheiros e a felicidade … os contornos existenciais mais os temporais. A música sabe-me a diversas formas de felicidade em diferentes épocas da minha vida. Umas ácidas. Outras doces. Outras descobertas. Outras velhas conhecidas revisitadas de tempos a tempos. As minhas emoções estão para a música, assim como a felicidade está para a vida. A forma como aprecio e descubro uma música, é a mesma como atento, descubro a felicidade mesmo quando esta se esconde. Às vezes não compreendo se estou deprimido ou apenas triste. A tristeza para mim é confusa. Confundo-a com a saudade e com a falta de esperança. Confundo-a com o meu lugar no mundo. Depois existem as recordações que teimam em não ter passado, e o passado que teima em ser presente e os dois, assassinam o futuro na incerteza da descoberta, e na construção ciente do meu pequeno tamanho terreno. E, aqui de alguma forma questiono-me. Ainda não desisti de descobrir a existência de deus, seja de que forma ela se me apresentar. Se...

Já fomos quatro e éramos de ser

Já fomos quatro e éramos de ser. À mesa erámos eu e mais três amigos, a prazo. Hoje já não somos e os que faltam são de ter. Miséria esta de ter antes de ser. Penso nas gaivotas que arrulham na neblina, nos demónios soltos nas respostas que não tenho. Albergo em mim mais do que eu próprio. Sei que esta vida inteira não me é suficiente que não me basta para saber de mim. Às parcelas vou-me enrugando reflectido no espelho quebrado que não me deu azar, aparento nele o eu quebrado que ostento ser inteiro. Iluminam-me velhos troncos estaladiços de fogueira que mantenho na minha alma. Aborrece-me as cores das ruas num festim a que não pertenço. Maça-me o conspurcado prazer de não pensar. Entedia-me os anjos e os discursos que se esquecem e os impostos que enlouquecem, mais os executantes de opinião que dilaceram a verdade por distracção. Saudade dos amolas tesouras que de flauta na boca assopravam o estar. Já somos muitos menos. Somos cada vez mais impensados seres, indigentes de valores que...

Vocábulos são baloiços de embalo

Os vocábulos mais simples e comuns, Descrevem a minha forma mais complexa de sentir, O meu conteúdo mais disforme, A minha alma navegada num breve e agitado mar, Os meus cognomes baptizados de mim.   As palavras mais miseráveis são generosas, As mais cínicas saborosas, Porque não oiço o que me enunciam, Porque o que proferem são baloiços de embalo que não escuto, São meras e pobres observações ao meu desconhecido sentir.   Sou filho de um deus secreto e selvagem, Sem pátria sequer onde tombar, E pouco me elevo aos olhos dos que não sabem voar, Bebo nas fontes as palavras, Bebo para não me afogar.

Este mar

Mesmo estando o mar cheio de gente, Não deixo de ter um mar só para mim, Um mar só meu, Um mar de todos só. E cada qual tem um mar de cada qual, Assim defino o conceito de praia deserta e um mar só para mim, É este o nosso lugar no mundo, É este o meu lugar no mundo, Partilhado, Feito de nascente e foz, E assim se faz a gente E assim se faz o mar.

O rio que ao rio torna

O rio que ao rio torna, Sabedor de todos os segredos dos vales onde naufragou, Mantendo transparente a confiança, Das margens dos amantes e dos beijos por lá depositados, O rio que ao rio torna, O rio que do rio parte, O rio que o mar abraça.

Dezembro novamente

Outra vez Dezembro e novamente a lembrança de que os outros meses não são dignos do ano, Outra vez Dezembro religiosamente rogados pela paz e pelo pão, E aos outros meses é dada ilusão.   Se eu não pertencesse ao outros meses haveria de acreditar que o ano é Dezembro, E que seria lá que eu queria habitar, Pensando que nos outros meses não existiria luar.   Não creio no Dezembro lembrado em trinta e um dias, Creio nos meses que sobram que crescem iguais em desigualdade, E não me comove mais Dezembro que os outros meses habitados pela mesma gente.

Eu sou de ser

Eu sou de ser. Passam-se anos feitos de promessas de meses. Prometo um café, um jantar, uma visita, não vou, nem vêm. Estamos todos atarefados e nenhum de nós tem tempo suficiente para doar. Já não conheço os filhos dos meus amigos, não temos tempo. Alguns nem os netos vou saber que existem. Não temos mesmo tempo. O que nos separa é o mesmo que nos atrai. Quando estamos, existe a confiança sustentada e construída num património, mas os nossos filhos não o sabem, apenas ouviram dizer, não o sentem. Um dia tudo isto acabará e não tivemos tempo. Entristeço, comovo-me, não com a falta de tempo, mas com este esbanjar do tempo contemporâneo. Há uns anos atrás, poucos, mas que me parecem muitos, e partindo do princípio que um século em história ainda é de conteúdo duvidoso, eu não tinha email, telemóvel, gps e essas merdas, mas tinha tempo e, estava com as pessoas com quem queria estar, quase que sabia as horas normalizadas das suas vidas, aparecia e encontrava-as, ia a casa delas ver se esta...

Contraponto

Colocas nos olhos a claridade da idade e dos sonhos que albergas, Tens no sorriso a força bruta do querer do amor, Em contraponto sou o ideal que o tempo esgotou, Tenho na pele os invernos que as rugas conservam, Tu tens as primaveras que ainda hão-de amanhecer, Somos os mesmos com o intervalo que a vida contém, Feitos de amor, Sonho e esperança, Tu és a estrela, Eu sou o sol, Nós somos a vida tatuada em nós.